Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
14
Fev 09
publicado por José Geraldo, às 04:20link do post | comentar

Em algum momento, em 1995, eu datilografei em uma página de papel-ofício os seguintes versos: O que seria / de minha rebeldia / se eu não fosse um rapaz da burguesia / acometido pelo tédio da escrita / e um diploma superior?

Decerto eu estava pensando nas polêmicas de Lobão, artista cuja arte pouco me interessa, mas cuja filosofia sempre me instigou. Acho que se João Luís Wönderbag escrevesse logo o primeiro volume de suas memórias produziria uma obra mais relevante que toda sua música junta.

Minhas palavras tinham a ver com algo que já se notava em 1995, mas hoje está tão escancarado que nem se pode mais deixar de ver: a rebeldia se transformou primeiro em uma estética, e hoje é uma ideologia. Primeiro escavou seu nicho na cultura, hoje se tornou a face mais comum do sistema.

Você sabe o que é o “sistema”? Bem, metade dos revoltados do mundo falam mal dele mas parece que tampouco sabem. O sistema é uma entidade abstrata, cada vez mais abstrata. Interessa-lhe que seja abstrato porque nos controla. Você reconhece um falso rebelde pelo simples fato de ele ter a permissão de ser um sucesso.

Dia desses, enquanto lia um artigo surreal do Hermano Vianna elogiando Chimbinha e Joelma eu percebi com toda força o que já se insinuava há quase duas décadas: está havendo uma ideologização da arte, uma politização do fazer artístico. Trocando em miúdos: as pessoas estão analisando as obras de arte (sejam música, pintura, literatura ou outra coisa) não pelo seu valor propriamente dito, mas pela sua “postura” — real ou suposta — em relação ao “sistema”.

Hermano Vianna tece elogios quase sexualmente explícitos a Chimbinha porque a Banda Calypso fez sucesso à revelia do “sistema”, porque ela representa um sintoma de que a as “elites” (outra entidade abstrata que serve de Judas para o esquerdismo cultural) estão “perdendo o controle”. A música da Banda Calypso não importa, o importante é seu papel no combate ao sistema.

Esse bolchevismo substituiu o comentário especializado sobre as características da arte em si, vista como algo “elitista”. O próprio Hermano Vianna lamenta que Chimbinha não seja legitimado como artista, apesar dos milhões de discos que vendeu – o tipo de discurso dos que defendem a prosa rala de Paulo Coelho. Até mesmo o pseudo-funk é tido por ele como um “movimento” (outro termo político) que merecia ser tratado pela Secretaria de Cultura e não pela de Segurança Pública. Talvez porque na opinião do crítico exista algo de cultural nas mortes e na violência que cercam o “movimento”.

Acontece que está na moda ser rebelde, embora o Brasil nunca tenha sido um país comunista (ou talvez exatamente por isto) as nossas elites culturais se travestem de profetas da revolução pela via cultural, já que nunca conseguiram avançar na luta pela via política devido à acomodação (já no século XIX Martins Pena detectava que no Brasil ninguém é mais conservador que um liberal no poder). Esta revolução cultural, é claro, não passa de uma desculpa porque, feita pela via do popularesco, ela destrói mais do que constrói. Talvez alguns líderes de tal ideologia realmente achem que estão limpando o trecho para o nascimento de uma nova cultura ou de um novo país, mas suspeito que muitos querem apenas ganhar dinheiro com isso. Porque hoje em dia a revolução se transformou em uma lucrativa indústria.

Desta forma, a “elite cultural” de nosso país resolveu se apropriar da estética popular e utilizá-la como instrumento de sua influência sobre o próprio povo. Quanto mais vazia for esta estética popular, mais útil ela se torna como instrumento. O pseudo-funk que as elites querem que saia da Secretaria de Segurança Pública não é mais o gênero praticado por Cidinho e Doca, com sua mensagem de orgulho e amor-próprio (“Eu só quero é ser feliz / andar tranqüilamente na favela em que eu nasci”), mas a trilha sonora de acasalamento de brontossauro cantada por pseudo-gente como o MC Créu (“Créu, créu, créu, créu, créu, créu, créu, créu, créu”).

Da mesma forma, o popular por que se interessam estas elites não são artistas de talento nascidos no seio do povo, como a maravilhosa cantora baiana Virgínia Rodrigues, mas qualquer coisa que seja caricata e popularesca, que apresente o povo como uma massa desmiolada em permanente cio. E mesmo no seio do popularesco (que é a perversão do popular) não escolhem artistas que trazem elementos de choque. Não basta que seja ruim, é preciso que seja um ruim sem discussão.

