Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
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Ago 10
publicado por José Geraldo, às 23:45link do post | comentar
O poema nasce, às vezes,como uma necessidade dos dedos.O toque deles contra as teclas,o prazer de ver as palavrasformarem-se das letras, tornarem-se negrase deitarem-se na página.A frustração de retornar a apagar,o apego apertado de saberque o cursor retorna implacávelcondeno o erro a não ter havido.E aquele eterno temor de talvez haveralgum perigo à espreitaque destrua o arquivo,que delete inapelavelmenteo esforço despencado em um verso.O poema, às vezes, nasceuma necessidade com medo.
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publicado por José Geraldo, às 08:21link do post | comentar
Não me acusem de saber muito,só porque tenho as mãos lisas.Não é que eu estudei a fundo,é que eu tenho tido outra vida.Porém não pensem que ignorotudo que um homem deve.Minha vida inteira eu estudo,para algo certamente serve.Uns saem de casa, certos do sabere acham modos de moldar o mundoao que Deus lhes disse antes.Eu saí ignorantee andei entre abismos e vazios.Quando cheguei aqui me estranharam.Não porque ensinasse, mas porque sonhava.Cheguei sonhando à terra onde não dormem.Cheguei trazendo em meu bolsoo manual que eu tenho escrito,cada dia de minha vida é um capítuloe a lição que ensina não é docee nem serve para quem me ouve.Hoje sei coisas que não soube de início,mas sei ainda menos do que deveria.Reconheço que aprendo lentamentee que ainda esqueço provisórias coisasque voavam antes da minha mente vaga.
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publicado por José Geraldo, às 08:06link do post | comentar
Sou um dos sonhadores derradeiros,talvez o último a fazer sentido,embora seja o que menos me interessee o que tem menos horas ou motivos.Tenho tentado dormir pouco,mas as imagens me alcançam acordado:lembranças de lugares a que não fui,pessoas que nunca conheci.Sou do tipo pior dos sonhadores,os que dedicam seu sonhar unicamentea espécies de sonhos que sempre fenecemdiante do dia claro,a espécies que só sobrevivem no silêncio da camae nem são perfeitamente transpostas ao papel.Sonhos que não são herbívoros e nem cruéis:apenas sonhos frágeis e herdados de outra eraem que ainda era costumeiro ser felize ainda não haviam inventadoessa raivosa tristeza que comanda-nos a todosa viver o tédio com volúpia e violência.O meu tipo de sonho é do pior que existepois em vez de sonhar com o futuro ou passadoeu sonho saudades de quando sonhávamos.
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publicado por José Geraldo, às 07:43link do post | comentar

Uma das noites que lembro com mais carinho é uma noite perdida no tempo, entre 1990 ou pouco depois, em que houve uma noite de música no teatro do Colégio, sob o pretexto de comemorar o Halloween — essa absurda tradição anglo-saxônica que nosso servilismo nos está levando a adotar. Pouco lembro do que aconteceu naquela noite, exceto que tocaram muito da boa estirpe de uma outra absurda tradição anglo-saxônica que nem o meu pretenso nacionalismo pôde evitar que eu adotasse — o rock’n’roll.

Depois daquele noite algo mudou dentro de mim, embora eu não saiba muito bem o quê. Algo ficou para trás, perdido e pendente, sem que eu trouxesse foto alguma de lembrança. E dessas coisas indefinidas é que se tem mais saudade.

Anos mais tarde eu estou conversando com um amigo e eis que ele, de passagem por outros assuntos se refere a essa noite em especial. Ele foi o baterista do primeiro grupo que subiu ao palco, ainda pouco depois das nove, e diz ele que foi um dos momentos mais legais de toda a sua vida.

Sempre que algum músico ameaça me contar coisas assim eu estimulo a confidência com avidez e reverência de quem sofre por não ter aprendido um instrumento. Como se faltasse em mim uma peça que eu sei que deveria ter.

Porque me faz falta nunca ter tido a chance de participar de nada assim… Mas eu, se nunca pude ter essa memória de mim mesmo, às vezes a tenho através de outros. Que sorte têm, quando faltam sonhos vivos, aqueles que têm amigos! Se você não tem a própria vida para se lembrar, invente uma!

Percebendo ou não o tamanho de meu interesse, o meu amigo desfiou a memória de seus dias de palco. Era como alimentar a um faminto. Enquanto ele me contava cada detalhe, eu me punha em seu lugar, vampirizando a emoção que ele me transferia, como se assim eu pudesse viver também um pouco aquilo.

Até que, de repente, eu me vi imerso uma outra vez na atmosfera densa da década de oitenta, época em que ser livre ainda era uma arte e estar vivo ainda não era tão perigoso. Época em que o amor ainda não precisava de escudos, em que as deusas não pareciam bonecas de plástico.

De repente me sinto subindo ao palco com eles, como se o espírito de um ex-roqueiro baixasse em mim. Ouço o rugido das guitarras, escuto lá fora a agitação do público. Uma dose de uísque virada de um gole só para esquentar o peito e demolir o muro que travava os movimentos. Quatro rapazes ainda com espinhas no rosto entram carregando instrumentos enormes, andando desajeitados enquanto são caçados com frieza pelos olhares de uma plateia que cobrava uma atitude.

