Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
14
Jun 10
publicado por José Geraldo, às 20:35link do post | comentar | ver comentários (2)

A medida áurea é uma proporção ideal entre duas grandezas, supostamente mais harmônica ao olhar. Empregada ao longo dos milênios na matemática e nas artes e encontrada na maioria das obras primas da humanidade. Podemos definir a “medida áurea” como uma relação entre duas grandezas determinadas na qual a soma de ambas dividida pela maior é igual à maior dividida pela menor, ou, em notação matemática:

( a + b ) / a = a / b

O resultado desta divisão é sempre uma dízima periódica, mas a proporção resultante é tida como mais “harmônica” ao olhar, embora não se saiba exatamente porque. O fato é que tal medida é conhecida desde os tempos dos gregos e foi extensivamente empregada em muitas famosas obras arquitetônicas.

Você pode usar a medida áurea também para formatar livros. Na verdade esse tem sido o seu uso mais frequente nos últimos séculos, desde os tempos dos manuscritos iluminados da Idade Média. O principal obstáculo é que o tipo de papel a que estamos acostumados não se baseia na medida áurea, mas em divisões exatas por dois: repare bem que uma folha de papel A5 corresponde ao tamanho de cada uma das metades de uma folha de papel A4 dobrado ao meio horizontalmente. Isto resulta em um formato muito diferente da medida áurea, mas ainda bastante harmonioso.

Um exemplo de proporção áurea é a relação entre os números 3 e 5, que é muito usada em tamanhos de bandeiras, entre as quais a nossa. Divida 8 por 5 e 5 por três e obterá o mesmo número. Uma folha de papel “áurea” teria tamanhos proporcionais a 3 e 5, por exemplo. Tal medida é muito diferente de um papel A4, por exemplo, que tem 210mm x 297mm. Observe que:

( 210 + 297 ) / 297 = 1,707070
297 / 210 = 1,414285

Temos portanto que uma folha de A4 não segue a medida áurea! O mesmo ocorre com o formato “carta”, padrão nos EUA (medidas abaixo em polegadas):

( 8,5 + 11 ) / 11 = 1,772727
11  / 8,5 = 1,294117

Apesar dessa limitação, que nos impede de usar um formato puramente “áureo”, ainda podemos formatar um livro segundo essas medidas, limitando-nos a outros aspectos que não o tamanho da folha de papel: a área de texto.

Para criar um desenho de página segundo a medida áurea, vamos utilizar uma folha de papel A4 e uma régua de pelo menos 30 cm (idealmente seria uma de 50 cm). Esta folha será dobrada exatamente ao meio para produzir o que seria o equivalente a uma folha A5 (mais tarde você poderá usar a mesma técnica em folhas de A4 ao colocar duas lado a lado). Observe na figura a seguir como é feita a construção das proporções para uma página A5:

Tendo dobrado a folha ao meio, ligamos os quatro cantos da página usando diagonais que se cruzam exatamente no centro desta. Este esquema foi construído da seguinte forma:

  1. Dobradura ao meio (linha pontilhada cinza);
  2. Diagonais da página inteira (linhas vermelhas);
  3. Diagonais das metades (linha azul-marinho);
  4. Linha perpendicular (verde) cruzando o ponto de intersecção da diagonal da metade direita com a diagonal inferior-esquerda/superior-direita (opcionalmente você pode inverter e usar a diagonal idêntica na outra metade da página);
  5. Ligação entre a borda da página, no ponto em que a linha verde a atinge, e a intersecção superior-esquerda/inferior-direita, na página oposta (linha azul-celeste);
  6. A margem superior da página, paralela à borda, deverá cruzar a intersecção entre a linha azul-celeste e a diagonal da metade direita (azul-marinho), seguindo apenas até encontrar as diagonais da página inteira (vermelhas);
  7. As margens externas são traçadas entre o ponto em que a margem superior atinge (mas não ultrapassa) as diagonais de página inteira (vermelhas) e seguem até tocarem as diagonais das respectivas metades (azul-marinho);
  8. A margem inferior é traçada ligando os pontos em que as margens externas tocam as diagonais de cada metade;
  9. As margens internas são traçadas perpendicularmente à margem inferior, ligando-a aos pontos em que a margem superior cruza a diagonal de cada metade.

Na ilustração acima, as áreas sombreadas abaixo da margem inferior correspondem ao espaço destinado a notas de rodapé.

