Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
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Ago 11
publicado por José Geraldo, às 19:20link do post | comentar

A falta de profundidade é uma necessidade quando se escreve para pôr no Orkut, onde textos mais complexos geram comentários depreciativos de pessoas que os consideram… complexos demais. Felizmente já há um bom tempo em que eu não levo o Orkut tão a sério e brindo-o apenas com meus rascunhos, para talvez detectar pontos potenciais que possam ser melhorados.

Cheguei a essa conclusão porque entendi que os leitores daqui não apreciarão o que eu escrevo de jeito nenhum. Nem quando eu estiver dentro do tema, nem quando estiver fora, nem quando o texto for complexo, nem quando for simples, nem quando eu tiver levado quatro meses escrevendo, feito revisão e usado leitores-beta, nem quando tiver escrito em sete minutos e postado assim mesmo (como foi o caso desse). Não sei se isso é por eu um dia ter sido moderador da NEB, ou talvez por eu tentar dar ao meu texto uma seriedade e um caráter tradicional, ou por talvez não ser loiro o bastante, ou por não me chamar Johnny…

Um dos problemas aqui do Orkut é a falta de profundidade. As pessoas querem o infinito em trinta segundos. Querem o impoderável em vinte gramas. Querem o indescritível em poucas palavras. Porém há coisas que não cabem aqui, ou cabem mal. Tolice é tentar pegar o martelo e fazer caber. Alguns já nascem no tamanho certo, outros não vão aceitar encolher, outros não conseguirão esticar.

O outro problema é que nem todos que aqui estão se adequam. Eu, por exemplo, não me adequo. Eu sou um dinossauro, sou do tempo da máquina de escrever e do mimeógrafo. Sou do tempo do telex e da loja de fotocópia. Tenho arquivos datilografados ainda. Tenho uma biblioteca em casa. Desconfio do Kindle e de outros quejandos. Eu ainda uso palavras como “quejandos” — e as pessoas me acham pretensioso por escrever assim, sendo que isso é natural para mim.

Enfim, desde o final do ano passado que eu já sabia que esses concursos nunca funcionariam para mim. Amadores julgando sempre tenderão a colocar o nível de excelência próximo do nível que conseguem. Por isso as apreciações feitas pelos grandes nomes da literatura costumam ser surpreendentemente diferente das feitas pelos críticos de jornalão e por isso a opinião da crítica diverge da opinião pública.

Todo concurso é furado, isso todo mundo sabe. Envolve interesses que vão além da mera “qualidade literária” (conceito que por si só já é discutível). Esse ano, por exemplo, teve o “Escândalo do Jabuti”, no qual Chico Buarque ganhou o Grande Prêmio sem ter vencido nenhuma categoria, por exemplo, o que acabou levando a Editora Record a retirar-se de futuras edições do prêmio, em protesto. E nunca custa lembrar que Fernando Pessoa não venceu o único concurso que disputou em vida…

Não que eu me considere um autor desse naipe todo, mas com certeza não alimento de ilusões de que concursos serão o caminho através do qual obterei “reconhecimento” e “carreira artística”. Muito menos um concurso de Orkut, no qual existem pressões muitos novas (para mim) e muito diferentes do tipo de demanda a que a literatura tradicional estaria preparada (e minha literatura é bastante tradicional).

E fica pior quando você considera que o Orkut encolhe a cada dia em termos de qualidade (para quem não lembra, leia “a diferença entre crescer, inflar e inchar”, um artigo provocativo que eu pus no meu blog há quase um ano). As comunidades não andam tão vibrantes quanto já foram, nem mesmo esta. E nos outros sites de relacionamento as coisas não fluem como um dia fluíram por aqui.

Talvez seja o momento de reconhecer que, como diz meu amigo Ronaldo Roque, “ninguém mais lê ninguém, só por obrigação”.


Mandei o Orkut para o passado. Acostumei-me à ideia de perder tudo quanto tinha escrito ali.

Depois de receber a crítica de que meus textos eram simples demais, depois de tê-los feito simples porque antes diziam que eram complicados demais, cheguei à conclusão de que nada tenho a fazer no Orkut mais.
José Geraldo Gouvêa a 29 de Agosto de 2011 às 11:43

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