Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
30
Set 10
publicado por José Geraldo, às 00:06link do post | comentar

Terminei agora há pouco a revisão gramatical e ortográfica de meu segundo romance. Amores Mortos é a biografia sentimental de um homem assombrado pelos fantasmas de amores perdidos. Por exigência das regras do concurso em que o inscreverei hoje, dia 30, ele está digitado em 221 páginas de A4, com fonte Times New Roman tamanho 12 e espaçamento duplo entre linhas.

O processo de criação de Amores Mortos foi bem menos complicado do que o de Praia do Sossego, a minha primeira obra do gênero. Em vez de levar nove anos para ser terminado, custou-me menos de nove semanas, incluindo três revisões. Em parte esta rapidez se deve à abordagem pelo «método quebra-cabeças», em vez do «método cebola», que usei para escrever o primeiro romance.

Amores Mortos e Praia do Sossego são duas obras muito diferentes no aspecto formal, embora tenham muitas semelhanças no tema e na filosofia de vida dos personagens. Não vou me alongar sobre eles, apenas direi que o mais antigo deles é uma obra mais próxima da poesia e mais voltada para a exploração psicológica dos personagens, com muitos trechos que transitam para o poema em prosa. Enquanto isso, o mais recente é uma obra de estilo mais direto e que emprega um ritmo narrativo mais claro (apesar de a história fazer mais ziguezagues do que em Praia do Sossego).

Se não obtiver sucesso enviando-o ao Prêmio SESC, vou enviá-la a outros concursos futuros, ao menos enquanto nenhuma editora se interessar.

SINOPSE:

Oswaldo narra alguns episódios de sua vida amorosa a um amigo nunca identificado, tentando explicar-lhe alguns traços mais polêmicos de sua personalidade, culminando em uma epifania de Jesus Cristo, durante a qual ele revira suas prioridades e tomara uma decisão que modificaria sua vida. As suas aventuras, ocorridas em seis diferentes cidades de uma Zona da Mata Mineira disfarçada por nomes falsos, incluem vários tipos de experiências afetivas e sexuais, que vão de paixões platônicas a sexo grupal, de atos de violência a gestos de desapego, de canalhices a episódios de altruísmo. Alguns, mais obcecados com auto-ajuda, identificarão uma importante «mensagem» no livro, apesar do teor fortemente erótico de algumas passagens, mas ele vai além disso, trazendo reflexões menos religiosas e mais filosóficas sobre a vida, sem necessariamente procurar ajudar ou ensinar coisa alguma.

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28
Set 10
publicado por José Geraldo, às 20:01link do post | comentar | ver comentários (1)

Há alguns dias eu escrevi sobre o método de desenvolvimento de texto que eu desenvolvi inicialmente, após alguns anos tentando tornar-me escritor. O chamado “método cebola” consistia em partir de um núcleo básico e aperfeiçoar a história através de revisões sucessivas, cada uma com um foco diferente. O método “cebola” é sintético: ele analisa a obra literária como um todo indivisível, que deve ser trabalhado de forma global, com objetivos globais.

O “método quebra-cabeças” (MQC, para simplificar) é o oposto disso: uma maneira analógica de desenvolver a obra, construindo-a em pedaços independentes, que são depois unidos na revisão final. Obras escritas por meio deste método tendem a ter maior variedade de estilos, personagens mais ricos e trama mais aprofundada. Estas características decorrem da facilidade que o MQC apresenta para trabalhar com obras de fôlego maior e a flexibilidade que ele oferece para separar e unir os pedaços como desejado.

O passo inicial do MQC é também a preparação de uma boa sinopse, mas ele precisa que esta seja mais rica em indicações narrativas. A sinopse será, então, dividida em uma série de “cenas” ou “capítulos”, de forma necessariamente cronológica. Se você estiver escrevendo no computador (ou seja, se estou sendo lido no século atual), é uma boa ideia que cada uma destas partes esteja em um arquivo independente.

A maneira ideal para trabalhar com esse método é um organograma. Transformando a sua sinopse em uma figura de balões e setas que representam a sequencia das ideias você consegue organizar espacialmente em seu cérebro como as coisas se encadeiam. Não sei como funciona o SEU cérebro, mas o meu cérebro gosta disso. Outra maneira, ainda melhor, para organizar sua sinopse é escrevendo-a como se fosse uma sucessão de datas e de lugares. Assim você não correrá o risco de fazer seu personagem noivar depois de já ter casado ou perder de novo a virgindade depois que já é mãe. Ajuda também para evitar que sua avó vire tia e depois acabe se casando com o filho de sua cunhada.

Você não precisa começar a escrever imediatamente após traçar a sua sinopse. Se fizer isso certamente a sua obra ficará “quadrada”, ou seja, excessivamente sequencial e previsível — e ninguém mais tem paciência para isso. Para evitar esse efeito, você deve refletir antes de escrever, procurando dar a cada parte um tratamento equivalente ao que você daria a um texto menor. Esta concentração permitirá que você conserve uma linguagem bem cuidada, ao mesmo tempo em que ter a sinopse em vista o ajudará a manter a coerência geral da obra.

Uma das maiores tentações que pode lhe acontecer nesse momento é mudar a história no meio do caminho. Isso é tecnicamente possível, mas você terá de retroceder e mudar todos os capítulos que já escreveu. Logo você perceberá que é melhor refletir longamente sobre o que deseja escrever ANTES de chegar a ter escrito mais que dois ou três capítulos. Mas em geral dois ou três capítulos já são suficientes para dar-lhe uma boa noção do que quer, e nesse ponto fazer as adaptações não será tão difícil.

À medida em que for escrevendo você perceberá que certos capítulos devem ocupar certas posições, que não dependem exatamente da ordem cronológica. Talvez seja interessante narrar um após o outro dois episódios separados por um longo intervalo de tempo, por exemplo. É possível também que você desista de escrever certas partes da história ou, como frequentemente eu faço, que escreva alguns parágrafos em vez de algumas dezenas de páginas. Nesse caso o que seria um capítulo pode virar uma recordação de um personagem ou as considerações iniciais de um episódio. Por fim, certamente surgirá a necessidade de escrever um ou dois capítulos adicionais, para preencher buracos que você inicialmente não tinha percebido ou que foram criados a partir dos detalhes que você acrescentou enquanto punha “carne” no esqueleto da história.

Para fazer todas estas mudanças, pode ser uma boa ideia trabalhar com fichas pautadas contendo resumos dos capítulos. Embaralhando-as, rasgando-as, refazendo-as ou criando novas você manipula física e visualmente a sua história, facilitando a percepção das conexões que ela possui. O organograma também pode ser impresso e pendurado na parede. Se você tem facilidade para isso, tenha um grande flanelógrafo, no qual você espetará com percevejos os cartões que representam a sua história. Tudo isso pode muito bem ser feito com o computador, mas eu suspeito que a manipulação física da história tenha um valor mais do que sentimental, mnemônico.