Você deve estar se perguntando porque as margens são tão desproporcionais e a resposta disto é muito simples: margens precisam ser desproporcionais. As margens externas precisam ser mais largas porque, em primeiro lugar, os livros costumam estragar nas bordas mais facilmente do que no miolo e, em segundo lugar, porque o leitor poderá querer tomar notas à margem. As margens inferiores, por sua vez, precisam ser largas o bastante para que o leitor possa segurar o livro sem que o polegar interfira na leitura. Desta forma, uma página assim proporcionada resultará numa experiência de leitura mais agradável.

Agora que você já definiu um esquema de margens perfeitamente baseado na medida áurea, está na hora de escolher um tamanho de fonte que resulte em linhas de no máximo 67 caracteres e páginas com no máximo 33 linhas. Estas são as medidas ideais para que a página não seja cansativa.

O resultado desta empreitada será um livro totalmente “alienígena” em relação ao que se vê no Brasil, onde a prática é mais voltada para economizar papel do que para produzir uma leitura confortável. Mas você logo perceberá as vantagens de trabalhar diferente, e de acordo com princípios milenarmente testados.

Até a próxima.


11
Jun 10
publicado por José Geraldo, às 00:01link do post | comentar

Gosto de textos que têm entrelinhas — que deixam na gente a expectativa de que há nas dobras das palavras um sentido oculto, um “apesar de você” que manda o governo à merda. Aprendi isso ouvindo Chico Buarque, percebi que na literatura isso é a carne que transformará o osso de uma história simples no corpo de uma obra que vale arte.

Mas não gosto de textos que querem que “eu” imagine a história. Imaginar eu sei sozinho, até demais: há ocasiões em que me pego conversando com ninguém, de tanta imaginação. Acredito que esta seja uma faculdade que muitas pessoas têm; apenas nem todas desenvolvem porque não aprenderam a dar valor, porque não conhecem nem praticam a leitura de livros “imaginativos”. Penso que nada estimula tanto minha imaginação quanto conhecer a de outra pessoa. Para isso que leio. Conhecendo outra imaginação, situo-me no mundo, aprendo coisas, adquiro referências para expandir meus horizontes. Posso me identificar com a imaginação do outro, ou desenvolver todo um sistema para rejeitá-la. O que não posso é ficar indiferente a uma ideia, seja porque me fascine ou porque me repila. Quando, por outro lado, leio um livro que não consegue transmitir a imaginação do autor de uma forma que consiga ter a experiência dela, tenho a impressão de que é uma obra fracassada ou, pior, rascunhada. Fracasso vem de incompetência, mas o rascunho permanece por desinteresse em fazer melhor, em terminar. O fracasso é heroico, o rascunho é tedioso. a leitura de livros “imaginativos”. Penso que nada estimula tanto minha imaginação quanto conhecer a de outra pessoa. Para isso que leio. Conhecendo outra imaginação, situo-me no mundo, aprendo coisas, adquiro referências para expandir meus horizontes. Posso me identificar com a imaginação do outro, ou desenvolver todo um sistema para rejeitá-la. O que não posso é ficar indiferente a uma ideia, seja porque me fascine ou porque me repila. Quando, por outro lado, leio um livro que não consegue transmitir a imaginação do autor de uma forma que consiga ter a experiência dela, tenho a impressão de que é uma obra fracassada ou, pior, rascunhada. Fracasso vem de incompetência, mas o rascunho permanece por desinteresse em fazer melhor, em terminar. O fracasso é heroico, o rascunho é tedioso.

Ler uma obra cheia de lacunas é frustrante. O autor incompetente ou desinteressado poderá dizer que deixou-as para “estimular a imaginação do leitor”, é uma desculpa da moda, mas quando o autor não dá suficiente valor à própria imaginação para querer apresentá-la ao seu leitor, como espera a consciência deste do valor de sua imaginação? Isso me soa como “faça o que digo e não o que eu faço”. Em termos literários sou adepto do “vem comigo”. Acho um convite mais interessante que o “vai lá”. Cheio de vitalidade, ação e aventura; em vez de uma vaga sugestão, cheia até de certo tédio.

