Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
06
Set 11
publicado por José Geraldo, às 09:15link do post | comentar
Este texto é parte do romance “A Casa no Fim do Mundo”, de William Hope Hodgson (1907), que estou traduzindo em capítulos semanais. Visite o Índice para lê-los em sequência.

Os anos se dissolveram no passado, séculos, eras. A luz da estrela incandescente decaiu para um vermelho furioso.

Foi somente depois que eu vi a nebulosa escura — a princípio apenas uma nuvem impalpável à minha direita, na distância. Ela cresceu regularmente até se tornar uma mancha de negrume na noite. Quanto tempo olhei, é impossível dizer, pois o tempo como o conhecemos já se tornara uma coisa do passado. Ela se aproximou, uma monstruosidade amorfa de escuridão tremenda. Pareceu escorrer através da noite, sonolentamente, uma verdadeira névoa do inferno. Lentamente ela chegou mais perto e se interpôs no vácuo entre mim e os Sóis Centrais. Foi como se uma cortina se fechasse diante de meus olhos. Um estranho tremor de medo me tomou, e também uma renovada sensação de espanto.

O crepúsculo verde que reinara durante tantos milhões de anos dera então lugar a impenetráveis trevas. Imóvel eu olhava em torno de mim. Um século se passou,1 e pareceu-me detectar ocasionais cintilações de vermelho suave passando por mim.

Observei mais atentamente e então pareceu-me ver, em meio ao negrume nebuloso, massas circulares de um vermelho turvo. Elas surgiam da escuridão difusa. Pouco depois elas ficaram mais definidas em minha visão. Eu as pude ver, então, com certa medida de precisão — esferas encarnadas similares em tamanho aos globos luminosos que eu tinha visto tanto tempo antes.

Elas passavam flutuando por mim, continuamente. Gradualmente um desconforto peculiar me assaltou. Percebi uma sensação crescente de repugnância e medo dirigida a tais globos, que parecia surgir de algum conhecimento intuitivo, e não de uma causa real ou racional.

Alguns dos globos que passavam eram mais brilhantes do que outros e foi de um destes que uma face mirou-me, subitamente. Uma face humana em seus traços, mas tão torturada de infelicidade que a encarei com perplexidade. Nunca imaginara existir uma tristeza tão grande quanto aquela. Eu tive consciência de uma sensação adicional de dor ao perceber que aqueles olhos, que brilhavam tão fortemente, eram cegos. Um pouco depois de a ter visto ela já passara, desaparecendo nas trevas circundantes. Depois disso eu vi outras — todas possuídas daquela expressão de tristeza sem esperanças, todas cegas.

Um longo tempo passou e eu percebi que estava mais perto dos globos do que antes. Com isso fiquei mais inquieto, embora tivesse menos medo daqueles estranhos globos do que antes de ter visto seus tristes ocupantes, pois a compaixão tinha temperado a minha aversão.

Depois eu não tive mais dúvidas de que estava sendo atraído para mais perto das esferas vermelhas e logo flutuava entre elas. Então percebi que uma se aproximava. Eu não tinha meios de sair de seu caminho. No que me pareceu um minuto ela estava diante de mim e eu afundei numa neblina profundamente vermelha. Ela clareou e eu contemplei, então, confuso, a imensidade da Planície do Silêncio. Ela aparecia como exatamente eu a vira da primeira vez. Eu me movia rapidamente acima de sua superfície. Mais à frente brilhava o vasto anel sanguíneo2 que iluminava o lugar. Por toda a extensão ao redor estendia-se a extraordinária desolação da imobilidade, que tanto me impressionara durante minha viagem anterior por por aquelas asperezas.

Então eu vi erguerem-se contra as trevas avermelhadas os picos distantes do imenso anfiteatro de montanhas onde, incontáveis eras antes, me haviam sido mostrados os primeiros sinais dos terrores que há sob certas coisas, e onde, vasta e silenciosa, vigiada por mil deuses mudos, está a réplica desta casa de mistérios — esta casa que eu vira engolida naquele fogo infernal, quando a terra beijara o sol e desparecera para sempre.

Embora eu pudesse ver os cimos do anfiteatro de montanhas, ainda tardou um longo tempo, porém, antes que as suas partes inferiores ficassem visíveis. Talvez isso fosse por causa da estranha névoa vermelha que parecia agarrada ao chão da Planície. De qualquer maneira, seja como for, eu as vi enfim.

Após outro breve intervalo de tempo eu chegara tão perto das montanhas que elas pareciam tocar-se acima de mim. Então eu vi a grande ravina aberta diante de mim e flutuei através dela, sem querer.

Depois eu saí na amplidão da enorme arena. Lá, a uma distância que parecia não mais que oito quilômetros, erguia-se a casa; enorme, monstruosa e silenciosa — construída no exato centro daquele estupendo anfiteatro. Ela não tinha mudado nada, pelo que pude ver, em vez disso parecia que tinha sido no dia anterior que eu a vira. Ao redor as montanhas escuras e tristes me encaravam do alto de seus sublimes silêncios.

