Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
25
Mai 12
publicado por José Geraldo, às 00:23link do post | comentar | ver comentários (2)

Américo dizia-se amargo de propósito: queria treinar rabugice para quando fosse famoso. Então poderia esnobar entrevistas e desfilar namoradas bonitas em carros do ano. Não conseguia nem ficar famoso e nem realmente ser amargo: era apenas triste e apagadiço. Sentava-se na primeira das carteiras para fingir ser estudioso, mas andava sempre com notas ruins e sapatos rigorosamente engraxados. Meticuloso em suas escolhas, enquanto não ficava famoso e amante de modelos perfeitas deixou-se namorar por Jaqueline, que era vesga, magra, sardenta, desconjuntada e fanha. Casou com ela inclusive, pensando em abandoná-la quando finalmente um estúdio de cinema comprasse os direitos de suas histórias ou quando ganhasse na loteria esportiva. Não entendia de futebol nem de cinema: suas histórias não tinham pé nem cabeça e seus palpites eram desastrosamente azarados. Em um famoso teste caracterizado por oito incríveis zebras, acertou os oito resultados, mas falhou em adivinhar que o Flamengo ganharia do Olaria e que o Atlético venceria o Democrata de Sete Lagoas. Nunca abandonaria Jaqueline, nem sequer a traiu, embora jurasse que não a amava muito.

Quando o conheci, no segundo ano do secundário, ele já tinha uma cara de velho, velhíssimo. Talvez tivesse repetido umas três séries. Estava impaciente: tinha que formar-se logo, pois tinha um futuro promissor no comércio.Precisava aprender muito, antes que o tio Jacinto batesse as botas. Tio Jacinto era velhinho e viúvo. Tivera dois filhos, ambos mortos: um de câncer antes dos trinta, outro de desgosto na curva dos quarenta. Não tinha netos. Não tinha ninguém, somente a amizade da irmã e o carinho de Américo, que se dizia interessado na herança, mas chorou profundamente no enterro. Tio Jacinto morreu antes que Américo tivesse aprendido o suficiente. Ninguém teve a ideia de deixar-lhe a loja. Em vez disso, venderam o estoque, dilapidaram o prédio, teriam demolido até o terreno. As aves de rapina que voejam em torno dos cadáveres dos pobres velhos ricos que morrem solitários. Não sobrou o suficiente. A mãe de Américo usou seu quinhão para comprar uma linha telefônica, necessidade da família. Isso foi em 1994. Poucos anos depois o governo privatizou a telefonia e até o cachorro que quisesse podia instalar um aparelho em seu canil. A única herança que Américo jamais recebeu foi a de Jaqueline. Morta cedo: ele sempre fora fraquinha, tortinha, esquisita. Uma pneumonia galopante. Américo ficou prostrado no cemitério até muito depois que o penúltimo parente fosse embora. Talvez tenha sido só então que ele percebeu que seu afeto pela esposa tinha sido sincero. Tarde demais para demonstrar isso, para tê-la feito realmente feliz, para ter sido realmente entregue.

Foi nesse dia que o reencontrei. Tínhamos estado separados por vários anos: ele trabalhando em chão de fábrica e economizando tudo, até unhas. Eu fugira de nossa cidadezinha em busca de algo mais. Passava férias em casa quando me contaram do acontecido. Fui ao enterro em consideração a ambos: tinha sido também um namorado de Jaqueline, antes dele. Nunca lhe contei, é claro. Ainda tenho vergonha disso. Não de não ter contado: de ter sido ela quem me deixou. Depois de um beijo: ainda não entendo o que foi, ela apenas disse que seu anjo da guarda lhe soprara, exatamente no instante de nosso beijo, que algo estava errado e que não daríamos certo. Não deu. Saiu de minha vida e seguiu mancando mais uns anos pela adolescência afora, crescendo e se enredando em si mesma e suas ilusões. Até chegarmos ao segundo ano e encontrarmos lá o Américo, que tinha muito que aprender para um dia herdar a loja do tio solitário e ganhar muito dinheiro, tornar-se dono de uma rede de armarinhos, comprar os concorrentes, ficar famoso, namorar modelos e morrer de tédio.