Quando tiver concluído todos os capítulos, ou pelo menos uma boa quantidade deles, suficiente para dar forma à sua história, pode ser o momento de fazer a revisão. Se está escrevendo um romance, esse momento não deverá chegar antes que tenha rompido a margem das duzentas laudas (que deverão ser calculadas em folhas de papel A4, com espaçamento duplo e uma fonte relativamente compacta). Na primeira revisão você fatalmente decidirá descartar, no todo ou em parte, algum dos capítulos que inicialmente escreveu — daí a necessidade de não dar a obra por terminada muito cedo.

Não se deve fazer um número excessivo de revisões porque elas são contraproducentes. Todo autor verá uma quantidade absurda de erros no que escreve e nunca estará satisfeito. O momento ideal para trabalhar a qualidade é durante a fase de conclusão dos capítulos, que deve ser a grande revisão estilística e gramatical feita pelo autor. Com todos os capítulos já montados na obra terminada, a revisão necessária é apenas para detectar e corrigir contradições ou erros gritantes demais.

Minha história com o MQC é relativamente recente: eu só o usei para escrever quatro obras até agora: o conto “Preço da Passagem”, o romance “Amores Mortos”, um ensaio sobre H. P. Lovecraft e uma novela chamada provisoriamente de “Serra da Estrela”, que pretende ser uma tentativa de dar uma face “pop” ao folclore brasileiro. Destas obras, somente as duas primeiras estão acabadas.

Mesmo assim, acredito que trabalhar desse modo é muito mais viável para textos longos do que pelo método cebola. Mas não adianta mudar de método se você não acabar com o excesso de perfeccionismo que o impede de liberar seu texto. Chega-se a um ponto, na revisão de um texto, em que você passa a destruir o que havia feito.

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27
Set 10
publicado por José Geraldo, às 22:20link do post | comentar

Há momentos na vida (ou na morte) que precisam ser encarados com relativa seriedade, ou pelo menos devem ter um mínimo de respeito. Se não pelos mortos, que não estão nem aí para o que vai ser dito ou cantado a respeito deles, pelo menos por causa dos vivos. Mas o ser humano, em sua insuperável capacidade de subir o tom da estupidez enquanto não encontrar alguma barreira, tem levado o significado dos rituais religiosos em funerais a limites além da imaginação. Sinceramente, funerais na Austrália, por exemplo, devem ser um barato.

Digo isso porque recentemente o Arcebispo de Melbourne resolveu proibir que em funerais e casamentos sejam executadas «canções românticas, música popular, rock’n’roll ou hinos de futebol». Se você possui um nível de insanidade relativamente baixo, como o meu, você leu esta notícia e imaginou que canções românticas estavam sendo cantadas em casamentos, música popular e rock’n’roll nos bailes que são dados após e os hinos de futebol… bem, caramba, onde é que hino de futebol pode combinar com casamento ou funeral?!

Diante dessa cruel dúvida eu fui pesquisar mais a fundo sobre o Arcebispo e sobre sua polêmica decisão. Logo de cara eu percebi que Dennis Hart deve ser uma pessoa normal: em 2009 ele foi processado por uma paroquiana a quem ele teria dito «Vá para o Inferno, vadia» quando ela o despertou às três da madrugada para pedir uma confissão. Dificilmente haveria algo mais apropriado para se dizer à alma desastrada que teve essa ideia infeliz de acordar o pároco tão tarde da noite. Se fosse uma extrema-unção ainda seria aceitável, mas uma confissão…

Portanto, tendo ficado estabelecido que o Sr. Arcebispo é uma pessoa sensata (porque alguém que não mandasse a beata pro Inferno não o seria), eu comecei a pensar que ele deveria ter boas razões para restringir o tipo de música que se pode tocar nos serviços religiosos católicos na Austrália. Um pouco mais de pesquisa e eu vi que não estava enganado. A medida pode ser um exagero, mas reações exageradas costumam ter motivações igualmente exageradas. Tal foi o caso.

Eu consigo imaginar razões para alguém desejar que um desafeto seja mandado para o além ao som de Highway to Hell (Rodovia para o Inferno), do grupo australiano AC/DC, cujo refrão («Estou dirigindo pela rodovia para o Inferno») é precedido da desagradável afirmação de que «Meus amigos todos já estão lá». Portanto, foi algo chocante para mim saber que houve funerais australianos ao som dessa canção. Igualmente chocante é imaginar um parente partindo ao som de Another One Bites The Dust (Outro Beija o Chão), que possui um verso que diz «Hey, eu vou pegar vocês também». Tenso. Muito tenso.

Só mesmo um genro aliviado, ou um marido muito sofrido tocaria no funeral de uma mulher a canção Ding Dong The Witch Is Dead (Ding Dong, a Bruxa Está Morta), do musical Mágico de Oz. Mas isso aconteceu. E certamente foi tão inesperado quanto o casamento ao som da «Marcha Imperial», de John Williams, aquele triunfante tema instrumental que acompanha o vilão Darth Vader em O Império Contra-Ataca.

Que fique, então, bem esclarecido que eu concordo com a medida tomada pelo Arcebispo. Mesmo tendo me casado ao som de A Whither Shade of Pale. Melhor mesmo proibir esses exageros, ou logo veremos gente sendo velada ao som do Falamansa: Ha ha ha ha ha, Mas eu tô rindo à toa. Não que a vida esteja assim tão boa, mas um sorriso ajuda a melhorar.


26
Set 10
publicado por José Geraldo, às 13:11link do post | comentar

Eu nunca tive a oportunidade de ler obras que ensinassem como escrever. Não que isso fosse fácil quando eu comecei, na era pré-Internet. Sem ter nenhuma orientação, acabei tendo que improvisar e desenvolver meus próprios métodos para produção de textos. Hoje vou explicar um desses métodos, que eu usei principalmente para contos e poemas.

Antes de falar sobre o “método cebola”, devo explicar que ele é totalmente inadequado para textos mais longos. Ao tentar empregar este método para escrever um romance, chamado “Praia do Sossego”, eu demorei nove anos até conseguir terminar. Eu ainda tentei empregá-lo para outro romance, “O Reino Esquecido”, e não estou mais conseguindo fazê-lo avançar.

O “método cebola” consiste em fazer sucessivas revisões do texto, que acrescentam novas “camadas” de complexidade, até ele, finalmente, chegar a estar completo segundo o plano original. A criação do texto é divida em três etapas: sinopse, rascunho e revisões.