Nessa hora Johnny Walker engrossa a coragem que fraqueja e os três se põem em seus lugares, engatilharam suas armas, dão um último retoque em afinações empíricas. Vaias e aplausos dão as agridoces boas-vindas, respondidas com sorrisos simples. Cada um é um guerreiro em uma grande aventura rumo ao desconhecido: a vida.

A pequena transgressão, uma garrafa de rótulo negro. Com ela desafiamos as regulamentações e as leis. Com ela desobedecemos às recomendações de nossos pais. A garrafa se transforma em um símbolo. Um símbolo que é ostentado com orgulho quase equivalente ao orgulho de ostentar o instrumento. Erguer a garrafa e sorver direto do gargalo, arrancando aplausos de crianças que querem pecar um pouco hoje.

Até que, saciado o desejo feroz de intensidade, depositam o Graal no solo e atacam um primeiro acorde para a glória. O ritmo rompe o murmúrio da multidão. Imediatamente as fronteiras de um universo que não acaba no horizonte se abrem aos que querem ouvir. E, repetindo Pink Floyd, decretam que é confortável estar mudo, e a vida não é mais que o roteiro para as lágrimas de um bufão. E todos pareceram estar fora de seus corpos, movimentando-se ao ritmo dos rifes.

A música é um pranto, um acalanto, um ato de instinto com metáforas terríveis e uma grandeza vil. Submergimos em cada acorde como se cada instante fosse o último e nunca fosse amanhecer. Nada mais somos que sonhadores. Cada segundo tinha de durar além de si mesmo, cada nota tinha de suster-se na memória do ouvinte como um convite eterno.

De repente eu acordei. Aquela noite foi uma das últimas noites. Não haverá outra. Aqueles sonhos foram dos últimos daqueles sonhos. Não se sonha mais assim.

Tempos difíceis vieram, esmagaram nossos sonhos e nos empurraram pelas ruas até um beco sem saída. Pessoas que faziam parte de nossas vidas de repente estão morando muito longe e ficaram tristes. Gente que nos amava está morta, mudou de rumo ou perdeu seu brilho. Quantas vezes eu vivi eternidades falsas que nem amanheceram; promessas de substituir cada vaga lembrança que sumiam antes que eu pudesse ter tédio.

Por isso o grupo acabou. Um deles passou num concurso, trabalhou em um banco, adquiriu tendinite, perdeu seu sorriso e hoje, nas noites de lua, toca para sua amada que sempre foi um guerreiro de aluguel e nunca teve tempo de lutar por suas próprias causas. A cada dia é maior o acúmulo de dejetos e circunstâncias entre nós mesmos e quem quisemos ser.

Outro está casado e só Johnny Walker resta para ocasional lembrança de um tempo em que a vida, a música e os amigos eram tudo que importava. A bateria talvez enferrujando num canto. Mas os amigos sempre serão amigos.

Outro sumiu. Casou? Teve filhos? Mudou-se para a Grécia ou foi catar coquinho em algum lugar? Nunca se fica sabendo. Perder o rumo é quase como perder a vida.

Fico pensando de que modo será que se sentem quando param para pensar no passado. Ganhar a vida sem sonho nos transforma em tristes, em carne morta que se move e dói.

Há maneiras aparentemente alegres de sofrer, como há tristes formas de felicidade também.

Ou será que, ao contrário de mim — que nunca na verdade vivi profundamente nada disso — eles vivem felizes e não lamentam que o mundo mudou?

Hoje, ao contrário de meus ídolos, eu estou jovem demais para o rock’n’roll, embora não velho o bastante para morrer. Mas talvez alguém ainda ache de viver. Eu tenho saudades de um mundo de que só vi o crepúsculo. Um mundo em que a juventude não era a platéia de um programa de auditório e não éramos revistados por seguranças para entrar nos locais de diversão porque todo mundo ia lá para se divertir apenas.

Tenho saudades de não ter estado nos grandes momentos do pequeno pequeno mundo de que tenho tanta saudade. Tenho saudades de não ter saudades de verdade. Lamento o encanto que nunca encontrei, a noite em que poderia ter ido com Adriana à feira de Santa Rita mas, com medo da bronca de minha avó, preferi ir para casa dormir o sono dos anjos.

Poderia ter conseguido, talvez, conquistar o coração de Simone, não fosse tão ingênuo? Lembro-me como hoje da noite em que o dia de ano novo rompeu subitamente a mediocridade e me transformou num medíocre que se acha possuidor de um bom gosto.

Lamento não existir mais ninguém capaz de compor uma canção à beira-mar ou de filosofar sobre o tempo que perde a cada dia.

Porque agora a luta de cada noite e dia não tem a mesma capacidade de afogar-nos num mar de aromas e sonhos.

É difícil saber se realmente é felicidade esta vida feliz que levamos porque não temos como sentar na varando ouvindo no rádio a canção que nos lembra o primeiro beijo, a primeira noite, o primeiro dia, o último instante, que nos remete ao próximo, que…

Em homenagem a Luiz Fernando Valverde.


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