Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
30
Jul 11
publicado por José Geraldo, às 00:30link do post | comentar

Para autores, em sete lições

  1. Não os escreva.
  2. Se porventura acabar escrevendo algum, jogue-o fora.
  3. Se por razões pessoais não conseguir jogá-lo fora, esconda-o.
  4. Se tiver de publicar, não faça de seus amigos os seus fregueses. Amizade e negócios não combinam.
  5. Se vender a amigos e eles elogiarem, não peça detalhes. Evite a decepção de descobrir que estão elogiando porque são amigos, mas nem leram.
  6. Somente se pedir detalhes (oh, ousadia!) e eles disserem coisas que fazem sentido, suspeite que o livro seja mesmo bom.
  7. Nesse caso, chore os que jogou fora.

Para leitores, em dez lições.

  1. Leia a sinopse. Se a sinopse já é um ruim, imagine o livro.
  2. Não ligue para o prefácio. Prefácios são escritos por amigos, ou por alguém pago para isso.
  3. Desconfie dos livros que têm longas introduções e apêndices, a menos que o nome do autor seja John Ronald Reuel Tolkien. Se precisam de muita explicação, é porque não conseguem explicar-se por si mesmos.
  4. Antes de ler um livro de setecentas páginas escrito por um desconhecido, escreva aquele livrinho de cem páginas que ele também escreveu. Quem escreve mal um livro de cem páginas, dificilmente se sairá melhor num outro mais longo.
  5. Evite livros que tentam atingir vários públicos ao mesmo tempo. Imagine um automóvel ao mesmo tempo econômico, compacto, fora-de-estrada, familiar, de luxo e esportivo.
  6. Desconfie de livros ambientados em lugares inventados: é um truque fácil para esconder a preguiça de pesquisar sobre lugares reais ou a falta de vivência real do autor.
  7. Quando o autor diz ostensivamente que o livro é resultado de anos de trabalho, ele está implorando que você goste.
  8. Desconfie de apelos emocionais (livros que falam de algum lugar pobre, da guerra que está na moda ou de lugares recentemente focados pela “caridade” internacional.
  9. Fuja de livros que têm muitos erros de ortografia. Se a editora não corrige o que é mais fácil de detectar, então esqueça revisão estilística, aconselhamento editorial ou uma política de seleção focada na qualidade.
  10. Nenhum livro de auto-ajuda presta. Eu disse “nenhum”. Isto inclui este em que você está pensando e também aquele que mudou a sua vida, e também aquele que todo mundo leu. Se acha que presta, talvez seja hora de variar suas leituras. Quem só come arroz provavelmente não imagina o gosto que feijão tem.

29
Jul 11
publicado por José Geraldo, às 11:46link do post | comentar | ver comentários (1)

Não houve julgamento formal. Ficou semanas preso, comendo do péssimo pão e da pior sopa. Bateram-lhe um pouco, mas não excessivamente. Um dia, por fim, puseram-no dentro de uma viatura no fim da madrugada, depois de lhe terem dado uma última sova, e o levaram por uma estrada de terra, solto e aos solavancos dentro do porta malas. A princípio parecera que seria morto em alguma clareira de floresta à beira da estrada, mas não foi o que aconteceu. O carro parou em um cruzamento deserto e três agentes abriram a tampa traseira, exumando-o de seu desconforto. Dois estavam armados com fuzis. O terceiro, que parecia ter certa autoridade, tentou pôr-lhe de pé e limpou com um lenço molhado algumas das manchas de sangue que haviam ficado na gola dura da camisa de flanela azul. Tinha um ar meio paternal, parecendo constrangido ao fazer aquilo.Devolveu-lhe sua mochila de lona puída e entregou-lhe um pedaço de papel cartão:

— Tome, garoto, sua passagem para a liberdade.

O “garoto” notou que havia outros dois agentes, também com fuzis. Perscrutavam o silêncio doce da floresta outonal. Os quatro não tinham nada da flexibilidade bonachona e grisalha do chefe.

— Como assim, “liberdade”?

— Está livre. Vai.

O “garoto” ainda não acreditava. Olhou para o cartão, estalando de novo. Ali estava impresso o seu nome completo, em caracteres gordos, batidos e rebatidos por uma máquina de escrever que não tinha nenhuma dúvida. Mas acima do nome jazia, terrível, a explicação da liberdade que lhe ofereciam: era um passaporte de lobo.*

Era inútil questionar. Poderia ter sido morto por participar daquela maldita reunião. Alguns tinham sido, aqueles idiotas idealistas. Alguém, no entanto, tivera pena de sua ingenuidade e de sua estupidez e lhe salvara de ser esquartejado por um açougueiro ou condenado a definhar nos trabalhos forçados. Em vez disso ganhara um passaporte de lobo e nunca mais poderia ver uma rua ou praça com os seus próprios olhos. Sua vida normal acabava ali na encruzilhada. Nunca mais veria Valentina, nunca mais veria o irmão Alexandre, nem os bons amigos da faculdade. “Melhor assim”, conformou-se, “melhor viver como um lobo do que ser entregue à família em um saco de ossos, ou emagrecer até o fim erguendo muros inúteis no deserto.” Nasci ali outro lobo.

Os cinco agentes entraram na pesada e ruidosa limusine e fizeram o retorno. Com os fuzis aparecendo pelas janelas. Teve um pressentimento ruim, correu e pulou pelo barranco, rolando pela encosta. Ouviu as risadas dos homens: “Temos um lobo esperto, camaradas!”

O ruído da limusine desapareceu na distância, mas o “garoto” não conseguiu ter coragem suficiente para retornar à estrada. Um Kalashnikov é capaz de enviar uma bala a dois quilômetros de distância. E um atirador de elite é capaz de acertar um homem a essa distância. Dois fatos que se casam. Aquele lobo aprendera no primeiro dia que a sobrevivência depende de acreditar em pressentimentos ruins.

Por fim, quando a respiração começou a se aquietar, ergueu-se com muito cuidado e tentou retornar à encruzilhada, para ler as placas, entender onde estava, descobrir para onde era o quilômetro cento e um. Quando subiu de volta encontrou quatro homens barbados, todos vestidos com rústicas roupas de pele ou lã sem tintura. Não era preciso perguntar: eram lobos, como ele.

— Mas o que temos aqui, camaradas!? Um delinquente juvenil? Ou talvez infantil?

O “garoto” não respondeu. Engoliu o orgulho sem que ele sequer arranhasse a garganta: se quisesse sobreviver na floresta, teria de ser amigo dos outros lobos. Sozinho, nenhum deles aguentaria o inverno. Apenas ficou sério enquanto as gargalhadas rolavam naqueles rostos brutos. Por fim eles pararam de rir. O mais ruivo deles lhe encarou, com a expressão mudada, e lhe perguntou com uma voz amistosa, mas que trovejava nos ouvidos como o rompante de um barítono:

— Mas o que esses loucos do Comissariado estão fazendo? Por que você está aqui, filho?

— Associação criminosa para conspirar contra o estado e o povo, camarada.

As expressões dos lobos se franziram. Todos reprovavam. Havia uma certa ética entre eles, conforme posteriormente soube. Tinham um certo senso de justiça, mesmo sendo, quase todos, criminosos comuns.

— Não vão perguntar quem eu sou?

— Garoto, aqui na floresta não importa mais quem você era. Importa é quem você está disposto a ser. Entre a floresta e o quilômetro 101 você tem liberdade para ser qualquer coisa que deseje, o único problema é que você sempre será um lobo. Aqui na nossa alcatéia eu sou chamado de Vermelho. Esse aqui é o Orelhudo, aquele é o Pintado e o que está lá distraído é o Duende. Você vai ser o Garoto, e isso é tudo.

— Quem escolhe esses nomes? Parecem nomes de animais, de… cães.

— Nunca mais diga isso, Garoto. Os nomes são a parte mais importante da identidade de um homem… e é por isso que não usamos nomes — gargalhou o Vermelho, como se tivesse contado uma piada.

Era verdade, nenhum lobo possui identidade. Não possui matrícula, nem endereço, nem salário e nem emprego. Possui apenas o seu passaporte, que lhe dá o direito de estar vivo, desde que esteja sempre além do quilômetro 101.

Convidaram-no a seguir com o grupo de volta à aldeota onde residiam. Havia lá um grupo de lobos, em sua maioria gente do sul. Tinham cumprido pena nos presídios da capital e, em vez de enviados de volta às suas terras de origem, haviam sido soltos na floresta com passaportes de lobo, talvez na esperança de que o inverno desse cabo de seus traseiros.