Inicialmente você faz a sinopse da história ou ideias que pretende desenvolver. Como se sabe, o tamanho ideal de uma sinopse de trabalho é um único parágrafo, constituído de no máximo dez frases na ordem direta. Há outros tipos de sinopses, como as que são feitas para aparecer em contracapas de livros, que são diferentes, porque tem objetivos diferentes.

Na etapa do rascunho você conta a história toda, do começo ao fim, sem dar atenção aos detalhes, sem se preocupar em desenvolver muito os personagens, sem fazer muita descrição. O objetivo aqui é meramente fixar as suas ideias sobre o texto, e começar a dar forma à linguagem e ao tom que ele deverá ter ao final. Não cheguei a concluir por um tamanho ideal para o rascunho, porque isso vai depender da complexidade da história e do quanto você a quer detalhar. O que é necessário é que o rascunho conte toda a história, apresente todos os principais conflitos. Quando você escreve o rascunho, a preocupação seguinte deverá ser com aperfeiçoamento, não com conclusão.

Tendo em mãos um rascunho da história toda, que corresponde à primeira camada da cebola, você vai revisitar a história, do começo ao fim, fazendo as modificações e correções que julgar necessárias. Isto pode envolver até mesmo reescrever trechos inteiros, inserir personagens, apagar cenas, inverter a ordem (cronológica ou de apresentação) das cenas narradas, etc. Esta segunda camada da cebola é o momento no qual você vai dar atenção aos personagens e notar as relações cronológicas das cenas (evitando, por exemplo, que alguém não entrou na sala saia dela ou que alguém morra pela segunda vez).

A terceira, e idealmente última, das camadas da cebola é a revisão estilística, momento no qual você vai dar aos personagens falas características. Também pode sera hora de detalhar as descrições do ambiente ou inserir sugestões sutis do que virá a seguir. Flashbacks ou premonições são interessantes em alguns tipos de histórias, e é nesse ponto que eu acho que eles devem ser inseridos e concluídos.

Após a terceira camada, você ainda pode fazer uma quarta revisão, apenas para aparar arestas do texto. Esta revisão final deve ser voltada exclusivamente para a gramática ou, talvez, para a linguagem dos personagens, harmonizando-a com o conceito que você faz deles. Quando você chega nesse ponto, é hora de dar por terminada a sua obra e parar de caçar chifre em cabeça de cavalo: sempre haverá imperfeições a corrigir, e se você ficar sempre caçando, nunca deixará de achar. Os últimos erros, deixe pro revisor, se algum dia for publicar.

O “método cebola”, acima descrito, provou-se muito útil para mim, especialmente em poemas (eu o desenvolvi originalmente para poesia) e em contos curtos. Acredito que possa ser útil para outros jovens autores que têm dificuldade para organizar seus pensamentos (eu ainda tenho e preciso desses estratagemas e fórmulas para tentar me colocar no rumo). Por isso o compartilho aqui, na esperança de que muita gente vai escrever melhor (ou vai passar a escrever) com a ajuda dele.

Para quem desejar, porém, um método mais direto e menos perfeccionista (que pode levar à conclusão de um romance em três semanas e meia), eu volto a falar, ainda esta semana, sob o “método quebra-cabeças”.

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publicado por José Geraldo, às 11:44link do post | comentar
O amor de Noêmia é súbito e simples,alívio de dívidas e dúvidas que doem.Espera que açoitemos sua carne rudecom nossas vontades incultas e cruas.Sua passagem aromática pela praçatraz promessas e segredos aos jovense somos expostos ao beijos que esparge,complexas gotas de trevas que escapamde seu sorriso assimétrico e rígidoe escorrem por suas carnes estreitaspelas descontinuidades e curvas.O amor de Noêmia é nota de amargoe seu sorriso, incensado e insincero.Nota-se desespero no cálculo segurode suas mãos que nunca tremem,de seus olhos que estão sempre duros.O amor de Noêmia espalha lacunase lemos léguas de frio em sua pele.O seu corpo habita um claro na noite,ela brilha com vontade, habita na luzcom sua calça vermelha e seus olhos.Floresce em súbitas cores, Noêmiaa mulher que voeja pelos escuros.Olhos rasos, líquidos, atípicos, oblíquosque nos miram duramente, e prometem.O amor de Noêmia tem consigobem no centro de algum lugar perdidouma culpa que esmaga, uma dor que ardesomente nela, nunca nos que a tentam.Mas quando ela passa, trazendo certezaé como uma aurora que rompe, um portona noite imensa, em meio a imagensquebradas e armazéns, todos vazios.

25
Set 10
publicado por José Geraldo, às 15:37link do post | comentar

Um estudante de literatura postou o seguinte no Orkut:

Gostaria de ajuda para entender as diferenças entre o realismo e o romantismo-naturalismo.

Sempre disposto a dar cola para a nossa juventude que enfrenta os dilemas da graduação sem pré-requisitos, postei o seguinte:

O Romantismo-Naturalismo é uma corrente literária caracterizada por uma abordagem esquizofrênica da vida, ao mesmo tempo valorizando os sentimentos e compreendendo-os como fruto dos instintos humanos. O exemplo típico do romântico naturalista está nas letras do funk melody e do sertanejo universitário: mesmo ressaltando que o sexo sem compromisso deve estar em primeiro plano, afinal somos animais e precisamos pensar principalmente nisso, é necessário adicionar doses artificiais de ilusão sentimental, com palavras cuidadosamente escolhidas para dar a impressão de sentimentos mais fortes. O romantismo naturalista é gongórico e cultista, ao mesmo tempo, mais ou menos como os que procuram implantar a paz através da guerra, defender a importância do amor organizando surubas ou melhorar a qualidade da representação política votando no Tiririca. Nada é tão moderno quanto o romantismo-naturalismo, a arte de torcer ao mesmo tempo pro Atlético e pro Cruzeiro, tendo uma grande simpatia pelo América e sendo sócio do Vila Nova.

Espero que ele tire dez no trabalho.


24
Set 10
publicado por José Geraldo, às 07:27link do post | comentar
O que fizemos foi muito belo,mas foi uma loucura sem sentido.O sonho é uma peçonha aparecidaapesar do que somos nas manhãs.Estávamos lá entre coqueiros e sol,bonitos e molhados de mar,e até a porca que passou na praiamereceu entrar em um poema.— Mas como foi sem sentido,se sentimos tanto não ter sido eterno?Aquela noite ganhou cores,aqueles dias ficaram sólidos na almae ainda hoje o teu perfume purifica-me.O que eu sei de sentidos é pouco,só tenho umas opiniões precárias.Sei que onde há motivos e houve sonhosnunca nada é realmente dado,tudo é conseguido, tudo pesa.E somos compradores e cambistasde ilusões na feira do que não virá.Compramos barato e sem embrulhar,depois notamos que não há mercadopara o que não queremos  mais.Então abandonamose restam as lembranças na parede— da alma, não da casa.
Originalmente escrito no início de 2000, revisto hoje.