Em “1984”, George Orwell predisse que no futuro as sociedades totalitárias buscariam o controle do povo justamente pela difusão de música ruim:

Aquela canção estivera assombrando Londres nas semanas anteriores. Era uma das incontáveis canções parecidas publicadas para benefício dos proletários por uma sub-seção do Departamento de Música. As letras de tais canções eram compostas sem qualquer intervenção humana em um instrumento conhecido como “versificador”.

E exatamente de que letra estamos falando? De uma que diz coisas assim:

Foi somente uma ilusão sem sentido
Que passou como um dia de abril
Mas com um olhar e uma palavra
Os sonhos me agitaram
E roubaram meu coração.

E que tal compararmos isso com um dos recentes sucessos de certo cantor popular?

O que posso fazer
Se a vida é assim
Apostei tudo em seus beijos
E assim mesmo te perdi
Não me peça perdão
Não chore, por favor
Suas lágrimas são falsas
De mentira foi teu amor
Não me diz mais nada
Nem sei como me enganou
Se a lua não é queijo
Nem as nuvens de algodão
Para que seguir mentindo
Com amor e ilusão?

Não existe rebeldia alguma nesta letra composta para emburrecer quem a ouvia e manter as massas sob controle. Não existe rebeldia alguma nas letras da música popularesca que toca no rádio hoje. E também não existe rebeldia alguma nas fórmulas de rebeldia que os autores e compositores de hoje produzem.

Em 1991 Lobão já esculachara os rumos do pop nacional dizendo que num futuro não muito distante o rádio estaria inteiramente ocupado por “rebeldes Barbie”: gente de pose rebelde que, no fundo, não têm nenhuma consciência artística e apenas seguem a fórmula da moda.

Segundo o Sr. Wönderbag estaria na moda ser rebelde, falar palavrão, combater “o sistema”, usar drogas, fazer tatuagem, etc. Doze anos depois de suas proféticas palavras já tivemos RBD, hoje temos “Crepúsculo” (com seus vampiros cuidadosamente desinfetados) e o pseudo-funk e o pseudo-calipso: o sistema abraçou a rebeldia e a transformou em mais um departamento.

Imagino que no futuro haverá até associações de anarquistas, clubes de rejeitados, vampiros que não chupam sangue, tarados que não estupram, assassinos que matam apenas em sonhos, etc. Tudo cuidadosamente planejado para que a arte seja sempre algo seguro, tal como os versos do brega Wanderley Andrade, cheios de duplo sentido e de oxímoros que fazem pensar:

Sou um psicopata / Mas eu tenho muito amor / Pra dar, amor pra dar.

Afinal, além dos quinze minutos de fama, todos temos o sagrado direito de sermos rebeldes dentro do curral.

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13
Fev 09
publicado por José Geraldo, às 20:50link do post | comentar

Leia o artigo que motivou esta resposta

Chimbinha me deu de presente seu CD solo, chamado Guitarras que Cantam, hoje uma raridade que deveria ser relançada para os fãs conhecerem suas origens. Era um disco de guitarrada, claramente herdeiro das invenções dos mestres Vieira e Aldo Sena, que foram muito populares em toda a Amazônia no início dos anos 80, antes da febre da lambada. Sou fã de guitarrada — então foi fácil ficar fã do Chimbinha. As músicas Dançando Calypso e Na Levada do Brega, que abrem o Guitarras que Cantam, estão entre as minhas favoritas de todos os tempos.

Nada como começar com um elogio totalmente despropositado. Quem musicalmente é o Chimbinha para que um crítico diga que duas de suas músicas são suas “favoritas de todos os tempos”? Esse elogio não pode ser sincero ou então o Hermano Vianna é um imbecil que praticamente nunca ouviu música. Chimbinha ainda tem que comer muito pato no tucupi para pôr duas de suas músicas entre as favoritas de todos os tempos de alguém que entenda de música.

Não estou desmerecendo o talento de Chimbinha, apenas lembrando que ele é guitarrista no mesmo planeta onde já existiram ou ainda existem Jukka Tolonen, Celso Blues Boy, Jeff Healey, Steve Morse, Richie Blackmore. Até Robertinho do Recife.