Mas cheguei atrasado: o cemitério já esvaziado, Américo sozinho lá, perto da tumba, sem coragem até para ajoelhar-se. Eu também não soube o que fazer:  não se sabe nunca o que fazer diante da dor sincera de um homem, mesmo que este homem nem seja exatamente amigo. Mas ele me ouviu, sapatos rangendo de novos na calçada de calhaus arrebentados a marteladas. Não me olhou: não precisava saber quem era. Quem chega atrasado não faz mesmo nenhuma diferença. Mas depois de tempo suficiente para entender que algo não estava certo eu levei um braço ao seu ombro e disse-lhe: «vamos, homem, vamos que a vida segue.» Ele me viu finalmente, com os olhos calejados de tanta lágrima que até a pele em volta deles parecia sangrando. «Não, Geraldo, a vida não segue.»

Mas ele veio comigo. Para onde iria? O que faria? Esperaria fecharem o cemitério? Convidariam-no a sair sem muita educação e ele ficaria sozinho na rua naquela tarde de sábado, vendo os carros insolentes dos ricaços passando, tocando música alta, carregando mulheres bonitas e vulgares rumo a discotecas, festivais ou simplesmente bares. E ele então se veria sozinho, triste, feio. Principalmente triste, órfão de todos os seus sonhos velhos. Velhísssimos.

Já disse que não sei dizer coisas bonitas e nem filosofar. Se não disse, que tenho péssima a memória para coisas recentes, digo agora. Se disse mais de uma vez, que se repita para guardar melhor: ser homem é uma espécie de insensibilidade que se aprende na adolescência. Aprendi muito: por isso sei não ajudar um amigo em um momento de catástrofe. Não, não havia outra palavra. Américo parecia um robô desligado. Depois daquela frase curta e amarga ele não conseguiu, durante horas, dizer nada mais do que acenos, resmungos e uma dor corrente que mantinha fundos os seus olhos, perdidos em poças de tristeza em seu rosto magro e sardento.

Levei-o a praça e nos sentamos lá, como se fôssemos conversar. Veio o sino da igreja, passaram passarinhos, a tarde também se deitou detrás do morro da matriz e a noite foi se desenrolando devagar. Jaqueline estava lá conosco, uma muralha que nos separava. Américo talvez soubesse, ou nunca. Se homem pudesse chorar eu estaria com ele naquela hora: como ele eu também tive um futuro promissor, também fiz planos de poder magoar todos os meus amigos e pisar nos meus inimigos. Por fim estava fingindo férias longas para disfarçar que estava demitido, sobravam-me apenas os meus amigos e nenhuma mulher. Eu nem podia, diferente do Américo, ter saudades de uma morta. Não há tempo para ter sido feliz quando se precisa ganhar muito dinheiro, para tentar comprar a lua que se sonhou quando menino.

Por fim, desisti de ser homem e conformei-me em ser humano. Disse a Américo, com rudeza de palavras, que entendia como ele estava arrasado e que, como ele, eu tinha às vezes até ideias de me matar. Ele se assustou com isso: «Isso não, Geraldo, isso não.» Não compreendi sua rejeição: não fora ele que dissera antes que a vida não continuava? Tudo muda, tudo muda. A vida não continua: ela é um monte de folhas sacudidas pelo vento. A gente vai pulando de folha em folha esperando finalmente cair no chão. Todo mundo tem a ilusão de que alguma folha voará para sempre, que alguma folha não vai nunca chegar na terra, que a tarde será imensamente longa. Todo mundo tem essa sensação de que a vida não são minutos. Américo estava ali, sentindo-se montado em outra folha, ainda não sabia que estava mais perto do chão.

