Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
27
Set 11
publicado por José Geraldo, às 09:15link do post | comentar
Este texto é parte do romance “A Casa no Fim do Mundo”, de William Hope Hodgson (1907), que estou traduzindo em capítulos semanais. Visite o Índice para lê-los em sequência.

Hoje cedo eu fui ao jardim, mas achei tudo normal. Próximo à porta eu examinei o trilho, buscando pegadas, mas, outra vez, não havia nada que me sugerisse se eu tinha ou não sonhado aquilo tudo ontem à noite.

Foi só quando fui ter com o cão que eu descobri provas tangíveis de que algo havia de fato acontecido. Quando cheguei ao canil, ele ficou escondido, encolhido em um canto, e eu tive que lhe chamar carinhosamente para fazê-lo vir até mim. Quando ele, enfim, consentiu em sair, foi de uma forma estranhamente acovardada e medrosa. Quando lhe acarinhei, minha atenção foi atraída por uma mancha esverdeada no seu flanco esquerdo. Examinando-a, vi que o pelo e a pele haviam sido aparentemente queimados ali, e a carne aparecia, viva e chamuscada. O formato da marca era curioso, lembrando-me a impressão de uma grande garra ou mão.

Eu me ergui pensativo. Meu olhar se dirigiu à janela do escritório. Os raios do sol nascente luziam sobre a mancha esfumada no canto inferior, fazendo-a oscilar entre verde e vermelho, curiosamente. Ah! Aquela era sem dúvida outra prova, e logo a Coisa horrível que vi ontem à noite me veio à memória. Olhei para o cão, outra vez. Eu sabia qual a causa daquela ferida de aparência tão odiosa em seu lado. Sabia, também, que a minha visão noturna tinha sido de algo real. E um grande desconforto me preencheu. Pimenta! Tip! E também aquele pobre animal! Olheu para o cão outra vez e notei que ele estava lambendo sua ferida.

“Pobre criatura!” — eu murmurei — e me curvei para acariciar sua cabeça. Com isso ele se pôs de pé, esfregando o focinho em minha mão e me lambendo avidamente.

Então eu o deixei, pois tinha outros assuntos para tratar.

Depois do jantar fui vê-lo outra vez. Ele parecia quieto e indisposto para sair do canil. Pela minha irmã soube que tinha se recusado a comer o dia todo. Ela parecia um tanto confusa ao me dizer isso, embora não fizesse idéia de nada que lhe desse motivo para ter receio.

O dia passou, quase sossegado. Depois do chá eu saí outra vez para dar uma olhada no cão. Ele parecia triste e algo inquieto, mas insistia em ficar no canil. Antes de trancar as portas para a noite eu mudei o canil de lugar, para longe da parede, de forma que eu pudesse vê-lo da janela durante a noite. Pensei até em trazê-lo para dentro de casa para passar a noite, mas o respeito me fez deixá-lo fora. Não posso dizer, aliás, que esta casa seja menos temível do que o jardim. Pimenta estava dentro de casa, e mesmo assim…

Agora são duas da manhã. Desde as oito eu vigiei o canil a partir da pequena janela lateral do escritório. Mas nada aconteceu e agora estou cansado demais para vigiar mais. Vou me deitar…

Durante a noite eu estive insone. Isto é raro em mim, mas consegui dormir um pouco quando já amanhecia.

Acordei cedo e visitei o cão depois do desjejum. Ele estava calmo, mas mal-humorado, e se recusou a sair. Gostaria que houvesse algum veterinário nas redondezas, eu lhe teria pedido para examinar a pobre criatura. Durante o dia inteiro ele não comeu nada mas demonstrou uma evidente necessidade de água — lambendo-a com avidez. Fiquei aliviado ao perceber isso.

A noite chegou e eu estou agora em meu escritório. Eu quero seguir o meu plano de ontem à noite e observar o canil. A porta que dá para o jardim está trancada e bloqueada. Estou decididamente feliz por haver grades nas janelas…

Noite: Meia noite já se foi. O cão estava silencioso até agora. Através da janela lateral, à minha esquerda, eu posso ver vagamente os contornos do canil. Pela primeira vez o cão se mexeu, ouvi o retinir de sua corrente. Olhei para fora rapidamente. Ao olhar, o cão se mexeu de novo, inquieto, e eu vi uma pequena mancha de luz difusa brilhar no interior do canil. Ela se apagou, então o cão se agitou de novo, e outra vez o brilho apareceu. Fiquei surpreso. O cão aquietou-se e eu ainda podia ver a coisa luminosa claramente. Ela aparecia bem definida. Havia algo familiar em seu formato. Por um momento eu duvidei, mas então eu percebi que ela não era diferente de uma mão com quatro dedos e um polegar. Como uma mão! E eu me lembrei do contorno daquela ferida apavorante no corpo do cão. Deve ser o que estou vendo. Ela é luminosa durante a noite — Por que? Os minutos se passaram e a minha mente se encheu dessa descoberta nova…

Subitamente ouço um som nos jardins. Como isso me dá medo! Aproxima-se. Pat, pat, pat. Uma sensação penetrante percorre a minha espinha, e parecesse subir até os meus cabelos. O cão se move no canil, e geme, medroso. Ele deve ter virado de lado, pois não posso mais ver o contorno de sua ferida luminosa.

Lá fora o jardim está silencioso outra vez, e eu ouço com medo. Um minuto se passa e depois outro, então ouço de novo o som de pisoteio. Ele está bem próximo, e parece vir descendo pelo trilho de cascalho. O ruído é curiosamente medido e deliberado. Ele para junto à porta e eu me ponho de pé e fico imóvel. Da porta me vem um som muito leve — a aldrava é lentamente erguida. Um ruído musical fica em meus ouvidos e sinto uma pressão em torno da cabeça…

A aldrava cai, com um estalo forte, sobre seu suporte. O barulho me assusta de novo, provocando horrivelmente os meus nervos tensos. Depois disso eu fico por um bom tempo em meio a uma quietude crescente. De repente os meus joelhos começam a tremer e logo tenho que me sentar.

Um período indefinido de tempo passa e gradualmente eu começo a perder o sentimento de terror que me possui. Mas ainda fico sentado. Pareço ter perdido a capacidade de me mover. Estou estranhamente cansado, e tentado a cochilar. Meus olhos se fecham e abrem e então eu me vejo adormecendo e acordando uma vez e outra.

Só um bom tempo depois que eu percebo que uma das velas está chegando ao fim. Quando acordo de novo ela já se apagou, deixando o cômodo na penumbra, à luz da única chama restante. A escuridão parcial me perturba pouco. Eu perdi aquela horrível sensação de terror e meu único desejo parece ser o de dormir, dormir…

Então, mesmo sem ouvir ruído algum, fico acordado, bem acordado. Tenho a aguda noção da proximidade de um mistério, de uma Presença poderosa. Até o ar está impregnado de terror. Permaneço sentado, encolhido, e apenas ouço, atentamente. Mas não se ouve ainda nenhum som. A própria natureza parece morta. Então a imobilidade opressiva é quebrada pelo uivo sobrenatural do vento, que sopra em torno da casa e desaparece na distância.

Deixo meu olhar percorrer o cômodo mal iluminado. Próximo ao grande relógio no canto oposto está uma sombra alta e escura. Por um curto instante eu a encaro assustado. Então vejo que não é nada e fico momentaneamente aliviado.

Nos minutos a seguir, a idéia me passa através do cérebro: por que não deixar esta casa, esta casa de mistério e de terror? Então, como em resposta, pecorre-me a mente a visão do maravilhoso Mar do Sono … o Mar do Sono onde ela e eu pudemos nos encontrar depois de anos de separação. Percebo então que preciso ficar aqui, seja o que for que me aconteça.

Através da janela lateral eu noto o sombrio negrume da noite. Minha visão percorre os arredores do cômodo, parando um pouco na sombra de cada objeto. Subitamente eu me viro e olho pela janela à minha direita, e ao fazê-lo respiro rápido e me inclino para a frente, com um olhar cheio de medo por algo que está fora da janela, mas muito perto da grade. Eu vejo uma vasta e vaga face suína, acima da qual flutua uma chama coruscante de cor esverdeada. É a Coisa da arena. A boca trêmula parece gotejar continuamente uma baba fosforescente. Os olhos estão mirando diretamente para dentro, com uma expressão inescrutável. Assim eu fico, rígido, congelado.

A Coisa começou a mover-se. Ela se volta lentamente em minha direção. Sua face gira para encontrar-me. Ela me vê. Dois olhos imensos, inumanos, eles me olham através da penumbra. Estou frio de medo, mas mesmo assim permaneço consciente e noto, de uma forma quase casual, que as estrelas à distância são eclipsadas pela massa daquele rosto gigantesco.

Um novo horror sobrevem. Levanto-me da cadeira, sem a menor vontade. Estou de pé, e algo me impele em direção à porta que dá para o jardim. Quero parar, mas não posso. Um poder inarredável se opõe à minha vontade, e sigo em frente, devagar, sem querer, tentando resistir. Meu olhar percorre o quarto, importente, e para na janela. A grande face suína desapareceu e eu posso ouvir, de novo, aquele pisoteio furtivo, pat, pat, pat. Ele para do lado de fora da porta, da porta que estou sendo compelido a…

Um curto silêncio se sucede, um silêncio intenso, e então há um som. Som da aldrava sendo erguida devagarinho. Com isso eu sou tomado de desespero. Eu não quero dar mais nenhum passo. Faço um esforço imenso para voltar, mas é como se tentasse atravessar uma parede invisível. Começo a grunhir alto, na agonia de meu medo, e o som da minha voz é assustador. Outra vez ouço o barulho, e tremo, pastosamente. Eu tento, sim, brigo e luto, para tentar voltar atrás, mas é inútil…

Estou junto à porta e vejo a minha mão, de uma maneira quase mecânica, mover-se para destrancar a trava de cima. Ela o faz inteiramente sem qualquer intenção minha. Tão logo toco a trava, a porta é violentamente sacudida e eu recebo um sopro doentio de ar mofado, que parece penetrar pelos interstícios das pranchas de madeira, vindo da soleira. Giro a tranca para trás, devagar, lutando estupidamente enquanto isso. Ela sai de seu encaixe com um estalido e eu começo a tremer de angústia. Há mais duas, uma ao pé da porta e outra, uma bem grande, localizada no meio.