O brega, se ninguém ainda percebeu, é rock. Digo mais: é o mais amado e duradouro estilo do rock brasileiro. Tudo começou com a jovem guarda, e sua adaptação do rock internacional para o gosto popular nacional. Quando Roberto Carlos colocou em segundo plano as guitarras elétricas e se transformou em cantor romântico acompanhado por orquestras, a fórmula inventada pela jovem guarda se descentralizou, primeiro passando pelo Goiás de Amado Batista, depois pelo Pernambuco de Reginaldo Rossi, até chegar ao Pará do ex-governador Carlos Santos, também cantor brega, autor de dezenas de discos.

A Jovem Guarda foi uma porcaria melosa e sem raiz que apenas por exceção produziu algum artista de qualidade (mais por causa dos talentos dos artistas envolvidos do que pela qualidade do gênero). Hermano Vianna aponta com todas as letras o rumo (cada vez mais apelativo, popularesco e tosco) seguido pela degeneração da Jovem Guarda até desembocar, supostamente, no Calypso. E mesmo fazendo isso, ousa não botar o dedão na ferida.

Hoje Belém é a capital do novo brega. Centenas de CDs são lançados anualmente, a princípio para um consumo regional, mas que começa a atingir também o público nordestino. Os músicos locais já nem chamam o que fazem de brega, dizem que é “calipso”, música mais “sofisticada”.

Começamos pelo tradicional “Apelo ao povo” (se o povo gosta, então é bom) com o leve suporte do “Apelo ao poder” (se lança centenas de CD’s por ano, então é bom). A mudança de nome, uma decisão de marketing, é aceita como natural, mesmo que disfarce a origem impura do gênero.

Chimbinha, com 23 anos, tocou guitarra em mais de 200 CDs, só em 1997. É uma das maiores revelações entre novos músicos brasileiros de qualquer estilo, sendo herdeiro direto das invenções de Renato dos Blue Caps — que criou o chacumdum da guitarra brega ao ser obrigado a tocar num disco de bolero, sem saber tocar bolero — e das guitarradas de Vieira.

Ou seja, o precário, o ignorante, o mal-feito, se torna uma estética.

Posso falar alguma coisa? Legal, porque a nossa música paraense de hoje é uma mesclagem do ritmo calipso com o twist, na onda de Jerry Lee Lewis. A gente deu muita sorte, porque hoje essa mesclagem, graças a Deus, roda em dezessete estados brasileiros. Essas ondas todas aqui não têm nada de ridículo. É um papo dez, é uma mistura de Nina Hagen, com aquela onda dos Sex Pistols, do Pink Floyd, do Dire Straits, e aí eu peguei o Pepeu Gomes daqui do Brasil e fizemos essa onda: o negócio é sério. Sempre gostei de Elvis a Morengueira.

Eu queria saber o que cantor quis dizer com isso. O que ele vê de Jerry Lee Lewis no brega paraense, o que vê de Nina Hagen.

Existe uma concepção na “esquerda musical” brasileira segundo a qualquer tudo que seja misturado fica bom. Daí os cantores aprenderam que para ordenhar elogios da crítica musical basta introduzirem elementos aleatórios em suas música e citarem algumas referências cultas.

Este trecho é particularmente interessante porque embora Hermano Vianna tenha cultura musical suficiente para traçar a rota correta que liga a Jovem Guarda ao brega paraense, ele é suficientemente devotado a elogiar para engolir a balela do cantor parense que citou todos estes nomes do rock para ele.

Imagino que esse músico deve estar até hoje rindo da cara do Hermano Vianna, porque ouvir um descerebrado dizer isso e dar crédito é passar recibo de otário.

Era um tratamento de choque para a platéia paulistana, já um debate sonoro sobre o que é tradição musical no Brasil.

Expor o povo de São Paulo a doses maciças de música ruim de outras partes do Brasil com a desculpa de que “isso é Brasil” é mesmo algo análogo a tratamento de choque: busca remover as resistências do paciente e torná-lo dócil.

O telefonema, de madrugada (a hora mais fácil para encontrá-lo), durou horas. Chimbinha me contou tudo que havia acontecido desde a festa de lançamento do Música do Brasil. Falou de como perdeu todo o dinheiro que acumulou como músico de estúdio para manter a Banda Calypso nos seus primeiros anos, quando não tocava em nenhuma rádio nem era contratada para nenhum show. Ele mesmo percorria todas as rádios de poste (que têm alto-falantes espalhados nos postes das ruas de Belém) pedindo para suas músicas serem programadas. Foi por causa de um desses alto-falantes de rua que um organizador de shows de Marabá, de passagem por Belém, ouviu a Calypso e convidou a banda para uma série de apresentações no sul do Pará. De lá é que seguiu para Pernambuco, onde passou meses fazendo show diários por uma ninharia. O sucesso aconteceu aos pouquinhos, entre vários momentos de desespero.

