Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
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Ago 11
publicado por José Geraldo, às 09:31link do post | comentar
Este texto é parte do romance “A Casa no Fim do Mundo”, de William Hope Hodgson (1907), que estou traduzindo em capítulos semanais. Visite o Índice para lê-los em sequência.

Talvez tenha sido só um milhão de anos depois que eu percebi sem sombra de dúvida que a toalha chamejante que iluminava o mundo estava mesmo escurecendo.

Outro imenso intervalo se passou e a enorme chama tinha decaído para uma cor de cobre intenso. Depois escureceu gradualmente de cobre para bronze e então para uma profunda e pesada coloração púrpura que tinha em si a estranha sugestão de sangue.

Embora a luz estivesse sempre decrescendo, não percebia nenhuma diminuição na velocidade aparente do sol. Ele ainda se arremetia velozmente formando aquele atordoante véu.

O mundo, pelo menos o quanto dele eu conseguia enxergar, tinha adquirido um horrível tom sombrio, como se realmente fossem os últimos dias do mundos que se aproximavam.

O sol estava morrendo, disso não poderia restar nenhuma dúvida, mas a terra ainda girava, através do espaço e das eras. Naquele momento, eu me lembro, uma extraordinária sensação de pavor me atingiu. Achei-me então com meus pensamentos vagando em meio a um caos de fragmentárias teorias, modernas e antigas e também as bíblicas, sobre o fim do mundo.

Então, pela primeira vez, veio-me à mente a noção de que o sol, com seu sistema de planetas, estaria, e tinha sempre estado, viajando através do espaço a uma velocidade incrível. Abruptamente, surgiu a questão: para onde? Por um tempo enorme eu pensei no assunto, mas finalmente, com a compreensão da futilidade de meu embaraço, deixei meus pensamentos vagarem para outras coisas. Comecei a me perguntar, por exemplo, quanto tempo a casa duraria de pé. Também me perguntei se eu estaria destinado a permanecer na Terra, incorpóreo, através da era de escuridão que eu sabia aproximar-se. De tais pensamentos eu passei novamente a especular sobre a possível direção da viagem do sol pelo espaço… e então um outro grande intervalo de tempo passou.

Com a passagem gradual do tempo eu comecei a sentir a friagem de um forte inverno. Lembrei-me então que, se o sol estava morrendo, o frio deveria estar mesmo extraordinariamente intenso. Lenta, lentamente, à medida em que as épocas fluíam rumo à eternidade, a Terra imergia em uma luminosidade cada vez mais pesada e vermelha. A chama fosca no firmamento assumia um tom cada vez mais escuro, sombrio e turvo.

Por fim, percebi que tinha havido uma mudança. A flamejante cortina de fogo que se estendera oscilante pelo céu, chegando até o céu meridional, começou a desvanecer e encolher, tal como as vibrações de uma corda de harpa, até que eu vi mais uma vez o sol atravessar o céu como uma correnteza de luz que se agitava, adoidadamente, para o Norte e para o Sul.

Aos poucos a semelhança com um lençol de fogo desapareceu e eu pude ver, claramente, a batida lenta da rota do sol. Porém, mesmo então, a velocidade de sua passagem era inconcebivelmente alta. E todo o tempo, o brilho do arco de fogo se tornava cada vez mais embotado. Abaixo dele, o mundo jazia na penumbra, uma região indistinta e espectral.

Acima, o rio de chamas oscilava mais lentamente, cada vez mais lentamente, até que, por fim, passou a mover-se norte-sul em ciclos amplos e lentos, que duravam alguns segundos. Um longo tempo passou, e então os movimentos do grande cinturão passaram a durar quase um minuto, até que, depois de mais outro grande intervalo, deixei de distinguir um movimento visível, e o leito de fogo através do céu corria como um rio manso de chamas foscas cercado por um céu de aparência morta.

Um período de tempo indefinido se passou, e pareceu que o arco de fogo se tornou menos definido. Ele pareceu mais tênue, e eu pensei ver listras negras ocasionalmente. Naquele momento, diante de meus olhos, o movimento contínuo cessou e eu pude perceber escurecimentos momentâneos, mas a intervalos regulares. Continavam aumentando até que, mais uma vez, a noite caía, como momentos periódicos de trevas sobre a terra exausta.

As noites foram ficando cada vez mais longas e os dias as igualavam em duração, de forma que, por fim, o dia e a noite adquiriram a duração de segundos, e o sol se mostrou mais uma vez, como uma bola vermelho-cobre quase invisível, envolta em uma espécie de neblina luminosa. Correspondendo às linhas escuras que se mostravam, às vezes, em sua luz, apareciam ocasionalmente, de forma bem distinta em sua própria face, grandes faixas escuras.