23
Set 10
publicado por José Geraldo, às 08:13link do post | comentar

Pensei no aparelho tranquilamente pousado à cabeceira da pista, reluzindo sua pintura branca sob o sol atípico daquela tarde de inverno nebulosa e morna e me acalmei. Depois o vi taxiar paquidermicamente em direção ao setor de embarque, sob os olhares tensos dos passageiros ainda indecisos se embarcariam ou não. Deteve-se ali, resfolegando como uma ave mitológica, até que todos entrassem.

Entrei quase por último, ainda pensando se valia a pena correr outra vez o risco de voar naquelas aeronaves que tão frequentemente andavam sofrendo acidentes horríveis. Mas qual acidente aeronáutico não é horrível? Qual argumento melhora a perspectiva de que não há, na verdade, nenhuma verdadeira segurança em nada que o homem faça — ainda mais estas coisas de voar, tão audazes e precárias que um simples pássaro as pode ameaçar?

Dentro estava aquele ambiente estranho que só quem já esteve nas entranhas de um avião já pôde ouvir. Aquele zumbido agudo e ininterrupto das turbinas em baixa rotação, aquele cheiro de combustível que sub-repticiamente invade através das portas que haviam aberto para que entrássemos, o odor de plástico e tecido lavado com detergente industrial. As comissárias de bordo transitavam pelo corredor orientando-nos com seus uniformes rígidos e suas faces pintadas de bonecas, suas vozes metálicas de autômatos, quase artefatos, impessoalmente cumprindo rituais meticulosos e repetidos, atos quase mágicos a esconjurar os perigos.

“Se ocorrer despressurização da cabine, esta luz vermelha se acenderá e máscaras de oxigênio cairão dos compartimentos localizados acima dos assentos. Cubram o nariz e a boca, conforme estou mostrando, e respirem bem devagar para não perderem a consciência.

“Qualquer ruído estranho que perceberem, olhem para nós. Se estivermos continuando nossas tarefas normalmente é porque nada de anormal está acontecendo.

“Se ocorrer alguma situação de emergência, todos serão orientados a proceder de modo adequado. Em hipótese alguma se levantem de seus assentos durante uma situação de perigo. Esta atitude só servirá para aumentar os riscos.”

Tranquilizados após sermos informados de que não há nada que possamos fazer para salvar-nos em caso de problemas, apressamo-nos todos a distrair-nos das possibilidades lendo os jornais, ouvindo música ou assistindo pela janela o desenrolar dos últimos preparativos.

Esta aeronave doméstica possui apenas uma classe, três assentos do lado esquerdo, dois do lado direito em cada fileira. Mais de cem pessoas se acomodam desconfortavelmente para a viagem que durará, talvez, três ou quatro horas.

Me pergunto se desta vez ainda conseguirei manter-me calmo diante da perspectiva de estar respirando o mesmo ar que tanta gente. Olho em torno para verificar com quem compartilharei o meu precioso alento e vejo uma miscelânea de pessoas unidas apenas pela tensão do embarque e pela inexpressão em seus rostos.

Uma jovem grávida, loura, de mãos dadas com seu marido de olhar obtuso e aparência bovina. Um turista gringo, com roupas tão coloridas como só eles e os palhaços têm coragem de usar, pigarreia insistentemente e bate as mãos com insistência contra as pernas, como se espantando a tensão de voar sob os cuidados de uma tripulação do Terceiro Mundo. Uma bela jovem de traços indígenas, com dentes tão brancos que parecem ser uma ilusão, seios grandes e flácidos e cabelo tão liso que me convida a correr meus dedos por ele afora. Um jovem negro, entretido com seu computador portátil, nervosamente ajeitando sobre o nariz seus óculos sem aros. Um senhor idoso e muito gordo, respirando ruidosamente e nunca fechando a boca desdentada, envolta em pelos desagradavelmente manchados de amarelo. Uma mulher macérrima, de nariz agudo e lábios carnudos, quase como uma personagem de desenho animado. Duas moças negras, ambas belíssimas, vestidas de modo simples e quase elegante, conversam animadamente e gesticulam incompreensíveis indicações de coisas e pessoas. Um homem jovem, talvez de vinte anos e pouco, excepcionalmente bem-vestido e até parecendo morto, de tão calmo e alheio, ouvindo música de seu walkman enquanto seus olhos, sob duas cerradas sobrancelhas, permanecem fechados. Duas irmãs de caridade usando seus uniformes e suas faces impassíveis. Um funcionário de alguma empresa, decerto subalterno (já que usa uniforme), mordendo os dedos com quase um ódio.

E todos com suas histórias e seus adiamentos aguardam o instante de decolarem rumo a seus destinos. Tantas pessoas com histórias que eu nunca vou conhecer. Ninguém interessado em conversar. Como eles me verão, se é que me olharão?

“Atenção, senhores passageiros. Mantenham-se em seus assentos e apertem os cintos de segurança.”

Olho pela janela e percebo que a aeronave ainda está parada. Subitamente sente-se um leve tranco e ela passa a deslocar-se, a princípio tão lentamente que parece não poder ir a lugar algum. O aeroporto, neste momento, parece um labirinto interminável de caminhos não-sinalizados que o piloto tem de decifrar para atingir a pista autorizada e arremeter rumo ao céu. Ocasionalmente passamos tão junto a outros aparelhos que as asas quase parecem tocar-se. A tensão carrega-se sobre nós como eletricidade, a ponto de quase podermos ver as fagulhas. As comissárias recolheram-se a seus assentos também e estão todos esperando o momento de desprendermo-nos no chão.

Chegamos, então, à pista de decolagem. Qualquer um que visse de muito alto perceberia o aparelho como uma mosca arrastando-se pelo princípio de um longo palito negro deitado sobre o chão. Mas para nós que dentro dele estamos parece que a pista é estreita a ponto de as asas estarem fora e qualquer resvalo no manche poder resultar em sairmos do estreito espaço apropriado e cairmos em capotagem dantesca da qual não sobreviveríamos. Um outro tranco, já não tão leve quanto o primeiro, e estamos ganhando velocidade a uma taxa impressionante. Leigos como eu sequer estimam a quanto estamos quando, enfim, o comandante faz o avião arremeter de bico rumo ao céu, oscilando no ar, por um momento, antes de, finalmente, assenhorar-se de suas forças e erguer-se a cortar o ar quase verticalmente.

