Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
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Ago 10
publicado por José Geraldo, às 22:48link do post | comentar

Vou andando sozinho pela escuridão da noite. Volto para casa com os ouvidos amortecidos e com amargura na boca pela décima vez no mês numa noite morna de outubro ou novembro. Subitamente eu me dou conta de estar imerso num silêncio sibilante e imenso que apenas raros carros cortavam.

Com passos duros e pernas doloridas, cruzo a Ponte Nova e subo em direção à praça, onde já quase não há ninguém agora, salvo três fregueses de uma lanchonete comendo cachorros quentes e um bêbado gritando palavrões.

Mais uma vez eu saio do caminho reto para passar perto da casa de Maria Alice. Mais uma vez a esperança de vê-la à janela, mesmo sabendo que é alta madrugada e que as janelas estão fechadas. Evidentemente quando entro na Nogueira Neves constato as lâmpadas apagadas. Conforme esperava, mas mesmo assim alguma coisa morre comigo.

Depois de estar parado à esquina por alguns minutos remoendo velhos dramas e letras de canções do Roberto Carlos eu resolvo atravessar em direção ao Meia Pataca.

Noto que vem atrás de mim a patética figura maltrapilha que atrapalhava a paz dos filhinhos de papai junto à ponte. Apresso o passo, pois o espantalho bêbado que me segue não promete ser boa companhia. Sua roupa amarrotada mostra que esteve deitado em alguma calçada e seus olhos cavernosos devem estar vermelhos de sangue como os de um lobisomem.

Mas é tarde para fugir e ele me grita:

— Ei, você aí!

Insisto em fingir que não o ouço e ando mais.

— Ei! Pare para ouvir a história do poeta! Insisto no silêncio e na pressa.

— Ei, eu sei quem você é. Pare que eu estou precisando te contar umas coisas!

Eu paro apenas o tempo bastante para responder:

— Desculpe, São três da manhã! Quero dormir, outro dia.

Ele xinga misturadamente e se apressa.

— Meu jovem você ganha muito em me ouvir. Pare! E eu vou lhe contar uma história que vale a pena ouvir…

Diz o “pare” com tal determinação que eu paro. Incrível minha disposição a obedecer a ordens dadas seja por quem for… Desde que no tom de voz correto.

De longe eu sinto o inconfundível hálito de cachaça barata, cigarro e cáries. O cheiro entranhado em suas roupas suadas e amarrotadas evoca antigos vícios e perfumes de prostitutas.

Ele tira do bolso um inacreditável lenço e enxuga a testa. Depois pigarreia com como que para despertar do álcool que lhe nubla a razão e me olha coma desolação de quem mal pode suportar a compaixão que desperta.

Sorri. Mostrando-me diversos dentes podres, tortos ou ausentes. E se apresenta:

— Conheça o poeta maldito dos regos e becos da cidade.

O alcatrão de uma vida de fumante lhe fazia respirar chiando e o peito cabeludo e avermelhado, exposto pela camisa aberta, subia e descia como um fole.

— Eu te conheço?

— Se não me conhece vai me conhecer. Muitos já me conheceram, até biblicamente falando. Sou um cara muito conhecido, ainda que a maioria tenha preferido esquecer.

Ele acende mais um cigarro e o fuma soltando baforadas quase artísticas pelo ar. Observa enquanto se desfazem os anéis e mastiga umas palavras:

— Só que hoje eu sou um merda e não tenho ninguém com quem conversar nessa porra de mundo. Agora eu não tenho mais ninguém para foder a minha bunda, ninguém para ler meus versos, ninguém para chorar no meu enterro!

— E onde que eu entro nessa história?

— Até que eu queria que você entrasse, entende? Mas eu fico satisfeito se você for testemunha.

— Testemunha do quê?

— Cala a boca e escuta. Que eu vou te contar minha história. Desde o dia em que dei o cu pela primeira vez debaixo dum pé de mamão no fundo do quintal da escola.

— Só que eu não tenho nada a ver com isso. Se você é poeta, por que não transforma isso em poesia?!

— Sou um poeta moderno. Hoje poesia não se faz mais com versos, e sim com verbas. Para pagar a edição, para o coquetel, para mandar os 150 exemplares às 25 bibliotecas, aos 35 leitores e aos 70 sábios. E dar o resto para 5 amigos e mais uns 15 bobos. Não sobra tempo para falar da vida e de sentimentos. Ser poeta é difícil: não se pode ter sentimentos.

