Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
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Ago 11
publicado por José Geraldo, às 22:20link do post | comentar
Um conto pessimista escrito em 2003, em homenagem a um melhor amigo real, que não quebrou um braço, mas disse algumas das coisas que o personagem expressa.

O meu melhor amigo voltou das férias ontem com um braço quebrado.‭ ‬Ninguém ainda parece haver notado nada de estranho nisso,‭ ‬como se férias normalmente quebrassem ossos.‭ ‬Mas eu não me contenho de perguntar por que motivo alguém voltaria do litoral com um membro na tipóia.‭ ‬Nada porém que me leve a romper o silêncio que ele,‭ ‬por motivos certamente justos,‭ ‬está mantendo.

Hoje à tarde eu fui visitá-lo.‭ ‬Encontrei-o regando as flores da irmã no pequeno canteiro nos fundos de casa.‭ ‬No momento em que entrei,‭ ‬mal o reconheci:‭ ‬normalmente as pessoas voltam mesmo estranhas de suas férias,‭ ‬mas ele tinha algo mais.

‎— ‏Está difícil voltar àquela‭ ‬vida de antes,‭ ‬meu amigo.

Aproveitei a deixa e perguntei o porquê do braço.‭ ‬Ele riu pragmático e respondeu que se me contasse a verdade não teria mais nenhuma graça,‭ ‬pois havia sido algo bem comum e idiota.

— ‏Não foram as férias que me quebraram os ossos e nem é o meu braço que me dói nesse momento.

Ele me olhou com um assomo de sorriso no canto externo do olho.

— ‏Sinto-me prostituído cada vez que me sento naquela cadeira.‭ ‬E o pior é que eu não consigo me desligar da lembrança do violão.‭ ‬Trabalhar fica difícil sem sonhos para fazer a gente esquecer esta desgraça que é viver nesta merda de mundo.‭ ‬Jogar tudo para o alto e começar de novo é algo que já assusta quando se passou dos trinta anos.‭ ‬Daí para frente alguém aceita ser violado até nos últimos princípios em nome de uma falsa segurança.‭ ‬É aí que o homem descobre que deixou seus sonhos no sereno e eles foram roubados enquanto dormia.

Para quê eu tentaria convencer o meu amigo de algo que não creio eu‭? ‬Derrapando na curva dos trinta tristes anos eu olho para trás com amargura e lamento a festa a que não fui,‭ ‬os beijos que não dei,‭ ‬as oportunidades que passaram por mim sem que eu me arrojasse.‭ ‬E principalmente lamento estar vivendo na casa de minha mãe e estar vivendo neste mundo de meu Deus onde já não se faz mais música e nem amores como antigamente.

O meu amigo sabe,‭ ‬como eu,‭ ‬que é tarde para lutar pelos velhos sonhos.‭ ‬Ele já não será o astro que quis ser e eu pressinto que nunca fui ou serei o escritor que o menino do interior ambicionava ser.‭ ‬Ou simplesmente estamos convencidos dessas coisas.‭ ‬Não há um Sistema para culpar,‭ ‬não houve conspiração alguma além da própria vida contra nós…

Não vamos nascer de novo e nem vamos descobrir uma outra vida um belo dia.‭ ‬Estávamos armados de falsas ilusões que se perderam em fumaça e agora eu cultivo uma barriga iniciante enquanto me prostituo em‭ ‬ particulares.‭ ‬O meu amigo tem mais sorte:‭ ‬rega flores e se senta atrás da mesa de uma repartição pública.

Mas não nos está sendo fácil exorcizar o violão e o livro.


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