Por talvez um minuto eu fico de pé, com os meus braços pendendo moles ao longo do corpo. A influência que me ordenava mexer nas trancas da porta parece ter desaparecido. Então eu ouço o súbito ranger de ferro aos meus pés. Olho para baixo e noto, com um horror inexprimível, que o meu pé está empurrando a tranca inferior. Uma sensação de total impotência me assalta… A tranca sai de seu encaixe com um rangido baixo e eu me firmo em meus pés, agarrando-me à grande tranca central para não cair. Um minuto se passa, depois outro… Meu Deus, ajude-me! Estou sendo forçado a remover a última das trancas. Não vou! Melhor morrer que abrir ao Terror que está do outro lado da porta. Não haverá escapatória? Deus me ajude, eu já puxei a tranca pela metade para fora do encaixe! Meus lábios emitem um grito rouco de terror, a tranca já percorreu três quartos do encaixe e a minha mão inconsciente ainda trabalha pela minha danação. Restando apenas uma fração de aço entre a minha alma e Aquilo. Duas vezes eu grito na suprema agonia de meu medo e então, com um esforço louco, arranco minhas mãos da tranca. Meus olhos parecem não ver. Uma grande escuridão me envolve. A natureza veio ao meu socorro. Sinto meus joelhos falhando. Há um ruído alto de alguma coisa caindo, caindo, sou eu…

Devo ter ficado desmaiado lá por pelo menos um par de horas. Quando me recupero, percebo que a outra vela já se queimou também, e que o cômodo está em quase total escuridão. Não posso pôr-me de pé, porque estou enregelado e tomado por terríveis cãimbras. Mas o meu cérebro está limpo, não há mais nele o peso daquela influência maligna.

Cautelosamente eu me ponho de joelhos e procuro a tranca central. Logo a encontro e a ponho de volta em segurança, depois a que fica embaixo também. Já então sou capaz de me erguer e assim consigo trancar também a de cima. Depois disso eu me ponho sobre meus joelhos outra vez e rastejo por entre os móveis na direção da escadaria. Ao fazer isso, furto-me à observação da janela.

Chego à porta oposta e, ao deixar o escritório, dou uma olhadela nervosa por cima de meus ombros, em direção à janela. Lá fora, na noite, parece-me ver de soslaio alguma coisa impalpável, mas pode ser somente uma impressão. Então eu chego ao corredor, e à escadaria.

Chegando ao meu quarto de dormir, trepo na minha cama, todo vestido como ainda estou, e puxo os cobertores. Então, depois de um longo tempo, começo a recuperar a minha autoconfiança. É impossível dormir, mas me sinto bem pelo calor das cobertas. Então começo a tentar pensar sobre as coisas da noite passada, mas, embora não consiga dormir, vejo que é impossível, não dá para obter pensamentos conectados. Minha mente parece estranhamente vazia.

Com a proximidade da manhã eu começo a me virar na cama, agitado. Não consigo descansar e logo saio do leito e piso no chão. O amanhecer de inverno começa a entrar pelas janelas e a mostrar o precário conforto deste velho quarto. Estranhamente, após tantos anos, nunca me ocorrera o quanto esse lugar é lúgubre. E assim o tempo passa, e amanhece.

De algum lugar lá embaixo sobe-me um som. Vou até a porta do quarto e ouço. É Mary, mexendo na grande e velha cozinha, preparando o desjejum. Sinto-me pouco interessado. Não tenho fome. Meus pensamentos, porém, continuam fixos nela. Quão pouco os acontecimentos estranhos desta casa parecem afetá-la. Exceto pelo incidente com as criaturas do Abismo, ela parece sempre inconsciente de qualquer coisa incomum acontecendo. Ela é velha, como eu, mas nós temos muito pouco a ver um com o outro. Será porque temos tão pouco em comum, ou porque, sendo velhos, nos preocupamos menos com companhia do que com silêncio? Estes e outros temas me passam pela cabeça enquanto medito, e ajudam-me a distrair a atenção, por um momento, dos pensamentos opressivos sobre a noite.

Depoi de um tempo eu vou até a janela e abro, olho para fora. O sol está acima do horizonte e o ar, embora frio, está suave e limpo. Gradualmente o meu cérebro se desanuvia e uma sensação de segurança provisória me atinge. Algo mais alegre, desço as escadas e saio ao quintal para ver o cão.

Ao me aproximar do canil, encontro o mesmo fedor de mofo que me assaltara junto à porta na noite anterior. Superando um medo momentâneo, chamo pelo cão, mas ele não atende e então, depois de chamar outra vez, jogo um pedregulho dentro do canil. Com isso ele se mexe, debilmente, e eu grito o seu nome de novo, mas não me aproximo. Então minha irmã sai e se junta ao meu esforço para atraí-lo para fora do canil.

Em um instante o pobre bicho se ergue e manquitola titubeantemente. À luz do dia ele fica de pé oscilando de um lado para o outro e piscando os olhos estupidamente. Noto ao olhar que a horrível ferida está maior, muito maior, e parece ter uma aparência esbranquiçada, de micose. Minha irmã faz menção de acariciá-lo, mas eu a impeço, explicando que acho melhor não tocá-lo nem ficar perto dele por uns dias, já que é difícil saber o que pode haver de errado com ele, e é bom ter cuidado.

Um minuto depois ela nos deixa e retorna em seguida com uma bacia de restos de comida. Ela os deposita no chão, perto do cão, e eu empurro para seu alcance com a ajuda de um galho de arbusto. Porém, mesmo a carne sendo tentadora, ele não a percebe, mas retorna ao seu canil. Ainda tem água em sua vasilha e então, depois de conversar por um momento, minha irmã e eu voltamos para casa. Posso ver que minha irmã está muito curiosa sobre qual pode ser o problema com o animal, mas seria loucura sequer lhe dar pistas sobre a verdade.

O dia passa sem mais novidades, e a noite logo vem. Estou determinado a repetir o meu experimento da última noite. Não posso dizer que isto seja sábio, mas já tomei a decisão. No entanto, desta vez tomei precauções, pois prendi com pregos grossos cada uma das três trancas da porta que se abre para o jardim. Isto vai prevenir pelo menos que aconteça outra vez o mesmo perigo da última noite.

De dez da noite às duas e meia eu vigio, mas nada acontece. Então, finalmente, vou tropeçando até a cama, onde logo adormeço.


25
Set 11
publicado por José Geraldo, às 20:13link do post | comentar
Apontamentos avulsos e incompletos encontrados datilografados sobre o verso de páginas contendo alguns poemas. Tanto os poemas quanto esses apontamentos haviam desaparecido de minha lembrança. A data (dos poemas) é 1994, a destes apontamentos deve ser um pouco depois (um ano, no máximo). Trata-se aqui do texto mais antigo cuja forma original não tem influência alguma de revisões posteriores. Uma verdadeira relíquia da época em que eu ainda estava aprendendo a tentar escrever. Mais do que isso, parecem ser apontamentos para um glossário que ficaria como apêndice de um romance que, sob certos aspectos, evoca muito o «Serra da Estrela». Por uma dessas estranhas coincidências que a vida tem, meu pai encontrou essas folhas soltas no meio de um monte de papel velho que ia queimar, e salvou para mim.
Benzinho
Planta rasteira cujas sementes são envoltas por uns espinhos terríveis que se curvam ao entrar na pele, tornando difícil e dolorosa a retirada. Talvez o sábio homem do campo tenha visto nesta adesão teimosa uma metáfora para o amor obstinado, que machuca a carne, é difícil de largar e deixa uma inflamação persistente depois que é arrancado.
Quinze Bandas
Em Minas Gerais as direções não coincidem com os pontos cardeais, não são as oito da rosa dos ventos: são quinze, que incluem acima, abaixo, para lá, para cá, desse lado, daquele, antes, depois etc. A semente do quinze bandas (um outro espinheiro da região) são recobertas de espinhos orientados para todos os lados (ou "bandas", como se diz por aqui).
Moça Velha
Trata-se de uma flor cujo traço peculiar é a falta de viço: as pétalas parecem um papel crepom sem brilho, áspero, o talo é grosso, mas tem uma consistência murcha e é recoberto de pelinhos. As folhas são escuras e molengonas. As flores, por sua vez, são de muitas cores possíveis: vermelhas, amarelas, alaranjadas, rosadas, violetas, brancas e acastanhadas. As pétalas são radiadas e algumas plantas têm flores com dupla camada
Coração da Índia
Não consegui apurar com certeza o motivo do nome poético dessa fruta, parecida com uma pinha. Sua polpa é delicada e doce, de cor branca semitransparente e consistência de geleia, mas o cheiro é forte e resinoso. O formato lembra vagamente um coração, mas casca é verde.
Chá da Meia Noite
Dito zombeteiro muito comum nas histórias de nossas avós, que relatavam histórias de esposas maltratadas por maridos violentos que encontraram a sua libertação fazendo-os beber o dito chá. Na língua do povo as mortes súbitas de pessoas relativamente jovens e aparentemente saudáveis eram atribuídas a feitiço, veneno ou “artes de mulher”, um termo obscuro que engloba principalmente a exaustão do parceiro no amor. Mas o chá da meia noite, por ser meio menos sacrificado, era o preferido. Muitas plantas nativas de Minas Gerais são venenosas, e algumas podem agir em doses relativamente pequenas.
Os Misteriosos Efeitos da Aparição do Diabo
Consta que o diabo era visitante regular de uma certa sede de fazenda, cujo antigo dono, sacrílego e assassino, morrera sem extrema unção. O fantasma do velho ainda se arrastava pelas ruínas da fazenda abandonada, tão apegado às suas posses que nem o diabo conseguia tirá-lo de lá e levar para o Inferno. As aparições do diabo eram saudadas por uma sucessão de eventos antinaturais: peixes que saíam da água para respirar, ratos caçando gatos, vacas montando nos bois, frutas subindo de volta para as árvores e… o mais extraordinário de todos: a troca de crias entre duas espécies inusitadas. Mesmo o fantasmas sendo invisível e o diabo não fazendo nenhuma questão de aparecer para mais ninguém, era fácil detectar a presença demoníaca pela visão de uma porca que dava de mamar a uma ninhada de pintinhos e de uma galinha que chocava uma ninhada de porquinhos. Ou vice-versa, isso depende de quem conta.