Existe outro aspecto ainda que me enfastia nestas obras: uma vaga e incômoda sensação de que estou sendo enganado. Quando eu vou a uma apresentação musical, estou interessado no que os músicos vão apresentar. Cantar mal eu canto no banheiro, e faço isso de graça. Diante do palco, eu quero ver alguém que cante e toque melhor que eu. Se o artista que sobe ali começa a me pedir que cante eu começo a achar que ele não quer cantar e então o espetáculo que ele deveria me dar em troca do dinheiro do ingresso acaba sendo feito por mim e pelos outros que foram — não por ele que é pago para isso.

Eu acredito que a literatura sofre o mesmo tipo de empulhação quando o autor deixa lacunas “propositais” para que o leitor preencha com sua “imaginação”. Tal como o cantor maroto, que preserva a sua voz para dar mais três shows na mesma noite, sacrificando a qualidade do espetáculo, o escritor larápio subtrai trabalho à sua obra, deixando-a incompleta para que o leitor finalize. Assim poderá produzir mais obras em menos tempo, pois não precisará terminá-las. Os seus leitores gostarão delas assim mesmo, trapaceados pelo argumento do estímulo à imaginação, enquanto o escritor enche os bolsos produzindo em série obras que não precisam ser arrematadas.

Há quem aprecie esses autores, que usam a imaginação do leitor para cimentar os buracos que deixam na obra, por inépcia ou desinteresse, tanto quanto há quem goste de pagar o ingresso do show de um cantor da moda e ouvi-lo apenas “comandar” o espetáculo, mandando a plateia cantar no seu lugar. Só que não entenderei nunca a razão pela qual as pessoas pagam para fazer algo que elas poderiam fazer de graça, sem comprar livro ou ingresso. Reunir a plateia sem cantor é muito mais barato e, se o show vale apenas por encontros e paqueras ao som de música, certamente a “aparelhagem” teria um cachê mais barato e o mesmo efeito. Da mesma forma, imaginar sozinho não custa tanto e o dinheiro do livro sobra para um sanduíche...

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09
Jun 10
publicado por José Geraldo, às 23:07link do post | comentar

Debate sobre a possibilidade da existência de Deus, em uma dessas comunidades céticas do Orkut. Desesperado diante da irredutível descrença da turma, um evangélico postou a seguinte colocação:

Suponha que você morresse e se reconhecesse em um corpo espiritual, sendo que nesse corpo você ainda seria capaz de pensar e raciocinar, sendo a única diferença entre estar vivo e estar morto a incapacidade de interagir com o mundo material, preservando, desse modo, a identidade e a individualidade. Nesse estado você ainda teria dúvidas da existência de Deus?

Não respondi a pergunta, o debate não me interessava, mas estas palavras (que não foram exatamente assim, mas foram algo parecido) ficaram se retorcendo dentro de minha cabeça, como se houvesse algo nelas que merecesse mais assunto. Então, de repente, me dei conta: poucos foram os autores que tentaram contar essa história!

Deixei de lado minha leitura de Schopenhauer e varri a poeira de cima dos lugares de meu cérebro onde estavam arquivadas as lembranças de meus tempos de frequentar centro espírita. Fui puxando um fio aqui e ali e... bingo! Eis-me escrevendo um romance espírita outra vez!

Muitos autores não se dão conta das excelentes possibilidades que a temática espírita oferece, especialmente considerando a constrangedora falta de qualidade de muitos livros no mercado. Pois bem, me aguardem!

Mas aguardem sentados, que os meus romances eu escrevo movido a leite de pata.

assuntos: ,

03
Jun 10
publicado por José Geraldo, às 10:11link do post | comentar

Réplica em um debate no qual se defendia que certos grandes escritores não eram leitores frequentes e que, portanto, ler não é um requisito para escrever bem.

Eu não sei se existem realmente homens sábios das letras que leram pouco ou quase não leram — como os exemplos citados, que vão de Paul Valéry a Raduan Nassar. Há uma diferença sutil entre o que as pessoas realmente são e o que elas dizem ser ou parecem ser. Chico Xavier foi mostrado como um quase analfabeto por ter apenas a quarta série primária, mas era um leitor voraz e possuía uma biblioteca imensa em sua casa. Sem falar que é perfeitamente possível uma pessoa se passar por sábia sem ser, desde que meça bem suas palavras. Como diz a Bíblia, em Provérbios 17:28, até um tolo pode se passar por sábio se souber ficar calado.

Tendo feito essas duas importantes ressalvas, passo ao tema principal.