Enquanto caminhavam, com o passo cuidadosamente calculado, Pintado puxou conversa, dizendo que o grupo andava caçando pela floresta quando o carro do Comissariado apontou zoeirento na longa reta. Poderia ser um cadáver para a floresta devorar, mas era um lobo, vivo. Todos tinham fica surpresos de vê-lo, especialmente seu salto e sua fuga pelo barranco:

Aqueles canalhas — explicou — costumam atirar nas pernas dos infelizes. Se não há ninguém por perto, o coitado sangra até morrer. E no mínimo fica manco. Você foi esperto de pular.

— Tive um pressentimento ruim.

— A floresta favorece quem tem pressentimentos, e que prestam atenção neles — interferiu o Vermelho, que claramente parecia ser o líder do grupo.

Por fim chegaram à aldeia, onde as mulheres, em sua maioria camponesas rústicas, de olhos amendoados e lenços na cabeça, estavam preparando sopa de repolho. O ar estava infectado daquele cheiro forte de gordura e azedo.

Garoto teve permissão para se sentar à sombra de uma rústica tenda de peles, que parecia apegada a uma casa de madeira que somente por milagre parecia ficar de pé. Ali se sentou, pensativo, chorando os dias de estudante na faculdade, os cabelos macios de Valentina, o calor perfumado de lavanda da cama enorme na casa dos pais. Confortos e esperanças definitivamente mortos. Era um lobo.

Uma menina mestiça, com os olhos só um pouco mais fechados que o normal, mas com cabelos tão claros quanto o de seu pai, vinha agarrada à saia rodada da mãe, que voltava da horta com mais cabeças de repolho. Garoto detestava repolho, mas teve a impressão de que teria de comer até fartar-se, durante muito tempo. A menina o viu e começou a acompanhar com os olhos enquanto se afastava em direção ao que parecia ser uma espécie de cozinha coletiva. Por fim, depois de trocar algumas palavras com a mãe, largou-a e veio correndo pelo pátio poeirento. Parou diante dele, com olhos ardentes de curiosidade. Era um novo lobo na matilha. A jovem cria de algum lobo mais antigo queria saber quem ele era, cheirá-lo e definir sua natureza.

Garoto pegou então um pedaço de palha de painço do chão e a dobrou rapidamente entre os dedinhos, finalmente fazendo com que desparecesse diante dos olhos firmes da menina. Ela riu com o truque barato de mágica e Garoto fez uma amiga, pena que ela só tinha seis anos de idade.

Pegou de novo o seu passaporte de lobo e dedicou-lhe mais atenção. Nunca vira um. Ninguém nunca vira. A própria existência dos lobos era algo quase lendário. Só ouvira falar deles com mais detalhes durante os meses de cadeia. Havia muitos lá que sonhavam sair para a floresta, mas a maioria morreu sangrando nas mãos dos torturadores. Garoto sacudiu a cabeça tentando esquecer isso.

Viu então a ofensa estampada naquelas letras rebatidas com força, com manopla intensa de quem tem certeza do que quer. “Profissão: anão de circo”. Teve ganas de chorar mais uma vez. Dezoito anos de estudos, prestes a formar-se em uma faculdade de engenharia. Noivo para casar. De repente se mete num estúpido grupo de poetas malditos. O que fora fazer lá, bom Deus dos idiotas? Pronto, a vida que sonhara estava reduzida àquilo. “Profissão: anão de circo”. Dezoito anos de estudos em vão: para o sistema ele não era, ao contrário dos outros, nem professor, nem médico, nem policial, nem mineiro, nem engenheiro, nem lixeiro, nem sequer um rufião ou um assassino. Era um anão. E teria de conviver com aquela lástima. Com aquela ofensa. Era aquele bilhete de papel cartão que lhe daria o direito de um dia sair da condição de lobo e retornar à vida, mesmo que apenas para o convívio com o irmão e os pais. Uma carreira era impensável já, o amor de Valentina, uma quimera perdida nalgum sonho do passado.

Anão de circo. E pudera ter sido um grande engenheiro se não tivesse se metido a poesia.

* “Passaporte de Lobo” (Volchiy Bilet) era o apelido coloquial do documento de identidade oferecido pela polícia soviética aos condenados que saíam da cadeia. Em geral o documento continha a proibição de que seu portador se apresentasse a menos de 100 quilômetros de qualquer centro urbano, sob pena de ser preso ou até executado. Com isso, o indivíduo tinha de levar uma “vida de lobo” nas regiões remotas, onde frequentemente eram fundadas pequenas comunidades, a 101 quilômetros das cidades. Anteriormente o nome havia sido empregado para os diplomas de conclusão de concurso que as faculdades ofereciam aos estudantes que colavam grau mas não conseguiam ter uma tese aprovada. Profissionalmente, o efeito disso era o jovem não ter emprego em centros importantes, tendo de ir trabalhar em cidadezinhas.

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26
Jul 11
publicado por José Geraldo, às 09:31link do post | comentar
Este texto é parte do romance “A Casa no Fim do Mundo”, de William Hope Hodgson (1907), que estou traduzindo em capítulos semanais. Visite o Índice para lê-los em sequência.

Acordei assustado. Por um momento eu me perguntei onde estava. Então a lembrança me retornou…

O cômodo ainda estava iluminado por aquela estranha luz — meio sol e meio lua. Eu me sentia renovado, e a dor do cansaço e da velhice me havia deixado. Aproximei-me da janela bem devagar e olhei para fora. No alto, o rio de chamas ondulava para cima e para baixo, Norte e Sul, em semicírculo de fogo dançante. Como um poderoso trenó puxado pelo tempo ele me parecia — em uma súbita impressão minha — estar derrubando os pinos dos anos.1 Porque a passagem do tempo tinha se acelerado de uma tal forma que não restava mais nenhuma sensação da passagem do sol de Leste para Oeste. O único movimento aparente era a oscilação norte-sul da correnteza da luz solar, que tinha se tornado tão rápida que bem poderia ser descrita como um tremido.

Ao olhar para fora me sobreveio a lembrança súbita e inconsequente daquela outra viagem através dos mundos exteriores. Lembrei da visão que tivera, ao me aproximar do Sistema Solar, dos planetas girando rapidamente em torno do sol, como se o governo do tempo tivesse sido posto em suspensão e se tivesse permitido à Máquina do Universo correr toda uma eternidade em poucos momentos ou horas. A lembrança passou, juntamente com a impressão, apenas parcialmente compreendida, de que me havia sido concedida uma visão de tempos e espaços futuros. Olhei de novo para fora, para o que pareciam os estertores da correnteza da luz solar. A velocidade ainda parecia aumentar enquanto eu olhava. Diversas gerações transcorreram enquanto eu observava.

De repente me dei conta, de uma maneira grotescamente séria, de ainda estar vivo. Pensei no Pimenta e me perguntei por que eu não seguira o seu destino. Ele chegara à sua idade final e falecera, provavelmente de velhice mesmo. E ali estava eu, vivo, centenas de milhares de séculos após os meus devidos anos de vida.

Por um momento eu pensei distraídamente. “Ontem…” eu me interrompi subitamente. Ontem! Não havia ontem. O ontem de que eu falava tinha sido engolido pelo abismo dos anos, muitas eras antes. Eu me senti assustado de pensar.

Então eu desviei da janela e olhei pelo cômodo ao redor. Ele parecia diferente, estranha e completamente diferente. Então eu percebi o que fazia com que parecesse tão estranho. Ele estava vazio: não havia sequer uma peça de mobília no cômodo, nem um móvel solitário sequer. Logo minha surpresa passou, quando me lembrei que esse era o fim inevitável do processo de apodrecimento que eu começara a ver antes de dormir. Milhares de anos! Milhões de anos!

Sobre o chão se espalhava uma camada profunda de poeira, que chegava quase à metade da altura até a moldura da janela. Tinha crescido incomensuravelmente enquanto eu dormira, representava a a poeira de eras sem conta. Sem dúvida os átomos da antiga mobília apodrescida ajudavam a aumentar seu volume, e em algum lugar estariam os do Pimenta, há tanto tempo morto.

Logo me ocorreu que eu não tinha lembrança de caminhar imerso até os joelhos naquela poeira depois de ter acordado. Na verdade, uma quantidade incrível de anos tinha se passado desde que eu me aproximara da janela, mas era evidentemente pouco, comparada aos espaços incontáveis de anos que eu imaginava que tinham corrido enquanto eu dormira. Lembrei-me então de que adormecera sentado em minha velha cadeira. Ela tinha também desaparecido&hellip? Olhei na direção onde ela estivera. Obviamente não havia nenhuma cadeira visível. Não soube, porém,se ela tinha desaparecido antes ou depois de eu ter acordado. Se ela tivesse apodrecido sob mim, certamente eu teria sido acordado pelo seu desmoronar. Então me lembrei da poeira densa que cobria o chão e que poderia ter sido suficiente para amortecer a minha queda, de forma que era bem possível que eu tivesse dormido sobre a poeira durante um milhão de anos ou mais.