Note que a argumentação, que inicialmente desdenhara da Banda Calypso agora começa a mencionar as agruras porque passou Chimbinha. Esta menção aos “tempos difíceis” do artista tem sempre o objetivo de preparar o leitor para sentir simpatia pelo elogiado da vez. Isto se chama “Apelo à misericordia”. Hermano Vianna sabe que a música da Banda Calypso é ruim, mas ele procura fazer com que gostemos dela através de nossa simpatia por alguém que sofreu lutando pelo que acreditava. Mais que isso, ao mencionar a falta de espaço na mídia, estamos usando a falácia do “apelo anti-autoritário”: aquilo que vai contra “o sistema” é bom.

Tais argumentos são bastante comuns, especialmente quando a música é ruim. Artistas que fazem música boa não costumam gostar de expor sua vida pessoal.

Eu respondi que a produção poderia tentar alugar um jatinho. Do outro lado da linha: “avião eu tenho, o problema é que lá não tem pista de pouso.” A ficha caiu: logo descobri com quem eu estava falando - não era mais aquele garoto de 23 anos só com uma guitarra na mão.

De novo o “Apelo à riqueza”. Depois de mostrar como Chimbinha sofreu quando era pobre, Hermano Vianna esfrega em nossa cara o quanto ele é podre de rico. Construindo a imagem de que ele é sucesso, poderoso, tenta convencer-nos a gostar de sua música.

Depois de ultrapassar a poderosa barreira de seguranças do condomínio Alphaville, cheguei numa mansão luxuosa, com colunas na porta. Dentro, só a família, os compositores e músicos que trabalham com a banda, o pessoal que cuida da agência pernambucana que vende os shows, e alguns amigos, como Zezé di Camargo.

De novo a exaltação da riqueza e do sucesso. Aliás, vocês notaram que Hermano agora quase não fala da música do Calypso? É claro que o que importa não é mais a arte, mas o produto oferecido.

Joelma e Chimbinha trouxeram um chef de Santarém — o melhor da culinária paraense, segundo o casal — para preparar o jantar com peixes frescos que chegaram na sua bagagem.

Claro, tinha que ser o melhor cozinheiro do Pará… E peixes frescos vindo de bagagem…

Mesa posta, Chimbinha veio me apresentar cada prato. Ele falava sobre detalhes da vida de cada peixe (“este aqui gosta de nadar perto das pedras”), que não eram os peixes óbvios de todo restaurante amazônico. Perguntei curioso, achando que era um hobby biológico: “mas como você sabe isso tudo?” A resposta veio natural, não era nada para causar espanto: “ora, eu vendia peixe na feira com meu pai.” Nova ficha caiu, dessa vez com peso de toneladas. Meus olhos lacrimejaram, pensei comigo contendo o choro: “outro dia ele vendia peixe na feira, agora está aqui numa mansão num condomínio em São Paulo, de um extremo a outro da injusta estrutura social do país, quase sem escalas, totalmente na marra… que símbolo incrível das mudanças pelas quais o Brasil está passando!”

Agora o apelo emocional foi intenso. Hermano até narra suas lágrimas, decerto querendo que choremos também, querendo que admiremos Chimbinha.

Outro componente importante aqui é a noção de que alguém que veio do povo precisa ser valorizado. Mais uma vez se apela ao acessório, em vez do essencial: estamos falando de arte ou de inclusão social? Estamos falando de política ou de música?

Pensei no Lula, que dorme hoje no Palácio da Alvorada, para incômodo de muita gente (incômodo parecido com aquele que gera o sucesso da Calypso…)

Agora Hermano Vianna quer nos fazer culpados: Em sua lógica torta, é errado, é até preconceito não gostar da Banda Calypso. Porque o sucesso do povo incomoda as elites. Este discurso de pseudo-esquerda justifica a má qualidade, aliás, a ignora, em nome de uma luta de classes cultural na qual o que importa é o homem do povo ganhar dinheiro e respeito da elite.

Fazer música que preste até nem importa.

Chimbinha se fez sozinho do lado de lá do cultural divide, sem gravadoras, sem televisão, sem elogios da crítica - eu mesmo, já fã, não tinha dado importância para a sua banda.

