Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
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Ago 10
publicado por José Geraldo, às 21:49link do post | comentar

Quando a noiva finalmente surge à porta, banhada na luz externa e com um buquê de rosas brancas adoravelmente à mão, Alberto eu sei o quanto queres sentir conforto por algum tempo. Mas és traído pela memória das dificuldades que viveste entre o dia em que Júlia entrou em tua vida sem pedir licença e este bendito instante em que parece que ela resolveu, afinal, acreditar que não és o tolo que a primeira impressão a fez pensar que eras.

Ela vem andando com graça pela nave da igreja, os olhos fixos no chão, temendo o tombo que o salto alto faz possível. Então sorris jovialmente junto às testemunhas, te sentes agora orgulhoso da beleza de tua mulher, olhas os convidados com superioridade, como o atleta no pódio, como o soldado exausto que desfila sua arma na parada depois da guerra. Aparentemente tudo está bem e sob controle. Mais uma vez ajeitas o colarinho para dissipar o nervoso e dás teu último suspiro de solteiro diante de quatrocentos convidados.

Mas te lembras, Alberto, cada coisa que aconteceu, cada decepção e cada despeito? Tu te lembras dos momentos em que te sentiste inferior e aflito em tua solidão? Como agora te achas no direito de desfilar este sorriso irresponsável, achar que todos esqueceram tudo que passou? A primeira vez em que ela te viu. Ainda lembras o aniversário de teu sobrinho? Brincavas com os meninos puramente, como eles. Era seu prazer fazê-los felizes, e com que simplicidade o fazias. Mas te lembras de como ela te olhou quando chegou? De como subitamente te deste conta do vexame e deixaste as crianças?

Que arrependimento, não? Que foi mesmo que pensaste então? Ah, eu sei que te sentiste o mais reles dos mortais e temeste que ela jamais te olhasse como outra coisa que não uma criança grande. Foi comovente ver teu rosto avermelhado e suas mãos tremendo.

Como foste tolo! Só mesmo tua insegurança te assegurou que o que fazias era algo tão errado que mulher alguma poderia considerar inaceitável. Eras apenas um homem bom entre os seus. Apenas alguém vivendo a simplicidade da vida. E eras feliz. Podias ter-te erguido do chão com a dignidade intacta, limpado o rosto e distribuído outro sorriso. E podias ter simplesmente dito a ela qualquer coisa que sonhasses dizer porque estavas em teu direito. Não havia crime ou vergonha. Mas preferiste retrair-te e, assim, te tornaste um pouco a criança que temias que ela pensasse que eras.

Mas ainda assim poderias ter permanecido em paz. Mas em vez de tentar o esquecimento, não a ignoraste quando a viste no sábado seguinte com uma lata de refrigerante na mão no saguão da discoteca? Não. Quiseste provar-lhe que não eras aquele tolo que não eras. E por tentar fazer-te outro, tiveste outra vez no rosto o vermelho da vergonha.

Não imaginaste que ela não tinha motivo algum para interessar-se pelo palhaço da festa? O orgulho te traiu, Alberto. Foi ele que te aconselhou a demonstrar a tua maturidade e a tua capacidade. Imagino que deve ter doído muito ouvi-la reagir com frieza às tuas tentativas de abrir algum assunto, pobre de ti! Só que isso não foi o bastante: por que insististe, Alberto. Havia tantas mulheres no mundo boas o bastante para ti… E insististe até o fim.

Lembro-me do cruel estratagema que ela empregou para te desiludir naquela noite, para te fazer sair. Lançando mão do primeiro desconhecido que a cumprimentou, beijando-o como se ele fosse alguém especial e chamando-o para entrar e dançarem!… Com que imenso peso nos ombros tu tiveste de deixar o saguão e refugiar-te no banheiro para lavar do teu rosto aquele ar de pano-de-chão usado!

Mas isto parece ter sido pouco para impedir que perseguisses uma oportunidade que nunca vinha, rebaixando tua dignidade diante de uma mulher que nem todos considerariam digna de tanto. Voltaste a vê-la e, em vez de te renderes à verdade evidente de que ela não te queria, novamente ousaste lançar-lhe olhares de desejo e palavras de convite.

Como foi mesmo, Alfredo? Não, não esqueci. Foi num bar da Avenida, talvez o d?Angelo, que a viste vestida para a noite. Ela estava a uma mesa com algumas pessoas que te eram, quase todas, desconhecidas.

Mas o destino te foi cruel providenciando a presença de um rosto conhecido àquela mesa! Utilizaste sem escrúpulo nenhum a amizade da pobre Catarina para teres um modo de entrar na conversa e, sutilmente, falar de novo com a Júlia, algo que supunhas ser uma sorte imensurável.