«Você que enterra a sua mulher, e eu que não sei para onde ir.»

Américo sabia, ao contrário de mim, que o que nos torna mais perdidos não é saber para onde vamos, mas não entender de onde, diabos, saímos. Apesar de suas ilusões trituradas pelos dedos duros da vida, ele sabia de onde vinha. Eu estava mais pobre do que ele, perdido até de minha origem, órfão de um passado. Não tinha nem mesmo uma esposa morta para amar com culpa e arrependimento. Não tinha nem remorsos para ilustrar minhas noites. Em mim cabia a frase tanto quanto nele, um futuro promissor transformado em futuro do pretérito, mas a minha dor seria sempre maior que qualquer outra, justificando até eu poluir o luto arrependido de um amigo. Sim, não tinha mais aquele futuro, não tinha nem mesmo escrúpulos de contar a verdade à minha família, de procurar um emprego por lá mesmo, de procurar uma das antigas colegas de escola, talvez a Luciana, que me deixara um bilhete apaixonado dentro de um caderno na noite de formatura: um caderno que eu só fui abrir anos depois, em uma faxina. Então naquele instante, para monstrar a crueldade imensa da sincronicidade, passou a própria, de mãos dadas com um menino. Éramos velhos demais para viver amores de infância: ela tinha uma franja grisalha no rosto ainda bonito e eu escondia uma barriga com a jaqueta dobrada sobre o colo. Tive vontade de segui-la, mas não tive coragem. No meu futuro do pretérito eu tinha.


24
Mai 12
publicado por José Geraldo, às 01:18link do post | comentar

Eu tinha meros vinte e dois anos quando adquiri de um vendedor ambulante, em visita à faculdade onde cursava História, um exemplar da «Obra Poética» de Fernando Pessoa, publicada pela Aguilar. Na época achei caro, demorei a compreender que havia comprado um dos tesouros mais valiosos que possuo. A edição é cuidadosa, acompanhada de biografia com fotos e de extensos comentários. Tudo muito dispensável, claro, quando você entra no que interessa, que é a poesia. Sempre que ouço um babaca falar alguma coisa contra a poesia eu respiro fundo, rememoro algumas das tiradas fantásticas do poeta português e me asseguro da constatação inicial: «é um babaca mesmo». Ainda que haja muitos péssimos poetas pelo mundo, a manchar o bom nome da poesia, alguns, como Pessoa, parecem produzir com seus versos um efeito sanitário que arranca o limo de mediocridade que afeta o resto. Só depois dos trinta anos fui entender Fernando Pessoa. Só quando doeu.