Além desses trechos, estou expandindo uma outra história contida no mesmo manuscrito, que postarei na quarta feira.


23
Set 11
publicado por José Geraldo, às 20:20link do post | comentar | ver comentários (1)

Denilson Ricci, responsável pelo Site Lovecraft está prestes a lançar ao mundo um dos mais ousados projetos editoriais independentes dos últimos tempos, talvez o mais ousado da década até agora. Movido apenas pelo trabalho de voluntários (tradução, revisão, ilustração, projeto gráfico, catalogação) e com a proposta de venda a um grupo fechado de compradores, ele pretende dar à luz um volume que deve, em breve, ser referência para autores brasileiros de ficção científica e horror: a primeira edição abrangente das obras de H. P. Lovecraft no Brasil.

O objetivo é ambicioso: reunir as obras mais significativas do mestre do horror cósmico, tanto em prosa quanto em verso, em um volume ilustrado e acompanhado de prefácio e de uma longa biografia do autor. Espera-se que o volume tenha mais de 400 páginas! Além disso, a edição será em formato grande, em papel de primeira qualidade, em vez das edições de bolso que normalmente são reservadas para os gêneros “menores” (como a ficção científica e o horror) pelas editoras tradicionais.

Esta edição foi possível porque toda a obra do autor encontra-se em domínio público no Brasil desde 2007, considerando que ele morreu em 1937. Mas de nada adiantaria a obra estar disponível se Denílson não conseguisse reunir, através da internet, uma variada equipe de pessoas de todas as partes do país, das mais diversas profissões e interesses. Tradutores, revisores, críticos, biógrafos, desenhistas, designers. Coordenando um grupo de dezenas de pessoas, separadas pelas distâncias físicas e culturais que a Internet, e apenas ela, permite vencer, o editor nos traz a esse momento glorioso, em que nasce, quase de um parto, um livro destinado a ser referência pelos anos que hão de vir.

Sinto profundo orgulho de ter colaborado nesse trabalho, com a tradução de nada menos que quatro contos do Mestre, dos quais três devem ser aproveitados nesse primeiro volume:*

  • A Busca de Iranon (The Quest of Iranon),
  • Um Sussurro na Escuridão (A Whisperer in Darkness),
  • O Habitante das Trevas (The Haunter of the Dark)
  • O Depoimento de Randolph Carter (The Statement of Randolph Carter)

Visite o Site Lovecraft para mais informações, e prepare alguns cobres para comprar, até janeiro ou fevereiro, a primeira edição de luxo e independente das obras de H. P. Lovecraft no Brasil.

Sugiro fazer já a sua reserva, pois a tiragem será restrita aos que encomendarem. Eu já encomendei OS MEUS.

*Sim, ouso dizer “primeiro volume” porque seria mais do que apropriado usar o conhecimento já adquirido e fazer um segundo volume. O autor tem obras em quantidade suficiente para alimentar várias repetições desse projeto. E eu ainda sonho, muito em traduzir para o português The Dream-Quest for Unknown Kadath.


20
Set 11
publicado por José Geraldo, às 16:43link do post | comentar
Este texto é parte do romance “A Casa no Fim do Mundo”, de William Hope Hodgson (1907), que estou traduzindo em capítulos semanais. Visite o Índice para lê-los em sequência.

Pimenta está morto! Mesmo agora, às vezes, eu mal consigo acreditar que está. Já se foram muitas semanas desde que eu voltei daquela estranha e terrível jornada através do espaço e do tempo. Há vezes, em meu sono, em que eu sonho sobre isso, e novamente atravesso todo aquele acontecimento temível. Quando acordo, os meus pensamentos continuam nisso. O Sol — aqueles Sóis, seriam eles realmente os grandes Sóis Centrais em torno dos quais o universo todo e os céus desconhecidos revolvem? Quem poderá dizer? E os glóbulos brilhantes flutuando eternamente na luz do Sol Verde! E o Mar do Sono, sobre o qual eles flutuam! Quão inacreditável é tudo isso. Se não fosse pelo Pimenta eu deveria inclinar-me, mesmo depois de todas as coisas extraordinárias que presenciei, a imaginar que tudo não passou de um gigantesco sonho. E depois, a assustadora nebulosa escura (com as suas multidões de esferas vermelhas) movendo-se sempre à sombra do Sol Escuro, percorrendo a sua estupenda órbita, eternamente envolva em trevas. E as faces que olhavam para mim! Deus, será que elas existem mesmo?… E ainda tem aquela pequena pilha de poeira cinzenta no chão de meu escritório. Não vou tocá-la.

Às vezes, quando estou mais calmo, tenho pensado no que aconteceu aos planetas exteriores do Sistema Solar. Ocorreu-me que eles devem ter se desprendido da atração do sol e se perdido no espaço. Isto é, porém, apenas uma hipótese. Há muitas coisas sobre as quais só posso cogitar.

Agora ao escrever, devo registrar que tenho a certeza de que algo horrível está por acontecer. Ontem à noite aconteceu uma coisa que me encheu de um terror ainda maior do que o pavor do Abismo. Vou escrever sobre isso agora e, se mais alguma coisa ocorrer, tentarei tomar nota disso no mesmo instante. Tenho uma sensação de que aconteceram mais coisas nesse último encontro do que em todos os outros. Estou trêmulo e nervoso, mesmo agora ao escrever. De alguma forma a more me parece não estar muito longe. Não que eu tema a morte — a morte como a entendemos. Mesmo assim está no ar algo que me dá medo — um horror frio e intangível. Eu o senti ontem à noite. Foi assim.

Ontem à noite eu estava sentado aqui no meu escritório, escrevendo. A porta que dá para o jardim estava entreaberta. Às vezes um ruído metálico soava debilmente. Ele vinha da corrente do cão que eu comprei depois que o Pimenta morreu. Eu não o deixo entrar na casa — não depois de Pimenta. Mesmo assim eu me sinto melhor em ter um cão por perto. São criaturas maravilhosas.

Eu estava muito concentrado em meu trabalho e o tempo passava depressa. Subitamente ouvi um ruído leve do lado de fora, na passagem do jardim… pat, pat, pat, era um som furtivo e singular. Ergui a cabeça em um movimento súbito e olhei pela pela porta aberta. Outra vez ouvi o ruído… pat, pat, pat. Parecia estar se aproximando. Com uma discreta sensação de nervosismo eu olhava para o jardim, mas a noite ocultava tudo.

Então o cão deu um longo ganido e eu me assutei. Por um minuto ou mais eu observei atentamente, mas não podia ouvir nada. Pouco depois eu peguei a pena, que havia deixado, e recomecei o meu trabalho. A sensação de nervosismo tinha passado, porque eu imaginei que o som ouvido não fora mais que o andar do cão em torno de seu canil, até o fim do comprimento de sua corrente.

Passou-se mais ou menos um quarto de hora, então, subitamente, o cão ganiu outra vez, e com uma nota de tristeza insistente, de tal forma que eu saltei de pé, deixando cair a pena e borrando a página que estava escrevendo.

“Maldito cão!” — eu murmurei, vendo o que tinha acontecido. Então, ao mesmo tempo em que dizia tais palavras, soou novamente aquele estranho pat, pat, pat. Estava horrivelmente perto — quase junto à porta, pelo que notei. Soube, então, que não poderia ter sido o cão, pois a corrente não lhe teria permitido vir tão perto.

O ganido do cão soou outra vez e eu notei, subconscientemente, a nódoa do medo que ele continha.

Fora da janela, no parapeito, eu podia ver Tip, o gato de estimação da minha irmã. Logo que o vi, ele saltou de pé, eriçando a cauda visivelmente. Por um instante ele permaneceu assim, parecendo olhar fixamente para algo na direção da porta. Então, rapidamente, ele começou a recuar através do parapeito até que, tendo chegado à parede, não pode recuar mais. Lá ele ficou, rígido, como se um terror extraordinário o tivesse congelado.

Assustado e curioso, peguei um bastão no canto do cômodo e fui até a porta em silêncio, levando uma das velas comigo. Eu tinha chegado a poucos passos quando, de repente, uma peculiar sensação de medo me afetou — um medo palpitante e real, sem que eu soubesse de que ou de onde. Tão grande era o meu terror que eu não perdi tempo, mas recuei pelo mesmo caminho, andando de costas e mantendo meu olhar cheio de medo fixo à porta. Gostaria muito de ter ido até lá fechá-la e cerrar a tranca, pois a mandei consertar e reforçar de tal maneira que ela ficou mais forte do que antes. Tal como o Tip, no entanto, eu continuei meu recuo inconsciente até que a parede me parasse. Quando isso ocorreu, comecei a olhar em volta apreensivamente. Nisso meus olhos pararam, momentaneamente, sobre a prateleira de armas de fogo e eu dei um passo na direção dela, mas parei, com a estranha reflexão de que elas seriam desnecessárias. Lá fora, no jardim, o cão gania estranhamente.