Enquanto esses pensamentos atravessavam a minha mente, olhei de novo, casualmente, na direção onde a cadeira tinha estado. Então, pela primeira vez, notei que não havia marcas de minhas pegadas na peira, entre ela e a janela. Mas então, eras sem conta tinham se passado desde o meu despertar — dezenas de milhares de anos! Meus olhos se detiveram pensativamente no lugar onde a cadeira estivera. Então, eu passei da abstração à atenção, pois no seu lugar eu percebi uma ondulação alongada, arredondada pela poeira pesada. Mesmo assim não estava muito oculta sua natureza, pois eu podia perceber o que a causava. Percebi ser — e tremi com a descoberta — um corpo humano, morto por milhares de anos, deitado ali, mais ou menos no lugar onde eu estivera dormindo. Ele estava deitado sobre seu lado direito, com as costas voltadas para mim. Eu conseguia perceber e traçar cada curva e cada ponto, suavizado e impregnado pela poeira negra, tal como estava. De uma maneira vaga eu tentei explicar sua presneça lá. Lentamente eu comecei a ficar espantado, pois me veio o pensamento de que ele estava exatamente onde eu deveria ter caído quando a cadeira desmoronara.

Gradualmente começou a ser formar uma ideia em minha mente, um pensamento que agitou o meu espírito. Parecia-me horrível e insuportável, mas ele cresceu comigo até se tornar uma convicção. O corpo debaixo daquela capa de poeira, aquele manto das eras, não era nada mais nem menos que a minha velha carcaça. Não tentei tirar a prova disso. Eu sabia, e me perguntava como demorara tanto para perceber. Eu tinha me dornado uma coisa incorpórea.

Por um momento me detive tentando ajustar os meus pensamentos a tal novo problema. Por fim — não sei depois de quantos anos — atingi um certo nível de calma, suficiente para me capacitar a prestar novamente atenção ao que ocorria ao meu redor.

Notei então que o monturo alongado tinha desmoronado, nivelado com o resto da poeira. E átomos novos, impalpáveis, tinham se acamado sobre a mistura de poeira de sepultura que as eras tinham moído. Por um longo tempo eu estivera afastado da janela. Gradualmente me recompus, enquanto o mundo deslizava através dos séculos, rumo ao futuro.

Então comecei a explorar o cômodo. Então vi que o tempo estava começando o seu trabalho de destruição até mesmo no velho e estranho edifício. Ele ter permanecido ao longo dos anos já me parecia prova de que era diferente de qualquer outra casa. Não me lembrava, de forma alguma, da percepção de que estivesse envelhecendo. A razão disso, porém, eu não poderia dizer. Somente depois de ter meditado sobre o caso durante um espaço considerável de tempo que eu compreendi finalmente que o extraordinário tempo que ele durara já teria sido suficiente para pulverizar completamente até as pedras de que estava feito, se elas tivessem sido retiradas de qualquer pedreira terrena. Ele estava, porém, começando a apodrecer. Todo o reboco tinha caído das paredes e todo o madeiramento do cômodo já havia desaparecido muito tempo antes.

Enquanto eu contemplava, um pedaço de vidro, de um dos painéis em forma de diamente, caiu ao chão com um ruído surdo, em meio à poeira que se amontoava no parapeito junto de mim e logo se desfez em um montículo de pó. Quando deixei de contemplá-lo, vi entrando luz entre duas das pedras que formavam a parede externa. A argamassa estava começando a cair também.

Depois de um tempo eu me voltei novamente para a janela e olhei para fora. Descobri, então, que a velocidade do tempo tinha se tornado enorme. O tremido lateral da corrente de luz solar tinha se tornado tão rápido que fizera com que o semicírculo de chamas dançantes se dissolvesse e desaparecesse em uma camada de fogo que recobria a metade do céu setentrional, de Leste a Oeste.

Do céu eu me dirigi aos jardins. Eles eram apenas um borrão de verde pálido e sujo. Eu tinha a sensação de que eles estavam mais crescidos que nos velhos dias, uma impressão de que estavam mais próximos da janela, como se o solo tivesse sido erguido. Mesmo asssim ainda estava bem abaixo de mim, pois a rocha em cima a boca do abismo, sobre a qual esta casa repousa, se ergue a uma altura muito grande. Foi somente mais tarde que notei uma mudança na coloração constante dos jardins. O verde pálido e empoeirado estava se tornando cada vez mais pálido e pálido, tendendo a branco. Por fim, depois de muito tempo, ficaram cinzentos e assim ficaram por muito tempo. Por fim, o cinzento começou a desbotar, tal como o verde antes, até se tornar um branco mortiço. Esta condição permaneceu, constante e imutável. E assim eu soube, por fim, que a neve recobria todo o mundo setentrional.

Então, por milhões de anos, o tempo voou rumo à eternidade, rumo ao fim — em relação a que, nos velhos dias da terra, eu só pensara remotamente, de uma forma vagamente especulativa. Mas então ele se aproximava de uma forma que eu nem sequer sonhara.

Eu me lembro que, por volta dessa época, eu começara a ter uma vívida, ainda que mórbida, curiosidade para ver o que aconteceria quando o fim sobreviesse — mas eu parecia estranhamente desprovido de imaginação.

Durante todo esse tempo o processo contínuo de decadência estivera continuando. Os poucos cacos de vidro restantes haviam desaparecido muito antes e de vez em quando um baque amortecido e uma pequena nuvem de poeira que se erguia me contavam da queda de outro fragmento de argamassa ou outra pedra de cantaria.

Eu olhei para cima de novo, para a camada chamejante que tremulava nos céus sobre mim, na direção do distante céu setentrional. Enquanto olhava, sobreveio-me a impressão de que ela perdera um pouco de seu brilho inicial — de que estava mais fosca e tinha um tom mais escuro. Olhei para baixo mais uma vez, para a nebulosa paisagem branca. Às vezes meu olhar retornava ao pedaço flamejante de luz mortiça que era, e escondia, o sol. Outras vezes eu olhava para trás de mim, para a crescente penumbra do grande e silencioso cômodo, com seu tapete de poeira sonolenta das eras…

Assim eu vigiei através das eras fugidias, perdido em pensamentos e maravilhas que cansavam a alma e admirado, mas possuído por uma nova exaustão.

1 No original o autor emprega uma metáfora extraída do críquete, que seria incompreensível ao leitor brasileiro. Por esta razão, preferi substituí-la por outra, relacionada ao boliche, um esporte mais próximo do imaginário nacional — Nota do Tradutor.


23
Jul 11
publicado por José Geraldo, às 21:29link do post | comentar

Retornando hoje de meu breve exílio da internet, relato um feito proporcionado pelo meu isolamento em relação às distrações que existem na Rede: terminei finalmente a leitura de Roadside Picnic (título da tradução americana), um clássico da ficção científica soviética, de autoria dos irmãos Bóris e Arcádio Strugatsky. Aproveito agora para compartilhar com vocês minhas impressões.

Inicialmente vou dizer umas breves palavras sobre os autores. São tidos pela crítica especializada como verdadeiros gênios literários incompreendidos, cuja obra não pode ser perfeitamente fruída pelos ocidentais devido à profunda carga linguística que ela possui, mesclando neologismos e arcaísmos, coloquialismos e terminologia científica (e pseudocientífica). Não pude, obviamente, ver nada disso na tradução americana (que, aliás, me pareceu bastante “porca”), mas detectei vários dos outros elementos que são apontados como evidências da genialidade dos irmãos: a curiosa (e sempre inquietante) mistura entre sátira, idealismo, cinismo, ateísmo, superstições e construção psicológica de personagens muito densos e complexos. Resumindo: trata-se realmente de um trabalho literário de alta envergadura. Os irmãos estão, no gênero ficção científica, na mesma categoria dos “quatro grandes” (Asimov, Brabury, Clarke e Heinlein) e, sob certos aspectos, estão acima.

Pode parecer surpreendente que eu afirme isso sem ter lido sua obra no original, mas o que de pode entrever nesta tradução que li justifica plenamente a reputação dos dois: eles são simplesmente ousados além da conta, em todo e qualquer aspecto (exceto na formalidade da narrativa e da pontuação). Vamos por partes.