O poema que me convenceu da absoluta e inquestionável genialidade do autor não é nenhum dos famosos. Não me identifico no nacionalismo místico de «Mensagem», detesto boa parte dos heterônimos (ainda que alguns poemas de Álvaro de Campos me agradem muito) e compreendo que muito do que está na Obra Poética são rascunhos que o autor dificilmente teria escolhido publicar. Mas este poema, «Hora Absurda», escrito em 1913, quando Pessoa tinha meros vinte e cinco anos e ainda tinha certo flerte com o simbolismo, foi como o murro na cara que nos acorda para a realidade da luta. Muitos de seus versos são fracos, mas a força da maioria deles é tanta que quase rasga o papel. Em um poema de apenas vinte e cinco quadras de versos bárbaros podem ser achadas pelo menos oito trechos que nenhum poeta brasileiro vivo seria capaz de igualar. O poeta nos atinge com simplicidade: «Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro» ou complexidade: «A doida partiu todos os candelabros glabros,/ sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas…/ E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos candelabros… E que querem ao lago aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?…» Como não ser aceso pela sugestão de que «Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente»?, Esta sensação de ausência chega à perfeição absoluta quando o poeta diz: «Ah, deixa que eu te ignore… O teu silêncio é um leque — / Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,/ Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque.» Como qualificar a beleza maior que existe no leque fechado, potencial, face à decepção de o leque aberto não ser à altura da expectativa construída? Existe camadas e camadas de sentido que escapam nas primeiras leituras. Precisei ler o poema mais de seis vezes ao longo da vida para entender que a singela frase «É preciso destruir o propósito de todas as pontes» possui mais sentido do que parece: se pontes existem para unir o que está separado, destruir o propósito delas consiste em acabar com todas as separações. Em um mundo onde ninguém estivesse separado não haveria necessidade de pontes. A mais bela das utopias é que as pontes fossem desnecessárias. Não somente as materiais, mas principalmente as metafóricas. Tal como o poeta eu lamento: «Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!…» Sim, confesso: amo paisagens e pessoas que não existem, amo as que já existiram, mas não as diferencio das que são somente criações e crenças de minha mente insatisfeita com as paisagens que existem, essas que todos veem e que tantos amam. Esses que, como Pessoa e eu, amam as paisagens que não existem, acabam confessando-se: «Eu sou um doido que estranha a própria alma» (e como, às vezes, ela e eu nos estranhamos). A única diferença é que, ao contrário de Pessoa que, cônscio de sua própria genialidade, previa num futuro pretérito que teria o reconhecimento que a vida lhe negava, eu jamais poderia dizer que «fui amado em efígie num país para além dos sonhos». Ou será, melhor, que Pessoa ao dizer isto sugeria que somente em um lugar ainda mais profundo e longe que o próprio sonho haveria de encontrar o reconhecimento?

Somente a leitura de «Hora Absurda» me gastou quatro horas nestes dias. Este é um daqueles textos que não vale a pena ler com pressa. Quem vive com pressa, e depressa, não pode seguir o conselho mágico: «Vive o momento com saudade dele já ao vivê-lo…» Mesmo o poeta, porém, em outro momento, reconheceu que esta contemplação é perigosa. Ao aproximar-se da famosa ribeira do rio, musicado por Danilo Caymmi e gravado por Maria Betânia, o poeta percebe que a vida, o rio, tem por maior propósito justamente engambelar-nos: «Porque o bem dele é que faça / Eu não ver que vai passando.» Passei anos de minha vida sem perceber que o rio estava realmente passando. Por isso só entendi este poema aos trinta e nove anos.

Cada dia acho um tesouro diferente. Para além dos famosos poemas que todo mundo conhece. Tardei quase vinte anos para saber o que seriam as «calhas de roda» nas quais o coração, esse «comboio de corda» chamado coração gira a entreter a razão. Aos poucos percebo as sutilezas do vocabulário tipicamente português (muitas vezes mais belo que o nosso, tão afrancesado e anglicizado). As calhas de roda (trilhos) por onde gira sem destino o comboio (trenzinho) de corda chamado coração são semelhantes ao rio, que passa a tentar nos fazer ignorar sua passagem.

E assim, enquanto leio o poeta, enquanto amo lugares que não existem, enquanto lembro tempo em que comemoravam o dia dos meus anos etc., tal como ele me perguntei em certa época «porque fiz eu dos sonhos a minha única vida. » Depois eu achei que tinha saído dos sonhos e suas brumas e construído uma vida real onde habitar. Terminada esta tarefa, descobri que andara atrás do alvo errado: nem eu nem pessoa vivíamos de sonho pela falta de uma vida de carne onde habitar. Segue verdade, na vida e no verso, que por mais vida que tenhamos, resta-nos um «Rosebud» que ninguém conhece, habitando no fundo de um sonho, que é o único lugar onde nunca erramos, onde realizamos todos os nossos planos importantes, e onde podemos passar a limpo todos os maus passos. Quando compreendi isso, compreendi junto que os sonhos eram a única vida do poeta simplesmente porque os sonhos são o único lugar onde o ser humano realmente vivo: fora deles cada um de nós é um animal a reproduzir-se e comer. Ou, como famosamente disse o poeta: «cadáver adiado que procria».