Subitamente ouvi o guincho feroz e prolongado do gato. Com um sobressalto, olhei em sua direção. Algo luminoso e fantasmagórico o envolvia, e crescia em minha visão. Aquilo tomou a forma de uma mão brilhante e transparente, com uma chama esverdeada e bruxuleante luzindo em torno de si. O gato deu um último e horrível ronronado e eu o vi queimar e soltar fumaça. Minha respiração saiu com um esgasgo e eu me apoiei contra a parede. Aquela parte da janela ficou coberta por uma mancha verde e fantástica, que escondia a coisa de mim, embora o brilho do fogo a atravessasse fracamente. Um fedor de queimado penetrou o cômodo.

Pat, pat, pat — alguma coisa passou pelo trilho no jardim e um odor leve de mofo pareceu entrar pela porta aberta e mesclar-se ao cheiro de queimado.

O cão tinha estado silencioso por alguns momentos. Então o ouvi uivar agudamente, como se sentisse dor. Então ele ficou quieto, exceto por um gemido ocasional de medo contido.

Um minuto se passou e então o partão do lado oeste do jardim bateu à distância. Depois disso, nada mais, nem mesmo o lamento do cão.

Eu devo ter estado parado por alguns minutos. Então um fragmento de coragem invadiu meu coração e eu corri receosamente até a porta, encostei-a e passei o ferrolho. Depois disso, por uma hora inteira, fiquei sentado, inerme, olhando rigidamente para o nada.

Lentamente a vida me voltou e eu tomei meu caminho, cambaleando, em direção à cama, no andar de cima.

Isto foi tudo.


18
Set 11
publicado por José Geraldo, às 23:21link do post | comentar

É claro que eu ocasionalmente me arrisco com um bilhete de loteria (geralmente a Mega Sena), afinal não faz mal correr o risco de subitamente ficar milionário. Mas eu nunca aposto mais do que exatamente um bilhete e não tenho hábito de apostar nada mais. Isto é porque eu não acredito em sorteios, bingos, rifas, , milagres, títulos de capitalização ou acasos felizes. Não acredito porque jamais ganhei nada em minha vida. Todas as poucas coisas que tenho eu tive que comprar com dinheiro ganho trabalhando. Nunca alguém me disse “olha, aqui tem um carro novo para você” ou “você ganhou um milhão de reais”. Por outro lado, já passei por situações que deixaram claro que esse negócio de sorteios não é comigo.

Talvez o caso mais escabroso tenha sido um daqueles bingos promovidos por clubes esportivos que andavam na moda em meados dos anos noventa. Comprei uma cartela daquelas e fui para o campo do Operário de caneta na mão, debaixo de um sol de trinta e oito graus, para ouvir alguém gritar as dezenas sorteadas. Foram duas horas suando e sem beber água porque naquela época em que não havia caixa eletrônico eu não tinha sacado dinheiro durante a semana. Por fim, chegou o prêmio final, o grande prêmio, um automóvel novo (e não era qualquer automóvel, mas um bom automóvel). Os números se sucederam numa sequencia assombrosa que quase me fez perder o fôlego. Até que finalmente me vi a um número de completar a cartela. E assim fiquei por vinte e duas rodadas até que finalmente outra pessoa completou o bilhete e ficou com o carro.

Alguns de meus amigos mais chegados já perceberam essa minha característica. Os mais supersticiosos jamais me convidam para participar de um bolão. Há os que evitam ficar perto de mim se por acaso estivermos em uma quermesse e forem sortear um bingo ou correr uma rifa (que eu quase nunca compro, mas a minha mulher adora). Todas as vezes que as palavras “Você ganhou” me foram dirigidas, foram tentativas de golpe via telefone celular. Telefonemas inesperados invariavelmente são de credores me cobrando dívidas das quais eu não me lembrava. Dia desses reclamaram que deixei de pagar quatro meses de hospedagem de um site que eu cancelei há anos. Devem ter achado uma ficha sem cancelar no fundo de alguma gaveta e resolveram fazer uns cobres nela. Como o valor era pequenino eu preferi pagar.

Quando um conhecido se aproxima dizendo “preciso falar com você em particular”, sempre é para pedir a minha contribuição (monetária) para alguma causa. Nunca algum me chamou para dizer haviam contribuído para a minha causa. Todas as vezes em que tentei buscar apoio na religião, encontrei o carnê dízimo antes de topar com alguma dádiva divina. Não sei o que Deus espera, mas seus profetas esperam que eu pague pedágio para sentar no banco e cantar o hino. Tanto assim que já cheguei a concluir que não quero mais religião. Já que a graça não é de graça, eu fico com o que dá para comprar, ainda que sem graça.

As únicas pessoas que chegaram a me dar alguma coisa foram os meus familiares, mas eles, obviamente, só me deram o que eles próprios haviam antes comprado com o seu trabalho. De forma que isso não invalida o fato de que nada existe em minha vida, hoje ou ontem, que não tenha vindo com cheiro de suor, ou com ardência nos olhos de noites viradas a ler.

Causa-me espanto, considerando quem eu sou e esses valores que carrego desde antanho, que tanta gente viva ativamente a esperar pela loteria. Não falo de pessoas que ocasionalmente arriscam um bilhete, mas de gente que chega a fazer planos para depois de ganhar, gente que visita no sábado a imobiliária para ver preços de casas pensando no sorteio de logo mas à noite. Bem, talvez não chegue a tanto, mas deve ser bastante grande o número dos obcecados com sorteios, visto que este é um dos três assuntos predominantes na Internet e ganhar coisas de graça (honestamente ou não) é a razão de ser da maior parte das mensagens de correio eletrônico.

Enquanto digo isso, analisando friamente, chego a uma conclusão curiosa: se formos usar o spam como uma ferramenta para medir o que as pessoas são e pensam, temos de concluir que os grandes e mais prementes problemas da humanidade são, além dos sorteios, disfunção erétil, pênis pequeno, viúvas indefesas de milionários nigerianos, criancinhas americanas morrendo com câncer e a eterna e insaciável carência de Jesus por mais amigos.


15
Set 11
publicado por José Geraldo, às 23:48link do post | comentar
Este texto é parte do romance “Serra da Estrela“, que estou publicando em capítulos quinzenais. Visite a página de índice para acompanhar a história completa.

A minha curiosidade por ele era, evidentemente, de cunho apenas acadêmico. Não sou de me atrair facilmente por estranhos, mesmo que tenham olhos verdes ou uma capacidade sobrenatural para aprender idiomas. Mas em que lugar de Minas Gerais, em pleno século XX, ainda haveria uma comunidade de pessoas falando o nheengatu extinto ainda no tempo do Império? Principalmente porque nem os índios que teimavam, os pobres machacalis, crenaques, pataxós e xacriabás que vamos extinguindo aos poucos, falavam aquele tipo específico de nheengatu que eu ouvia. Tratava-se de um grupo humano totalmente desconhecido, talvez não indígena, mas descendente dos mestiços paulistas dos séculos XVII e XVIII que haviam colonizado Minas Gerais antes da chegada dos “emboabas”. Tratava-se do assunto de minha tese de doutorado. Tratava-se de uma ótima razão para seguir José Gaspar.

No dia sete de julho o encontrei, às sete da manhã, conforme prometido, no trevo da saída da Universidade. Ele entrou no carro ainda com receio, como se ainda se sentisse incomodado com o ruído do motor ou o “estranho cheiro de maldade“ que os veículos exalavam, em sua opinião. Estava bem vestido e trazia várias malas extremamente pesadas. Nem quis lhe perguntar como conseguira trazer tudo aquilo. Sua boa aparência indicava que não andava tendo problemas para se virar no mundo: tinha a barba raspada, os cabelos bem cortados, as unhas feitas e um cheiro suave de perfume vulgar. O tamanho das malas, porém, não deixou de cutucar a minha curiosidade pelo resto do dia.

Foi a primeira vez que pude vê-lo à luz plena do sol, sem qualquer sombra de árvore ou cortina escura suavizando os seus traços — e foi pela primeira vez que percebi as doses generosas de sangue índio e africano que corriam em suas veias, apesar de seus olhos verdes. Tinha o rosto quadrado, certamente herança germânica como os olhos, mas as maçãs eram salientes e rosadas. O queixo era largo e proeminente, com dentes grandes, saudáveis e perfeitamente alinhados, embora um tanto pontiagudos. Seu cabelo era liso e grosso quase como arame e sua pele tinha uma cor que parecia a mescla de todas as cores de pele possíveis no Brasil, embora clara de um jeito que não parecia natural. Não havia rugas em sua expressão, mas muitas pequenas cicatrizes.

Tentei não observá-lo muito, pois percebi que ele se incomodava com isso, pelo menos em relação a mim. Ajudei-o a por suas malas no carro — uma espaçosa, mas pouco econômica Belina 1.8 — e nos pusemos a caminho.

Enquanto eu contornava os intrincados cruzamentos que nos levariam à rodovia, percebi que estava me deixando levar por ele a um lugar que eu nem sabia direito aonde deveria ser. A surpresa desta constatação me fez, pela primeira vez, pedir-lhe detalhes de onde ficava Serra da Estrela, que tipo de lugar era, que tipo de gente havia lá:

— Sem isso — disse-lhe — não vou segui-lo até lá.

— Seguir-me você vai — ele comentou, algo ameaçadoramente — mas não faz mal dizer aonde.

Iniciou, então, uma correnteza de palavras entusiasmadas que me fizeram quase começar uma sonolência. Parei o carro, com a cabeça atordoada, e fui escutando os movimentos de sua boca, os estalidos de seus lábios e dentes, mas não o som de sua voz. Mas de alguma forma eu sabia que ele estava dizendo alguma coisa. E quando, finalmente, acordei de um sobressalto, eu sabia o que ele tinha dito — e nunca mais esqueci.

