Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
08
Ago 10
publicado por José Geraldo, às 19:23link do post | comentar

Tenho levado uma vida normal, terrivelmente normal até. Meus dezoito anos têm sido pontuados por experiências bem comuns e eu jamais fui à praia. Desde que nasci tenho sido uma típica criatura do interior, com uma vida que ressoa a árvores e regatos. Mas mudei-me para a Cidade Grande com meus pais há uns cinco anos e desde então muito rolou.

Meu jeito tranquilo tem sido sacudido e aos poucos, suavizado pelas experiências comuns de um adolescente de minha idade e minha época: estudo, trabalho e vou às festas nos fins de semana. Não fumo, mando uma cervejinha para dentro de vez em quando e amo, comportada e casualmente, a Maria Eduarda — que não me quer nem me nota.

Tenho, porém, minha gota de sonhos. Minha vida um dia será grande. Tenho vontade de ir aonde jamais foi alguém. Desejo de fazer uma obra que fique para a posteridade. Trazer a felicidade àlguém.

A Cidade é ruim para alguém que tem sonhos assim como os meus. É um lugar perdido longe do mar, longe de metrópoles e longe dos momentos em que a vida se revolve e os desejos tornam-se realidade. Vivem aqui milhares de pessoas tristes, feias, apressadas, desprovidas de gosto e de saudades verdadeiras. Gente que anda corretamente dentro dos velhos limites e não conhece nenhuma poesia. Gente que trabalha na Fábrica e vai à missa.

Nesse imenso amontoado de prédios feios circundados por uma floresta de casinhas baixas e feias e de palafitas debruçadas sobre o Rio Amarelo a minha vida escorre preguiçosamente enquanto meus sonhos vão lentamente desbotando.

Vivo em uma casa comum, nem perto nem longe do centro. Todos as manhãs sou acordado pelo ronco do ônibus que tenta subir a íngreme encosta e, com os meus sonhos cortados ao meio, desço para a minha vida. Isso é frustrante, às vezes, pois nunca consigo beijar e nem me enriquecer a tempo de gozar disso antes de acordar.

Desde que Fábrica fechou as portas e despediu alguns milhares a cidade está pior de ânimo, embora se respire melhor. O pessimismo tomou conta e o clima em geral acabou voltando a ser irrespirável. Os bailes de sábado estão menos vazios e as mentes menos dispostas a sorrir. A minha geração é infeliz. Os belos sonhos estão desbotados pelo confronto rude com a vida real e com a ditadura dos Generais. O que sobrou de planos desfeitos sobrevoando as cabeças dos jovens agora produz músicas fúnebres e revoltadas; que não trazem solução, mas alívio.

Onde Sílvia entra nisso? Nos conhecemos desde o primeiro ano da faculdade. Sílvia era já feita aos dezenove anos, eu era um menino ao seu lado, mesmo sendo só seis meses mais jovem. Mas eu era um menino ambicioso. Sentia-me atraído pela expressão vaga que havia no seu rosto, pela sua beleza agressiva e o jeito despojado de se vestir. Sabia que a olhavam quando passava, que era mais que simplesmente uma moça comum como as outras. Isso era o que me excitava, mas também o que me desanimava.

Até que um dia ousei. Convidei-a para ir ao show e ela surpreendentemente aceitou. Voltei para casa com os pés pisando nuvens e a cabeça cheia de sonhos. Foi a semana mais longa de toda a minha vida, enquanto me preparava.

Na entrada do Clube, todos pareciam não dar a mínima. Só eu me sentia especial e imenso. Olhava para Sílvia como se ela fosse um troféu que eu jamais merecera. Como se ela fosse algo que os outros talvez achassem que eu não devesse ter.

Quando digo troféu, gostaria de deixar claro que sabia que ela não era exatamente a nora que minha mãe teria sonhado. Sabia da sua fama. Quando me aproximei de Luísa, não fiz isso imaginando que fosse uma virgem inocente. Sabia que ela estava mais perto de ser uma puta que qualquer outra menina que eu conhecesse. Mas isso tem o seu fascínio. Ela era uma mulher livre. Ela tinha uma ousadia e uma beleza que atraíam.

Mas não era isso que me incomodava. Eu podia conviver bem, ou pelo menos achava que podia, com todo o passado que ela arrastava consigo. O que me incomodava era que todos me olhassem com ela e pensassem que comigo era diferente.

Todos os outros com que ela havia estado haviam ficado com ela quase que unicamente pensando em sexo. Mas eu achava que ela podia ser levada a sério por um namoro. Eu tinha medo que os outros não entendessem meus motivos e me achassem um banana.

Mas, pelo menos no começo, todos cuidavam de suas vidas e ela mantinha uma certa posição que não causava terremotos demais.

Gostei de ver que ela parece ter entendido desde o começo que havia algo de diferente em mim. Gostei de ver que ela apreciou isso. A minha esperança era que ela empregasse a sua ousadia de um modo diferente do que ela havia feito até então. Em vez de ousar ficar com muitos caras, ousar fazer muitas coisas… Se é que você me entende.