A legitimação pelo sucesso, argumentada por Hermano Vianna, nada mais é do que o conhecido apelo ao povo. Infelizmente a voz do povo não é a voz de deus: argumentos precisam de lógica e isso é algo que este texto nunca tem: o autor inventa desculpas e falácias para ter meios de falar bem de uma nulidade artística, tal como Caetano Veloso, no dia de sua morte cultural, elogiando a voz da Tiazinha (quem?).

Outros artistas das chamadas classes populares, para atingir o estrelato precisaram do apoio de mediadores de elite (mesmo Cartola “precisou” de Sérgio Porto…) — agora meu anfitrião estava inaugurando um outro caminho para o sucesso de massas, direto, sem o aval de ninguém do “centro”.

Interessante é que esta mediação da elite adicionava um polimento cultural ao talento natural. Cartola só foi autor de versos tão perfeitos porque convivia com pessoas que falavam bem e que lhe apresentavam trabalhos de qualidade, as referências psicodélico-roqueiras do começo da carreira de Jorge BenJor não estariam lá se ele não convivesse com pessoas de todos os ambientes. O que Hermano Vianna vê como uma descaracterização, os próprios artistas do passado viam como um processo enriquecedor no aspecto cultural, uma troca.

Justamente esta salutar troca de conhecimentos é o que Hermano Vianna vê como perniciosa. Para ele o bom é o bruto, o não polido, o rascunho. Qualquer tentativa de elaboração é uma “mediação da elite” e o artista do povo tem que ser aceito como é, tem que ser mantido em sua jaula de “autenticidade” seja lá para que estudo científico se queira.

Essa é uma novidade e tanto para a cultura brasileira. Que bom que as tais “elites” estão perdendo o controle.

Considerando que o termo elite tem mais de um significado, e no contexto pode ser visto como uma referência ao grupo seleto de artistas que fazem arte de qualidade, a frase é carregada de duplos sentidos pois não distingue seu alvo. Será que Hermano Vianna está se insurgindo contra a elite econômica ou o conceito de elite cultural? Ou algum outro.

E de que tipo de controle estamos falando? Está ele celebrando o fim do preconceito social no Brasil? Ou está celebrando o fim da valorização do verniz cultural que as elites aplicavam em nossa barbárie?

Chimbinha, também emocionado, me contou mais de sua história — a época que morou com sua mãe numa invasão em Belém, os maus tratos quando — aos 13 anos — tocava guitarra toda noite num cabaré e pedia para sua mãe para não voltar mais lá, mas sabia que não podia largar o “emprego” pois a família dependia daquele trocado para comer.

Como a musica é muito ruim, é preciso insistir muito no apelo emocional.

Os melhores amigos de Chimbinha em São Paulo são Zezé, Leonardo e Bruno (de Bruno e Marrone). Isto é: metade do PIB musical brasileiro hoje.

O uso da expressão “PIB musical” expressa muito bem os valores em nome dos quais Hermano Vianna escreve: temos um defensor do popularesco com a justificativa do apelo econômico. A busca da qualidade, definitivamente superada pelo gozo agressivo do dinheiro ganho com música. Não se trata mais de arte, mas apenas de um modo de ganhar dinheiro e poder.

Interessante que tenham se encontrado e que tenham amizade tão forte.

Na verdade é natural que se busquem. Estranho é quando alguém que supostamente tem cultura se mistura com eles.

Mas o sucesso não serve de blindagem contra o sofrimento e a dificuldade de ter que lidar com uma situação que sempre — repito: apesar do sucesso — insinua cruelmente que ocupam um lugar que não lhes é devido, que deveria ser ocupado por músicos com formação de “qualidade”.

Se o autor tivesse dito que o sucesso não implica em qualidade, aí teríamos chegado a algum lugar. Mas em vez disso ele prefere negar valor ao conceito de qualidade (o que é, afinal, qualidade diante da capacidade de ganhar milhões?).

Chimbinha passou o jantar me agradecendo por estar ali, por ter aceito o convite, por ter apoiado sua carreira, por ter colocado sua banda na televisão.

Ué? Mas o Chimbinha não fez sucesso “contra tudo e contra todos?” Aliás, e os shows em São Paulo quando ainda era desconhecido?