Anos e anos se tornaram passado, e os dias e noites se alargaram até a duração de minutos. O sol já não tinha mais nenhuma cauda aparente, nascendo e se pondo como um tremendo globo de coloração bronzeada, em parte circulado por faixas vermelho sangue, em outras partes cheio de manchas escuras, como já disse. Tais círculos, tanto os vermelhos quanto os negros, eram de largura variável. Por um momento eu não consegui compreender sua presença. Então me ocorreu que seria bem pouco provável que o sol esfriasse uniformemente em sua superfície, e que todas aquelas marcas seriam devidas, provavelmente, a diferenças de temperatura entre as várias regiões; o vermelho representando as partes ainda relativamente quentes e o negro, aquelas porções já comparativamente frias.

Ocorreu-me ser algo peculiar que o sol esfriasse em faixas tão regulares, até que me lembrei que elas seriam, provavelmente, trechos isolados que assumiam uma aparência de listras devido à grande velocidade de rotação do astro. O sol, por sua vez, estava muito maior do que o que eu conhecera nos velhos dias, e disso eu concluí que ele deveria estar consideravelmente mais próximo.1

Durante as noites, a Lua ainda aparecia,2 mas pequena e remota, e a luz que refletia era tão fraca e fosca que ela parecia ser pouco mais que um fantasma da velha lua, a que eu conhecera.

Gradualmente os dias e noites se alongaram, até que igualaram a duração mais ou menos equivalente à de uma hora dos antigos dias; com o sol nascendo e se pondo como um grande disco de bronze avermelhado, rajado de faixas de negro profundo. Mais ou menos então eu me achei capaz de, novamente, ver os jardins com clareza. Pois o mundo tinha então se tornado muito lento, imóvel e imutável. Porém, não é certo que eu diga “jardins” — pois não havia mais jardins, ou qualquer coisa que eu entendesse ou reconhecesse. No lugar deles eu via apenas uma vasta planície, que se estendia pela distância. Um pouco à minha esquerda havia uma cadeia de colinas baixas. Por toda parte havia a cobertura uniforme da neve, que em alguns lugares formava outeiros e ravinas.

Foi somente então que eu percebi o quanto a nevasca tinha sido grande. Em alguns lugares a neve se aprofundava imensamente, como testemunhava uma grande monte ondulante à minha direita, embora não fosse impossível que esta aparência se devesse em parte à algum soerguimento da superfície do mundo. Estranhamente, contudo, a cadeia de colinas à minha esquerda — já mencionada — não estava totalmente coberta pela neve universal. Em vez disso, apareciam em vários pontos as suas encostas descarnadas e escuras. E por toda parte reinava sempre um inacreditável silêncio de morte e desolação. A quietude imóvel e horrível de um mundo moribundo.

Todo esse tempo os dias e noites tinham ficado perceptivelmente mais longos. Cada dia já ocupava, talvez, duas horas entre a aurora e o ocaso. À noite, eu me surpreendi com a descoberta de que havia pouquíssimas estrelas no céu, e estas eram pequenas, embora dotadas de um brilho extraordinário, que eu atribuí à escuridão absoluta, mas transparente e peculiar, daquelas noites.

Na direção do Norte eu discernia uma espécie de nebulosidade indefinida, não muito diferente, em aparência, de uma porção qualquer da Via Láctea. Poderia ser um aglomerado de estrelas extremamente remoto ou — o pensamento me sobreveio de repente — talvez o universo sideral que eu conhecera, então deixado para trás para sempre, uma nuvem apagada de estrelas, perdidas nas profundezas do espaço.

Os dias e noites ainda aumentavam de duração, sempre lentamente. O sol cada vez se erguia mais apagado do que se pusera. E as faixas escuras aumentavam de largura.

Nesse momento aconteceu algo novo. O sol, a terra e o céu subitamente ficaram obscurecidos e pareceram invisíveis por um breve instante. Eu tive a sensação (pois pouco podia enxergar) de que a terra estava passando por uma grande nevasca. Então, em um instante, o véu que ocultara a tudo se dissipou e eu olhei novamente para fora. Uma visão maravilhosa me encontrou. A depressão na qual esta casa e seus jardins se localizam estava cheio até à borda com a neve.3 Ela chegava até o parapeito da minha janela. Por toda parte ela se estendia, uma grande extensão branca, que recebia e refletia melancolicamente os raios sombrios do moribundo sol acobreado. O mundo se tornara uma planície sem sombras, de horizonte a horizonte.4</sup>

Olhei então para o sol. Ele brilhava com uma clareza extraordinária, mas mortiça. Eu o via então como alguém que até então só o vira através de um meio parcialmente ofuscante. Ao redor dele o céu se tornara totalmente negro, de um negrume total, profundo, claro e assustador pela sua proximidade, pela sua extensão incomensurável, e por sua completa hostilidade. Por um tempo muito longo eu olhei para ele, maravilhado, abalado e cheio de medo. Ele estava muito próximo. Se eu fosse uma criança, eu teria expressado minha sensação de angústia dizendo que o céu tinha perdido seu teto.

