Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
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Ago 10
publicado por José Geraldo, às 22:20link do post | comentar

Com toda a equipe do Laboratorium reunida no Sanctum sanctorum do Magisterium universalis, o Magister maximus tomou a palavra no tom pausado e pastoral que a todos fascinava e irritava e começou a decretar.

— Ausculta fili — ele se dirigia a Ignatius, novamente envolto em conspirações e guerras — temos de ser justos e temos de permanecer justos diante das tribulações.

— Sim, mestre.

— Temos tido sucesso em permanecer isentos de toda culpa por tudo o que fizemos nos últimos séculos e milênios, graças à argúcia e a competência de todos que nos lideraram no passado.

Acenos de aprovação silenciosa foram feitos por dezenas de cabeças grisalhas e rostos inexpressivos.

— Infelizmente, Libera nos Domine, algo aconteceu que nos está a expor a um risco muito grande.

Um coro de vozes graves ecoou “Libera nos Domine” tão baixo quanto possível.

— Temo não ter sido um líder tão bom quanto meus antecessores, para hoje ver um de meus filhos queridos cometer tal ato que a todos expõe.

As faces antes inertes pareceram ganhar vida.

— Nunca, mestre. Vós sois justo e perfeito — respondeu um indistinto coro que poderia estar localizado em qualquer lugar, ou em toda parte.

“Justus inter hominis, justus inter pares.” O coro seco e monocórdico reforçou a afirmação anterior.

Ignatius ergueu-se, lívido e grave.

— Mea culpa, mea grandíssima culpa.

Dezenas de rostos aquilinos se voltaram contra ele, como cães que farejam sangue no deserto. Ele mesmo se assustou com a prontidão com que o fitaram.

O rito era sumário. Diante da admissão de culpa, que aliás apenas formalizava o que todos já sabiam sobejamente, Ignatius viu abrir-se entre si e os seus companheiros a distância de um braço. O recado era claro: os demais não estariam mais ao seu alcance. Em seguida, foi servido pão fresco ao redor da mesa, menos para ele. Já não era um “companheiro”. Por fim, entregaram-lhe uma moeda inteira.

Devia valer-se só, não haveria alguém a quem recorrer para completar seus recursos.

Todo o rito durou apenas dois minutos. Minutos que correram mais rápido que uma folha soprada de vento.

— Ite, fili.

Ser tratado de filho, em vez de irmão. Denegrido à humildade dos leigos. As portas duplas se abriram, puxadas pelos serviçais dos graus inferiores. Ao passar pela porta retiram-lhe a túnica e o barrete. Vestido apenas de calças comuns e uma precária camisa de flanela xadrez, deixava a sede do Magistério.

Ao longo dos corredores, Inácio, agora reduzido a um nome vernáculo, passou por todos os membros do cenáculo perfilados, todos olhando fixamente a parede, fingindo ignorá-lo, mas prontos para apunhalá-lo ali mesmo se não mantivesse o passo rumo ao saguão de entrada.

Lá estava o Porteiro, como sempre. O homem a quem tantas vezes ele mesmo humilhara, e que agora podia extrair sua vingança.

Mas Frater Petrus não se aproveitou. Manteve seu rosto de madeira envernizada e seus olhos de conta de vidro. Sua voz, azeda e rangente como engrenagens enferrujadas.

— Mens tua alienandus est, quod servare sallus vestri et animae tuam.

Era uma ameaça clara. Seria vigiado de perto, e seria executado à menor tentativa de revelar aos profanos qualquer segredo do Magistério. A única razão pela qual lhe davam aquela chance era para preservar o próprio prédio sagrado do derramamento do sangue de um expulso. Preferiam matá-lo pelas ruas, diante de qualquer desculpa, a fazê-lo ali. E nem era tanto por temor ritual, mas para preservar a imagem da Instituição. Institutio in primus.

Quando saiu à rua estava frio e chovia e ventava. Outro agosto detestável em sua vida.

Retirou do bolso a moeda de ouro que lhe haviam dado: primeira tentação. Vendê-la renderia dinheiro suficiente para algumas semanas. Mas seria facilmente interpretado como uma tentativa de expor a existência do Magistério. Preferiu deixá-la cair em uma lixeira à porta da própria Sede.