Roadside Picnic é uma obra carregada de sátira. Pelo que leio das sinopses, todas as obras dos irmãos Strugatsky são amargamente satíricas. É surpreendente que eles não tenham sido deportados para a Sibéria e morrido lá. Talvez o expediente de deslocar sua sátira para mundos inventados do futuro ou países estrangeiros (como o Canadá, nesse romance) tenha permitido que os censores não percebessem que o alvo da sátira era o comunismo. É preciso ser “muito macho” para satirizar o comunismo se você nasceu em 1925 na União Soviética. Os irmãos Strugatsky foram, e morreram de velhice (embora algumas de suas obras, entre elas esta, tenham sido severamente censuradas antes da publicação e só tenham sido restauradas após o fim do comunismo). Em Roadside Picnic a sátira não está exatamente dirigida ao comunismo, mas ao seu cientifismo. Ao longo do livro os cientistas (mostrados como pessoas idealistas, mas ingênuas) comportam-se como crianças que procuram entender os brinquedos que ganharam. A religião também é satirizada (neste livro está a célebre frase “A hipótese de Deus nos dá uma oportunidade absolutamente incomparável de entender tudo e não saber nada”), bem como o ideal do self made man (os heróicos personagens do livro se revelam pessoas absolutamente detestáveis, como Burbridge, ou meros instrumentos da ganância do “sistema”, como o protagonista).

O livro literalmente atira para todos os lados: os personagens são de vários tipos, um comerciante corrupto, um cientista ingênuo, um ladrão que se acha um tipo de herói, um cientista absolutamente cínico, um policial violento, um barman covarde, um negro supersticioso… cada um deles se relaciona de uma forma diferente com o grande mistério de que fala o livro: as “Zonas”.

Roadside Picnic é um livro sobre uma visita extraterrestre ao nosso mundo. Dito assim, parece um livro igual a centenas de outros. Mas quando você o lê, percebe que há poucos livros parecidos. Para começar, a visita em si é apenas uma hipótese desenvolvida para explicar um fato: o aparecimento sobre a Terra de sete estranhas “zonas” onde ocorrem fenômenos que contradizem a lei da física, onde se encontram objetos estranhos e inexplicáveis, onde tudo subitamente parece que se tornou hostil à vida como a conhecemos (os pássaros não voam sobre as “zonas” e lá não há insetos).

Os extraterrestres não aparecem, ninguém os viu (ou sobreviveu após vê-los para poder contar). Mas o seu legado, os obetos e fenômenos que eles deixam para trás, assombram o livro do começo ao fim e, revelando o alcance do cinismo dos autores, demonstram-se tão indiferentes à nossa existência que um personagem chega a dizer que isso foi um sorte, pois se nos tivessem notado, teriam feito conosco como fazemos com as formigas que poderiam atrapalhar nosso piquenique à beira da estrada (nesse ponto, lá pelo meio do livro, você entende o porquê do título). Para os extraterrestres nós nem sequer somos visíveis. Se os espanhóis tiveram dúvidas se os ameríndios eram humanos, Strugatsky argumenta que talvez nós e os Visitantes nem nos reconhecêssemos como seres vivos e pensantes: “Usualmente uma definição trivial [de racionalidade] é usada: a razão é a função humana que nos distingue dos animais. Ou seja, uma tentativa de distinguir entre o homem e o seu cão, que a tudo entende mas não sabe falar.”

Resta-nos, então, coletar os restos de suas fogueiras, as pilhas descarregadas de seus rádios, migalhas de seu pão, uma pola de pingue-pongue perdida no lago, um talher de plástico quebrado, gotas do óleo de seu carro que pingaram na grama, o lenço perfumado, talvez uma camisinha usada… “Exatamente. Um piquenique durante a viagem, à beira de alguma estrada do universo. E você me pergunta se eles vão voltar.”

Estou agora determinado a continuar lendo as obras de Bóris e Arcádio Strugatsky. Eles são bons, são livros densos e que fazem pensar. São ficção científica para gente que gosta de refletir, e não para jovens obcecados com um vírus que faz zumbis ou com robôs alienígenas que se transformam em carrões. E os títulos prometem: Um Besouro no Formigueiro, Segunda Começa no Sábado, Certamente Talvez, Como É Duro Ser um Deus, Um Arco Íris ao Longe, Meio-Dia no Século XXII, O Último Círculo do Paraíso, O Mowgli do Espaço… Seria ótimo se estas obras geniais estivessem disponíveis em português, mas quase me dá vontade de aprender russo para lê-las.


19
Jul 11
publicado por José Geraldo, às 21:22link do post | comentar | ver comentários (1)

Olá, amigos seguidores deste blog. Esta postagem pode ser a última que faço em um bom tempo (a não ser pelas que já deixei agendadas algumas com data futura). Hoje tomei uma decisão radical em minha vida: cancelei a internet.

Não se assustem, não é o que vocês estão pensando. Não fiquei louco, não resolvi fazer jus ao apelido de “ogro” e me mudar para um pântano. Nada disso. Apenas me cansei de teleatendimento e comecei a cancelar todos os serviços de que faço uso e que estão baseados nesse serviço inventado pelo próprio Satanás, em um dia de tpm. E, claro, o primeiro da lista tinha que ser a companhia telefônica, por razões óbvias. Mas se você não tem ideia do porquê, vou dar uma listinha. Não, não vai doer. Doeu em mim, mas ler estas frases não vai fazer mais do que dar-lhes uma ideia do que tive de passar:

  • O número de seu protocolo é XXXXXXXXXX.
  • Não desligue. Sua ligação é muito importante para nós.
  • Consta em aberto em nosso setor de cobrança uma conta vencida em XX/XX/XXXX, no valor de R$ XX,XX
  • No momento todos os nossos atendentes estão ocupados. Se não deseja esperar, favor retornar mais tarde.
  • O número de seu protocolo é XXXXXXXXXX.
  • Esta conta telefônica não está em débito automático. Este setor não é responsável pela emissão de contas. Favor ligar novamente após efetuar o pagamento.
  • Esta mensagem gravada mencionando a cobrança da conta é normal até cinco dias úteis após o vencimento, pois esse é o prazo que demora para sensibilizarmos o recebimento.
  • No momento todos os nossos atendentes estão ocupados. Se não deseja esperar, favor retornar mais tarde.
  • Vou estar transferindo a ligação para o setor de contas vencidas.
  • O número de seu protocolo é XXXXXXXXXX.
  • O número de seu telefone não foi automaticamente detectado. Favor digitar o ddd seguido pelo número do telefone para o qual deseja atendimento.
  • O número de seu protocolo é XXXXXXXXXX.
  • A XXXXXXX agradece a sua ligação, tenha uma boa noite.
  • Consta em nossos registros um atendimento ainda em andamento, com previsão de retorno para o dia 22 de julho às 19h48min.
  • No momento todos os nossos atendentes estão ocupados. Se não deseja esperar, favor retornar mais tarde.
  • Não entendi. Favor repetir o motivo de sua ligação.
  • Entendi! Você deseja cancelar o serviço. Diga “sim” se eu acertei.
  • O número de seu protocolo é XXXXXXXXXX.
  • Não entendi. Repita o motivo de sua ligação.
  • Consta em aberto em nosso setor de cobrança uma conta vencida em XX/XX/XXXX, no valor de R$ XX,XX
  • Senhor, realmente não temos o registro do pagamento desta conta. O senhor retirou o comprovante?
  • Nesse caso, vou estar orientando o senhor a procurar uma loja XXXXX mais próxima para efetuar a baixa do lançamento.
  • O número de seu protocolo é XXXXXXXXXX.

Liguei para avisar que a conta que andaram me cobrando já estava paga, por débito automático. Depois de 1h20min sendo jogado de setor a setor e tendo passado por duas verdadeiras cavalgaduras, cancelei o acesso à internet. Se a minha mulher não tivesse entrado desesperada no quarto dizendo que precisa do telefone fixo por pelo menos mais trinta dias para receber retorno de uns currículos e de alguns contatos profissionais, teria cancelado a linha também. O atendimento desta empresa é simplesmente brilhante: consegue fazer com que um cliente de cinco anos se convença em 1h20min que precisa deixar de ser cliente.

Cada dia que passa eu me convenço mais que é preferível não fazer uso de certos serviços do que fazer uso de serviços que utilizam teleatendimento. Meu próximo provedor de internet vai ser uma empresa aqui da cidade, com escritório a poucas centenas de metros de onde moro, mantida por alguém que eu encontro no restaurante aos domingos. Juro solenemente boicotar o teleatendimento o quanto for possível. Pagarei o dobro para ter um serviço com loja em minha cidade. Deixarei de usar serviços que não sejam absolutamente essenciais caso eles não tenham escritório local. Evitarei ao máximo ligar para tais serviços. Desejo profundamente a falência de todas as empresas que recorrem a tais serviços.