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09
Mai 12
publicado por José Geraldo, às 22:30link do post | comentar | ver comentários (1)

Uma verdade sobre a qual pouco se reflete é que existe, de fato, uma diferença abismal entre ter a capacidade de fazer alguma coisa e saber fazê-la bem. Em geral as pessoas estão mais preocupadas em conseguir fazer do que em passar além disso e fazer bem. É um tipo de «estética punk» que valoriza mais a «atitude» do que a habilidade. Os punks, como se sabe, eram músicos que tinham inveja do dinheiro que ganhavam bandas como o Led Zeppelin e o Yes mas, não sabendo tocar nem a décima parte do que o Steve Howe fazia com o pé esquerdo enquanto via televisão, fizeram um ataque calhorda a esses grupos acusando-os justamente de terem se afastado da juventude por tocarem uma música «elitista» e ganharem rios de grana com ela. No fundo o que eles chamavam de «elitismo» era a capacidade de tocar bem os seus instrumentos.

Os punks não foram os inventores do despeito — apenas os seus mais conhecidos e bem sucedidos praticantes nas últimas décadas — mas uma ideia, quando solta no mundo, ganha asas e cresce até chegar a lugares onde o seu criador original nem sonhava. Imagino que alguns músicos dos primórdios do movimento punk tenham aprendido a tocar melhor desde então e passaram a respeitar sujeitos como o Jimmy Page; ao mesmo tempo em que devem sentir arrelia nos dentes ao ouvir boa parte da música de hoje — e que só existe porque muita gente entrou pelo buraco que os punks arrombaram no muro que separa a mediocridade do sucesso. Exemplos dessa evolução não faltam lá fora: Robert Smith, do The Cure, não suporta ouvir o primeiro disco de sua banda, e David Byrne, do Talking Heads, largou a música e virou produtor (sendo responsável pela divulgação nos EUA do trabalho de gente como o nosso Tom Zé).

Estes dois parágrafos iniciais, que certamente só farão pleno sentido para quem entende algo de música, servem de introdução para uma constatação que me sobreveio hoje ao receber mais uma «revista eletrônica» (recebo umas seis ou sete por semana, algumas anexadas ao e-mail, outras com uma educada hiperligação me convidando a baixá-la de um servidor na internet). A constatação de que, no ramo das publicações amadoras, ninguém mais se importa em fazer bem feito. Pode-se fazer feio, que é falta de educação dizer isso. Só que eu sou mesmo mal educado e não me acanho de dizer: a maioria das publicações independentes padece de uma feiura que dói nos olhos.

Claro que eu não espero que alguém que faz uma revista amadora tenha capacidade de dar-lhe um acabamento do nível de uma revista semanal publicada por uma grande editora. Não há tempo para isso e certamente os editores amadores não têm grana para comprar os programas profissionais necessários para tanto (e mesmo que os obtenham pela via da pirataria, não terão tempo para aprendê-los até chegarem ao mesmo nível de um profissional gráfico). Mas existem certos erros básicos, que poderiam ser evitados com sensibilidade (para observar como são feitas as revistas profissionais), alguma pesquisa sobre o tema (para conhecer o bê-a-bá da formatação de documentos) e uma certa dose de talento (que nem todo mundo tem). Sem sensibilidade, talento e conhecimento; o resultado é que as revistas eletrônicas amadoras são frequentemente feias, e feias de doer, e ficam mais feias ainda se o leitor resolver imprimir para ler em papel ou distribuir (o que algumas delas chegam a implorar que o leitor faça). Eu acho que não existe desculpa para isso: basta pensar no que significa «amador». Se o amador é alguém que «ama» fazer aquilo que se propõe a fazer, então é de se esperar que o amador se dedique. Quem ama se dedica. E quem se dedica procura o conhecimento, trabalha a sua sensibilidade, aprimora o talento. Com bastante conhecimento e alguma sensibilidade, compensa-se bastante a insuficiência do talento, por exemplo. Portanto, ainda que seja desculpável a falta de talento, nada desculpa a ignorância. Nada. Principalmente nos dias de hoje, em que se pode achar informação sobre quase tudo na internet.

