Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
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Ago 11
publicado por José Geraldo, às 23:45link do post | comentar | ver comentários (1)

Sou um escritor amador. Isto significa que me acomete uma série de dificuldades no exercício do que, para mim, está limitado a mero hobby. E mesmo assim ainda tenho de ouvir certas opiniões espantosas. O escritor — inclusive o amador — tornou-se subitamente um ser incensado com grandes responsabilidades: é ele quem deve dar continuar a tradição da “língua pátria”, construir a “identidade nacional”, oferecer “bons exemplos para os estudantes” etc. É muita atribuição para alguém que só tem algum respeito quando ganha muito dinheiro. Porque em relação a escritores, o povo respeita os que ganham dinheiro. E respeita o dinheiro, não os livros escritos e vendidos, que viraram esse dinheiro. Dinheiro. E antes que eu me esqueça: dinheiro.

A primeira grande barreira diante do escritor amador é o tempo. Ser amador significa ter de dedicar as melhores horas do dia a uma atividade produtiva. A esta atividade devem ser dedicadas as melhores energias também, visto que é nela que o escritor amador ganha o seu sustento e o respeito da sociedade. Terminado o dia — com os braços cansados, os olhos doídos, os dedos duros e as costas ardendo — o escritor amador terá de olhar para suas paredes e encontrar nelas indícios de inspiração para produzir uma página que seja. Se não o faz por um tempo muito longo, os seus amigos blogueiros dirão que está “perdendo a mão” e suspeitam que em breve abandonará o ofício.

A segunda grande barreira é o tempo. Ser amador significa ocupar a maioria das horas do dia em uma atividade “séria”. Não basta que sejam as melhores horas, estamos obrigados a ocupar também a maioria delas. Oito ou nove horas por dia, no mínimo e com alguma sorte, estaremos ocupados com o vil metal e as prosaicas preocupações com o mingau nosso de cada dia, que Deus não nos dá, mas vende. Terminado o dia — já cansado e já vendo todas as portas descendo e todas pessoas entrando em seus ônibus — o escritor amador terá de fazer “atividades de divulgação”, tais como ir a escolas mostrar seus livros, ir a livrarias mascatear seu produto, ir a feiras, exposições, fantasias, mercados diversos. Deve também atualizar seu blogue, contactar seus contatos no Facebook e quejandos. Com alguma sorte ainda se lembrará da ideia que teve às nove da manhã e mal teve tempo de prender num pedaço de papel solto.

A terceira grande barreira é o tempo. O escritor, amador ou não, compete com uma série de outras coisas pela atenção de seu leitor. Algumas coisas são óbvias, como o nada. Não ler nada é sempre mais atraente, para muita gente, do que ler qualquer coisa. Ler cansa, ler é um saudável “exercício”. Mas se existe um público que supera esta barreira, o amador terá que vencer, antes de atingir a este grupo, uma série menos óbvia de coisas que competem pelo tempo do leitor possível: outros escritores, amadores e profissionais, inclusive os mortos de vários séculos, que continuam vendendo, e vendendo barato, graças a não cobrarem mais direitos autorais e serem exigidos em vestibulares e concursos, o que motiva grandes edições baratas, e geralmente porcas.

E o escritor amador, que já poderia se sentir um quase hércules por vencer estres três trabalhos que valem por doze, descobre, então, estupefato, que há quem ponha a culpa pela falta de leitura desse povo justamente nos escritores que são “elitistas”, que não “vão até onde o povo está” ou que não “divulgam ativamente o seu trabalho”.

Com todo respeito, gostaria de dizer algo a quem me diz isso: tudo é fácil para quem não tem de fazer. Eis o segredo do pensamento positivo ditado pelos gurus da auto-ajuda: falar é fácil. Tem quem ache gelo mole porque morde água.