Sinto o peso de minhas costas me empurrar para trás e a muito custo giro a cabeça para olhar através da estreita vigia para ver o chão perder muito devagar sua importância. Vamos subindo como um elevador sem cordas, sacudindo as vezes com as correntes de ar, as turbinas ocasionalmente parecendo engasgar. Ninguém sorri neste momento, nem mesmo os mais acostumados. Os que já se calejaram de viagens distraem-se com futilidades enquanto os marinheiros de primeira viagens agarram-se aos seus assentos e preces. Os bravos, em silêncio. Os fracos, em murmúrios. Ninguém presta atenção à musiquinha que toca sem parar.

As nuvens vão chegando perto. Um certo receio ainda místico atinge-nos quando deixamos a esfera original do homem e cruzamos o limiar dos domínios amorfos e intocáveis dos sonhos antigos. Não vemos anjos nem deuses por aqui, apenas ocasionais ilhas de algodão que flutuam sob nós e deixam suas sombras tênues na paisagem segmentada do país que está lá embaixo, deitado como um animal que jaz às margens do Atlântico.

O aparelho inclina-se ligeiramente à esquerda para fazer a ampla curva que nos voltará para o norte-nordeste e é neste momento que eu começo a me sentir mais estranho que nas vezes antes em que viajara. Novamente o avião sacode e hesita na luta contra a altitude ainda insuficiente. Olho para trás em busca das comissárias para ler em seus rostos respostas para meu medo que acumula-se como uma febre galopante. Nada lá, elas não estão à vista e isto em vez de me dizer que a rotina continua me conta que algo está errado e a semente do pânico germina dentro de mim, em terreno fértil e amplamente irrigado.

Desta vez a sacudidela foi um arranco, e não como antes. Outros passageiros se agitam, voltam-se, perguntam-se, ouço suspiros e o avião oscila ligeiramente da esquerda à direita, como um navio ao sabor da maré. Fito pela vigia, fixo meus olhos na turbina direita, sobre a qual o sol da manhã retine, azedo e claro. Meus olhos leigos nada entendem que possa aumentar a apreensão ou me curar a vontade de gritar por Deus, Alá ou qualquer entidade sobrenatural que tenha asas e vontade de me tirar desse claro pesadelo.

Recosto a cabeça contra o assento e de repente a vibração da aeronave muda de frequência. Alguma coisa cai lá atrás, com um impacto audível. Talvez alguém que levantou-se. Outro baque e já ouço gritos de desespero. Uma comissária de bordo adentra o recinto, seu rosto de madeira não move um músculo.

“Atenção, senhores passageiros. Por favor, mantenham a calma. Estamos atravessando uma zona de turbulência e o comandante terá de fazer alterações no plano de voo. Durante os procedimentos poderão ocorrer ruídos estranhos ou sensações de impacto causados pela aceleração ou pela desaceleração. Pedimos a todos que permaneçam em seus assentos e conservem a tranquili….”

Antes que pudesse terminar um estrondoso estalo se ouve. Olhamos vários de nós através das vigias do lado direito e vemos, incrédulos que a turbina parece estar se desprendendo da asa. Desta vez a mulher de madeira não consegue se manter impassível, pois também vê. Olhamos todos em sua direção, náufragos de esperanças em busca de algum alívio. Ela não abre a boca, mas engole em seco e seus olhos parecem ser de vidro. De repente brilham estranhamente mais e ela se retira para a parte de trás dizendo “um momento, por favor” quase como se não tivesse nada a dizer, mas tinha.

O comandante nitidamente altera o curso da aeronave. Já não continuávamos na intrépida investida para cima. Nivelado a princípio, logo o avião principia a inclinação à frente que tanto temíamos. O ângulo de descida revela a urgência da manobra e aumenta exponencialmente meu desespero pois, como engenheiro, temo que uma estrutura visivelmente fatigada e frágil como a asa direita talvez não suporte o esforço de desacelerar e estabilizar rumo a um pouso de emergência.

“Atenção, senhores passageiros. Aqui é o comandante. Estamos iniciando uma descida de emergência. Permaneçam em seus assentos e obedeçam rigorosamente às instruções das comissárias de bordo.”

Duas mulheres atravessam o corredor, em passos instáveis e já sem faces de bonecas. Maquiagens borradas e músculos retesados ao máximo, suas vozes são mais por maquinismo que vontade. Elas foram treinadas para ter medo e sobrevivê-lo, para desesperar-se e salvar-se ao mesmo tempo, para chorar lutando e ajudar sem perguntar. Ensinam-nos a curvar-nos sobre o abdômen e cruzar os braços para aguardar o possível impacto. Depois de tudo terminado, deveríamos procurar a orientação do pessoal de bordo para a evacuação do aparelho.

E elas logo abandonam-nos outra vez a nossos temores. Encolhidos fetalmemte aguardamos pelo momento crucial. O ângulo de descida vai lentamente sendo suavizado, mas temo que a velocidade não. Com o rabo de um olho observo outra vez a turbina direita a tempo de outro impacto desarranjar-nos e vê-la despregar-se e, numa fina ironia, liberta do peso do aparelho, seguir adiante por instantes, antes de o combustível faltar-lhe e ela morrer numa queda quase poética.

A asa direita está espedaçada e não resistira a nada mais. O aparelho já não desce em ângulo algum, mas precipita-se em parafuso, cortando o ar loucamente como uma peteca. A serra verdejante se aproxima impiedosamente. Uma escuridão se abate sobre nossos olhos como se nos recusássemos a ver a fatalidade derradeira. No último instante sinto o aparelho quase nivelar-se, esforço ou sorte, e a oscilação se estabiliza antes de um horrível som arrebentar-nos de todo tipo de controle.

Arrastar de árvores. Rugido louco da turbina superior a invadir-nos através das janelas quebradas. Muita umidade da floresta purifica o ar curtido de tantas respirações sobressaltadas. E paramos.

Longos suspiros atravessam todo o aparelho. Aos poucos as cabeças vão erguendo-se. Gritos de “Ai, meu Deus!” misturam-se a palavrões. As comissárias voltam trazendo estojos de primeiros-socorros e sorrisos renovados.

— Por favor, alguém está ferido?

Poucos, bem poucos estão. Alguns do fundo tomam a iniciativa de dar vivas ao piloto. Vários ameaçam levantar-se. E a essa altura nem as comissárias parecem interessadas em conter a efusão de alívio que incendeia a todos. Menos a mim que me sinto estranho e ainda não entendo o que pode ter acontecido. Mas entendo e estou feliz. E peço apenas que alguém que traga-me água tônica com gelo e limão.

Ouve-se outro estrondo. Um grito extremo e diversas pessoas atiram-se ao desespero.

— Calma, calma! — solicita o pessoal de bordo — Este ruído foi apenas a abertura das saídas de emergência.