— É mesmo? Parece que os poetas de hoje em vez de fazerem versos enchem o saco dos amigos com suas histórias pornográficas e sua ressaca?

— As únicas novelas que me interessam são as da globo, porque são “fenômeno sociológico”. As outras são alienadas.

— Então inventa algo novo para fazer.

— Hoje em dia os campos estão restringindo as possibilidades, já fizeram tudo: só nos resta aplaudir e ler o cânon.

— Já me disseram uma vez que a única saída para a poesia é entra no consultório do analista?

— Ou entrar pelo cano. Poeta é um sujeito teimoso que ainda não descobriu que é ridículo. É um riquinho com vontade de aparecer que se acha filósofo…

— Mas eu continuo não tendo nada a ver com isso. E francamente eu nem consigo entender a metade do que você diz.

— Mas continuo te mandando calar a boca. Ou não quer saber o que fiz quando fugi de casa e fui pro Rio de Janeiro?

— Não. Talvez até eu achasse engraçado ler isso num livro. Mas a essa hora da madrugada…? Eu quero mais é ir para minha casa dormir em vez de ficar escutando um bêbado.

— Eu quero falar de minhas primeiras taras, porque eu amava Cassandra Rios e Adelaide Carraro. Eu quero falar de orgias e da vinda do Messias.

Nisso um casal passou por nós de braços dados e vivendo tranquilamente o seu idílio. O poeta interrompeu a beatitude em que iam e lhes gritou ironicamente:

— E aí, Messias, ‘tá lembrado de mim?

Messias não respondeu.

— Que é isso, Messias, por que esta cara de quem me comeu e não gostou?

Eu ri discretamente, não querendo estar na pele do Messias. Mas ele simplesmente fingiu que não ouvia nada e seguiu seu rumo levando pelo braço a namorada.

— Eu lhe dizia — disse o Poeta — da dificuldade que era para um rapaz ver uma buceta pela frente em 1962…

Não era isso que ele estava falando, mas eu não estava a fim de alongar o assunto e continuei escutando.

— Para quem teve de fugir pelo pasto com os cachorros da polícia no encalço até que eu me saí bem no Rio de Janeiro. E antes que você pergunte, eu tive que fugir daqui porque o pai do Messias não gostou de saber do que a gente fez…

Então fez uma pausa, como se para puxar outro fio da meada em que a história havia se enredado e reentrou na mesma sucessão de desencontros que fora a sua vida.

— Em que língua é essa música que estão tocando por aí? — perguntou enquanto apurava o ouvido.

— Sei lá. Inglês?

— Não interessa. O que interessa é que eu sou do tempo em que se podia oferecer uma música porque se sabia o que estava tocando. Você sabe o que essa daí diz?

— Não.

— “Don’t want a short-dick man”

— Continuo sem saber.

— “Não quero um homem de pau pequeno!”

Eu ri sem achar graça nenhuma em minha ignorância. Então ele me consolou:

— É engraçado, mas você já reparou que hoje em dia é mais importante o caboclo saber inglês que português?

— E é o que parece, ou não é?

— Isso porque ninguém se preocupa em fazer o Brasil crescer. E eles ficam nos colonizando com esse lixo. E mais ainda. No meu tempo não era era risco de vida tocar de verdade o amor, embora isso fosse raro.

— Não existia zona naquela época?

— Eu nunca tive dinheiro para pagar uma vadia, por isso eu quis ser a vadia…

Outro riso constrangido:

— E então?

— Você gosta de rock?

— Bastante.

— Gosta de Pink Floyd?

— É meu favorito.

— Vejamos se você entende do riscado.

— Ah, de rock eu entendo.

— Você já foi ouvir Pink Floyd num alto de morro à noite, junto com um bando de doidões, fazendo suruba, fumando maconha e ouvindo o “disco da vaca”?

— Não!

— Então você não entende nada de Pink Floyd.

— E nem de poesia, pelo que você me falou.

— É. Mas a diferença é que você não faz a menor questão de entender de poesia…

— Ninguém faz.

— Mas devia. Só com a poesia você pode combater a imbecilidade que há no mundo.

— Mas você não me disse agora há pouco que a poesia no mundo de hoje virou uma coisa imbecil?