Em um mundo ideal, costureiras costuram, construtores constroem, consertadores consertam. Mecânicos (pelo menos os idôneos) não saem pela rua “caçando oportunidades” para mostrar seu talento. Costureiras não saem de agulha e dedal à mão esperando vestidos rasgarem na rua. Construtores não passam perguntando se você não está precisando aumentar um puxadinho na casa. Escritores também não deveriam sair de livro na mão perguntando se alguém não quer ler suas histórias. Quem faz isso é pastor na praça, não autor. Não autor que se respeite. Não autor que se dê ao respeito.

Escritores deveriam, principalmente, escrever. Já existe muita coisa impedindo que o pobre do escritor amador escreva. Se ele sair pela rua rodando poesia pelas esquinas em busca de clientes isso lhe roubará tempo em que poderia estar produzindo, aprimorando, tornando-se melhor escritor.

Não recrimino quem mascateia o que escreve. Cada um sabe quanto pesa a sua cruz. Muitas vezes somos forçados a fazer coisas que não queremos ou que não deveríamos fazer, apenas pela necessidade do dinheiro. Quantas vezes um autor que anda pela rua montando banca para vender livro não pensou: “eu poderia estar em casa terminando aquele conto ou revisando aquela novela”. Mascatear pode ser bom para desovar uma caixa de livros, mas é tempo gasto em coisas secundárias.

Afinal, quem tem a responsabilidade de despertar o gosto pela leitura é a escola, quem tem que construir a identidade nacional é a sociedade e quem deve continuar a tradição da língua pátria é o povo. O escritor até pode querer fazer um pouco disso, como o passarinho da fábula, levando gotas d'água para apagar o incêndio da floresta. Mas não lhe exijam isso, amigos. Não ponham nas costas destas pessoas que vocês, de fato, não respeitam, a responsabilidade de tanta coisa. Em um mundo ideal haveria demanda por poesia. E os poetas não precisariam convencer as pessoas da necessidade de ler, mas da preferência de lê-los.


publicado por José Geraldo, às 09:00link do post | comentar
Este texto é parte do romance “A Casa no Fim do Mundo”, de William Hope Hodgson (1907), que estou traduzindo em capítulos semanais. Visite o Índice para lê-los em sequência.

Quanto tempo as nossas almas permaneceram nos braços da alegria eu não saberia dizer, mas subitamente eu fui despertado de minha felicidade por uma diminuição da pálida e suave claridade que iluminava o Mar do Sono. Olhei para o imenso globo branco, com a premonição de que problemas se aproximavam. Um de seus lados estava curvando para dentro, como se uma sombra negra e convexa estivesse passando sobre ele. Minha memória retornou. Fora assim que a escuridão chegara, antes da última vez em que nos separáramos. Olhei para meu amor, buscando entender. Com uma repentina percepção da desgraça iminente, notei o quanto ela se tornara lânguida e irreal, mesmo em tão breve momento. Sua voz parecia chegar-me de longe. O toque de suas mãos não era mais do que a suave pressão de uma brisa de verão, e se tornava cada vez menos perceptível.

Quase a metade do imenso globo já estava encoberta. Um desespero se apoderou de mim. Ela estaria por deixar-me? Ela teria de partir, tal como tivera de partir antes? Perguntei-lhe, ansiosa, receosamente, e ela se deitou mais em meu abraço, dizendo naquela estranha e distante voz que era imperativo que me deixasse, antes que o Sol da Escuridão — como ela o chamava — apagasse toda a luz. Diante de tal confirmação de meus temores, fui dominado pelo desespero e só consegui olhar, emudecido, através das calmas planícies do mar silencioso.

Quão rapidamente a escuridão se espalhou sobre a face do Globo Branco! Mesmo assim, na verdade, o tempo deve ter sido muito longo, além da compreensão humana.

Por fim, apenas um crescente de fogo pálido iluminava o Mar do Sono, então sombrio. Durante todo esse tempo ela me abraçara, mas com uma carícia tão suave que eu mal tinha consciência disso. Esperamos lá, juntos, ela e eu, sem nada dizer, tanta a tristeza. Na luz minguante a sua face parecia mesclar-se à penumbra da nebulosidade tardia que nos circundava.