Perdi uma hora e meia de minha vida pendurado ao telefone anotando protocolos e passando por vários atendimentos. Nesse meio tempo minha filhinha mais nova dormiu e eu nem brinquei com ela, pois já cheguei do serviço pendurado no telefone tentando resolver o problema. Mas por que deveria tolerar ser tratado assim? Existem mais quatro provedores de internet em minha cidade: eu tenho escolha. Só não sei de quanto tempo precisarei para fechar negócio com algum deles e para a instalação ser feita. Portanto, meu próximo post pode ser amanhã ou no mês que vem.


publicado por José Geraldo, às 09:00link do post | comentar
Este texto é parte do romance “A Casa no Fim do Mundo”, de William Hope Hodgson (1907), que estou traduzindo em capítulos semanais. Visite o Índice para lê-los em sequência.

Então presenciei a mais estranha de todas as coisas estranhas que me aconteceram nesta casa de mistérios. Ocorreu bem recentemente, já neste mês, e tenho pouca dúvida de que presenciei de fato como terminarão todas as coisas. À minha história, porém.

Não sei bem o porquê disso, mas até o momento eu não tinha sido capaz de escrever sobre essas coisas da forma como ocorreram. É como se tivesse que esperar um tempo, recuperando meu equilíbrio devido e digerindo — de um certo jeito — as coisas que vi e ouvi. Não há dúvida que isto foi como tinha de ser; porque, tendo esperado, enxergo os fatos mais verdadeiramente, e escrevo sobre eles sob um estado de espírito mais calmo e prudente. Tudo muito a propósito.

Estamos agora no final de novembro. A minha história se refere ao que aconteceu na primeira semana do mês.

Era de noite, cerca de nove horas. Pimenta e eu estávamos fazendo companhia um ao outro no escritório — aquele grande e antigo quarto, onde leio e trabalho. Curiosamente eu estava lendo a Bíblia. Eu comecei nos últimos dias a desenvolver gradualmente um interesse por tal grande e antigo livro. Subitamente um claro tremor agitou a casa, e ouviu-se um zumbido ou rangido na distância, de uma forma muito tênue, mas que logo aumentou até transformar-se em um berro, abafado e longínquo. Lembrou, de uma forma estranha e gigantesca, o barulho de um relógio quando a corda termina e você o deixa parar. O som parecia vir de alturas remotíssimas — em algum lugar na imensidão da noite. Não houve repetições do choque. Eu olhei para Pimenta, ele estava dormindo, pacífico.

Gradualmente o rangido diminui e quedou um longo silêncio.

Então, de uma só vez, um brilho se acendeu na janela do canto, que se projeta para fora das paredes de tal forma que se pode, a partir dela, olhar a leste e a oeste simultaneamente. Fiquei intrigado e, após momentos de hesitação, cruzei o cômodo e abri as bandeiras da janela de uma vez. Logo que o fiz, pude ver o sol nascendo de trás do horizonte com movimento firme e perceptível. Podia vê-lo subindo no céu. No que não pareceu mais que um minuto ele havia chegado aos topos das árvores, através das quais o vira antes. Para cima, para cima… logo era dia pleno. Atrás de mim eu percebia um zumbido agudo, como o de um mosquito. Olhei em torno e soube que ele provinha de um relógio. Enquanto o olhava de relance ele marcou metade de uma hora. O ponteiro dos minutos estava percorrendo o mostrador mais rápido que um ponteiro de segundos e o ponteiro das horas ia rapidamente de um número a outro. Eu tinha uma sensação de espanto mudo. Depois de alguns instantes as duas velas se apagaram, quase juntas. Logo me virei de novo para a janela, porque percebera que as sombras dos marcos corriam pelo chão em minha direção, como se tivessem passado uma grande lâmpada através da janela.

Notei então que o sol tinha subido até as alturas e ainda se deslocava visivelmente. Passou acima da casa com um extraordinário movimento de veleiro. Foi quando a janela ficou na sombra que vi uma outra coisa extraordinária. As nuvens de tempo bom não estavam indo calmamente pelo céu: elas andavam desabaladas como se o vento soprasse a cento e sessenta quilômetros por hora. Ao passarem mudavam de forma mil vezes por minuto, como se estivessem cheias de uma vida desconhecida, e então sumiam. Então vinham outras e também escorriam da mesma forma.

No oeste vi o sol caindo com um movimento suave e incrivelmente veloz. Do leste, as sombras de todas as coisas visíveis se estendiam na direção da escuridão que chegava. E o movimento das sombras me era visível, um arrastar silencioso e oscilante como o das sombras das árvores agitadas pelo vento. Era uma visão bem estranha.

Rapidamente o escritório começou a escurecer. O sol escorregou para debaixo do horizonte e pareceu, daquele jeito, que desaparecia de minha vista quase de supetão. Através da penumbra do entardecer tão rápido, eu vi o crescente prateado da luz saindo do céu meridional, em direção ao oeste. O entardecer pareceu se fundir quase instantaneamente com a noite. Sobre mim as muitas constelações passaram circulando sem ruído, e seu movimento era estranho, desconhecido, em direção ao oeste também. A lua caiu através dos últimos graus rumo ao abismo da noite, e logo ficou só a luz das estrelas …

Nesse momento o zumbido no canto tinha cessado, com o que eu soube que o relógio tinha ficado sem corda. Poucos minutos se passaram e eu vi o céu oriental clarear. Uma manhã cinzenta e séria se espalhou través da escuridão e escondeu a marcha das estrelas. Acima se movia, em um rolar pesado e inexorável, um céu vasto de nuvens escuras; um teto de nuvens que teria parecido imóvel se contemplado no passo de um dia terrestre normal. O sol estava escondido de mim, mas de momento em momento o mundo clareava e escurecia, o céu brilhava e se apagava, em ondas de luz e sombra muito sutis…

A luz se movia sempre para o ocidente, e a noite caiu sobre a terra. Uma chuva devastadora pareceu vir com ela, trazida por um vento de rugir extraordinário, tal como se o uivo de uma noite inteira de tormenta fosse compactado no espaço de não mais que um minuto.

Este ruído passou, quase imediatamente, e as nuvens se partiram, de forma que, mais uma vez, eu pude ver o céu. As estrelas estavam voando para o oeste a uma velocidade espantosa. Notei então, pela primeira vez, que embora o barulho da ventania tivesse acabado, ainda havia um som “borrado”, constantemente em meus ouvidos. Quando o notei, tive consciência de que ele havia estado sempre comigo. Era o ruído do mundo.1

E então, nem bem eu havia chegado a compreender isto, surgiu a luz oriental. Não mais que algumas batidas do coração e o sol já se erguia, ligeiro. Através das árvores eu o vi, e logo ele estava acima delas. Para cima, para cima, ele voava e todo o mundo estava logo iluminado. Ele passou, subindo firme e rapidamente até a sua posição mais alta, e de lá caiu, rumo ao ocidente. Eu vi o dia se desenrolar visivelmente acima de minha cabeça. Umas poucas nuvens leves fugiam para o norte e se dissolviam. O sol se pôs com um mergulho súbito e claro, e lá ficou, diante dos meus olhos, por apenas alguns segundos, a luminescência decadente do anoitecer.

Para o sul e para o oeste, a lua estava afundando rapidamente. A noite caíra. No que não pareceu mais que um minuto a lua despencou pelos últimos graus do céu escuro. Outro minuto depois e o céu oriental brilhou com a aurora próxima. O sol saltou sobre mim com uma brutalidade medonha e voou ainda mais rapidamente em direção ao zênite. Então, de repente, uma coisa nova apareceu-me. Uma nuvem negra de tempestade veio correndo do sul e pareceu cobrir toda a extensão do céu em um mero instante. Enquanto vinha, percebi que o lado que avançava vinha tremulando, como uma mortalha monstruosa no firmamento, contorcendo-se e ondulando com uma sugestividade horrível. Em um instante o ar estava todo cheio de chuva, e uma centena de relâmpagos pareceram repicar no céu, como se um aguaceiro grandioso caísse. No mesmo segundo o ruído do mundo foi afogado pelo rugido do vento, e então meus ouvidos doeram com o impacto atordoante do trovão.

Em meio à tempestade a noite caiu, e então a borrasca passou em menos de um minuto e ficou no ar apenas o constante murmúrio do ruído do mundo em meus ouvidos. Acima, as estrelas estavam deslizando velozmente em direção ao ocidente e algo, talvez a velocidade peculiar que haviam atingido, me fez perceber pela primeira vez de forma nítida que era o mundo que girava. Eu pareci enxergar subitamente que o mundo era uma massa vasta que rodopiava visivelmente entre os astros.

A madrugada e o sol pareceram vir juntos, de tanto que a velocidade da rotação do mundo tinha aumentado. O sol galgou o céu em uma única e longa curva, passando pelo ponto mais alto e escorregando para baixo rumo ao céu ocidental, e então desapareceu. Eu mal consegui perceber o anoitecer, de tão breve que foi. Então eu vi as constelações voando e a lua que fugia para o oeste. No espaço de alguns segundos ela passou deslizando velozmente através do azul escuro do céu e sumiu. E quase em seguida nasceu a manhã.