— Só que isso ainda não quer dizer que virou crime tentar fazer poesia direito…

— Como você faz?

— Não. Eu não. Eu sou um idiota que sempre correu atrás da opinião alheia. Acho que até homossexual eu virei porque era chique ser bicha na cena literária dos anos 70…

— Ah, nisso eu não acredito. Ninguém dá a bunda sem querer. Dizem que dói demais para um cara fazer isso sem ser de propósito.

— Depois que você fica acostumado é muito gostoso, pode ir por mim que é bom!

— ‘Tô fora dessa!

— E de tudo isso que eu vivi, não guardei nada a não ser o prejuízo dos anos de vida que eu perdi sem ganhar dinheiro e sem virar herdeiro de fazenda. Não, não achei nenhum amor eterno para esquentar a minha cama na velhice, não tive nenhum filho para me botar no asilo.

Diante do meu silêncio ele continuou.

— Todo mundo deixou sua marca em mim. As as putas me deram suas gonorreias, os farmacêuticos, por sua vez, me encheram a bunda de Benzetacyl. Agora estou contando os últimos dias, com um enfisema que já é meio caminho andado para um câncer. Cheirei cocaína até perder o olfato, dei o cu até ficar com hemorroidas e agora eu me sinto um cocô que cagaram neste cu-de-mundo.

— E o que vai fazer para mudar isso?

— Mudar? Que nada! Eu vou é cumprir o meu destino! Chegou a minha Hora Mágica. Devo me juntar aos meus!

E rapidamente, antes que eu possa tentar impedir, atinge a ponte de cimento sobre o Meia-Pataca. De pé no corrimão ele vocifera, como o Nero de Henryk Sienkiewicz:

— Que grande artista o mundo vai perder.

Então abre os braços compridos contra o luar, como um morcego pousado lá e lentamente se deixa cair na lama rasa e fedorenta da margem.

Das profundezas cheias de bosta e espuma industrial eu ainda o ouço dizer, com voz rouca e raivosa:

— Merda! Ponte errada!

Escrito entre 2002 e 2003


publicado por José Geraldo, às 19:37link do post | comentar

Um homem extremamente infeliz não consegue nunca crer na profundidade do abismo. A infelicidade necessariamente induz ignorância: somente esquecendo um pouco é que se pode tolerar a pressão das lágrimas que a alma exige, mas que os olhos não querem dar. Melancolia é diferente, há uma tristeza pouco aparente entre não ser alegre e não ser feliz. Pouca gente sabe, mas existem infelicidades muito alegres.

O homem vivendo no extremo da felicidade aprende a fingir: somente quem finge consegue sobreviver ao espelho quando ele é sincero demais. Ausentando-se da sabedoria do mundo, o parvo não percebe sua dor. Dança o palhaço em meio à culpa e o abandono. Dança, triste palhaço, dança e chora por detrás de tuas gargalhadas e de teu nariz vermelho.

A dança dos tolos é uma arte, uma arte de sobrevivência. Nas maiores tragédias surgem os maiores humoristas, nos abismos mais profundos da alma nascem as mais delicadas estrelas bailarinas. A alegria é a vingança do infeliz contra o mundo: através de seu doce ópio ele se liberta, transcende-se. Somente os que fingem conseguem ser livres: os sinceros são escravos da própria coerência.

Tu que te tornaste sábio nesta arte de dançar diante das trevas, fazendo dos fantasmas a plateia de teus passos, dança! Dança e sê feliz, porque nós não somos. A tua dor não rouba de tuas mãos isso que trazes da infância. Dança, palhaço. Dança, que te aplaudimos e admiramos enquanto miramos além da janela a paisagem cinza que construímos. Colore de vermelho e de esperança esta paisagem de cimento. Precisamos de ti.

Tu que te tornaste ridículo, somente tu enxergas os caminhos destas almas verdes que fenecem cedo. Ris para eles, eles não entendem, eles te enxotam. Somente os velhos, somente os que entenderam a dor, somente eles são capazes de rir de ti, palhaço das ruas, poeta das nuvens.

Tu, somente tu, enxergas ao redor. Tua capacidade de enxergar a dor alheia e tratá-la, mesmo sendo sem remédio, torna-te melhor. Mira os erros e defeitos da alma vagabunda que verga sob o peso da modernidade. Mira, mas não erra! Que é preciso matar esse mostro que se chama mágoa.

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