Depois, então, eu olhei em torno de mim, pelo cômodo. Por toda parte ele estava coberto de uma mortalha fina de branco onipresente. Eu só conseguia enxergar com muita dificuldade, tão sombria era a luz que iluminava o mundo. Aquela brancura parecia agarrar-se às paredes arruinadas e a poeira espessa e macia dos milênios, que recobrira o chão até a altura dos joelhos, não estava mais visível. A nevasca provavelmente soprara pelas janelas e gretas. Porém em lugar algum ela se acumulara, mas se depositara por todo o velho cômodo de uma forma suave e igual. De qualquer forma, não tinha ventado nos últimos milênios. Mas havia neve, como disse.5</sup>

E a Terra estava silenciosa. E havia um frio como nenhum homem jamais viveu para conhecer.

A Terra era então iluminada, de dia, por uma luz muito lúgubre, além de meu poder de descrição. Era como se eu enxergasse uma grande planície através de um mar tingido em tons de bronze.

Era evidente que o movimento de rotação da Terra estava cessando, regularmente.6</sup>

Então o fim veio, de uma vez. A noite tinha sido a mais longa de todas, e quando o sol moribundo nasceu, finalmente, à borda do mundo, eu tinha ficado tão cansado da escuridão que o saudei como a um amigo. Ele se ergueu firmemente até mais ou menos uns vinte graus acima do horizonte. Então ele parou subitamente e, depois de um breve e estranho movimento retrógrado, ficou parado, um grande escudo no céu.7</sup> Apenas a borda circular aparecia brilhando. Apenas ela e uma estreita faixa de luz próxima ao equador.

Gradualmente até mesmo esta faixa estreita de luz se apagou, deixando do antigo e glorioso sol apenas um vasto disco morto, circulado por uma estreita fímbria de luz vermelho-bronze.

As “Notas do Editor” mencionadas abaixo foram, na verdade, escritas pelo próprio William Hope Hodgson, que apresenta este livro como a publicação de um manuscrito encontrado nas ruínas da Casa.

1. Devido à época em que esta obra foi originalmente publicada, o autor não teria como saber a real velocidade de rotação do sol (mencionada acima) ou os processos envolvidos na decadência e morte de uma estrela. Neste aspecto, em particular, um autor moderno teria dito que o sol havia realmente crescido, e não que a Terra se aproximara dele — Nota do Tradutor.

2. Não é será feita nenhuma menção posterior à Lua. A partir do que aqui é dito, fica evidente que o nosso satélite teria se distanciado bastante da Terra. Possivelmente, em uma era mais tardia, ele poderia ter até mesmo se desprendido de sua atração. Não posso senão lamentar que nenhum esclarecimento seja feito quanto a esse ponto. — Nota do Editor.

3. Possivelmente o ar congelado — Nota do Editor.

4. Na hipótese de ocorrer um resfriamento da terra suficiente para fazer a atmosfera cair em forma de neve, isto não seria, de fato, suficiente para cobrir todo o planeta (como Hodgson corretamente descreve), pois a massa total da atmosfera é cerca de trezentas vezes menor que a massa total dos oceanos — Nota do Tradutor.

5. Ver as notas prévias. Isto explicaria a neve (?) pelo cômodo — Nota do Editor.

6. Conforme o autor já mencionou anteriormente, à medida em que o sol perdia luminosidade a Terra se aproximava dele e girava mais devagar. Este processo, curiosamente, está de acordo com os princípios da gravitação, mais uma vez evidenciando que Hodgson pesquisou antes de escrever, pois a uma proximidade muito grande do Sol, a gravidade deste faria com que a duração dos dias e anos passasse a coincidir, um fenômeno conhecido como “acoplamento de maré”. Inclusive o afastamento da Lua é algo predito pela astronomia — Nota do Tradutor.

7. Fico confuso que nem aqui e nem mais tarde o Recluso faça qualquer menção da continuidade do movimento Norte-Sul (movimento aparente, é claro) que o sol deveria executar de solstício a solstício — Nota do Editor. A falta desta menção é compreensível se supusermos que a aproximação em relação ao sol também teve o efeito de mudar o eixo de rotação da Terra, tornando-o em ângulo reto com o plano da eclíptica — Nota do Tradutor.


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