Estava no mundo, com a roupa do corpo, e com a ameaça imperiosa da morte no caso de tentar recorrer aos segredos e conhecimentos que um dia estivera autorizado a manipular. Teria de descobrir, aos trinta e cinco anos, algum meio de vida, alguma maneira de ganhar dinheiro, de ficar respirando mesmo contra a adversidade.

Nunca poderia confiar plenamente em ninguém. Nenhum membro do Magistério conhecia mais do que uns vinte ou trinta outros. E eles poderiam facilmente sair ou chegar de uma cidade, visto que não tinham laços nem com família e nem com empregos.

Felizmente ainda conservava a caderneta de poupança que abrira antes de entrar para o Magistério, e na qual depositara o fruto da venda de todos os seus bens terrenos. Isso era permitido, de certa forma, embora não fosse bem visto. Certamente a sua relutância em livrar-se dessa âncora do passado lhe causara muitos empecilhos, mas naquele dia estava grato a si mesmo por nunca ter se rendido completamente, nunca ter entregue o dinheiro.

Sacou cem reais em um caixa eletrônico. Apenas notas de dez. Tomou um táxi para a rodoviária. Não dormiria nenhuma noite em São Paulo. Era perigoso demais. Não tinha hábitos seguros, não tinha guarda-costas e nem poderia recorrer aos seus conhecimentos para manter-se a salvo mesmo de bandidos comuns. Seguiria para algum lugar distante, no interior, onde fosse fácil conhecer todas as pessoas, onde fosse improvável a presença do Magistério ou — de outro modo — fosse possível que eles tivessem apenas um informante.

Desceu na rodoviária apreensivo. Felizmente não tinha malas. Guardava o cartão eletrônico e a identidade como seus únicos tesouros.

No quadro de horários, para abreviar o sofrimento de ficar sozinho em um local tão cheio de gente, comprou a passagem para o primeiro lugar desconhecido que tinha ônibus saindo: Muriaé, Minas Gerais.

Entrou no coletivo ainda ressabiado, olhando para os lados como se a morte estivesse num dos assentos. Poderia estar.

Um menino de cabelos empoeirados passou vendendo jornais. “Um real, um real”. Estendeu a mão pela janela e entregou ao pivetinho a moeda de borda dourada. Pegou de volta o periódico popularesco e se sentou para ler, na esperança de esquecer um pouco da tensão incrível que o repisava. As manchetes, porém, eram ainda piores do que imaginava.

Polícia Federal Investiga Misterioso Fenômeno em Campinas. Por alguma razão se arrependia de ter começado aquilo. Ou teria sido instado a começar por alguém que já sabia que tinha de terminar mal? “Justo entre os homens, justo entre seus pares” uma ova!

Os detalhes eram vagos, certamente porque a Censura estaria agindo nos bastidores para tentar contornar ao máximo a ação que o povo exigia. O povo deveria ser menos cordeiro e exigir menos respostas. O mal do cordeiro é que quando se rebela, é sempre sozinho e só dá cabeçadas.

O ônibus partiu.

Quando acordou era dia antigo e estava vendo as montanhas redondas de Minas Gerais pela janela. Recompôs-se como deu, não deixando de notar que se despenteara e estava mais amarrotado que um maracujá velho.

Ao seu lado estava o rosto quadrado e terroso de Frater Patricius.

— O que está fazendo aqui, irmão? — perguntou, com cuidado.

— Uma missão, como sabes.

Ele não questionou ser tratado como irmão, embora provavelmente a expulsão de Inácio fosse notícia velha, e mesmo antes de ser velha fora esperada, favas contadas, durante dias. Era um mau sinal.

— O que está acontecendo de importante em Muriaé?

— Um assassinato em circunstâncias estranhas.

— Tem algo a ver com Campinas?

— Ninguém aventou a possibilidade.

— O caso de Campinas ainda está ecoando.

— E vai ecoar enquanto aquele palhaço da televisão ficar repetindo a piada de “Dislexópolis”.

— Deviam matar aquele cara.

— Por que? Ele está apenas fazendo bem aquilo que é o seu trabalho.

— Detesto gente que apenas “faz bem” o seu trabalho.

— Eu também, mas detesto ainda mais os que nem conseguem fazê-lo bem.

Definitivamente um péssimo sinal.

— Devia ter comprado uma passagem para Ubatuba — disse Patrício. E começou a cantar a canção do Caymmi.


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