Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
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Abr 11
publicado por José Geraldo, às 09:00link do post | comentar
Este texto é parte do romance “A Casa no Fim do Mundo”, de William Hope Hodgson (1907), que estou traduzindo em capítulos semanais. Visite o Índice para lê-los em sequência.

Enfim, depois de um tempo eu cheguei às montanhas. Então o rumo de minha jornada foi alterado e comecei a me mover ao longo de seus sopés até que, de uma vez, eu percebi que havia chegado diante de uma vasta falha que se abria através das montanhas. Através dela eu fui levado, movendo-me a uma velocidade não muito grande. Dos meus dois lados se erguiam imensas paredes escarpadas de uma substância rosada parecida com pedra. Muito acima eu discernia uma fina faixa vermelho, onde a boca do abismo se abria, entre inacessíveis picos. Dentro ele havia escuridão, profundeza e um silêncio sombrio e gelado. Por um momento eu segui firmemente adiante e então, por fim, eu vi à frente um forte brilho vermelho que significava que eu estava me aproximando do outro lado da ravina.

Um minuto veio e passou, e eu cheguei à saída do abismo, contemplando um enorme anfiteatro de montanhas. Porém, das montanhas e da grandiosidade terrível daquele lugar eu não tomei nota, porque estava confundido com a surpresa de perceber, à distância de vários quilômetros, ocupando o centro da arena, uma estupenda estrutura aparentemente construída de jade verde. Ainda assim, não foi a descoberta pura e simples do edifício que me assustou tanto, mas o fato, que a cada minuto ficava mais aparente, de que em nenhum detalhe particular, não ser pela cor, pelo material e pelo tamanho, aquela estrutura solitária diferia desta mesma casa em que eu vivo. Por um momento eu continuei a contemplar fixamente. Mesmo então eu mal podia acreditar que eu estava enxergando direito. Em minha mente uma pergunta se formou, reiterando-se incessantemente: “O que isto significa? O que isto significa?” e eu não sabia imaginar uma resposta, nem tentando usar toda a minha imaginação. Eu só parecia capaz de maravilhar-me e ter medo. Por um momento a mais eu olhei, notando cada vez um novo ponto de semelhança que me atraía. Por fim, cansado e doloridamente confuso, eu desviei os olhos para contemplar o resto do estanho lugar que havia penetrado.

Até aquele momento, eu tinha estado tão distraído em meu escrutínio da Casa que eu não tinha dado nenhuma atenção aos arredores. Então quando olhei comecei a entender qual era o tipo de lugar a que chegara. A arena, pois assim eu a chamei, parecia um círculo perfeito de cerca de vinte quilômetros, ou pouco menos, a Casa, como mencionei, ficava bem no centro. A superfície do lugar, tal como aquela da Planície, tinha uma aparência peculiar, nebulosa, que não era bem exatamente uma neblina.

Após a rápida pesquisa, meu olhar passou logo acima, ao longo das encostas das montanhas ao redor. Quão silenciosas elas eram. Eu acho que aquela quietude abominável me enervava mais do que qualquer coisa que tivesse visto ou imaginado. Eu olhava para cima, em direção aos cumes imensos, que se erguiam às alturas. Lá no alto, a vermelhidão impalpável dava uma aparência borrada a tudo.

E então, enquanto olhava, curiosamente um novo terror me atingiu. Porque além, entre os picos meio apagados à minha direita, eu notei uma vasta forma negra e gigantesca. Ela crescia diante dos meus olhos. Ela tinha uma enorme cabeça equina, com gigantescas orelhas e parecia olhar atentamente para dentro da arena. Havia algo em sua pose que me dava a impressão de eterna vigilância — de haver cuidado daquele lugar funesto desde eternidades desconhecidas. Lentamente o monstro se tornou mais visível para mim e então minha visão saltou dele para outra coisa mais além e mais alto entre os precipícios. Por um longo minuto eu observei, amedrontado. Eu tinha a estranha impressão de algo não de todo estranho, como se alguma coisa me provocasse no fundo da mente. A coisa era preta e tinha quatro braços grotescos. A fisionomia parecia indistinta ao redor do pescoço, eu notei vários objetos de cores claras. Lentamente os detalhes apareceram para mim e eu percebi, friamente, que eram caveiras. Corpo abaixo havia outro cinto, que se mostrava menos escuro contra o tronco negro. Então, enquanto ainda me perguntava o que a coisa poderia ser, uma lembrança escorregou para minha consciência e eu simplesmente soube que estava olhando para a monstruosa representação de Kali, a deusa hinduísta da morte.