Quem anda pelas estradas do interior de Minas Gerais, especialmente à noite, fica se perguntando aonde levam tantos estreitos caminhos de terra que se juntam ao asfalto. Esses caminhos que desaparecem atrás da primeira colina ou que mergulham nas trevas de um resto de mata ou que simplesmente se perdem da vista atrás de uma curva são, quase todos, absolutamente normais. Quem entre por um deles simplesmente chegará a algum sítio ou fábrica, a um arraial ou talvez apenas a um descampado solitário. Mas há pelo menos um deles que não é assim: um desses caminhos sai da normalidade e se perde na Serra da Estrela.

É um caminho que se parece com todos os outros caminhos do interior do estado: estreito e sem enfeites, saindo do asfalto e seguindo entre barrancos altos, ladeado de cercas e quase sempre sem nenhum pedestre rompendo a solidão. Mas há certas noites nas quais é possível ver à margem dele um outro caminho que leva o andarilho a se perder. Um caminho que, ao contrário dos caminhos cristãos e seguros do mundo mapeado em que vivemos, tem um gênio incerto e serpenteia traiçoeiro por entre os montes e as capoeiras, levando o caminhante ousado aonde não deveria ir.

Saindo de Cataguases em direção a Barbacena, alguns quilômetros depois de Astolfo Dutra, talvez além de Piraúba, certamente antes de se deparar com as primeiras araucárias; é mais ou menos por aí que o viajante deverá entrar em uma estrada vicinal estreita, do lado esquerdo da rodovia e tomar um trilho antigo que passa por entre altas árvores que ninguém tem coragem de cortar. Saindo dele dá para ver um morro arredondado com três pedras em cima, que parecem ter sido postas lá. Ali começa o rádio a não pegar, a memória a vacilar, como se passarinhos estivessem comendo as migalhas de pão que levariam à estrada normal outra vez. Além desse morro desce o trilho ainda mais antigo, que segue por três sétimos de uma légua, passando por três encruzilhada. Siga sempre reto e na terceira delas escolha a esquerda e passe por uma grota sombreada por árvores grossas e sem flores. Além da grota estará, se for a lua certa, um brejo sempre úmido em qualquer seca, que brilhará de um modo raro com os raios frescos de uma lua cheia. Pelo meio do brejo vem descendo um córrego pequeno e preguiçoso, fazendo voltas como uma cobra num terreiro quente.

Esse córrego vem de uma terra esquecida dos mapas e satélites, que não existe, mas ao mesmo tempo existe tão materialmente quanto nós. Muita gente não sabe, nem os próprios moradores daquelas paragens desconfiam, embora haja comentários, sempre à boca pequena, de estranhas coisas, de misteriosos aparecimentos e desaparições — ainda pior, de parições. A Serra da Estrela parece existir apenas na imaginação da gente supersticiosa mas ocasionalmente ela aparece, mesmo para o mais cético — como apareceu para mim, na figura de José Gaspar.

Minha cabeça ainda queimava, mas era o sol que batia na minha fronte através do parabrisas sem proteção, mas eu tinha a sensação de que a minha alma estivera perambulando por caminhos, por dias, mas era só uma sensação. E José Gaspar, pela primeira vez, me deu algum medo.

— Um dos lugares para entrar é pelo brejo. Não precisa ser por dentro dele, é só achar de onde sai o córrego e entrar. Por lá se vai a pé, caminhando contra correnteza, com cuidado, certo. Mesmo que a lua seja clara. É escuro, há aranhas, mas vou na frente com uma vara arrebentando as teia e chegamos seguros do outro lado.

— E não dá para ir de carro?

Ele me respondeu como se eu lhe tivesse dito a maior das imbecilidades:

— Na Serra da Estrela não existe carro.

E esta frase soou tão esquisita, tão deploravelmente definitiva, que tive a impressão de que na Serra da Estrela seria impossível uma vida normal. Nunca soubera ser tão capaz de adivinhar.

Liguei o motor novamente e saí dirigindo. Se eu tivesse juízo talvez tivesse voltado dali, mas havia alguma coisa na promessa de entrar em tal lugar que me fazia querer ir, mesmo com a companhia inconfiável de José Gaspar.

— Você já me falou bastante sobre o lugar aonde vamos — disse-lhe — mas ainda nada disse sobre quem eu vou ver por lá.

— Melhor não falar sobre isso. Tem coisa mais importante que preciso dizer.

— Bom saber disso. Vamos logo ao ponto.

— O ponto é que eu vou levar você até a Serra da Estrela, mas não vou entrar.

— Por que não?

— Tenho minhas razões, e “perfiro” não comentar — ele ainda escorregava na pronúncia, mostrando que era humano, afinal.

Mas o que eu vou fazer lá sem ninguém que me oriente? Vou é me perder e não encontrar ninguém.

Ele sorriu, quase com maldade.

— Sempre se encontra alguém, ou alguém lhe encontra.

Você me falava de sua irmã quando me chamou para ir até lá.

Ele novamente sorriu, com uma malícia que me incomodava:

— Não se avexe, minha irmã vai te achar, mesmo que você esteja sem rumo.

— O que a sua irmã quer comigo, exatamente?

— Minha irmã quer ver você por amor de lhe dizer algumas coisas. Ela vai receber você e vai “orientar” — a maneira como ele acentuou a palavra me sugeriu que ele a estava aprendendo naquele momento.

Ele ainda relutava em dizer, porém, o que a sua irmã queria comigo. Resolvi tentar adivinhar.

— Fale-me sobre ela: nome, endereço, profissão, cor do cabelo, essas coisas.

— Ela se chama Filipa Gaspar Barbosa e mora lá na Serra da Estrela. Ela já saiu uma vez, mas voltou. Ela fala português, e quer muito encontrar você.

Em umas poucas palavras, mais informação sobre ela do que em meses. Descobri que “Gaspar” era um nome de família, que havia pessoas entrando e saindo da Serra da Estrela — ele nem era o primeiro — e que para a gente que vivia em tal lugar o português era como se fosse uma língua estrangeira.

— Ora, mas isso é muito interessante. Contar com alguém que fala português…

Havia certa ironia no meu jeito de falar. José Gaspar pareceu não perceber. Havia certas sutilezas de expressão verbal, ou mesmo corporal, que ele parecia não ter a sensibilidade de notar.

Curiosamente, porém, aquelas foram todas as informções sobre Felipa que eu consegui obter. José Gaspar tinha resolvido, novamente, fechar-se em si. Enquanto eu tentava desesperadamente puxar assunto, ele resolveu se divertir manuseando os controles do rádio de longa distância que eu tinha instalado na Belina. Eu dirigia devagar, sem pressa alguma de chegar, pois sabia que o lugar tanto poderia ser muito longe ou depois da curva seguinte. Além de irmos devagar, ainda fazíamos pausas ocasionais, nas quais ele se “orientava”.

Ele tinha um jeito muito estranho de fazer isso. Não usava mapa algum, não sabia o nome de nenhum lugar e não perguntava a ninguém. Então, em vez de se fiar nessas noções educadas, pedia que parasse o carro sempre em cruzamentos ou encruzilhadas, bifurcações, trevos ou lugares quais onde destinos se dividam. Ali ele parava, olhava a paisagem em todas as direções, aparentava cheirar o vento e depois decretava:

— É para lá.

Dizia isso com uma certeza que não se podia nem pensar em discutir, entrava no carro e voltava a manusear o rádio até a vez seguinte. À medida em que o carro se deslocava, as estações FM apareciam e desapareciam, às vezes mal dando tempo de ouvir uma música. Ele então mudou para as ondas médias, mas se irritava com o chiado incessante. Foi brincando com os controles até chegar a uma emissora em ondas curtas, irradiando em alta potência e com som bem claro: era o serviço latinoamericano da Rádio Moscou.

“El gobierno israelí sigue rechazando las iniciativas de paz que … desde …”

Ele pareceu surpreender-se com aqueles sons, mas não esperou para ouvir muito. Torceu os controles e achou, pouco depois, o serviço africano da BBC anunciando resultados de futebol.

“Nottingham Forest 2 … Queens Park Rangers … one.”

As oscilações devidas ao longo trânsito atmosférico das ondas impedia que as notícias fossem ouvidas na íntegra, mas o magnetismo daquelas palavras alienígenas fazia brilharem os olhos dele. Mas a curiosidade era tão grande que ele não conseguia ouvir por mais que alguns minutos e logo passava à estação seguinte:

“Hier ist die Deutsche Welle…”
“Brodcasting from Manila, The Phillipines, this is FBC Radio International, signing on…”

— Eu não entendo o que estão dizendo essas pessoas.

— Normal, eles estão falando em outras línguas.

— Outras línguas… — ele saboreou a informação como se fosse uma novidade excitante.

— Não sabia que existem outras línguas?

— Não.

— Sabia que existia o nheengatu e o português.

— O que é nheengatu?

— Nheengatu é o que você falava.

— Eu falo a língua de minha gente. Mas parece que ninguém mais fala, só nós da Serra da Estrela — a informação pareceu trazer uma melancolia, um incômodo qualquer, quase uma lágrima.

Paramos para almoçar em um restaurante de beira de estrada. Comemos devagar, esperando a tarde passar: aonde íamos, só se pode chegar à noite. Então não havia pressa. Havia tempo para mais um pão de queijo ou, no caso dele, para mais um grande pedaço de carne mal passada, que ele destroçava animalescamente. Tentei novamente puxar assunto sobre a Serra da Estrela, mas ele não queria mais falar, era como se a preguiça de ter comido tanta carne lhe desse vontade de hibernar. Segui viagem o resto do dia com medo de me perder enquanto ele roncava enconstado desconfortavelmente no banco do carona. E me surpreendo até hoje de pensar no quanto eu aceitei com naturalidade todas as informações que ele me repassara. Tinham sido só algumas frases soltas, mas eu tinha ouvido muito mais. Seria a minha imaginação, ou estaríamos mesmo para tomar aquele caminho de conto de fadas?