Então, quando uma estreita linha curva de luz mortiça era tudo que ainda iluminava o mar, ela me soltou — empurrando-me para longe de si, ternamente. Sua voz soou em meus ouvidos: “Não posso permanecer mais, querido.” E terminou em um soluço.

Ela pareceu flutuar para longe de mim, e ficou invisível. Sua voz chegava até mim, de dentro das sombras, debilmente, parecendo vir de uma distância muito grande:

“Só um pouco mais…” E desapareceu, remotamente. Num piscar de olhos o Mar do Sono escureceu em uma noite. Longe, à minha esquerda, pareci ver, por um breve instante, um brilho pálido. Ele sumiu, e no mesmo instante dei-me conta de que não estava mais sobre o mar imóvel, mas outra vez suspenso no espaço infinito, com o Sol Verde — então eclipsado por uma esfera vasta e escura — aparecendo diante de mim.

Totalmente confuso, contemplei quase sem enxergar o anel de chamas verdes que saltava das bordas escuras. Mesmo no caos de meus pensamentos eu me maravilhava, estupefato, com as suas formas extraordinárias. Um tumulto de questões me assaltou. Pensei mais nela, que havia recentemente visto, do que na visão que tinha diante de mim. Meu luto e pensamentos sobre o futuro me preenchiam. Estaria condenado a viver separado dela para sempre? Mesmo nos antigos dias da Terra ela só fora minha por um tempo muito curto, e então me deixara, e eu temera que fosse para sempre. Desde então eu só a vira aquelas duas vezes, sobre o Mar do Sono.

Uma sensação de mágoa feroz me preencheu, trazendo questionamentos penosos. Por que eu não pudera partir com o meu Amor? Qual a razão de ficarmos separados? Por que eu tivera de esperar sozinho, enquanto ela dormitara através dos anos, no seio imóvel do Mar do Sono? O Mar do Sono! Meus pensamentos passaram, inconsequentemente, de seu caminho de amargura, a novas e desesperadas perguntas. Onde era ele? Onde estava? Eu parecia ter abandonado há pouco o meu Amor em sua superfície quieta, e ele sumira completamente. Não poderia, porém, estar longe! E o Globo Branco que eu vira oculto nas sombras do Sol da Escuridão! Meu olhar repousou sobre o Sol Verde — eclipsado. O que o eclipsara? Haveria uma vasta estrela morta orbitando-o? Seria o Sol Central — como eu me acostumara a chamá-lo — um sistema duplo? O pensamento me ocorrera, quase sem querer, mas por que não deveria ser assim?

Meus pensamentos retornaram ao Globo Branco. Estranho que ele fosse — eu me detive. Uma ideia me ocorrera subitamente. O Globo Branco e o Sol Verde! Seriam os dois o mesmo? Minha imaginação retrocedeu e eu me lembrei do globo luminoso pelo qual eu fora tão irresistivelmente atraído. Era curioso que eu lhe tivesse esquecido, mesmo momentaneamente. Onde estavam os outros? Pensei de novo no globo em que entrara. Pensei um pouco e as coisas ficaram mais claras. Compreendi que, ao entrar naquele glóbulo impalpável, eu tinha penetrado instantaneamente em alguma dimensão diferente e até então invisível. Nela o Sol Verde ainda estava visível, mas como uma estupenda esfera de luz branca pálida — quase como se o seu fantasma se mostrasse lá, não a sua parte material.

Meditei sobre o assunto por um longo tempo. Pensei em como, ao entrar na esfera, eu perdera imediatamente de vista todas as demais. Por um período ainda maior eu continuei a revolver os diferentes detalhes que ainda tinha em mente.