Uma das comissárias tenta abrir a porta para a cabina de comando, mas está travada por dentro. Pelo intercomunicador ninguém de lá responde, nublando por um momento o alívio que sentíamos. Mas logo a voz cadavérica do comandante irrompe dos alto-falantes:

“Senhores passageiros, dirijam-se para as saídas de emergência localizadas, nas partes anterior e posterior da aeronave. As saídas disponibilizadas estão do lado direito do aparelho.” — Começa então a evacuação.

A escada inflável já está posta. Os primeiros a ir são tripulantes, para postar-se em terra e ajudar os passageiros a descer. Não tenho especificamente nenhuma pressa e aguardo a minha vez com resignação quase monástica.

Quando finalmente chego à porta, olho rapidamente a paisagem externa e me faço escorregar até o chão. Sou recebido por uma comissária negra, de sorriso plácido e mãos firmes, que não me diz nada e nem parece me distinguir dos demais.

Após sorrir ela me ajuda a erguer-me e me liberta na clareira que o avião formou ao pousar, meio de lado, arrastando muito mato e derrubando algumas árvores. Estamos em um lugar quase plano, coberto de vegetação rasteira e indefinível, algumas formações rochosas podem ser vistas à meia-distância, mas os detalhes da paisagem estão borrados pela densidade da neblina que desce. Provavelmente é algum planalto na Serra. Algum lugar, porém, interessante, pois todos olham sem nada ver, todos admiram sem nada reconhecer.

Formamos um grupo em meio à neblina, a vinte metros ou menos do corpo machucado da aeronave, que jaz ali como um peixe extraído do rio e atirado a um matagal. Percebemos a razão de a cabina de comando não ter podido ser aberta: a frente do aparelho está toda destruída. Provavelmente ela sofreu o impacto final contra o solo, vitimando sem perspectivas todos, ou quase, lá dentro. As comissárias não nos contaram, mas agora sabemos, que aquelas vozes eram gravações.

A constatação destas mortes nos consterna, mas estamos vivos e isto já é uma felicidade. Descem os últimos e logo começam vir caixas e mais caixas de coisas que as comissárias trazem dos recônditos traseiros do aparelho. Caixas que provavelmente estão repletas destas substâncias a que chamam de comida, de remédios, de utensílios que talvez nos sejam úteis. Do alto da escada uma das muitas e maquinais mulheres que nos orientaram durante o voo prossegue em missão:

“Senhores passageiros, atenção. Nossas comunicações foram destruídas juntamente com a cabina de comando. Por isso não temos como relatar onde estamos. Teremos de aguardar aqui até que nos encontrem e resgatem. Estamos retirando do avião toda a comida que possuímos e também algum equipamento que pode vir a ser útil. Estamos fazendo isto porque o avião está em uma posição instável e pode cair no abismo a qualquer momento. Principalmente se voltar a chover e o solo ficar menos firme no lugar onde ele está pousado agora.”

Subitamente nos damos conta do rente que foi nossa sorte, do perto que foi de morrermos todos. O aparelho está ligeiramente adernado à esquerda, a asa dianteira resta como um braço amputado e a esquerda mergulha rumo à ríspida inclinação do precipício. O ``pouso’‘ foi, na verdade, uma queda mais ou menos controlada contra um platô arborizado e a aeronave deslizou por sobre até quase o outro lado, ficando pendente da borda, pronta para cair ao menor vento. Talvez algum dos barulhos que ouvimos depois do fim da aterrissagem tenha sido justamente o deslizar da fuselagem sob seu próprio peso. Essa constatação me faz admirar ainda mais a coragem das aeromoças.

Lamentavelmente aviões não costumam carregar muita coisa útil para acampamentos porque sinceramente não se espera sobrevivam passageiros ou tripulação após uma queda. Escovas de dentes com o emblema da companhia não servem para nada quando se está na selva. E a comida toda que havia era aquela que embarcou no aeroporto, já pronta e embalada. Durará por horas apenas e nos deixará, depois, passar alguma fome até chegar quem nos salve.

Apesar deste sol mortiço que brilha sobre nós, não se dissipam nem por um segundo as nuvens pesadas que branqueiam e toldam o horizonte. Parece que estamos em uma alta montanha, cercada de abismo, mas com alguma possibilidade de termos sobrevivido fantasticamente. Em nossos relógios ainda é meio-dia e está frio.

Então a cabina de comando se abre. Um homem aparece à porta. Logo vemos que traz, apoiada a si, uma mulher em uniforme como o seu. Membros da tripulação da cabina. Sobreviventes como nós.

Ajudam-no a descer. É um homem de seus cinquenta anos, está em choque e se conserva calado. A mulher não vai durar. Possui um ferimento extenso através do tórax. Eu evito olhar, mas me contam que se podem ver costelas através do corte. Falece em poucos minutos e de repente descobrimos que temos muito mais sorte do que antes pensáramos.

— Onde estamos, comandante? — pergunta uma das comissárias.

— Nem tenho ideia. No final os aparelhos de navegação pareciam enlouquecidos. Eu olhava para aqueles ponteiros todos girando e era como se nada fizesse sentido. Só sei que estamos, provavelmente, a cerca de uns cento e vinte quilômetros a leste de onde partimos.

Uma das aeromoças interfere:

— Cento e vinte quilômetros a leste não pode ser. Isso seria já sobre o Oceano Atlântico. E não sei de nenhuma ilha montanhosa em frente à costa nesta altura do litoral.

— Sei o que vi até o momento em que tudo começou a dar errado e caímos aqui. Decolamos em direção a sudeste, iniciamos uma manobra de conversão para norte-nordeste através do leste. Tive de desviar mais para o leste para escapar de uma zona de turbulência muito forte e evitar uma tempestade. Então, antes que o avião chegasse à altura de cruzeiro, começamos a perder força e a turbina direita foi a se despregar. Quando vi o que ia acontecer pensei em descer para tentar fazer um pouso de emergência no Rio de Janeiro, talvez até uma amerissagem. Então eu de repente vi terra e tive que tentar estabilizar para não bater e viemos de barriga e meio de lado contra este platô. O avião bateu de nariz contra o chão, mas por sorte virou de lado em vez de explodir. Arrastou por quase um quilômetro e parou nesta beirada que parece uma falésia ou uma borda de platô.

A história do comandante não fazia mesmo muito sentido. Mas àquela altura saber o que ocorrera não era a sequer a terceira de nossas preocupações. Tínhamos de decidir o que fazer, já que o rádio fora destruído e a comida não duraria mais que horas.

Então apareceram umas luzes em meio à distante neblina. Eu fui um dos que a avistaram. Juntamente com outros, já que a maioria não parecia ter se apercebido da novidade, afastei-me e pude ver que eram na verdade várias e de diversos tamanhos e cores, apenas haviam parecido uma e uniforme por causa da distância e do efeito da neblina amortecendo as cores e borrando os contornos.