Eu mesmo já abordei em vezes anteriores (Formatando Páginas com a Medida Áurea e Medida Áurea e Páginas Confortáveis) alguns temas relacionados à formatação, sempre ressaltando que as «regras» de formatação de documentos não são arbitrárias, mas baseadas em boas práticas que resultam em textos mais agradáveis de ler. Por exemplo: existe uma ciência na quantidade máxima de letras por linha e de linhas por página, uma ciência que, inclusive, se baseia na fisiologia, que explica o funcionamento do olho humano. Mas o amador dirá que essas «firulas» não são importantes, que o importante é ter realizado algo. É um raciocínio que seria respeitável em um mundo onde poucos fizessem alguma coisa. Com tantas facilidades oferecidas hoje pelos computadores, realmente parece haver muita gente fazendo e-zines amadores. Diante desta realidade este raciocínio é uma condenação à mediocridade. Por favor não incluam textos meus neste tipo de publicação. Nos fanzines de antigamente, penosamente xerocados, muitas vezes escritos à mão por falta até de máquina de escrever, havia lugar para a feiura e eu não me importava de ser publicado ali. Mas nesses de hoje, produzidos aos montes usando qualquer editor de textos, a feiura é apenas falta de vontade de evoluir. E me importa aparecer em um trabalho feito por alguém que não se importa com a qualidade.

A estética do «faça você mesmo» impede que o amador evolua. O simples ato de fazer parece bastar. Não há um objetivo ulterior, de superar, de melhorar, de fazer algo que simplesmente faça a diferença em um mundo tosco, onde cada vez mais as pessoas pensam menos em realizar e mais em «fazer». Um mundo no qual os amadores não amam o que fazem, pois não estão ganhando nada com isso. Um mundo, em suma, no qual o amor verdadeiro só é oferecido por aqueles que cobram por isso. Triste mundo esse, em quesó as prostitutas fazem amor direito. Esta frase final eu dedico ao meu amigo Ronaldo Roque, que a inspirou.


01
Mai 12
publicado por José Geraldo, às 10:39link do post | comentar | ver comentários (1)

O bloqueio criativo é um dos fantasmas que assombram os que se pretendem escritores. Amadores ou profissionais, todos já se viram algum dia cheios de vontade — ou de necessidade — de escrever e não podiam porque a coisa simplesmente «não fluía». Alguns culpam a falta da «inspiração», outros a falta de talento, outros a falta de assunto. O que é certo é que ninguém pode se gabar de «sentar para escrever» quando quer — não entre os que escrevem coisas que prestam para ler.

Como todo autor eu atravesso essas fases também, mas o que mais me dói não é atravessar dias ou semanas sem ter nenhuma ideia interessante para transformar em conto, crônica, romance ou poesia: é no meio desta seca ter uma ideia genial, porém irrealizável diante de minhas limitações. Foi o que me ocorreu ontem.

Vocês que acompanham o blogue devem ter percebido que 2012 tem sido um ano de relativa seca criativa para mim. Não apenas tenho postado pouco, mas não tenho postado nova ficção — e ficção era o carro-chefe desse blogue até fins de novembro passado. Numa fase dessas a gente fica sensível a qualquer coisa que se ouça, qualquer sonho que se sonhe, qualquer letra de canção. Em algum lugar pode estar enterrada uma ideia que, devidamente ordenhada, resultará em uma nova e interessante obra. Qual a decepção, então, de encontrar esta ideia e não estar a altura de desenvolvê-la?