Meus pensamentos eventualmente se voltaram para outras coisas. Detive-me um pouco mais no presente e comecei a olhar em torno de mim, atentamente. Pela primeira vez notei que inumeráveis raios de um tom sutil de violeta cortavam em todas as direções aquela estranha semiescuridão. Eles radiavam da borda incendiária do Sol Verde. Pareciam aumentar a olhos vistos, de forma que logo pareciam incontáveis. A noite foi preenchida deles — que se espalhavam a partir do Sol Verde. Concluí que eu conseguia vê-los porque a glória do Sol estava bloqueada pelo eclipse. Eles se estendiam através do espaço até desaparecerem.

Gradualmente, enquanto eu observava, percebi que minúsculos pontos de luz intensamente brilhante cruzavam os raios. Muitos deles pareciam viajar desde o Sol Verde até a distância. Outros provinham do vácuo, em direção ao Sol; mas cada um deles sempre se mantinha estritamente dentro do raio em que viajava. Sua velocidade era inconcebivelmente grande, e era somente quando se aproximavam do Sol Verde, ou quando o deixavam, é que eu podia vê-los como pontos de luz definidos. Afastados do sol, eles se tornavam finas linhas de fogo vívido dentro do violeta.

A descoberta de tais raios, e das faíscas que neles se moviam, interessou-me sobremaneira. Para onde iam, em tal incontável profusão? Pensei nos mundos do espaço… e tais faíscas! Mensageiros! Possivelmente, a ideia era fantástica, mas eu não tinha noção do quanto o era. Mensageiros! Mensageiros do Sol Central!

A ideia evoluiu por si, lentamente. Seria o Sol Verde o lar de alguma inteligência vastíssima? O pensamento era desafiador. Visões do Inominável surgiram, vagamente. Teria eu, de fato, chegado à habitação do Eterno? Por um momento eu repeli tal pensamento, emudecido. Era estupendo demais. Mesmo assim…

Imensos e vagos pensamentos tinham nascido dentro de mim. Senti-me súbita e terrivelmente nu. E uma terrível proximidade me abalou.

E o Paraíso…! Seria uma ilusão?

Meus pensamentos surgiam e partiam erraticamente. O Mar do Sono… e ela! Paraíso… Voltei de súbito ao presente. De algum lugar no vácuo, por detrás de mim, vinha um imenso corpo escuro, enorme e silencioso. Era uma estrela morta, que se atirava no cemitério das estrelas. Ela passou entre mim e os dois Sóis Centrais, ocultando-os de minha visão e mergulhando-me em uma noite impenetrável.

Uma eternidade depois eu vi outra vez os raios violáceos. Um tempo enorme depois — talvez eras — um brilho circular apareceu no céu, à frente, e eu vi a borda da estrela que se afastava, negramente contra ele. Assim eu soube que ela estava se aproximando dos dois Sóis Centrais. Então eu vi o anel brilhante do Sol Verde mostrar-se claramente contra a noite. A estrela tinha entrado na sombra do Sol Morto. Depois disso eu somente esperei. Os estranhos anos continuaram silenciosamente, e eu continuei vigiando atentamente.

Aquilo que eu tinha esperado aconteceu por fim — subitamente, horrivelmente. Um jorro vasto de ofuscante luz. Uma explosão de chamas brancas escorrendo pelo vácuo escuro. Por um tempo indefinido ela ergueu-se — um gigantesco cogumelo de fogo.1 Parou de crescer. Então, à medida em que o tempo passou, começou a cair de volta, lentamente. Eu vi, então, que se transformou em um enorme ponto luminoso próximo ao entro do disco do Sol Escuro. Poderosas chamas ainda se erguiam dele. Mas, apesar de seu tamanho, o túmulo daquela estrela não tinha mais que o brilho de Júpiter sobre a face do oceano, comparado à inconcebível massa do Sol Morto.

Devo relembrar aqui, mais uma vez, que não há palavras para jamais mostrar à imaginação o enorme tamanho dos dois Sóis Centrais.

1É curioso que Hodgson, escrevendo em 1907, em uma época na qual grandes explosões ainda eram uma rara novidade, que praticamente ninguém tinha visto, tenha tido a capacidade de antever que uma explosão de grandes, cósmicas proporções, teria o formato de um cogumelo — Nota do Tradutor.


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