Outras lembranças de meus dias de estudante deslizaram em meus pensamentos. Meu olhar retornou à imensa Coisa com cabeça de animal e simultaneamente reconheci-a como o antigo deus egípcio Set, ou Seth, o Destruidor de Almas. Com o reconhecimento chegou-me um questionamento arrebatador: “Dois dos…” Eu parei, e tentei pensar. Coisas além de minha imaginação miravam minha mente assustada. Eu vi, obscuramente, “os velhos deuses da mitologia” e tentei compreender o que isto implicava. Meu olhar permanecia, hesitante, entre os dois. “Se…” Uma ideia veio subitamente, e eu me virei e olhei rapidamente para cima, buscando entre os lúgubres precipícios, longe à minha esquerda. Algo se ocultava lá, sob um grande pico, uma forma cinzenta. Não entendi como não o vira antes, e então lembrei que ainda não tinha olhado naquela direção. Eu vi mais claramente então. Ele era, como disse, cinzento. Ele tinha uma tremenda cabeça, mas não olhos. Aquela parte de sua face era vazia.

Então eu vi que havia outras daquelas coisas entre as montanhas. Mais além, reclinado sobre um promontório elevado, eu discerni uma massa lívida, irregular e vampiresca. Ela parecia amorfa, a não ser por uma imunda cara animalesca. E depois eu vi outros, e havia centenas deles. Eles pareciam saindo das sombras. Vários eu reconheci quase imediatamente como deuses mitológicos, outros eram estranhos, muito estranhos, além do poder de concepção da mente humana. Em cada lado eu olhava e via mais, continuamente. As montanhas estavam cheias de Coisas estranhas: deuses ferozes, e horrores tão atrozes e bestiais que por impossibilidade e decência me nego a tentar descrevê-los. E eu estava cheio de um horror total, que me subjugava com medo e repugnância, mas mesmo assim, eu pensava em muitas coisas. Haveria algo verdadeiro, afinal de contas, nos antigos ritos pagãos, mais do que a mera deificação de homens, animais e elementos? A possibilidade me atraía: será que havia?

Depois uma outra pergunta se repetia. O que eram eles, aqueles deuses bestiais, e os outros também? A princípio eles me pareceram apenas monstros de escultura colocados indiscriminadamente pelos picos inacessíveis e precipícios das montanhas ao redor. Mas ao examiná-los com mais cuidado e atenção a minha mente começou a chegar a conclusões mais elaboradas. Havia algo a respeito deles, um tipo indescritível de vitalidade silenciosa que sugeria, para a minha consciência em expansão, um estado de vida inerte, uma coias que não era exatamente vida como a conhecemos, mas uma forma inumana de existência, que bem pode ser comparada a um transe imortal, uma condição a qual é possível imaginar que continue eternamente. “Imortal” — a palavra apareceu em meus pensamentos sem eu a evocar, e logo eu estava imaginando se esta não seria a maneira de os deuses serem imortais.

Foi então, em meio aos meus pensamentos e teorias, que algo aconteceu. Até então eu tinha estado coberto pelas sombras da saída da grande falha. Mas sem nenhuma intenção de minha parte eu saí da penumbra e comecei a me mover lentamente através da arena, em direção à Casa. Com isso eu abandonei todo pensamento sobre aquelas prodigiosas Formas acima de mim e só pude olhar, amedrontado, para a tremenda estrutura em cuja direção eu estava sendo levado tão sem cuidado. Mas embora procurasse diligentemente, não conseguia descobrir nada que eu já não tivesse visto, o que me acalmou gradualmente.