O pessoal que cuida da empresa que vende os shows da Calypso me confirmou: “às vezes chegamos numa cidade lá no interior do Tocantins — o show está lotado com o nosso público, mas o cara que aparece na TV e que não juntaria 100 pessoas tem o melhor cachê, o melhor camarim, é recebido pelo prefeito…

De novo o apelo ao povo. Quem enche estádio é que merece ser recebido pelo prefeito. A qualidade da arte envolvida não entra em questão. Se o sujeito enche estádio então é ele que merece ser recebido pelo prefeito.

É evidente, mais que evidente: o sucesso por si só não traz respeito.

Porque o respeito não advém do dinheiro ganho, mas de como se ganha o dinheiro. Sucesso obtido com música ruim é como dinheiro de crime: as pessoas podem até te invejar, mas não respeitam.

No final do jantar sentamos ao redor de um piano de cauda branco (igual ao do Elton John, igual ao do Leandro Lehart),

p>Fetichização ao extremo. Será que ter um piano de cauda branco na sala de alguma forma iguala Chimbinha e Elton John?</p>

É já um outro tipo de relação com os compositores, contratados pelas bandas para escrever seus próximos sucessos. Todos são trabalhadores do pop: parece que têm o método para o sucesso de massa, para a canção que vai agradar a maioria. Imagino que a Motown também funcionasse assim.

De novo comparações incomparáveis. A gravadora Motown reuniu artistas de altíssimo gabarito, em um país encharcado de cultura musical. Os compositores contratados por Chimbinha e Cia. são pessoas sem muita formação e de pouca cultura artística e o seu trabalho não possui um sentido cultural. Mas essa observação pode ser meu preconceito. Talvez daqui a vinte anos estejamos encarando estes caras tal como hoje encaramos Stevie Wonder, Diana Ross, Michael Jackson, Isaac Hayes, etc…

Eu ia escutando as novas músicas e já podia ouvir as multidões cantando aos berros nos futuros shows lotados.

Para quem ainda não tinha aprendido o que era apelo ao povo.

Já repeti várias vezes aqui que não tinha muito interesse pela música da Banda Calypso, gostava do Chimbinha guitarreiro… Então valorizava mesmo o aspecto antropológico do sucesso, um sucesso bem diferente daquele que a indústria fonográfica tradicional produzia no Brasil. Mas este CD, o Volume 10, eu gosto, pra valer. Musicalmente. É um hit perfeito atrás do outro. Há poucas canções melhores de se ouvir no rádio do que “Mais Uma Chance”, cantada por Joelma e Leonardo. Quando ouço na rua, meu dia se alegra e saio cantando junto. A situação de amor descrita na letra também é cativante, no seu narcisismo calculadamente desamparado e espertamente ingênuo: “meu amor se eu fosse você, eu voltava para mim, eu viria me socorrer”. Um dia, quando um cantor chique fizer uma versão, todo mundo vai achar bacana… Mas é preciso tempo: o popular muito popular só se torna elogiável quando sua popularidade é coisa do passado, não é mesmo?

De novo um elogio exagerado, do tipo que nem chega a convencer. Como alguém que falou tão mal da Banda Calypso pode de repente dizer que seu dia se alegra e sai cantando junto quando ouve “Mais uma chance”?

Notem a sutil “piscada de olho” na última frase. Hermano Vianna está sugerindo que o tempo legitima o lixo musical. Talvez ele esteja precisando dar uma olhada nas listas de sucessos dos anos 60 e 70 e ver de quem nos lembramos e quem foi embora.

E se não fosse a determinação de gente como Hermano Vianna em elogiar lixos do passado, como Reginaldo Rossi e Carlos Santos, esse “popular muito popular” não chegaria a ser visto como elogiável.

É um estilo, objeto claramente identificável. A voz de Joelma tem calor e graça — entendo bem porque todas as crianças são apaixonadas por ela. E a guitarra do Chimbinha continua a tal. Ele me disse que ainda pretende gravar outro disco de guitarrada. Nem precisa: não há necessidade do Chimbinha me provar mais nada. Mas que seria bom ouvi-lo novamente em gravação solo, por puro divertimento, ou por egocentrismo meu, isso seria: fecharia um ciclo completo em minha vida. Mas de qualquer maneira: Salve Chimbinha! Salve Joelma! Os músicos mais populares no Brasil hoje! Quando vão ganhar a medalha do mérito cultural?