Refiro-me ao meu sonho de ontem. Como andei conversando recentemente com o Gianpaolo Celli, que é um editor que tem feito coletâneas de fantasia «steampunk» (não considero o gênero como ficção científica nem se apontarem um revólver para a minha cabeça), acabei tendo uma ideia ligeiramente relacionada. Uma ideia ótima, diga-se de passagem — e muito adequada para a próxima coletânea que será publicada pelo Gian, mas… oh, merda! Uma ideia que está além de minha capacidade.

Sonhei com um Brasil atual descendente de um Brasil «steampunk», conservando dele ainda boa parte de sua tecnologia retrofuturista atrasada em relação aos grandes centros. Um país arcaico, governado por uma espécie de ditador caricato, habitado por uma população ignara, mergulhada em superstições e em mau gosto musical e artístico. Um país em que os monumentos públicos são de gesso pintado, as festas são regadas a caminhões de cachaça barata doada pelo governo e a elite vive em palácios isolados por muros e canhões, comunicando-se por cartas e telefones e viajando em dirigíveis pesados e lentos. O meu herói, um vendedor de salgadinhos, que vive amasiado com um poeta louco e uma mãe de santo baiana, sonha em fugir para a Rússia, por alguma razão, e constrói para si um aparelho esquisito, em forma de roda d'água, movido por uma motocicleta, com o qual acredita que atravessará o mar. Preso durante sua tentativa de fuga, por atrapalhar a diversão dos turistas gringos, é levado até uma fortaleza tosca, onde o torturam a tapas e xingamentos e onde aguarda ser executado ou não. Seus amantes entram na fortaleza durante a madrugada, subornam os guardas e ajudam-no a sair, mas acabam na caçamba de um caminhão que levava mercadorias importadas para uma depósito do palácio e subitamente se veem no meio da festa de eleição do novo monarca. Confundido com um príncipe europeu, o poeta louco é eleito e inicia um governo ainda mais louco, e meu sonho termina com galeras atômicas russas apontando no litoral para exigir que ele se retrate de algumas atitudes e pronunciamentos.

Eis um resumo das imagens e sons caóticos e supercoloridos que atravessaram a minha mente durante esta noite. Alguns detalhes eu tive de suprir porque o original estava confuso demais, mas creio que 80% do que aí está descreve o que realmente sonhei, embora, como sempre, o sonho tenha sido em sua maior parte esquecido.

Com um material desses na mão um autor dotado de bom humor e de razoável capacidade de síntese produziria uma obra genial, satirizando alguns aspectos de nossa cultura, aproveitando o mote do «steampunk» ou do «dieselpunk» e resultando em um livro certamente aprovado pelas editoras que publicam esses gêneros no Brasil. Existem, porém, dois problemas que me impedem de realizar isto.

O primeiro é que eu não quero entrar nesses gêneros «*punk» porque acredito que esse tipo de cruzamento entre fantasia e ficção científica acaba sendo trabalhoso demais, diante da minha formação e de minhas referências. O segundo é que eu não me sinto capacitado a dar a esta obra o tratamento de farsa que ela precisa ter, devidamente dosado com violência e promiscuidade. Sem essa mistura a obra não é crível. E retornando ao primeiro motivo: esta mistura não me interessa.

Porém, como sou um cara do tipo «gente boa», resolvi compartilhar o meu sonho com os meus leitores. Aqueles que desejarem pegar a ideia e desenvolver, sintam-se à vontade para isso. Apenas gostaria que tivessem o bom caráter de me recompensar com um agradecimento na edição e/ou um link em seu blogue. Claro, bom caráter não é todo mundo que tem e no Brasil é quase irreal exigir isso, mas vamos ver no que dá. Eu não vou fazer nada com a ideia mesmo, quem sabe não consigo ajudar outro que esteja com bloqueio criativo e ainda faço um novo amigo virtual?


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