14
Set 11
publicado por José Geraldo, às 18:00link do post | comentar | ver comentários (2)

Carlos Drummond de Andrade publicou em 1934 um livro intitulado “Brejo das Almas”, assim chamado em homenagem a um município do norte do estado de Minas Gerais. Os habitantes desse lugar, ingratos, em vez de aceitarem a homenagem do grande poeta, acabaram mudando o nome do lugar, em 1948, para “Francisco Sá” em comemoração a alguém que certamente merece ser comemorado, mas que não tem nem o charme e nem o enigma do nome original, literalmente, que o município recebera ao ser emancipado em 1923.

Uma coisa é certa, qualquer pessoa dotada de senso poético preferiria mil vezes morar no Brejo das Almas do que em Francisco Sá. Existem inúmeras cidades homenageando inúmeros franciscos, todos homens de caráter e dignos de honras, mas quantas cidades há que conjugam um nome de tanto impacto e a lembrança de um dos maiores poetas da língua portuguesa?

Drummond, talvez ofendido pelo rebatismo, nunca mais deu nome de lugar a nenhum livro seu. E a cidade, que seria eternamente lembrada toda vez que alguém lesse uma biografia do poeta, está condenada ao olvido, esse tipo de esquecimento poético que é muito mais grave do que o opróbio, porque esse, pelo menos, pode trazer a reboque alguma notoriedade.


13
Set 11
publicado por José Geraldo, às 09:15link do post | comentar
Este texto é parte do romance “A Casa no Fim do Mundo”, de William Hope Hodgson (1907), que estou traduzindo em capítulos semanais. Visite o Índice para lê-los em sequência.

Eu estava sentado novamente em minha cadeira, de volta a este velho escritório. Meu olhar percorreu o cômodo. Por um minuto ele me pareceu ter uma aparência oscilante — irreal e imaterial. Esta impressão logo passou e eu vi que ele não mudara em nada. Olhei para a janela e a veneziana estava erguida.

Pus-me de pé, ainda tremendo. Ao fazê-lo, um ruído baixo na direção da porta atraiu a minha atenção. Olhei em sua direção. Por um breve momento me pareceu que ela estava sendo fechada cuidadosamente. Fixei o olhar e percebi que deveria estar enganado — ela parecia bem fechada.

Em uma sucessão de esforços eu me arrastei até a janela e olhei para fora. O sol estava nascendo ainda, iluminando a macega selvagem dos jardins. Por talvez um minuto eu permaneci ali de pé a olhar. E passava a mão, confusamente, pela minha testa.

Então, no caos de meus sentidos, um pensamento súbito me ocorreu. Virei-me rapidamente e chamei por Pimenta. Não houve resposta, e eu tropecei através do cômodo, em um acesso frenético de medo. Ao fazê-lo, tentei pronunciar o seu nome, mas os meus lábios estavam mudos. Cheguei até a mesa e me inclinei na direção dele, com o coração apertado. Ele estava deitado abaixo da mesa, e eu não poderia ter-lhe visto da janela distintamente. Então, ao me inclinar, retive minha respiração brevemente. Não havia Pimenta, em vez disso eu estava inclinado sobre uma pilha alongada de poeira cinzenta…

Devo ter permanecido naquela posição reclinada por alguns minutos. Eu estava confuso, paralisado. Pimenta tinha mesmo passado à terra das sombras.


11
Set 11
publicado por José Geraldo, às 21:17link do post | comentar | ver comentários (5)

O sucesso não é algo que cai do céu, não é algo imponderável, não é um privilégio para escolhidos. Existe uma fórmula para chegar até ele e obter o que você deseja só depende de você. Para isso você precisa seguir os passos de quem já chegou lá, de preferência os de quem está chegando lá atualmente. Aprenda a ser bom, seguindo os melhores.

Este texto não pretende ser infalível, mas contém dicas seguras para você que não vê a hora de ter seu livro nas prateleiras das grandes livrarias e sua história adaptada para o cinema ou, modestamente, em uma mini série da Globo. O Prêmio Jabuti e um convite para a FLIP podem estar ao seu alcance, basta querer.

A dica mais importante é a que já está escrita um pouco acima: junte-se aos bons para ser um deles. Como se diz popularmente: quem se mistura aos porcos, come lavagem. Você não quer lavagem, você quer caviar de esturjão do Mar Cáspio acompanhado por Romanée Conti.

Quando você vai construir uma casa, podendo escolher, você não vai fazê-la no brejo, nem na beira do rio, nem em um barranco pedregoso e nem no meio do nada. Sua obra literária é a sua “casa” no mundo das letras, construa-a no melhor terreno que puder. E o melhor “terreno” é aquele que fica nos melhores bairros, vizinho dos bons nomes. A seguir temos uma lista de excelentes temas para o seu trabalho. Muita gente está ganhando dinheiro nesses “ramos”, então você não tem como errar.

Vampiros
Por razões óbvias
Lobisomens
Você provavelmente os incluirá se tiver escolhido o item anterior, mas eles também podem funcionar muito bem sozinhos, ou acompanhados de outros personagens
Uma garota solitária que convive com garotos bonitos
Idealmente essa garota terá passado por alguma circunstância triste, que a obrigou a viver em um lugar onde há tantos garotos bonitos
O cara mais bonito da escola se apaixona pela garota esquisita e/ou impopular
Possivelmente ela pertence a uma minoria étnica, tem algum tipo de relação com magia, é uma espiã alienígena ou então possui algum tipo de raro defeito físico ou dote
Um homem e uma mulher que se odeiam mas são forçados a permanecer juntos por um certo tempo e acabam se apaixonando
O motivo de ficarem juntos pode ser uma aposta, um naufrágio, uma catástrofe natural, uma invasão alienígena ou, idealmente, um feitiço
O clássico conto de fadas da princesa
No qual o príncipe se apaixona por uma garota plebeia inteligente, bonita, simpática, cheia de personalidade mas “comum” demais para os padrões da família real
Encontros amorosos em hospitais, necrotérios, cemitérios, igrejas, castelos abandonados, necrópoles arruinadas ou lugares assombrados
Afinal, nada é mais romântico do que a proximidade com doença, morte, sujeira, germes e… fantasmas, bruxas, duendes, lobisomens!
O amor do aluno pela professora, ou da aluna pelo professor (ou vice-versa)
Apenas tenha o cuidado de evitar uma diferença de idade maior que dez anos (isso seria bléargh!) e ambos têm de ser bonitos (afinal, professores são quase todos jovens e bonitos)
O amor por um fantasma
Além de todas as vantagens da história romântica tradicional, esta ainda tem um plus: devido à impossibilidade de contato físico entre os pombinhos, a história será considerada “segura para todas as idades”
A paixão da vítima pelo sequestrador
Isso não é uma condição psicológica e nem uma estratégia de sobrevivência, é amor do mais puro e verdadeiro
A paixão súbita entre dois amigos
Essas coisas acontecem o tempo todo, então ninguém vai achar estranho. Mas para dar mais realismo à história os dois têm que ser bonitos, bem resolvidos e sem preconceitos. Um deles ser famoso ajuda a tornar a história mais quente.
Super poderes
Nada mais interessante do que ler sobre pessoas comuns que ganham super poderes e resolvem todos os problemas do mundo. Isso inclui garotos sofridos que descobrem que são especiais em um universo paralelo ou garotas sofridas que descobrem ter o poder de matar ou destruir com as suas palavras
Cartas de amor
Pessoas apaixonadas escrevem cartas o tempo todo (e guardam cópias para futura publicação)
Fan fiction
Não são só os fãs da sua série de mangá favorita que vão se interessa em ler os “episódios perdidos” que você criou: todo mundo vai querer ler
Casamentos arranjados
Mas cuidado: no decorrer da história os noivos devem apaixonar-se de verdade e enfrentar uma série de inimigos que vão tentar separá-los. Um desses inimigos será o homem por quem a mocinha pensava estar apaixonada antes de casar-se. O noivo em hipótese alguma forçará a noiva a consumar o casamento, mas será paciente e atencioso até cativá-la
Escrever textos de auto ajuda ensinando os outros a fazer coisas
Porque o mundo está cheio de pessoas que gostam de seguir o que os outros fazem ou mandam fazer

Caso a sua obra não se baseie em nenhuma destas histórias você precisará se acostumar com a ideia de que será pouco lido e receberá poucos comentários. Também ganhará pouco com os cliques no AdSense e dificilmente receberá uma carta de uma grande editora estrangeira se oferecendo para traduzir e publicar sua heptalogia mediante um adiantamento de quinhentos mil dólares pelos direitos do livro um e mais 250 mil a cada novo livro completado.


10
Set 11
publicado por José Geraldo, às 16:41link do post | comentar | ver comentários (1)

Jó era um homem justo. Na velha terra de Uz não havia ninguém tão querido e nem tão invejado. Era rico, mas a riqueza não o havia estragado, em vez disso, fazia dela um instrumento para ajudar o próximo — e era justamente por isso que o tinham em tão alto apreço.

Tinha sete filhos e três filhas, de sua única e amada mulher. Todos já casados e com as respectivas famílias bem encaminhadas. Viver entre os filhos e netos, isso era o que tornava Jó um homem realmente feliz, a riqueza era algo com que ele contava de uma forma quase natural.

A riqueza de Jó havia sido herdada, em grande parte, de seu falecido pai, mas ele a havia aumentado com seu trabalho duro. Tornar-se rico ficara especialmente mais fácil depois que os filhos cresceram, pois passaram, também eles, a contribuir para o crescimento da propriedade. Desta forma, Jó possuía extensos rebanhos de gado, que pastavam pelos campos sob o cuidado de centenas de empregados, com seus cães. Estes animais, entre os quais muitos escravos, como era costume na época, eram saudáveis e bem tratados. Comprar uma rês de Jó era negócio bom sempre — e essa reputação só ajudava a torná-lo um homem mais bem-sucedido.