O homem sábio que não lê, o escritor que não lê, o ignorante que ensina o doutor, etc. são personagens antigos em nossa cultura. São arquétipos milenares. Já entre os gregos e romanos você encontrará esta figura. Este personagem é o profeta usado por deuses para comunicar sabedoria aos homens, como o cego Tirésias (um visionário cego, veja só) da tragédia de Édipo.

Por ser um arquétipo, é uma figura poderosa e inspiradora. E por isso mesmo é suspeito. Tal como você não deve acreditar em heróis (embora ocasionalmente alguma pessoa real cometa atos heroicos), não deve acreditar em sábios ignorantes (embora ocasionalmente algum ignorante pareça sábio).

A divulgação desse arquétipo serve a um objetivo. É uma maneira de dar a cada um seu papel em uma sociedade. Se nem todos podem estudar, é preciso que o povo acredite que o estudo não ensina sabedoria, que existe um idealismo desejável na ignorância, uma sabedoria que vem diretamente de deus, e não dos livros.

O sábio que não lé está em uma face da mesma moeda que contém outro arquétipo igualmente antigo e igualmente poderoso: o do estudo que destrói. Do mesmo modo que são saudados com o vigor de sua sabedoria direta os autores que não leem, são execrados os que por excesso de leitura se tornam pretensiosos, livrescos, loucos.

Fica evidente, quando você analisa por esse lado, que existe um fenômeno cultural acontecendo. Dizer que é uma conspiração para manter o povo sem controle seria um reducionismo idiota, digno de marxistas de botequim (somente depois da quinta dose de schnapps, logicamente). Não é isso que estou sugerindo: fenômenos culturais não são guiados conscientemente, são fruto de coisas profundas que jazem no inconsciente coletivo.

O mito do autor que pouco lê, com seu oposto, o sábio louco de tanto estudar, expressam o desprezo das massas pela cultura. O povo, de um modo geral, teme e odeia os seus líderes desde milhares de anos atrás. Desde a Suméria e o Egito, quando os livros foram inventados, os homens que leem e escrevem são vistos como controladores de forças terríveis, MALÉFICAS. São forças maléficas porque a elite oprime o povo. Logo, as tecnologias da elite, entre elas a escrita e a leitura, são contrárias ao bem do povo.

Mas o povo precisa de auto-estima, não pode se aceitar como gado. Por isso desenvolve-se a ideia do «preço que a bruxaria cobra». Inicialmente isso era visto como literal: os que se dedicavam aos mistérios deste e de outro mundo eram pessoas distantes, isoladas, malcheirosas devido às experiências que conduziam em suas alcovas. Envelheciam cedo devido às privações de sono e de alimento, enxergavam mal devido a “forçar a vista” em seus livros, diante de velas e cadinhos. Hoje já não se faz alquimia, mas persiste a ideia de que o homem dedicado ao solitário prazer da cultura seria um ser infeliz, amaldiçoado. Salutar e bom é o vigoroso homem do povo, isento da corrupção do passado, cheio da verdade simples e direta que brota da terra.

Eis um mito poderoso.


01
Jun 10
publicado por José Geraldo, às 21:33link do post | comentar

Tio Gumercindo morreu. A notícia chegou pelo telefone, casual como uma chuva na manhã de sábado. Há pessoas que vão morrer na linda manhã de um sábado de inverno: não é uma escolha. Há pessoas que preferem as madrugadas chuvosas e quentes do verão. Tio Gumercindo morreu, e fazia dois anos e meio que eu não o via, mesmo ele vivendo a menos de trinta quilômetros de onde vivo.

Saí de casa com outra desculpa. Tinha de fazer tanta coisa na rua, no mundo. Mas minha mulher sabia que eu não voltaria cedo. Eu mesmo ainda não sabia do quanto custaria: quando saí de casa, eu ainda não tinha ideia do significado do fato consumado que é a morte. Acredito que antes de sábado eu nunca tinha visto tão feia a sua cara. Não falo da dor, falo da humildade: a morte não é glória. Para Tio Gumercindo, e para a maioria, é só a última de inúmeras humilhações.