Ao ler este parágrafo eu me pergunto quanto Hermano Vianna ganhou para escrever essa merda. Ou o que foi que fumou… “Não há necessidade de Chimbinha provar mais nada, ouvi-lo em gravação solo seria puro divertimento, fecharia um ciclo completo em minha vida”… A intensidade dos elogios chega a dar calafrios, principalmente se temos em questão que o objeto de tais elogios é um compositor burocrático e nada original que produz sucessos comerciais do rádio. Chega a ser possível pensar em mais do que interesses comerciais, talvez até carnais, porque não é concebível que se elogie com tal desespero e com tal gana alguém que o próprio autor do artigo teve tanto trabalho para achar um jeito de gostar. Alguém que requereu tantas falácias e distorções cognitivas para vencer as resistências do autor do texto.

E para fechar com chave de outro, tasca lá outro apelo à popularidade, confundindo, como bom falacioso, valor artístico com “PIB musical”. De quebra ainda acha jeito de ver calor e graça no canto desafinado e cheio de calos nas cordas vocais que a Joelma desfila de forma até constrangedora pelos palcos.

Sinceramente eu não entendo como pessoas aparentemente cultas se prestam a tecer elogios assim para artistas que decididamente não os merecem.


16
Set 08
publicado por José Geraldo, às 20:25link do post | comentar
The band is just fantastic
That’s really what I think
— And by the way: which one is pink?1

O dia 15 de setembro de 2008 fica na história como o dia em que o sonho musical chamado Pink Floyd definitivamente acabou. Poucas bandas mereceram um lugar tão nobre na história do rock’n’roll, poucas tiveram fãs tão fiéis, poucas deixaram um vazio tão enorme no universo do pop. Poucas tiveram uma carreira tão conturbada e cheia de tragédias. A morte de Syd Barrett enterrara um mito, mas não dera um fim ao sonho de uma geração de fãs que nunca viram o espetáculo circense-musical psicodélico do Pink Floyd em ação, especialmente depois do concerto no qual Roger Waters, superando 26 anos de amarga separação, voltou a tocar com os ex-companheiros. Mas Richard Wright significa o fim, significa também que a reunião não fora senão uma homenagem em vida ao amigo moribundo.

Richard William Wright foi o tecladista e um dos co-vocalistas do Pink Floyd. Isto apenas é um currículo que muito virtuoso inveja. Autor solo de composições de sucesso comercial (“Us and Them”, “Summer ‘68”, “Remember a Day”) ou apenas belíssimas melodias ignoradas (“Wearing the Inside Out”), membro do grupo em sua fase “heróica” (1966-1980) e autor de duas pequenas obras-primas em carreira solo (“Wet Dream”, de 1978 e “Broken China”, de 1995).

Um dos poucos pianistas auto-didatas a ter expressão artística, Rich tocava uma infinidade de instrumentos de teclado, sopro e percussão, embora tenha sempre preferido o modesto e sibilante órgão Farfisa (numa época em que Moogs e Mellotrons dominavam a sonoridade pop). Talvez estas duas circunstâncias tenham contribuído para as características únicas que emprestou ao som do Pink Floyd: aquelas lentas progressões de notas, suavemente lembrando o vento erodindo uma duna que abrem “Shine On You Crazy Diamond” seriam impensáveis nos dedos de um tecladista barroco e virtuoso como Keith Emerson ou Rick Wakeman. A suave simplicidade de Wright foi sempre atraente, pelo menos enquanto ela emprestava brilho ao talento vocal e instrumental de David Gilmour.

Ainda nos anos setenta, durante a tormentosa luta pelo controle do nome e da fama do Pink Floyd, Wright e Gilmour “tiraram férias de Roger Waters” lançando, em 1978, dois álbuns solo de qualidade comparável ao que o Floyd estava fazendo na época. “Wet Dream”, o esforço pessoal de Wright, contém faixas que ele compusera ao longo da década mas que Waters nunca permitira que fossem registradas pelo Pink Floyd (a única composição sua pós-1970 que o Floyd Gravou foi “Us and Them”, mesmo assim com letra de Waters). É um album totalmente oposto ao som denso e claustrofóbico do Pink Floyd na época, cheio de melodias delicadas e mediterrâneas, que celebram momentos singelos da vida, abrilhantadas pelo talento de dois músicos que acompanhavam o Pink Floyd na época: Snowy White (Guitarra) e Mel Collins (Sax).