Então pareceu acontecer uma aceleração ainda mais estranha. O sol deu um salto claro e direto através do céu e sumiu debaixo do horizonte ocidental, e então a noite veio e se foi com igual rapidez.

Quando o dia seguinte se abriu e fechou sobre o mundo, percebi uma queda de neve, brevemente sobre a terra. A noite veio e logo depois outro dia. Durante a breve passagem do sol, vi que a neve tinha derretido e então era noite outra vez.

Assim estavam as coisas, e mesmo depois de todas as coisas incríveis que presenciara, experimentei tudo isso com o mais profundo espanto. Ver o sol nascer e se pôr em um espaço de tempo que podia ser medido em segundos, assistir (pouco depois) a lua saltar pelo céu noturno — um globo pálido e cada vez maior — e flutuar, com uma rapidez incomum, através da vasta abóbada azul, para ver em seguida nascer o sol, pulando do horizonte oriental como se a perseguisse, e logo a noite outra vez, com a efêmera e fantasmagórica passagem das constelações dos astros, era tudo muito difícil de ver e crer. Mas assim acontecia; o dia escorregando de aurora a ocaso e a noite passando logo para o dia, sempre rápido e cada vez mais rápido.

As três passagens anteriores do sol tinham me mostrado a terra coberta de neve, o que me parecera, por alguns segundos, incrivelmente estranho à luz constantemente oscilante da lua que nascia e se punha. Então, por um pequeno instante, o céu ficou oculto por um mar de nuvens cinza-claras, que clareavam e escureciam alternadamente com a passagem do dia e da noite.

As nuvens ondularam e depois derreteram, e outra vez esteve diante de mim a visão do sol saltitante e das noites que vinham e iam como sombras.

Cada vez mais rápido girava o mundo. E cada dia e noite se completava, então, no espaço de alguns segundos apenas, e a velocidade crescia ainda.

Foi pouco depois disso que eu notei que o sol tinha começado a ter indícios de uma cauda de fogo. Isto era, evidentemente, devido à velocidade com que ele parecia atravessar o firmamento. E à medida em que os dias se aceleravam, cada um mais rápido que o anterior, o sol começou a assumir a aparência de um imenso cometa flamejante2 que faiscava pelo céu a intervalos periódicos, sempre mais curtos. À noite a lua apresentava com ainda maior fidelidade, um aspecto de cometa: uma forma luminosa pálida e singularmente clara que viajava rápido, arrastando fitas de fogo frio. As estrelas então se mostravam meramente como finos fios de fogo contra o escuro.

Uma vez eu me distraí da janela e procurei por Pimenta. Durante o relâmpago de um dia eu o vi dormir silenciosamente e então me voltei de novo para a minha vigília.

O sol era então vomitado do horizonte oriental como um estupendo foguete, parecendo ocupar com sua presença não mais que um segundo no tempo entre o Leste e o Oeste. Eu não conseguia mais perceber a passagem das nuvens pelo céu, que parecia ter escurecido um pouco. As breves noites pareciam ter perdido a sua escuridão própria, de forma que os filamentos de fogo das estrelas dardejantes apareciam apenas debilmente. Com o aumento da velocidade o sol pareceu bambolear muito lentamente no céu, do Sul para o Norte e então, novamente, do Norte para o Sul.

Então, em meio a tal estranha confusão mental as horas se passaram. Por todo esse tempo Pimenta tinha dormido. Então, sentindo-me só e melancólico eu o chamei, suavemente, mas ele não atendeu. Outra vez lhe chamei, erguendo um pouco a minha voz, mas ele não se mexeu. Então eu fui até onde ele estava e o toquei com meu pé, para acordá-lo. Com isso, apesar de ter sido um toque muito suave, ele partiu-se em pedaços. Foi o que aconteceu: ele literal e realmente desmoronou em uma pilha putrescente de ossos e pó.

Por talvez pouco mais que um minuto eu contemplei o monturo disforme do que fora um dia o Pimenta. Eu fiquei ali, sentindo-me confuso. O que teria acontecido? Eu me perguntava sem conseguir entender o significado sombrio daquele pequeno amontoado de cinzas. Então, ao mexer no monturo com o meu pé, ocorreu-me que aquilo só poderia ter acontecido após um grande período de tempo. Anos e anos.

Do lado de fora, a luz esvoaçante e oblíqua cobria o mundo. Dentro estava eu, tentando entender o sentido de tudo aquilo — o que significava a pequena pilha de poeira e ossos secos no tapete. Mas eu não conseguia pensar coerentemente.

Olhei em torno do cômodo e notei, então, pela primeira vez, o quanto ele parecia velho e poeirento. Sujeira e pó em toda parte, acumulada em pequenos montes nos cantos, e espalhada sobre os móveis. O próprio tapete, por sua vez, estava invisível sob uma camada do mesmo onipresente material. Quando eu caminhava, pequenas nuvens dele se erguiam com os meus passos e irritavam minhas narinas com um odor seco e amargo que me fazia pigarrear roucamente.

Então, em um momento em que eu contemplava novamente os restos de Pimenta, ergui-me e dei voz à minha confusão; perguntando em voz alta se os anos estavam mesmo passando, se aquilo que eu tinha pensado ser uma espécie de visão, seria, de fato, a realidade. Fiz uma pausa. Um novo pensamento me atingiu. Rapidamente, mas com passos que pela primeira vez eu notei cambalearem, atravessei o cômodo até o grande espelho da parede e olhei nele. Ele estava demasidamente encardido para produzir reflexo, então, com as mãos trêmulas, comeceia esfregar para remover a sujeira. Então eu pude ver-me. O pensamento que me ocorrera se confirmou. Em vez de um homem alto e vigoroso, que mal aparentava cinquenta anos, eu via um velho decrépito e curvado, cujos ombros eram caídos e cuja face levava as rugas de um século. O cabelo — que poucas horas antes tinha sido quase negro como carvão — estava luminosamente alvo. Somente os olhos ainda eram brilhantes. Gradualmente reconheci naquele ancião uma pálida semelhança com quem eu fora em outros tempos.

Desviei os olhos e manquei até a janela. Eu descobrira que estava velho, e este conhecimento parecia se confirmar em meu andar trêmulo. Por um pouco de tempo eu contemplei pensativo a vista borrada da paisagem que se alterava a cada instante. Mesmo naquele curto instante pareceu passar um ano. Então, em um gesto petulante, deixei a janela. Ao fazê-lo, notei que a minha mão tremia com a paralisia da senilidade, e um soluço curto forçou-se através dos meus lábios.

Caminhei tremendo da janela até a mesa, com minha atenção alternando entre uma e outra, indecisamente. Como o lugar estava arruinado! Por toda parte repousava uma espessa camada de poeira; espessa, sonolenta e escura. O corta-fogo era uma peça enferrujada e quase disforme. As correntes que erguiam os contrapesos de bronze do relógio tinham sido carcomidas pelo azinhavre e estes jaziam no chão, reduzidos a dois cones de verde-azulado.

Olhando em torno eu tive a impressão de que podia ver a própria mobília apodrecer e desfazer-se diante dos meus olhos. Nem isso foi uma fantasia minha, porque subitamente a estante junto à parede lateral desabou com o estalo e o rangido de madeira podre, atirando seu conteúdo ao chão e enchendo o cômodo com mais uma nuvem de átomos de poeira.

Como me sentia cansado! Ao caminhar eu parecia ouvir as minhas juntas secas rangendo e estalando com cada passo. Pensei em minha irmã. Estaria ela morta, tal como o Pimenta? Tudo tinha acontecido tão rápido e tão de repente. Aquilo tinha que ser, de fato, o começo do fim de todas as coisas! Ocorreu-me a ideia de sair à sua procura; mas eu estava cansado demais. Além do mais, ela tinha se comportado de uma forma muito estranha em relação aos acontecimentos recentes. Recentes! Eu repeti estas palavras e dei uma débil risada, sem nenhuma alegria, ao compreender finalmente que falava de um tempo passado meio século antes. Meio século! Bem poderia ter sido o dobro disso!

Eu me movi lentamente até a janela e contemplei o mundo lá fora, mais uma vez. A melhor descrição que posso fazer da passagem dos dias e noites, esta época, a um tipo de gigantesco e poderoso piscar de luz. Momento a momento a aceleração do tempo continuava, de forma que nas noites de então eu via a lua apenas como uma ondulante trilha de fogo pálido, que variava entre uma mera linha de luz e um rastro nebuloso e então diminuía outra vez, desaparecendo periodicamente.