Que foi mesmo que ela te fez, Alberto? Ela não te ignorou? Não se retirou da mesa para ir ao banheiro e não voltou? Não mandou recado através do garçom chamando sua maior amiga e desapareceu na noite? Sinceramente creio ter sido uma barra bem pesada suportar a presença daquelas pessoas estranhas, como pudeste conversar depois com a tua amiga, sabendo que ela sabia da desgraça que te sucedera?

No entanto, amigo, sabes que o amor não se importa com humilhações e nem com o desespero, desde que haja dentro de quem ama um resto de energia a ser desperdiçado em patéticas tentativas. Pateticamente tentaste, não foi? Com que paciência buscaste na lista telefônica até descobri-la, a partir de apenas o sobrenome e uma vaga noção de onde ela morava! Mas que fazer com este tesouro sem valor, um número do telefone? Achas razoável que alguém ligue a uma desconhecida fazendo juras de amor? Ou que incomode quem lhe rejeita com chamadas insistentes e insistentes convites nunca aceitos? Então por que fizeste isso? Alberto, foste um palhaço!

Mas para surpresa minha, tua insistência não se perpetuou em desenganos. Júlia subitamente abrandou o rigor com que te tratava. Não sabes, Alberto. Não sabes. A cegueira do amor, a doce cegueira te levou a pensar que finalmente os teus protestos de afeto infindo haviam comovido o coração de quem era o teu carrasco e sonhavas ser o teu feitor…

O amor floriu com uma rapidez excessiva, não foi, Alberto? Mas não viste nisso nada de estranho. Menos de uma semana após o encontro inicial já a tinhas em teus braços, suspirosa após o esforço gozoso que vos arrebatara. Foi lindo, ou foi perfeito, Alberto? Não. Mas nenhuma alegria lhe foi maior que a de receber a notícia de ser pai! Ah, Alberto. Não compartilho de tua alegria.

Agora, após o parto prematuro de teu filho, após a recuperação da plena saúde de teu bem. Eis que oficializais a união eterna que lhe havias prometido. Ah, Alberto, uma vez mais não compartilho de tua alegria. De fato, mesmo após a gravidez, tens uma bela noiva, teu lindo filho lhe sorri dos braços de tua cunhada e te sentes um homem realizado.

Mas em nome de toda a amizade que hemos tido nesses anos todos desde os tempos de escola eu sei que tenho de ferir tua felicidade. Como o farei, Alberto? Como o farei? Por um lado, penso que se estás feliz, é bom que assim fique a ordem em que as coisas, à tua revelia, se puseram.

Só te peço, Alberto, que quando raiar o entendimento através da penumbra que envolveu tuas percepções, não me venhas culpar por não te abrir os olhos.

É uma pena que não podes ouvir meu silencioso monólogo, sou apenas um distante amigo seu que se oculta entre os presentes à cerimônia e tenta encontrar palavras para to dizer.

Agora eu somente espero que o último dos enganos de Júlia seja o alerta que a fará acertar o rumo na vida. Que a partir de agora pense menos em futilidades e mais em ser feliz, fazendo assim também a quem um dia tanto desprezou, mas a ama.

Texto datado de 2001 ou 2002, originalmente publicado no Mundos & Fundos em 2006.

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publicado por José Geraldo, às 07:42link do post | comentar

Dei-me conta hoje de que “Os Meninos do Brasil” (que eu acabei de ler em três ou quatro prazerosas horas de distração) foi o primeiro livro que eu li desde maio de 2004!

A surpresa decorre do fato de eu ter sido sempre um leitor voraz de todo tipo de literatura, especialmente romances, obras históricas, livros de referência geral e jornalismo. Quando estive cursando os últimos quatro anos do primário (hoje Ensino Fundamental) me lembro de ter lido mais da metade da biblioteca de minha escola. Mesmo depois mantive um ritmo regular de leitura, lendo pelo menos um novo livro por mês.

No entanto, desde que comprei meu computador — em 2000 — meu ritmo de leitura decresceu. Junto com ele decresceu também minha produção literária (embora a qualidade desta venha lentamente se aprimorando).

Claro que isto não tem a ver só com a utilização da internet, mas também com os quatro anos de desemprego que vivi. Desemprego produz depressão, desânimo generalizado. Nesses quatro anos era difícil encontrar motivação para aprender coisas novas; isto foi o que me levou a perder a agudeza que tinha antes: transformei-me numa pessoa mais indiferente e menos ávida por conhecimentos em geral.

Depois houve uma fase em que passei a ter um interesse quase monomaníaco por computadores. Havia tanta coisa nova a aprender e eu começara tão tarde…

Minhas energias acabaram voltadas mais para os meandros da manipulação da máquina do que para a efetiva utilização desta para produzir… Como dizia McLuhan: o meio se tornaria mais importante que a mensagem. Curioso que o computador que, teoricamente, nos permite fazer mais coisas e melhor tenha acabado por me impedir de ser mais produtivo em geral…

Originalmente escrito em março de 2005


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