Por tudo isso, evidentemente, Jó era grato a seu deus. Prestava seu culto doméstico de forma minuciosa e, por via das dúvidas, sempre sacrificava em nome dos filhos, para o caso de algum deles esquecer-se. Desta forma ficava garantida a satisfação do deus, diante de qualquer eventualidade.

Não havia, portanto, aos olhos do povo de Uz, nenhum defeito de caráter que pudesse ser imputado a Jó. Ele era tão perfeito que só poderia mesmo existir como um personagem literário. Mas a vida de Jó estava para mudar, para pior, graças ao seu deus.

O deus de Jó era dado a bravatas e apostas, além de ter o péssimo hábito de ter entre seus servidores celestiais criaturas de caráter duvidoso. Esses defeitos o tornavam propenso a cometer erros, ou melhor, atos que aos olhos dos comuns mortais parecem erros mas que, nas palavras do deus, reveladas a profetas, seriam “parte de um grande plano”.

Um belo dia estava Jeová — esse era o nome do deus de Jó — fazendo aquilo que se faz lá no céu quando os anjos apareceram para fazer o que os anjos fazem na presença de deus, quando Satanás — um servidor celestial particularmente capcioso — apareceu no meio eles, aparentemente de forma costumeira. Digo isso porque Jeová o reconheceu, cumprimentou e chamou de lado para uma conversinha amigável:

— E então, Satã, o que tem feito, meu filho?

— Velho, o Senhor sabe como é, estive andando lá pela terra, de um lado para o outro, só azarando…

— Ah, então deve ter visto o Jó…

— Jó, Jó… — engasgou Satanás sem se lembrar do nome.

— Ora, Satã, está ficando gagá antes de seu pai? Jó, aquele cara lá da terra de Uz que gosta de mim mais do que a minha mãe!

— Mas o Senhor não disse para a gente que não teve mãe, que sempre existiu, essas coisas?

— Bem, eu não tive mãe ainda, mas isso é complicado demais para vocês anjinhos entenderem. O que importa é que esse Jó é o maior dos meus fãs, um amigo meu de toda confiança, homem da mais estrita fidelidade. Eu dormiria pelado com ele numa cama sem medo de nada.

— Olha, pai… não fica falando essas coisas que Baal e Marduk reparam. Você nem imaginam a fofoca que esses dois arrumaram sobre os deuses gregos, por muito menos.

— Qué é isso, moleque? Está me estranhando? Sou espada! Espada de fogo!

— Ah, então `tá. Mas o Senhor me falava de um tal Jó…

— Sim, o Jó. Duvido que haja alguém no mundo que tenha tanto amor por mim quanto ele!

— Pai, que é isso!? O Senhor está se gabando do amor de um homem?

— Meu filho, tal como você que é anjo, não tenho sexo. Estou falando de amor espiritual! Você não entende?

— Claro que não, Pai. O Senhor me criou para desconfiar de tudo, para discordar de tudo, para encher o saco de todo mundo. Sou cricri desse jeito porque o Senhor me fez assim.

— É mesmo, da próxima vez que eu for criar um universo não vou brincar de novo dessa história de bem e mal, livre arbítrio etc. Vai todo mundo me obedecer, e pronto!

Satanás ficou quieto. Quando Jeová começava a divagar sobre seus planos para o “próximo universo” o céu inteiro tinha medo. Afinal, para criar um novo universo seria preciso acabar com o primeiro, incluindo todos os anjos, santos e alminhas pagãs.

— Mas o Senhor falava do Jó, e eu não acreditava que ele pudesse ser tão santo.

— Está duvidando de mim, filho? Eu sei tudo!

— Todo pai diz isso — sussurrou Satanás.

— O que foi que você disse? — trovejou Jeová.

— “Todo poderoso Pai do Céu”.

— Ah, bom. Mas se você duvida de mim, aposto com você como a fé do Jó é inabalável. Olha lá!

Jeová mostrou Jó e sua casa através de um “mar de bronze” que havia diante do trono. Estavam todos celebrando uma festa familiar, ao redor de uma farta mesa. Satanás olhou com interesse aquela cena, tentando identificar pecados para cutucar e, depois de alguns minutos, atalhou:

— Que fé coisa nenhuma, ele gosta do Senhor porque é rico. Veja como a mesa dele é farta, veja as roupas de lã alvíssima, a casa de pedra em que vive! Nenhum rico amaldiçoa a Deus, mas aposto que se o Senhor o fizer ficar pobre ele o xingará.

— `Tá apostado! Se eu ganhar você me devolve sua beleza?

Esta foi a primeira aposta feita por Jeová naquele “dia”, mas não a primeira. Satanás sabia muito bem que ele não sabia perder, mas fora criado com uma insaciável ambição. Por isso engoliu em seco, hesitando topar, mas tinha tanta certeza de que humanos, especialmente os do Antigo Oriente Médio, eram umas bestas que topou:

— Se eu ganhar eu quero um terço das estrelas do céu.

— Fechado. Mas não tire a vida e nem a saúde de ninguém, somente riquezas. Você disse que ele me amaldiçoaria se ficasse pobre!

Satanás desceu do céu com a missão de acabar com a riqueza de Jó e fazê-lo blasfemar. Começou a trabalhar logo que chegou a Uz. Arranjou uns capangas barra-pesada que atacaram os campos de Jó, roubando as reses e degolando os empregados. Depois uns anjos vingadores que eram amigos seus reuniram umas nuvens e trouxeram granizos e coriscos para matar as ovelhas e cabras. Estas deram um trabalhão, pois esse bicho ruim não morre fácil: foi preciso um meteorito de meia tonelada no meio da testa de cada uma, mas finalmente morreram, bicho ruim de morrer que é cabra! Por fim as caravanas de Jó foram atacadas e saqueadas por caldeus.

O pobre homem ficou mais pobre que Jó, digo, ficou pobre! Vocês entenderam. Mas continuou tranqüilo, ao lado da mulher e dos filhos. Satanás ficou fulo, mas não tinha mais nada a fazer, porque Jeová já estava com seu Olho-Que-Tudo-Vê bisbilhotando para ver se ele não trapaceava. Voltou ao Céu e teve de entregar sua beleza ao bondoso e onipotente Deus-Pai. Como resultado, virou um bicho esquisito com uma pelagem que parecia de rato, asas que pareciam de morcego, cabeça que parecia de cabra e todo torto. Os anjinhos lourinhos riam dele (como são maus os inocentes anjinhos lourinhos e como Satanás desejou empalar cada um deles e pôr para assar numa fogueira). Enquanto chorava de raiva, Jeová se gabava:

— Tá vendo como Jó é cheio de fé!?

Satanás vociferou entre dentes que haviam ficado fedidos e pontiagudos:

— Mas também… Riquezas vêm e vão e, se ele tem fé, talvez imagine que um dia ganhará de novo. Mas se ele perder a família, que é algo que não se ganha de novo, daí ele ficará triste e vai xingar o Senhor.

— Aposto que não!

— Então tá, eu quero ter um rabo gordo e com uma ponta de flecha no fim se ele não te xingar quando eu matar todo mundo da casa dele!

— Tá feito! Se você ganhar, ficará com um terço das estrelas do céu, embora isso não tenha valor algum porque nós dois sabemos que o céu é só uma abóbada sobre a terra e as estrelas são faisquinhas sem graça que eu pus lá brilhando.

E assim Satanás desceu do Céu pela segunda vez, cheio de ódio, disposto a foder com Jó como pudesse para fazer aquele palerma blasfemar logo. E para não ter trabalho, assim que Jó saiu de casa para trabalhar (em sua nova rotina, trabalhava de 7 às 17 para sustentar a casa), mandou um terremoto que fez a casa cair e matou os seus filhos, genros, noras, netos e também um ricardão que andava por lá. Sobraram apenas Jó e sua mulher, que já era uma senhora de meia-idade.

Com esta catástrofe muitos teriam blasfemado, mas Jó era um sujeito muito zen (ainda que vivesse milhares de anos antes da existência do Japão). Deu um grande suspiro, chorou, chorou, mas não amaldiçoou a Deus.

Satanás, é claro, ficou “pluriputo” da vida, mas nada podia fazer. Pensou em fugir e se esconder debaixo de uma pedra em Plutão, mas Jeová já o tinha visto. Veio chegando, arrastando a sandália na areia, com as mãos para trás, todo irônico, falando com um curioso sotaque mineiro:

— Pois é, Satã. Ó só, o home num xingou não…

Satanás exalou um suspiro de auto-piedade e Jeová, num gesto rápido, puxou um pêlo da bunda do ex-anjo e criou uma cauda longa, grossa, molenga, vermelha e com uma ponta-de-flecha no fim.

Humilhado e sedento de vingança, Satanás soltou os cachorros:

— Mas também você fica trapaceando! Não pode tocar no Jó! Não pode! Puta merda! Enquanto aquele £¢³¬{¢{%@ estiver com saúde vai tolerar tudo! Olha só, ele virou o guru daquela gente! Todo mundo acha que ele é santo porque aguenta tudo calado! Ainda lhe resta saúde e dignidade e isso é suficiente. Se bobear ele vira profeta até! Mas retire sua saúde e faça o povo perder o respeito por ele que ele vai xingar o Senhor e todas as hostes do céu!

— Você acha?

— Acho!

— Aposto que não!

— Aposto que sim, mas só se você me der poderes quase iguais aos seus e me deixar dominar a Terra para sempre! Quero ser Senhor do mundo inteiro!

Num ato indigno de um ser onisciente (e ainda menos digno de um ser sumamente bom), Jeová consentiu que Satanás sacaneasse Jó pela terceira vez, apostando contra a fé de Jó a sorte de todo um planeta e de todas as futuras gerações de pessoas e animais.