Não gosto mais de minha cidade. Nasci lá, mas hoje me sinto frágil, triste e humilhado quando percorro suas ruas. São apenas cinco os anos que me separam dos tempos em que eu vivia lá ainda, mas nesse tempo curto derrubaram muita casa, morreu muita gente que eu conhecia, mudaram-se tantos que eu nem conto e, pior, nasceram ou cresceram ou mudaram de vida uma infinidade de outros. Vejo tanta gente que não conheço, muitos mais que não reconheço. Sempre fui tímido, hoje sou um estranho. O cheiro destas ruas é outro, os meus amigos e inimigos estão todos igualados na neblina dos anos: talvez me vejam assim do mesmo modo que os vejo.

Fiquei velho cedo: meus cabelos vão dando lugar a essa moita rebelde de cãs que me fazem parecer meu pai. Minhas antigas namoradas agora já estão todas casadas, meus amigos nem sei onde andam. Resta essa gente que eu não conheço nem de nome, rostos de crianças que cresceram. Parece até que foi no século passado que eu sentava naquele banco na avenida para encontrar amigos. Sinto uma vontade louca de fazer isso de novo, mas o banquinho está arruinado e o antigo bar hoje está mais decadente do que eu.

Dirijo a esmo pela cidade: hoje me deu vontade de ter saudades. Talvez sejam saudades do tempo em que Tio Gumercindo cortou o meu cabelo de menino usando uma tesoura desproporcionalmente grande em suas mãos pequenas. Talvez seja a falta de quando eu era só um garoto triste por estas ruas: hoje eu sinto até saudades de ter sido triste, era uma tristeza melhor a que eu vivia. Deixo o carro estacionado na pracinha e dou uma volta. Vou comprar o jornal, vou ver se encontro algum conhecido.

Parece que o jornaleiro vendeu o negócio a um estranho. O relojoeiro demitiu a moça loura de rosto comprido que eu paquerava com os olhos quando fazia a faculdade. Ela nem ficou sabendo que eu a achava bonita, talvez nunca tenha sabido de alguém que achasse isso. Foi ela que me vendeu o par de alianças. Hoje há uma morena de formas superlativas e rosto ensolarado atrás do balcão e eu não sei se compraria meu par de alianças com ela. A dona da lojinha de roupas, eu a achava tão bonita. Eu sorria para ela, ela sorria para mim. Não sei se era preciso mais que isso: eu não ousaria, ela não ousaria. Eu era um pobre empregado do comércio, ela era mais velha e mãe solteira. Qual dessas gordas avermelhadas será ela?

O trânsito continua intenso, fluindo como o martelar do inferno pelas minhas veias. Quando volto para o carro trazendo o jornal, sinto a pressão de todo esse ruído como uma barreira de blasfêmias contra meu ouvido. Passam carros, rugem caminhões, gritam ciclistas, urram ônibus. Sábado de manhã: o meu tio Gumercindo está morto e estou perdido sem o que fazer, na cidade que já foi a minha.

Lembrei do horto. Deve fazer cinco anos que eu não vou lá. Provavelmente bem mais. Tenho de atravessar quase toda a cidade para pegar estrada para lá. No caminho, vou assistindo ao desfile do passado: fechou a sorveteria, puseram paralelepípedos no último trecho da Avenida, a loja de brinquedos em que eu via a bela Poliana já não existe mais. O que fizeram com essa praça? Está um brinco, mas não tem mais espaço para os meninos da escola jogarem bola. Para que serve tanto monumento, minha gente?

Na Volta da Ferradura começo a sentir alguma dor um pouco mais irritante. No peito caiu um aperto que nem se explica: ter saudades é uma coisa que a alma quer o tempo todo, mesmo o corpo sabendo que vamos sem freio pela ladeira do futuro abaixo. Mesmo que a sensação disso seja pungente, a alma quer é olhar para trás e enxergar uma namoradinha de infância no corpo desta mulher gorda que desfila descalça os seus três filhos.

Todas estas casas novas. Quanta árvore se derrubou aí para abrir espaço para todos esses pilares e paredes! Felizmente o horto mesmo tem muros altos, só com muros e campos minados o ser humano se nega a destruir.

Só de passar pelo posto da Polícia o rosto já pressente uma temperatura que conforta. No horto o cheiro é o mesmo ainda, de resinas e de folhas mortas. Aqui não demoliram pessoas nem degeneraram casas. Dentro do horto posso ser, ainda, o jovem que não tinha uma vida, mas tinha um futuro.