“Mediterranean C” é um instrumental tranqüilo, baseado inicialmente em um tema de piano, que se desenvolve quase como uma canção do Pink Floyd. Não ficaria mal em nenhum álbum anterior a “Animals”. Em “Against the Odds”, uma suave e lenta canção de amor, Rick não está muito feliz como letrista, mas a melodia é absurdamente bela. O instrumental “Cat Cruise” possui uma qualidade muito semelhante à de qualquer canção de “The Dark Side of the Moon” ou “Wish You Were Here”. “Summer Elegy” é a menos “pinkfloydística” faixa do disco, lembrando alguma coisa das baladas do Queen. “Waves” apresenta um belíssimo solo de saxofone de Mel Collins e se desenvolve de forma muito interessante melodicamente, embora ocasionalmente lembre “Shine On...”. É nas faixas finais, “Mad Yannis Dance”, “Drop In From The Top” e “Funky Deux” que Wright manifesta um estilo mais descolado do Pink Floyd e demonstra todo seu talento de composição para a música pop. Sim, “Wet Dream” é pop. Mas é um disco incrivelmente belo, melodioso e delicado. Disco para roqueiro dar de presenta para namorada.

Wright nunca foi citado como uma peça fundamental do Pink Floyd, no entanto, sua saída logo antes de “The Wall” destruiu a delicada harmonia que sustentava a “poção sonora” do grupo, tornando-o mais agressivo e mais depressivo. Sob a batuta dos pesadelos e manias de Waters o Floyd se torna ainda mais soturno e arrítmico, até desembocar no beco-sem-saída estético que foi “The Final Cut” (tido por muitos como o canto do cisne do grupo). O efeito de sua saída claramente mostrou a importância de sua presença – e de seu senso musical – na construção da sonoridade que todos amavam.

Talvez por isso, entre outras razões, ele acabou tendo a chance de sair da cena musical de forma honrada, com dois trabalhos nos quais pôde se resgatar artisticamente: o derradeiro álbum do Pink Floyd, “The Division Bell”, cuja faixa final É a definitiva e melancólica despedida de todos, e o álbum solo “Broken China”, no qual destila seu amor conjugal e os dramas de sua vida particular de forma sensível e sem a revoltada depressão que marcava os trabalhos de Roger Waters. Wright consegue ser romântico sem ser passional, consegue ser progressivo sem ser rebuscado e ser sério sem ser negativo. Escrevendo sobre um tema difícil, a longa depressão vivida por sua mulher, que muito afetara a vida de ambos, Wright produz um álbum que não fere o ouvido nem induz à tristeza. Os vocais sussurrados contribuem para um clima intimista. De forma geral, “Broken China” é um álbum perdido do Pink Floyd, graças à produção e às letras de Antony Moore (que colaborara nos dois álbuns anteriores do grupo) e à participação de vários músicos que haviam participado das turnês anteriores: Tim Renwick (guitarra) e Kate St. John (vocais). A presença de Sinnéad O’Connor nos vocais de duas faixas é outra razão de interesse por esse soturno álbum que, no entanto, destila uma simplicidade que induz à contemplação – e não à tristeza.

De lá para cá Wright esteve muito pouco ativo musicalmente, mas já não precisava. Seu lugar na história do rock e no coração dos fãs já estava conquistado. Certamente Rick não será lembrado como o maior tecladista da história do pop, mas dificilmente será esquecido, enquanto virtuosos como Rick Wakeman e Keith Emerson perdem prestígio com o tempo.

A razão disso é que, do alto de sua econômica simplicidade, a música do Pink Floyd é mais durável e eterna do que as loucuras do ELP ou as viagens místicas do Yes. Além do que, o grande tema do Pink Floyd é o melhor de todos os grandes temas: o ser humano. Não anõezinhos verdes, deuses orientais, unicórnios brancos ou personagens literários, mas o ser humano em sua densa e complexa personalidade.

Num mundo em que a música se tornou um deserto de idéias, talvez valha a pena lembrar dias passados em que éramos mais jovens e ainda livres para brincar com a vida sem ter medo de que a noite viesse. Ou então sucumbiremos a esse mundo de ruídos aleatórios onde ninguém tem escolha e vivem querendo puxar nossos cordões e alavancas.2

1 A citação em inglês é da música “Have a Cigar” (de Roger Waters e David Gilmour), do álbum “Wish You Were Here” e se refere à falsa impressão de boa parte da imprensa nos anos 60 de que “Pink Floyd” fosse uma pessoa.

2 Os dois trechos em itálico ao final são traduções de trechos das músicas “Remember a Day” e “Night of a Thousand Furry Toys”, de Rick Wright.

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