O piscar dos dias e noites acelerou-se. Os dias tinham se tornado perceptivelmente mais escuros e uma estranha característica de entardecer permanecia na atmosfera. As noites eram tão mais claras que mal se podia ver as estrelas, exceto aqui e ali uma linha ocasional de luz, tão fina quanto um fio de cabelo, que parecia balançar um pouco, junto com a lua.

Rapidamente, e cada vez mais rápido, o piscar dos dias e noites acelerava-se, até que de repente eu percebi que desaparecera e restara, em vez dele, uma luz comparativamente estável, que era deitada sobre o mundo por um eterno rio de fogo que se contorcia entre o sul e o norte, em estupendas oscilações.

O céu se tornara então muito mais escuro, e havia no seu azul uma escuridão pesada, como se um vasto negrume espiasse a Terra através dele. Porém, ainda havia também nele uma estranha e horrível clareza, um vazio. Periodicamente eu tinha a impressão de um rastro fantasmagórico de fogo que balançava débil e obscuramente em direção à corrente do sol, desaparecendo e ressurgindo. Era a corrente quase invisível da lua.

Olhando para a paisagem, eu percebi novamente um embotamento do “agito” proporcionado pela luz da correnteza solar, que poderosamente balançava no céu, ou resultava das mudanças incrivelmente rápidas da superfície da terra. E em certos momentos me parecia que a neve cobria brevemente o mundo, desaparecendo da mesma forma abrupta, como se um gigante invisível “agitasse” um lençol branco sobre a terra.

O tempo corria, e a minha exaustão crescia insuportavelmente. Eu saí da janela e caminhei novamente pelo cômodo, com a poeira pesada amortecendo o som de minhas pisadas. Cada passo que eu dava parecia um esforço maior que o anterior. Uma dor intolerável me atingia em cada junta e membro enquanto eu me arrastava, com uma incerteza dolorosa.

Junto à parede oposta eu fiz uma pausa cansada e me perguntei, hesitante, o que fora fazer ali. Olhei para a esquerda e vi a minha velha poltrona. O pensamento de sentar nela me trouxe uma leve sensação de conforto à minha miséria confusa. Mas era tanto o meu cansaço, de velhice e exaustão, que eu mal conseguia forçar a minha mente a fazer coisa alguma senão ficar de pé e desejar ter andado aqueles poucos metros. Eu oscilava de pé. Até o chão parecia um lugar para descansar, se ao menos a camada de poeira não fosse tão espessa e tão sonolenta e tão negra. Reuni minhas forças, com grande emprego de minha vontade, e fui até a poltrona. Alcancei-a com um grunhido de gratidão. E me sentei.

Tudo em torno de mim pareceu estar se turvando. Era tudo tão estranho e inesperado. Na noite anterior eu fora um homem relativamente forte, embora de meia idade, e naquele momento, poucas horas depois… Olhei para o montinho de poeira que uma vez fora o Pimenta. Horas! E eu dei uma risada fraca e amarga, uma risada estridente e estalada que chocou os meus sentidos diminuídos.

Por um momento eu devo ter cochilado. Então abri os meus olhos com um susto. Em algum lugar pelo cômodo se produzira o ruído de algo caindo. Olhei e vi, vagamente, uma nuvem de pó flutuando sobre uma pilha de destroços. Próximo à porta, algo mais tombou, com barulho. Era um dos armários, mas eu estava cansado e não prestei atenção. Fechei os meus olhos e me sentei num estado de sonolência, ou semi-inconsciência. Uma vez ou duas ou vi sons que pareciam chegar até mim percorrendo neblinas densas. Então devo ter dormido.

1 O autor provavelmente se refere, de uma forma indireta, à crença tradicional, não totalmente esquecida no início do século xx segundo a qual os movimentos dos planetas produziam ruídos constantes e característicos que, combinados, resultavam naquilo que então se chamava “música das esferas”.

2 O Recluso usa esta expressão de uma forma meramente ilustrativa, evidentemente recorrendo à concepção popular do que seria um cometa — Nota do Editor.


18
Jul 11
publicado por José Geraldo, às 22:30link do post | comentar | ver comentários (1)

Uma semelhança entre a realidade e sonho é que as duas coisas não tem começo. Da mesma forma como não nos recordamos das primeiras cenas de um sonho, tampouco nos recordamos das primerias coisas que vimos, sentimos, cheiramos, bebemos, pensamos. Cada um de nós vive como em um interminável sonho, do qual talvez acordemos um dia bêbados do cansaço da noite. E se morrer em meu sonho, o que acontecerá comigo na invisível cama na qual, calmamente, eu repouso?

Eu não sei exatamente quem sou. Venho me tornando, esta é a verdade. A minha vida teve muitos episódios estranhos e a primeira coisa de que me lembro é um pijaminha de macia flanela, estampado com figurinhas desbotadas de animais. Estava vestido assim, calçado de um par de sandálias fortes de couro e montado em um velocípede de metal. Não lembro bem o que acontecera antes, mas sei que, por uma razão qualquer, naquele dia fresco de inverno tropical, eu saí pela estrada afora de velocípede, empregando toda a força das minhas pernas gordinhas. Tinha dois anos de vida e muita vontade de ver o mundo, ou de fugir para algum lugar além das montanhas que tapavam o horizonte, como um mar de mãos erguidas com os dedos contra o céu.

Lembro dos odores desse dia: eu cheirava fortemente a leite fresco e a estrada possuía um aroma penetrante de capim gordura. Lembro do cheiro do ar quente cortando as minhas narinas com o esforço das pedaladas. Mas não me lembro da razão pela qual saí de casa, não lembro tampouco aonde fui. Houve um tempo em que eu lembrava, mas hoje não consigo mais discernir exatamente que lembranças são de fatos realmente que aconteceram, quais de coisas que eu somente imaginei. Então esse episódio aparece cortado na minha mente, como uma figura retirada duma revisa: eu era menino e queria enfrentar a estrada e pus toda minha força nos pedais de um velocípede. Segundo a minha mãe eu cheguei à casa da vizinha, que me deu uma broa de fubá e mandou um empregado chamar meu pai para buscar-me. Pode ser verdade. Pode não ser. Eu fui muitas vezes à casa de Deuslira, não lembro da broa de fubá, não tenho motivos para duvidar de minha mãe, mas a memória é traidora em qualquer idade.

Eu estive pensando em maneiras de começar a contar a minha história, essa que todas as pessoas acham que está contada em minha ficção. Pensei durante semanas e não tinha uma maneira de começar. Ontem, então eu me dei conta da semelhança que há entre a vida e o sonho, percebi como as minhas memórias mais antigas aparecem tênues como sonhos, quase derretendo com o passar dos dias. Já tive uma lembrança muito mais rica deste antigo e enigmático dia, hoje só lembro do pijama de flanela, o velocípede, os cheiros de leite e de capim gordura. Nem sei mais da cor do velocípede. Talvez se demorasse mais quatro anos para contar isso para alguém, nem teria mais o que contar. Eu tinha pouco mais de dois anos quando saí de casa vestido apenas com um pijaminha e pedalando um velocípede de metal. Hoje para sair de casa tenho necessidade de levar tanta coisa que a força de minhas pernas parece muito menor do que a que eu tive naquele dia.


16
Jul 11
publicado por José Geraldo, às 19:45link do post | comentar

Vincular o blog a uma assinatura do Google Analytics nos fornece uma boa oportunidade de conhecer blogs afins. Digo isso porque a blogosfera é muito anárquica, sendo praticamente impossível encontrar nela, facilmente, outros lugares dedicados aos mesmos assuntos. Literatura, especialmente, é um tema difícil de acompanhar. Não por haverem poucos blogs, mas porque sua maioria carece de relevância e não há uma palavra chave que possamos procurar no Google e receber de volta uma linda lista, contendo os melhores blogs literários.

Mas, graças ao Analytics, cada visitante que chega deixa a “impressão digital” do lugar de onde veio. Indo conhecer os blogs que me trazem visitas, não só encontro blogs de gente que também escreve, mas gente que gosta do que escrevo a ponto de colocarem meu humilde endereço em seu blogroll.

Isto é algo que eu procuro muito pela blogosfera: gente com interesses afins e que simpatize com o meu trabalho. Gente que também escreve. Hoje estou acrescentando no meu próprio blogroll uma série de novos endereços, e removendo alguns antigos. Removo gente que GRITAVA DEMAIS na lista de links, gente que completou seis meses sem escrever coisa alguma, gente que andou escrevendo coisas menos interessantes do que antes. E ponho no lugar alguns dos blogs que andam linkando para mim.