Naquele momento eu havia chegado ao ponto médio entre a Casa e a ravina. Tudo ao redor estava coberto pela forte solidão do lugar e o silêncio ininterrupto. Firmemente eu me aproximava do grande edifício. Então, de uma vez, algo me atraiu a visão, algo que veio dos lados de um dos suportes da Casa, e logo apareceu plenamente. Era uma coisa gigantesca, e se movia num passo curioso, andando quase ereto, à maneira humana. Mas estava quase sem roupas, e tinha uma aparência notavelmente luminosa. Foi, porém, a face que me atraiu e me assustou mais. Era a de um suíno.

Silenciosa, propositalmente, observei essa horrível criatura e esqueci meu medo, momentaneamente, prestando atenção em seus movimentos. Ela estava caminhando incomodamente ao redor do edifício, parando ao chegar a cada janela para olhar dentro e testar os caixilhos com os quais — tal como nessa casa — elas estavam protegidas, e sempre que chegava a uma porta, empurrava-a e enfiava o dedo na tranca furtivamente. Evidentemente o ser estava procurando uma entrada na Casa.

Eu tinha chegado então a menos pouco mais de um terço de um quilômetro da grande estrutura e ainda estava sendo empurrado para a frente. Abruptamente a Coisa se virou e olhou horrendamente em minha direção. Ela abriu a sua boca e pela primeira vez a paralisia daquele lugar abominável foi rompida por uma voz profunda e grave que me aumentou o medo e a apreensão. Imediatamente eu tomei consciência de quele ela estava vindo até mim, rápida e rasteiramente. Em um instante já havia andado metade da distância que havia entre nós. E eu ainda estava sendo levado inevitavelemente ao seu encontro. Menos de noventa metros depois e a ferocidade brutal do gigante me emudecia com um sentimento de horror inconsolável. Eu poderia ter gritado, na supremacia de meu medo, e então, no momento de mais extremo desespero, eu percebi que estava olhando a arena de cima, de uma altura que rapidamente crescia. Eu estava subindo, subindo. Em um instante inconcebivelmente curto eu tinha chegado a uma altitude de mais de trinta metros. Abaixo de mim, o lugar onde eu havia estado logo antes, estava ocupado pela grotesca criatura suína. Ela tinha caído de quatro e estava fuçando e escavando, como um verdadeiro porco, no chão da arena. Em um momento ela saltou sobre seus pés, olhando para cima, com uma expressão de desejo em seu rosto, tal como nunca a vi neste mundo. Continuamente eu ficava mais alto. Em poucos minutos, ao que parece, eu tinha me erguido acima das grandes montanhas, flutuando só, longe entre as nuvens vermelhas. A uma tremenda distância abaixo a arena aparecia, indistintamente, com a enorme Casa não parecendo mais que uma pequena nódoa verde. A coisa suína não era mais visível.

Então eu passeava sobre as montanhas, acima da enorme extensão da planície. Ao longe, sobre sua superfície, na direção do sol anelar, aparecia um borrão confuso. Olhei para ele, indiferentemente. Ele me parecia algo cuja primeira impressão eu tivera no anfiteatro entre as montanhas.

Com uma sensação de cansaço eu olhei para cima, para o imenso anel de fogo. Que coisa estranha ele era! Então, ao olhar, de seu escuro centro saiu um jorro súbito de fogo extraordinariamente vívido. Comparado ao tamanho do centro negro, ele não era nada, mas mesmo assim era por si mesmo estupendo. Com interesse desperto, eu observei cuidadosamente, notando sua estranha fervura e brilho. Então, em um momento, a coisa toda ficou ofuscada e irreal, e assim saiu de minha visão. Muito surpreso, eu olhei para baixo, para a Planície de onde ainda estava me elevando. Assim eu tive uma nova surpresa. A Planície, toda ela tinha desaparecido e somente um mar de névoa vermelha estava estendido abaixo de mim. Gradualmente eu o observei ficar mais remoto e definhar em um mistério apagado e avermelhado contra a noite impenetrável. Um momento depois e até isso tinha desaparecido, e eu estava envolto em uma escuridão impalpável e sem luz.


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