Ao longe, à direita, muito acima entre os picos inacessíveis, assomava o corpo enorme do grande Deus-Fera. Mais acima eu via a forma horrível da pavorosa deusa, que se erguia através da vermelhidão, milhares de metros acima de mim. À esquerda eu via a monstruosa Coisa Sem Olhos, cinzenta e inescrutável. Mais além, reclinadas sobre seu leito elevado, aparecia a lívida Forma Vampiresca — um borrão de cor sinistra entre as montanhas.

Lentamente eu atravessei a grande arena, flutuando. Ao fazê-lo eu notei as formas difusas de muitos outors Horrores ocultos que populavam aquelas alturas supremas.

Gradualmente aproximei-me da Casa e os meus pensamentos correram de volta através do abismo dos anos. Lembrei do temível Espectro do Lugar. Um breve espaço depois eu vi que estava sendo conduzido diretamente para a enorme massa do edifício silencioso.

Nesse momento eu notei, de uma maneira quase indiferente, uma sensação de crescente inércia, que me impedia de sentir o medo que eu deveria sentir ao me aproximar daquele Prédio assustador. Mas em vez disso o via calmamente —   quase como alguém que assiste uma calamidade através da fumaça de seu cachimbo.

Logo me aproximara tanto da Casa que podia discernir muitos de seus detalhes. Quanto mais olhava, mais eu confirmava a minha impressão anterior de sua total semelhança com esta estanha casa. Exceto pelo tamanho enorme, eu não via nada que não fosse idêntico.

Subitamente fui tomado, enquanto observava, por uma sensação de grande espanto. Eu tinha chegado à parte oposta, onde a porta que dá para o meu escritório estaria situada. Lá estava, caída sobre o umbral, uma grande peça de pedra da cornija, idêntica a não ser pelo tamanho e pela cor, ao pedaço que eu derrubara em minha luta contra as criaturas do Abismo.

Flutuei para mais perto e meu espanto aumentou, pois notei que a porta estava parcialmente arrebentada nas dobradiças, precisamente da maneira que a porta do meu escritório fora forçada pelo assalto das Coisas Suínas. Tal visão iniciou uma cadeia de pensamentos e comecei a pensar, vagamente, que o ataque a esta casa poderia ter tido um significado muito mais profundo do que até então eu imaginara. Lembrei como, muito antes, nos velhos dias da Terra, eu tinha meio que suspeitado que, de uma forma inexplicável, esta casa em que eu vivo estaria em conexão — para usar um termo conhecido — com esta outra tremenda estrutura, na distante névoa da incomensurável Planície.

Naquele momento, porém, começou a ser-me revelado que eu tinha apenas vagamente concebido o que signficava realmente o que eu suspeitara. Comecei a entender com uma clareza sobre-humana, que o ataque que repelira estava, de uma maneira extraordinária, conectado ao ataque àquele estanho edifício.

Com uma curiosa falta de sequência os meus pensamentos abruptamente abandonaram o assunto e se dirigiram ao material peculiar de que a Casa era construída. Ela possuía — como já mencionei antes — uma cor verde escura. Mas agora que eu estava tão perto dela eu percebia que essa cor flutuava às vezes, embora levemente, brilhando e se apagando, mais ou menos como pó de fósforo quando esfregado contra as mãos no escuro.

Então a minha atenção foi distraída disso ao chegar à grande entrada. Ali, pela primeira vez eu tive medo, pois de uma vez as grandes portas se abriram e eu flutuei por entre elas, sem querer. Dentro estava tudo muito escuro, impalpável. Em um instante eu cruzara o umbral e as grandes portas se fecharam silenciosamente, fechando-me dentro daquele lugar sem luz.

Por um momento eu pareci flutuar imóvel, suspenso na escuridão. Então eu percebi que estava me movendo outra vez, embora não pudesse dizer para onde. Subitamente, muito abaixo de mim, pareceu-me ouvir o murmúrio ruidoso de muitas risadas Suínas. Elas desapareceram lentamente, e o silêncio subsquente parecia pegajoso de horror.

Então uma porta se abriu à frente, em algum lugar, e uma névoa de luz branca filtrou-se através dela e eu flutuei lentamente para dentro de um cômodo que me parecia estranhamente familiar. Subitamente ouvi o ruído desconcertado de um grito alto, que me ensurdeceu. Eu vi uma quantidade de coisas borradas, oscilando como labaredas diante de meus olhos. Meus sentidos estiveram confusos pelo que pareceu um momento eterno. Então minha capacidade de enxergar retornou. A sensação de perplexidade e tontura tinha passado, e eu podia ver claramente.

1 A sensação de tempo aqui referida pelo narrador parece ser completamente aleatória, se considerarmos tudo que anteriormente foi dito, e não reflete de forma alguma o tempo real.

2 Sem dúvida, a massa do Sol Central morto, envolta em chamas, vista de uma outra dimensã — Nota do Editor.


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