A listinha de hoje é a seguinte:

Dentro em breve, estes blogs, juntamente com todos os demais, serão resenhados por mim, cuidadosamente. Com estrelinhas e tudo.;-)


12
Jul 11
publicado por José Geraldo, às 21:00link do post | comentar
Este texto é parte do romance “A Casa no Fim do Mundo”, de William Hope Hodgson (1907), que estou traduzindo em capítulos semanais. Visite o Índice para lê-los em sequência.

Os trechos legíveis das folhas mutiladas.1,2

… através das lágrimas… o ruído da eternidade nos meus ouvidos, nos separamos… Ela, a quem amo. Oh, meu Deus…! Eu estava bastante atordoado e fiquei então sozinho no negrume da noite. Eu sabia que tinha viajado de volta, mais uma vez, ao universo conhecido. Então eu emergi daquela enorme escuridão. Eu tinha chegado entre os astros… vasto tempo… o sol, distante e remoto.

Adentrei o enorme vácuo que separa o nosso sistema dos sóis exteriores. Enquanto percorria velozmente o vácuo divisivo, observei fixamente, a crescente magnitude e brilho de nosso sol. Uma vez contemplei de volta as estrelas e as vi variarem, como se estivesse em uma vigília diante do poderoso plano de fundo da noite, tão grande era a velocidade de meu espírito viajante.

Aproximei-me de nosso sistema, e então pude ver o brilho de Júpiter. Depois eu distingui a luminescência fria e azul da Terra… Tive um momento de perplexidade. Por toda a volta do sol pareciam haver vários objetos brilhantes que se moviam em órbitas rápidas. Ao centro, próximos da glória selvagem do sol, circulavam dois dardejantes pontos de luz e um pouco mais longe voava um pontinho azul e luminoso, que eu sabia ser a Terra. Ela circundava o sol em um intervalo que parecia ser menos de um minuto terrestre.

… Aproximando-me com grande velocidade. Eu via as radiâncias de Júpiter e Saturno, girando com incrível rapidez, em grandes órbitas. E cada vez ficava mais perto, e olhava para esta visão estranha: o circular visível dos planetas em torno do sol maternal. Era como se o tempo tivesse sido aniquilado para mim, de forma que um ano não era mais, para o meu espirito incorpóreo, do que um momento o é para uma alma presa à Terra.

A velocidade dos planetas pareceu aumentar e então eu vi o sol com anéis coloridos, finos como fios de cabelo, os caminhos das órbitas dos planetas que se atiravam a velocidades poderosas em torno da chama central…

O sol se tornou vasto, como se ele saltasse em minha direção. E então eu estava dentro do círculo dos planetas exteriores e passava rapidamente em direção ao lugar onde a Terra, tremeluzindo ao longo do esplendor azul de sua órbita, como uma neblina profunda, circulava o sol a uma velocidade monstruosa.3

1 Como o Capítulo XIV e bem menor do todos os outros e estes fragmentos não são muito significativos, optei por postar os dois no mesmo dia, para não alongar desnecessariamente, para os que estão acompanhando, o tempo necessário para a leitura do romance. Até a próxima semana.

2 Aqui a escrita se torna indecifrável, devida à condição danificada desta parte do manuscrito. Abaixo transcrevo os fragmentos que que estão legíveis.— Nota do Editor.

3 Nem mesmo a mais severa análise me permitiu decifrar nada mais desta parte danificada do manuscrito. Ele começa a ficar novamente legível no início do capítulo intitulado “O Ruído na Noite” — Nota do Editor.


publicado por José Geraldo, às 09:00link do post | comentar
Este texto é parte do romance “A Casa no Fim do Mundo”, de William Hope Hodgson (1907), que estou traduzindo em capítulos semanais. Visite o Índice para lê-los em sequência.

Por um período considerável após o último incidente que narrei em meu diário tive sérios pensamentos de deixar esta casa, e o teria feito, se não fosse por uma coisa grande e maravilhosa sobre a qual eu vou escrever.

Como fui bem aconselhado em meu coração quando fiquei aqui — apesar das visões e aparições de coisas desconhecidas e inexplicáveis! Porque, se não tivesse permanecido, então eu não teria visto de novo a face daquele que amei. Sim, ainda que poucos o saibam, ninguém a não ser agora a minha irmã Mary, eu amei e — ah!… — perdi.

Eu deveria contar a história desses antigos dias doces, mas seria como arranhar velhas feridas, e além do mais, depois do que aconteceu, que necessidade tenho disso? Porque ela veio até mim, desde o desconhecido. Estranhamente ela me alertou, apaixonadamente, contra esta casa, implorou-me que a deixasse, mas admitiu, quando a questionei, que ela não teria conseguido chegar até mim se eu estivesse em outro lugar. Porém, apesar disso, ela ainda me alertava, honestamente, dizendo-me que é um lugar que foi, há muito tempo, dedicado ao mal, e que estava sob o poder de leis sombrias, das quais ninguém entre nós tem conhecimento. E eu … eu somente lhe perguntei, outra vez, se ela teria podido vir até mim em outro lugar, e ela só conseguiu ficar em silêncio.

Foi assim que eu vim ao lugar do Mar de Sonhos — como ela o denominou em seu adorável falar. Eu tinha ficado em meu escritório lendo, e devo ter cochilado sobre o livro. Subitamente acordei e me sentei ereto, com um susto. Por um momento olhei em volta, com uma sensação confusa de algo errado. O cômodo tinha uma aparência nebulosa, que dava uma curiosa suavidade a cada mesa, cadeira ou acessório.

Gradualmente a nebulosidade aumentou, crescendo como se viesse do nada. Então, lentamente, uma luz clara e macia começou a brilhar no cômodo. As chamas das velas brilharam através dela palidamente. Eu olhei de lado a lado e descobri que ainda podia ver cada peça de móvel, mas de uma forma estranhamente irreal, mais como se fosse o fantasma de cada mesa ou cadeira que tivesse tomado o lugar de cada artigo sólido.

Aos poucos, enquanto eu olhava, vi-os perdendo a nitidez, até que eles se confundiram no nada. Olhei de novo para as velas. Elas brilhavam furtivamente, e diante de meus olhos se tornavam mais irreais, até que desapareceram. O quarto ficou então preenchido por uma iluminação crepuscular suave, mas ainda clara, como uma tranquila neblina de luz. Além disso eu não podia ver nada. Até mesmo as paredes tinham desaparecido.

Então eu me tornei consciente de um som distante e contínuo que pulsava através do silêncio que me envolvia. Eu ouvi atentamente. Ele se tornou mais definido, até que me pareceu que eu estava escutando as respirações de um grande mar. Eu não sei dizer quanto tempo se passou nisso, mas depois de um pouco me pareceu que eu conseguia enxergar no meio do nevoeiro, e lentamente me tornei consciente de que estava de pé sobre a praia de um mar imenso e silencioso. A praia era contínua e comprida, perdendo-se na distância tanto à direita como à esquerda de mim. À minha frente nadava a imensidade quieta de um imenso oceano adormecido. Às vezes me parecia que tinha visto um pálido ponto de luz sob sua superfície, mas não tenho certeza disso. Atrás de mim se erguiam, até uma altura extraordinária, rochedos negros e descarnados.

Acima de mim o céu era de um cinza frio e uniforme, todo o lugar parecendo iluminado por um estupendo globo de fogo pálido que flutuava um pouco acima do horizonte distante e que emitia uma luz esponjosa sobre as águas mansas.

Além do murmúrio gentil do mar, uma intensa paralisia prevalecia. Por um longo tempo eu fiquei lá, olhando para aquelas estranhezas. Então, enquanto contemplava, pareceu-me ver uma bolha de espuma branca flutuar das profundezas e logo, ainda sem saber o que era tudo aquilo, estava olhando para a face dEla! Sim! A face dEla! A alma dEla! E Ela olhava de volta para mim, com uma mescla de tamanha alegria e tristeza que corri cego para ela, chorando amargamente na própria agonia da lembrança, do terror e da esperança de encontrá-la. Porém, apesar de meu choro, ela permaneceu lá sobre o mar, e apenas meneou a cabeça, tristemente. Mas em seus olhos estava a velha luz terrena do carinho, que eu conhecera antes de tudo, antes que fôssemos separados.

Fiquei desesperado por sua perversidade, e tentei nadar até ela, mas embora o quisesse, não conseguia. Algo, um tipo de barreira invisível me retinha, e eu era obrigado a ficar onde estava, e gritar para ela, com a plenitude de minha alma, “Oh, minha adorada, minha adorada!”, mas nada mais podia dizer, devido à grande intensidade. Nisso ela se aproximou sutilmente e me tocou, e foi como se os céus tivessem se aberto. Porém, quando lhe estendi as minhas mãos ela me afastou com mãos carinhosamente rígidas, e eu fiquei embaraçado.


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