E assim Satanás desceu do céu com a missão de acabar com todo o respeito de que o pobre Jó ainda gozava. Fez com que ele adoecesse de uma moléstia que causava bolhas fedorentas e urticária pela pele, além de purgar pelos cantos dos olhos. Coçava tanto que ele só conseguia ficar nu se raspando com um caco de telha. Para aliviar a coceira, ele chafurdava numa poça de lama como um porco. Seus cabelos caíram e, como ficava nu, todo mundo percebeu que ele tinha um bilau pequeno.

As pessoas começaram a achar que ele estava doido ou, pior, que ele tinha secretamente cometido um imenso sacrilégio para que os deuses o ferissem tanto. Assim ele perdeu todo o respeito e os seus discípulos e amigos o abandonaram. As crianças riam dele. Sua mulher fugiu de casa com um entregador de kebab. Mas não antes de humilhá-lo publicamente dizendo:

— Veja só o que aconteceu, caro Jó. Perdeste fortuna, família, amigos, saúde e até o respeito de teus semelhantes. Olha que vida miserável estás levando neste poço de lama. Ninguém merece viver assim, nem o pior dos criminosos. E tudo isso foi teu Deus maluco que causou, ou deixou que alguém causasse. Amaldiçoa esse tirano ingrato para ele te mandar um corisco na moleira e te matar, porque só morrendo para ficar livre desse seu Deus.

Jó se recusou a amaldiçoar a Jeová, mesmo porque isso não impediria que sua esposa o abandonasse. E assim perdeu a última pessoa que tinha ao seu lado.

Somente três amigos permaneceram fiéis. Compadecidos da desgraça de Jó, foram conversar com ele. Ao ver o estado em que o amigo estava os três ficaram tão chocados que levaram sete dias tentando criar coragem para chegar perto e puxar assunto.

Mas ele resistiu longamente às ponderações dos seus três melhores amigos, por mais sete proverbiais dias, até que, por fim, com a cabeça confusa de tanto argumento para lá e para cá — e também um tanto oca pela fome e pelo sofrimento — acabou cometendo uma blasfêmia “técnica”, que é algo mais ou menos como um “jogo perigoso” do futebol. Deus viu o seu pé alto e não gostou.

Sim, ele blasfemou por causa de um deslize com as palavras. Não xingou a Deus, mas duvidou de sua bondade, dizendo que não poderia ser por própria culpa que sofria:

— Ó Deus, foste tu que me atiraste aqui nesta lama, e não me ouves quando te peço piedade. Não posso fazer nada contra o teu poder, mas por que tu atacas a um pobre mortal como eu? Terei cometido algum pecado grave sem o perceber? Mas se é contra mim que diriges sua ira, por que mataste meus filhos e meus empregados?

Do céu Jeová contemplava tudo com um interesse de voyeur. Quando Jó blasfemou, Satanás, que estava ao lado do Senhor dos Exércitos, caiu naquela gargalhada que seria imortalizada pelo cinema:

— Uauhahahahaha!

Jeová ficou vermelho-roxo-verde-abóbora.

— Pague a aposta, Pai!

Diante dos milhares de anjos que o olhavam, Jeová não teve como fugir. Cedeu a Satanás um terço de seu próprio poder.

— Muito bem, e agora vou lhe fazer “Senhor do mundo”.

Satanás saltitou sobre seus cascos de bode, todo feliz, achando que tinha ganhado, mas Jeová o agarrou pelos chifres e o atirou no mundo com tanta força que destruiu a Atlântida. E do alto do céu lhe gritou:

— Você queria tanto o mundo! Pois bem, vais ficar preso nele para toda a eternidade, Surfista de Prata!

Sangrando e ainda tentando curar suas muitas fraturas e dentes caídos, Satanás olhou para cima e perguntou:

— Quem?!

Jeová mordeu a língua:

— Desculpe, o incompetente do escritor confundiu as historinhas.

Tendo feito isso, resolveu tentar limpar a cagada toda que tinha feito. Desceu do firmamento a bordo de uma tempestade das mais tonitroantes e foi parar no Oriente Médio, vociferando:

— Vou mostrar a essa cambada quem manda no pedaço!

Chegou na terra de Uz ainda quente de raiva. Jogava coriscos para todo lado, relampejava, esbravejava e fazia chover como nunca chovera lá. De fato, quase nunca chovia lá. Para completar, causou uma erupção vulcânica e derrubou um meteoro. Depois de meter medo até nas pedras e fazer com que as pessoas fugissem para suas casas ou se entocassem em cavernas, assumiu uma forma apresentavelmente humana—apesar dos cabelos de fogo, dos olhos chamejantes, do tamanho descomunal e de uma nuvem escura para esconder sua face—e apareceu diante de Jó e seus amigos, que estavam acovardados como coelhinhos num canil.

— E então, fiquei sabendo que havia uns carinhas por aqui duvidando de minha sabedoria, onipotência, justiça e blá-blá-blá…

Três sorrisos amarelos cumprimentaram o avatar de Jeová:

— Quê é isso, Senhor. Imagina… Vossa magnanimidade é reconhecida pelos quatro cantos da terra. Vós brilhais com justiça e…

— Calem a boca, seus puxa-sacos falsos!

Fez um silêncio total na galáxia.

— Vocês se acham inteligentes? Quem vocês pensam que são para acharem que sabem alguma coisa, suas amebas? Por acaso já contaram as estrelas do céu e os grãos de areia da praia? Hem? Hem? Hem? Pois é, fui eu quem criou a terra, enchi os rios, fiz a serra e não deixei nada faltar! Eu sei de tudo, eu sou quem sou, eu sou o oni-plus-ultra. E vocês são nada! Vocês são uns macacos pelados que ainda nem saíram da Idade do Ferro! Como ousam querer entender os meus desígnios secretos?

Tendo assim exibido sua pirotecnia e feito todo mundo sair cagando de medo, completou:

— Muito bem, Jó. Para lhe provar que eu sou-quem-sou, que eu mando e desmando, faço e desfaço. Vou desfazer tudo o que lhe fiz!

— Ó Senhor dos Exércitos! Vós sois mui justo e mui amável! Magnânimo! Ave!

— Tá, pára! Eu já sei que você só diz isso porque eu estou te pagando!

Jó calou a boca, para evitar que Jeová se enfezasse e mudasse de ideia. Depois de se ajeitar na nuvem, começou a arrumar as coisas.

— Fica saudável!

Jó ficou imediatamente curado de suas pústulas, de um princípio de cirrose que desenvolvera no tempo das vacas gordas entupindo a cara de vinho e cerveja e ainda ficou livre de umas cáries e gengivites. Sua pele ficou mais fresca que uma casca de pêssego.

Jeová olhou para Jó e acrescentou:

— Fica limpo também que você está fedendo mais que um porco suado!

Imediatamente apareceram uns anjinhos que lavaram e perfumaram tanto o pobre Jó que a Terra de Uz ficou cheirando a Jó por cinco séculos.

Jeová olhou de novo, pensou um pouco, olhou para um lado e para o outro para ver se não tinha ninguém olhando e fez o pinto do Jó crescer seis centímetros. Vendo isso Jó caiu no chão de Joelhos dizendo:

— O Senhor, eu não sou digno de tanta bondade!

— Se não parar de me bajular eu o deixo careca!

Jó imediatamente calou-se.

— Pois bem, aparece aí um cabelo… louro… liso…

— Muito bem. Terminei com você!

— Mas Senhor! Vai me deixar pelado aqui no meio do povo? Isso não é pecado?

— Humpf!

E ao resmungar isso, Jeová fez com que Jó se tornasse não apenas o homem mais bem-vestido do Oriente Médio, mas também o mais sortudo para ganhar dinheiro.

— Agora, Jó, vamos trazer de volta a sua família.

Depois de fazer Jó ficar jovem, bonito, louro e rico, Jeová começou a caçar um jeito de trazer de volta da morte os filhos, filhas, escravos, camelos, ovelhas e cabras do Jó—enfim, todos os seus bens materiais. Mas não se lembrava de jeito nenhum de como fazer. Pediu licença a Jó um minutinho e foi até sua nuvem, pegou seu celular e ligou para Satanás:

— Satã. Eu estou achando que eu lhe passei por engano o meu poder de trazer os mortos à vida… Dá para você me devolver? Eu vou precisar dele para cumprir a promessa que fiz aos judeus… sabe como é…

Satanás gargalhou de novo e desligou. Então Jeová voltou da nuvem meio sem jeito e disse a Jó:

—  O negócio é o seguinte, Jó. para deus nada é impossível, mas ao mesmo tempo é contra as minhas regras trazer alguém de volta da morte. Isto só será possível no Juízo Final, entende?

O pobre Jó, que já estava sentindo o gosto de ter de volta seus queridos filhos e filhas, começou a chorar.

— Ora, o que é isso, Jó. Eu vou te compensar. Você vai ser sete vezes mais rico do que antes, os seus novos filhos e filhas serão mais bonitos que os primeiros…

Jó não estava nem um pouco preocupado com isso:

— Senhor, eles não tinham culpa de serem feios, eu os amava mesmo assim!

Então Jeová se lembrou que não passara a Satanás um poder para o qual nunca dera grande importância. A um gesto de seu dedo, ele “secou todo pranto e toda lágrima” de Jó, fazendo-o esquecer de sua mulher infiel e dos filhos mortos.

— Agora, Jó, você vai voltar ao convívio dos homens, vai encontrar uma mulher mais nova e mais bonita e vai ter outra penca de filhos.

E o Jó, o Zumbi feliz desceu para a cidade de Pasárgada cantando aleluias e lá pôde ter a mulher que quis na cama que escolheu.


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Ótima informação, recentemente usei uma charge e p...
Muito bom o seu texto mostra direção e orientaçaoh...
Fechei para textos de ficção. Não vou mais blogar ...
Eu tenho acompanhado esses casos, não só contra vo...
Lamento muito que isso tenha ocorrido. Como sabe a...
Este saite está bem melhor.
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