É quase heresia que um motor assuste os passarinhos. Mesmo que eles estejam acostumados a esse infortúnio. Dirijo devagar, com a aceleração no mínimo. Espanta-me que num dia tão lindo de inverno esteja tudo tão deserto. Para as pessoas esse lugar deve ser um tédio. Mas eu não sou as pessoas, essas altas palmeiras me rejuvenescem, estas árvores cheias de líquens e cipós... Gosto desse abandono que existe aqui: não seria bom se houvesse gente. Gente teria a estúpida ideia de ligar um rádio em volume alto, acender uma churrasqueira e beber falando muito, assustando os micos, perturbando a serenidade de cada trilha, desarrumando o tecido do silêncio que a noite teceu com todo cuidado e que, mesmo às dez horas da manhã, ainda não ficou rompido.

Desligo o motor do carro. O silêncio bate contra mim, como as rajadas de um vento, como o borrifo de uma chuva, como o cheiro de um mar que borbulha. As árvores rangem tristemente, como velhos que gemem na espera da morte, mas os macaquinhos assobiam furiosamente, talvez esperando que eu tenha frutas, mas os passarinhos, aos poucos, recomeçam a piar, cantar, grasnar, bulir, voar.

Esse cheiro denso de líquen, de fungo, de flor... Deviam demolir toda aquela construção estúpida, arrasar até as fundações. Deixar este pau-ferro como um monumento isolado, aquela aroeira como o marco zero.

Faz frio aqui. Faz um silêncio que meus ouvidos agradecem. Eles sibilam como se mil distantes miquinhos vivessem no fundo de minha cabeça. Alguma lágrima desponta, não se sei por Tio Gumercindo ou pela percepção de que estou velho e os meus ouvidos parecem um rádio que chia quando a cortina de ruídos deste mundo é removida.

Recosto o banco do carro e fecho os olhos. O mundo rodopia em torno de mim. Tenho vontade de chorar, o silvo oscila como uma estação em ondas curtas. As árvores rangem tristemente como velhos que lamentam suas dores.

Ouço ruído, mas não são passos. São frutas que caem, são passos de animais e são rangidos mais rudes de árvores mais fortes. Essas rangem como estrondos, soam inamovíveis, essas são as que demoram mais para cair, mas são também as que os homens mais querem matar. Por isso, talvez, só existam nesse lugar, o templo do silêncio numa cidade que já aprendeu a crueldade do barulho.

Hoje não tenho coragem de penetrar por alguma das trilhas. Estou tão sozinho que não tenho vontade de fazer nada. Esperava que o silêncio meditasse algo que me salvasse, mas já são quinze para onze e eu não fiz nada e nem ouvi a voz de Deus. Em algum lugar estão vestindo Tio Gumercindo para a sua última viagem e eu não o vejo faz cinco anos.

Queria interromper esse dia aqui, mas vou à capela contemplar seu rosto que eu quase esqueci. Depois, quando voltar para casa, estarei levando comigo um pouco desse silêncio daqui. Somente com um pouco de silêncio dentro de mim é que vou conseguir enfrentar o vozerio contraditório das pessoas, a pressa de morrer que elas têm. Dizem que sou obcecado, o deprimido. Mas de verdade eu sou o único que gosta da vida: eles que dizem isso vão jogando-a fora e não têm remorso. Ter saudades e remorsos é no fundo a mesma coisa: somente quem é bom consegue isso, somente quem entende o valor das coisas sente saudades delas. Dizem que isso é ser negativo, mas eu levo este silêncio e esta treva como um tesouro para os momentos em que o mundo ruge como um mar de areia no horizonte cinza. Quando eu voltar da capela terei remorsos a mais de tudo o que não disse a Tio Gumercindo, mas isso é melhor do que deixá-lo ir embora, sem saudades e sem lições.

Lá, na capela pública do cemitério, está um homem alegre que morreu triste. As maiores tragédias acontecem com as pessoas felizes. As maiores tragédias são as menores: como não ter filhos e ficar sem amigos.

Vestiram-no com o roupão barato e humilhante do asilo. O mínimo que um homem merece na morte é um terno, ou pelo menos uma camisa. Vestiram-lhe uma roupa tamanho único com seu nome estampado, grafado errado. O mínimo que se deve a um homem é escrever seu nome certo. Pobre Tio Gumercindo, morreu sem filhos, sem amigos e com o nome errado no roupão barato do asilo público.


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