Por isso a sensação estranha de viver uma irrealidade me perseguiu ao longo daquela primeira noite. E por isso a noite saiu do controle, pois sonhos não têm amanhã. E foi por isso que deu tudo certo, pois o amor não nasce quando estamos pensando no futuro.


publicado por José Geraldo, às 18:56link do post | comentar

“O Que Fazer Antes dos Dezesseis?” Pergunta-me alguém que sonha em tornar-se um grande artista quando crescer. Estranhei que a pessoa supusesse que eu saberia a resposta. Se eu soubesse teria sido eu mesmo um grande artista. Há certas respostas que não adianta saber tarde: não as testamos na hora certa, agora não saberemos se funcionaria mesmo aquele plano.

Mas me pus a refletir sobre o que responder ao jovem de dezesseis anos que deseja ser um grande artista quando crescer. Olha, as pessoas hoje em dia costumam ter muita pressa de viver, as crianças parece que já nascem com os olhos meio abertos, a língua alerta, as mãos querendo pegar o mundo e manipulá-lo. Uma vontade louca de possuir coisas, viver coisas, matar coisas.

Mas isso não é certo, não porque seja errado, mas porque é uma merda de vida essa que o mundo de hoje o obriga a sonhar ter. Alguém, em algum lugar, determinou: “é proibido ser criança”. Por causa disso as crianças já nascem no meio do som e da fúria desse mundo, testemunhando violência, sensualidade e malícia até em propagandas de iogurte. É preciso, é absolutamente uma prioridade para alguém poderoso no sistema que a infância dure o menos tempo possível: os jovens devem aprender cedo a falar com voz raivosa, mirar com olhar duro, pensar em sexo e em grana. Já que o mundo é cruel, devemos ser o mais infelizes que pudermos. A perspectiva de que possa haver alguém feliz no mundo deve ser aterradora.

Não vou ser piegas de dizer que no passado essas preocupações não existissem, que crianças não fossem, muito frequentemente, empurradas à força para o mundo adulto. O que mudou é que antigamente as pessoas, mesmo as perdidas, sabiam o que haviam perdido: houve um tempo em que não era ideologicamente uma tolice ser criança e “infantil” ainda não era xingamento.

Querem que vocês estudem muito, que trabalhem muito, que transem logo. Ser virgem é ofensa, gostar de estudar é um hábito anti-social e curiosidade só não é esquisita quando se refere a orifícios e apêndices do corpo. Mas olha, a infância é uma coisa tão boa que tem gente que acha que pobre não devia ter, que brasileiro não devia ter, que ninguém devia ter nesse mundo tão sério, tão ameaçado, tão cheio de problemas: “o mundo se acabando e você aí brincando, moleque.” Até parece que eles não sabem que o mundo não estaria tão acabando se eles mesmos tivessem brincado mais em vez de fazer armas, criar rixas, começar guerras, caçar bichos, erguer muros, tomar coisas…

Na infância você precisa de brincar, estudar, ler e sonhar. Aproveite e viva essa coisa enquanto puder. Seja criança até mais tarde do que as pessoas acham normal. Vou confessar uma coisa garoto: essa gente sabida que lhe fala tanta coisa do mundo é um imenso bando de ignorantes. Eles não sabem, ou já esqueceram, o quanto é bom e é importante ser criança. E como esqueceram tudo isso, não conseguem entender. Talvez você não saiba ainda, mas um dia saberá, que nada é tão humano quanto querer destruir o que não entende.

Porque um dia você cresce e vai ter uma saudade enorme das peladas que não jogou, de não ter aprendido a nadar, de não ter tido tempo de jogar bilosca, de não ter namorado dando selinho, de não ter feito telefone de barbante e caixa de fósforos, de não ter sonhado em ser pirata do espaço, de não ter lido Monteiro Lobato, de não ter ido em excursão da escola, de não ter brincado de carrinho, de não ter se sujado de barro, de não ter montado a cavalo, de não ter se empaturrado de doces de vez em quando, de não ter andado de barco, de não ter ficado perdido, de não ter amado muito seus avós, de não ter beijado seu pai…

Um dia você cresce e é obrigado a fazer, o tempo todo, por obrigação, aquelas coisas que quando era criança você queria fazer antes da hora. Você já não pode dar beijos no rosto das meninas porque o chamam de bobo, não pode só ficar conversando a sós com uma mulher sem trepar porque podem chamá-lo de bicha, não pode viver com os pais porque o chamam de vagabundo e maconheiro, não pode viver sem trabalhar ou passa fome, não pode ler livros de criança porque já não acha graça, não pode jogar bilosca porque as mãos são grandes demais, não pode brincar com carrinho ou o chamam de débil mental, sequer pode gostar de crianças ou será chamado de pedófilo. Seus avós estão mortos e você tem vergonha de beijar o seu pai.

Portanto, adolescentes que me leem, sejam bobos, sejam tolos, sejam crianças. Não liguem para os verdadeiros babacas que estão deixando passar a infância sem aproveitar. Aproveitem vocês, sejam crianças. Vocês terão muito tempo para transar depois de adultos. Vocês terão tempo para beber, fumar, ganhar dinheiro, ser sérios, ter filhos e discutir o aluguel com o senhorio.

Por enquanto se contentem em ser crianças, porque o tempo é cruel, crudelíssimo. O tempo vai passar e levar vocês embora e cada hora não vivida nessa época mágica chamada infância doerá o equivalente a dias no longo entardecer que é a vida.


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