Aproximava-se muito lentamente, ou talvez estivesse vindo de muito longe e fosse muito grande. Ao fixar mais a atenção, percebi que vários estávamos simultaneamente olhando — o que talvez explique a comoção que se seguiu quando aquelas luzes que vinham exatamente em nossa direção desapareceram na distância sem chegar, como se o objeto que as portasse houvesse feito uma curva impossível no ar e retornado exatamente ao ponto de origem.

Nosso grupo era constituído de dezenas de pessoas diferentes em cor, raça, casta e credo e estávamos todos assustados e sem a mínima noção de onde era ou do que podíamos fazer. Perguntar “o que foi aquilo?” era a atitude mais comum enquanto nada mais aparecia para fazer. O piloto percebeu e tratou de organizar passatempos para que pudéssemos ficar ocupados até o resgate sem perdermos a cabeça. Recebemos a incumbência de percorrer aquela planície nas alturas para determinar seu tamanho — já que a neblina se espessava e impedia vermos mais que palmos além sem a interferência da brancura sobre as luzes e as formas.

— Estou imaginando que este platô seja bem comprido em algum sentido, mas bem estreito em outro. Vamos usar lanternas para não nos perdermos uns dos outros e vamos tentar chegar às bordas.

Havia mais de vinte lanternas disponíveis, o que facilitou o trabalho — embora elas fossem todas de baixa potência. Uma lanterna mais potente, ligada a um gerador, foi colocada junto ao avião. O primeiro explorador seguiu em direção contrária levando uma lanterna portátil, caminhou até que a luz em suas mãos ficasse quase imperceptível. Comunicando através de piscadelas em código, foi-lhe ordenado que voltasse um pouco e esperasse. O segundo explorador o alcançou e seguiu adiante, fazendo o mesmo tipo de arranjo. E assim, sucessivamente, vinte pessoas se revezaram sem chegar à borda do abismo.

Retornaram todos e continuava a ignorância entre saber ou nem pensar em que.

— Não dá para ir mais longe porque a neblina está se adensando — dizia o piloto. Se vocês se separarem mais vão se perder uns dos outros e aí passaremos também a ter a preocupação por vinte pessoas perdidas neste planalto desconhecido.

— Tenho uma ideia — sugeri. Porque não fazemos uma varredura em círculo depois que estabelecermos outra vez a fila das lanternas?

— Boa ideia — concordou o jovem executivo com seus nervosos óculos sem aro. Você quer ir na frente desta vez?

Senti-me honrado pela oferta e — diante do medo que já estava se instalando em todos — aceitei o encargo.

A longa fila de vinte pessoas com lanternas na mão se formou outra vez (desta vez mais curta que antes, devido ao aprofundamento do entardecer, adensando ainda mais a neblina). Na ponta da fila ia eu, pisando garbosamente e com muito medo aquele chão estranho e instável que às vezes parecia um carpete fofo e em outras era como um pântano turfoso.

Começou a varredura, do sul para o norte. Cada membro estava à distância de conversa do outro — e no silêncio daquela obscuridade branca vozes incorpóreas trocavam impressões do que aparecia, principalmente impressões do nada (porque, além de receios, nada havia).

Mas então eu o vi. Havia uma espécie de montanha que não havíamos visto e ela devia estar a um quilômetro do avião, não mais. Dela eu só via a fímbria, uma orla verdejante de coisas que pareciam musgos de um pretérito perdido.

— Eu acabo de ver alguma coisa — confessei. Vou sair do seu âmbito de visão para ir lá. Oriente-se pela minha voz. Se eu parar de falar, volte ao avião e tente buscar ajuda.

— Não faça isso, cara! Nós não sabemos nem onde estamos.

— Pelo que me consta isto aqui é qualquer lugar no norte do Paraná ou na serra da Mantiqueira, dependendo de quanto o comandante bebeu hoje antes de voar.

O rapaz que vinha atrás de mim tentou me convencer a não fazer aquela loucura, mas eu a faria ainda que ele tentasse me laçar. E ele tinha medo demais para tentar me seguir aonde eu estava indo.

— Parece ser uma montanha. É uma uma grande massa de rocha negra suja de musgo e líquens. Em alguns lugares parece haver folhas mirradas de plantas minúsculas e licopódios. Mas, hei! Esta coisa está mais perto e é menor do que parecia!

Meu interlocutor insistiu pela última vez para que eu voltasse, mas eu o ouvia apenas como um suave murmúrio na distância.

— Definitivamente isto aqui é, no máximo, uma pedra grande com alguma vegetação em cima. Estou começando a rodear em sentido horário. Se a base for mais ou menos no esquema em que estou vendo, deve ter um diâmetro de noventa metros, não muito mais.

Rodeando a rocha, então, foi que percebi a estranhíssima visão:

— Estou rodeando e até agora não vi nada. Hei!? O que é isso? Sujeito! Você não vai acreditar no que eu estou vendo aqui agora? Um orelhão!

A voz do penúltimo da fila era quase inaudível àquela altura:

— Volte, tem alguma coisa errada! Você está delirando.

Não estava. Diante de mim estava um telefone público azul-real. Novo como se tivesse sido acabado de instalar. Localizado dentro de uma área quadrada recortada na pedra maciça. Só mesmo rodeando a montanha de perto ou aproximando-se dela exatamente de frente para a entrada de labirinto era possível ver aquela peça de absurdo jazendo entre as nuvens naquela manhã de sexta-feira. E o mais extraordinário foi que, no instante exato em que meus pés pisaram pela primeira vez o recinto em que ele estava, ele tocou. E tocou ainda muitas vezes antes de eu ter coragem de atender.

Se eu lhe contasse o que havia do outro lado da linha, ou tudo que aconteceu depois, você não acreditaria. Muitas vezes uma história tem que terminar assim, porque tentar ir além quebrará o encanto. Deixo cada um de vocês com sua interpretação, mesmo porque eu não tenho muita certeza nem da minha, apenas do estranho mecanismo através do qual eu lhes chego, e das estranhas coincidências que passaram a permear a minha existência nesta nova condição.

Apenas reservo-me o direito de relatar o que ouvi, e de esperar que cada leitor encontre uma explicação satisfatória. Quando peguei aquele telefone e o levei ao ouvido eu senti um formigamento no meu braço, uma vontade louca de colocar de volta no gancho, de sair correndo no meio da neblina ou me atirar do penhasco. Porque sem que eu tivesse perguntado havia do outro lado uma voz que repetia “Terminou, terminou, terminou!” e quando eu gritei de volta “o que? o que? o que?” fez-se silêncio naquele lugar, como se eu estivesse só a flutuar entre nuvens brancas. Ouvi um sinal de ligação interrompida, pus de volta o aparelho e peguei de novo, e tive esta estranha necessidade de falar, mesmo sabendo que ninguém está me ouvindo aí do outro lado.

Originalmente escrito em 2005.


publicado por José Geraldo, às 07:28link do post | comentar
Os homens de lodo e de sonoaguardam o fim da última velarepetindo com vozes defuntassuas preces de cor sem sentido.O fascínio do latim está perdidoe a força do fantástico apagou-se,nenhum Aquiles romperá o nadapara lutar contra palavras ocas.A Torre de Marfim sofreu o golpe,os que nela vivem se espantam,mas as plantas crescem sem Platãoe os pássaros não ouvem Nietzsche.De dentro do esterco nasce a rosa,de dentro dos ruídos, porém, nada.Nada nas cores deste dia a certezade que este esterco é estéril.Os frisos de Atenas são vendidosem cópias plásticas baratas,tenho Tutancâmon em um quadroe o Discóbolo num livro.E tudo tem o seu lugar correto,nesta catedral de gostos mortose de dons postiços.Não tenho memória de ter sido,mas tenho palavras com que cavosaudades falsas de enfeite para o livro.Belas palavras que acendem-mea vontade de ter acontecido,mas isso não basta que me façamais que um tolo com sede de sentido.

Escrito originalmente em 1999, ligeiramente revisado nesta data.


22
Set 10
publicado por José Geraldo, às 04:26link do post | comentar

Nietzsche colocou em seu livro Assim Falou Zaratustra um subtítulo interessante: «um livro para todos e para ninguém». Trata-se de uma declaração quase esfíngica: como um livro pode, ao mesmo tempo, ser destinado a todo mundo e a ninguém? A solução do enigma surge quando você analisa o livro em si, pelo seu conteúdo e pela sua forma. Quanto à forma, é um livro para todos devido ao estilo bíblico e linear da narrativa (sim, embora escrito por um filósofo, trata-se de uma narrativa): supôs o autor que estas escolhas tornariam o livro acessível a praticamente todos os que fossem alfabetizados. Por isso «um livro para todos». No entanto, o conteúdo desta obra é particularmente difícil, por lidar com dilemas existenciais cuja própria reflexão é rejeitada por estes seres cordatos que habitam as civilizações, esse homo vulgaris que persegue a gratificação de seus desejos imediatos tal e qual um cão correndo atrás do próprio rabo. Por isso é um livro para ninguém.

Há certos assuntos sobre os quais falamos que deveriam ser também agraciados com um subtítulo equivalente: para todos, porque é perfeitamente possível falar deles de uma forma que muita gente entenda; para ninguém, porque é quase impossível achar quem se interesse por eles. Um de tais assuntos é a política.

O lugar comum (que é o sistema através do qual pensam, de forma quase exclusiva, as pessoas sem imaginação e/ou sem inteligência própria) dita (no sentido de «ditadura») que «político é tudo safado» — talvez porque as pessoas que assim o dizem espelham os políticos em si mesmas. Embora eu não ponha a mão no fogo por nenhum político, essa afirmativa é preguiçosa e burra. Preguiçosa porque é um preconceito e porque exime quem assim pensa da obrigação de informar-se (ai, isso envolve ler, ah, e ler dói), de refletir, de discutir e de concluir. É muito mais fácil dizer que todo político é safado e não ter que se dar a esse trabalho.

Como vocês já devem ter percebido, existe uma estreita relação entre a nossa postura diante dos livros e as causas desse desastre que é a nossa política. Nosso povo lê pouco, e por ler pouco ele não sabe quase nada daquilo que não diga respeito ao seu horizonte imediato. E por ser ignorante daquilo que não lhe diz respeito de forma direta, ele não é capaz de discutir a política.

Acontece que os ignorantes não vão querer admitir isso. No fundo, apesar do desprezo verbal pela cultura que vive na boca de muita gente, ser ignorante não é bonito. Então é preciso sentar em cima desse rabo grande e peludo e fingir que ele não existe. A incompetência de ter uma discussão sobre política é mascarada pelo desinteresse, justificado pela constatação, necessariamente desinformada, de que todo político é safado.

O curioso é que essas pessoas que assim pensam estão duplamente equivocadas. Não apenas estão partindo para uma conclusão preconceituosa (porque é uma generalização desinformada), mas estão abordando o problema pelo lado errado: política não se faz de cima para baixo. É perfeitamente justificável a sensação de que nós não temos nenhum tipo de controle sobre o que pensam e fazem os políticos nas altas esferas do poder. Mas eles não chegaram lá de paraquedas, eles passaram por um longo processo, que muitas vezes começou numa candidatura à vereança em sua cidade. E é nesse momento que a política distante se torna próxima que vemos, com maior vergonha, o quanto as mesmas pessoas ignorantes são também desonestas.

Safado é povo, não o político. O político é safado porque ele é parte do povo. Talvez se os nossos políticos fossem estrangeiros eles fossem menos safados (ou mais). Mas como eles são brasileiros como nós, eles são tão safados quanto somos, na média.

Safado é o eleitor que vende seu voto em troca de cimento, de um emprego, de gasolina, de um par de tênis ou de dinheiro. Quem prostitui a sua opinião em troca de vantagens imediatas (tal qual o macaco da fábula, que vende a cauda por um pão) não tem moral para acusar os nosso políticos de coisa alguma.

Safado é o eleitor que se orgulha de ser parte do curral eleitoral de um político: «aqui no bairro tal a gente vota é no fulano», ou «sicrano é o candidato da cidade X». Abdicando da própria opinião e aceitando ser levado no cabresto (como burro que é), esse eleitor vai reclamar do que?

Essas coisas que eu disse acima não são filosofias profundas, dignas de um Nietzsche, de um Schopenhauer ou de um Espinoza. São coisas simples e claras que para concluir basta você pensar com calma e somar dois com dois. No entanto elas serão incompreendidas e rechaçadas. A transparência do raciocínio será rejeitada pela oposição do conteúdo ao que é confortável ao leitor. «Eu fiz isso, diz minha memória. Eu não posso ter feito isso, diz meu orgulho. Por fim a memória cede».

Por isso estas palavras que disse são para todos e para ninguém. São para todos porque qualquer um que saiba ler as lerá e compreenderá. Para ninguém porque com elas não ganharei nenhum seguidor no blogue, não farei nenhum amigo, não receberei sequer um elogio, não mudarei a postura de um eleitor sequer. O ser humano nunca muda, de fato: apenas se torna, cada vez mais, aquilo que é. A única mudança possível é a que se faz nas gerações futuras, através da educação de nossos filhos. Esta é a tragédia da humanidade: os estúpidos têm mais filhos e têm mais tempo para ensinar.


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