Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
02
Out 10
publicado por José Geraldo, às 13:23link do post | comentar

O louco dançava à beira do rochedo, desafiando as ondas com seus versos:

— Vamos para o céu, ou talvez… pulem, pulem! Andem logo, ele espera. Vocês não tem escolha! Pulem, pulem para os braços do dragão que esconde suas asas e seus dentes na maciez das ondas.

Os homens continuavam construindo o barco sobre o gramado. Enquanto as mulheres colhiam frutas e preparavam carne-seca — provisões para a viagem. O louco observava e cantava seus versos desafinados:

— Vocês não tem escolha, as velas serão rasgadas pelos ventos. Os mastros serão destroçados pelas ondas. Em vez da Torre ou da Terra Prometida vocês serão mortos e seus corpos trespassados pelos espinhos longos do dragão.

O contramestre cansou-se da litania e raspou a garganta:

— Cale-se, estúpido. Esta ilha é teu destino, por blasfemar desta maneira contra a esperança. Pára de gritar, pelo menos, enquanto nos preparamos para cruzar o mar.

Mas o louco não tinha medo do poder, quem teve a morte diante de si e viveu, mesmo que por um tempo, perde esse pudor, da dor. Com uma lágrima solitária no olho, o louco dirigiu-se a uma das mulheres:

— Madame, você veja o que diz seu marido. Oh, cuidado o homem que acha que sabe o que quer. Ele nunca para em lugar nenhum. Sempre haverá outro mar, sempre haverá outros braços. Alguma promessa da grande cidade perdida, da grande vida que não houve, e nada é tão favorito do aventureiro quanto o desejo de partir outra vez.

— Cala-te, louco. Ninguém mais suporta tuas dores. Guarde-as para ti.

— Como, madame, se eu tampouco as suporto?

Fez-se um silêncio na colina. O silêncio da compreensão. Mesmo os loucos falam a verdade, precisamente. E quando os sãos a entendem, uma dor profunda, dessas que exigem um assassinato, passa pelos corações dos sensatos.

O contramestre pegou um machado e ameaçou outra vez.

— Some de nossa presença, besta!

O louco amansou um pouco e continuou os versos num outro tom:

— Então vão, viagem, vão para o céu, ou o inferno. Vocês não têm escolha. Por favor, me deixem aqui, prometo fechar meus olhos quando o Grande Polvo surgir. É bom e é seguro estar perdido no mato, não é tão mau quanto estar triste na praia. O mato não me diz nada, não me mata. E o que eu digo lá não é ouvido por ninguém que me odeie. Então vão, viagem, iscas vivas, crianças lambuzadas de mel andando entre as colmeias.

O louco deixou escapar uma gargalhada cortantemente triste e correu pela praia, tropeçando na areia.— Por favor, deixe-nos em paz — berrou um rapaz que parecia sensato.

O louco mirou-o com olhos agudos e disse:

— Prometo fechar os meus olhos, mas como fechar meus ouvidos?

O vento soprou e as folhas das árvores lamentaram os troncos cortados pelos homens para fazer os barcos.

— Por favor, não me ponham na bagagem — insultava o louco.

O contramestre deu por terminada a obra. Uma garrafa de antiga cerveja, choca pelas décadas, mas ainda cerimonialmente útil, foi quebrada no casco. O cheiro doce do levedo estragado preencheu o ar com saudades. Um discurso. A bruxa da tribo subiu na proa, desafiadoramente penetrando a maré.

— Os mares alcançam o mundo, amados. Eles continuam, apesar de tudo, iguais. Não precisamos voar, nem morrer nesta ilha miserável. Quanto mais ficamos, menores somos. Vamos embora, chega de arrastar-nos pela areia. O calor do vento é nosso amigo, nossas cantigas nos darão força para cruzar o mar. Venham, todos, amigos, amantes, maridos. Ponham-se a bordo e vamos!

Do alto de uma pedra, o louco chorava. Era um homem ainda jovem e razoavelmente belo. Em sua loucura amava a donzela cujo nome não sabia. Por ela chorava, mais do que pelos outros, porque ela não ia por querer, mas por força da vontade do seu pai — segundo contramestre.

E na tarde do quinto dia o barco foi empurrado para dentro do mar, e navegou suavemente até os arrecifes, deixando o louco na praia, derramando-se em lágrimas e versos de pé quebrado.

Então os tentáculos do monstro surgiram das profundezas, cheios de agulhas longas e penetrantes, e abraçou o barco, diante dos gritos da tribo inteira. O louco descobriu o ombro e olhou a cicatriz que tinha sob a clavícula, lembrando da dor e do desespero, da sorte de ser trazido, esquecido, até aquela praia.

Ergueu-se ali e estendeu um punho fechado contra o céu, dizendo:

— Tu já foste bastante surdo ou bastante mau. Já me convenci o suficiente de ambas as coisas. Mas tenho duvidado se devo mesmo ter medo de você, mais do que do Polvo. Porque ele, ele eu sei que existe e vai me matar um dia, quando tiver aprendido a cercar-se da terra pouca dessa ilha. Mas tu, tu podes ser somente uma ilusão que sobrou, de um mundo que não existe mais. Mas se existes, então salva justamente Ela, como salvaste justamente a mim. Salva-a não por misericórdia, mas porque és mau e te deleitarás mais no sofrimento da morte dela adiada. Salva-a para minha luxúria, como me salvaste para ser palhaço dos ignorantes.

O louco deixou-se cair na areia, chorando sem controle, esperando que sua prece fosse ouvida. E o mar rugia, e dezenas de impotentes gritos se ouviam.


08
Set 10
publicado por José Geraldo, às 20:03link do post | comentar

Em 2003 já era difícil ter paz sonora neste mundo em que o ruído supre a carência de atenção do indivíduo face à indiferença de uma sociedade numerosa e apática. Sete anos depois, mesmo o horrendo sucesso «musical» tendo sido esquecido, as ideias e os sentimentos continuam atuais como nunca:

O meu vizinho de frente comprou um toca-discos. Seria um acontecimento banal se hoje em dia este simples eletroeletrônico não se tivesse transformado num equipamento perigoso que pode ser usado para o mal. E infelizmente a potência do aparelho é inversamente proporcional à cultura e à educação do proprietário.

Não o vi chegar, por isso assustei-me quando ouvi aqueles ruídos e batidas que faziam fundo à voz amarfanhada de alguém que declarava sem misericórdia que eu estava dominado, que todos estávamos dominados!

A princípio pensei que havíamos sido invadidos, quem sabe por alguma raça de bárbaros, por dominadores marcianos ou mercenários ianques. Ou então que o crime organizado resolvera, enfim, substituir o confuso e obsoleto poder público. Após o susto inicial, reuni coragem e cheguei a janela. Meu vizinho, juntamente com alguns amigos estava sentado à calçada enquanto um toca-discos reluzindo de novo se exibia de dentro de sua sala para a rua vociferando ameaçadoramente em centenas ou milhares de watts P.M.P.O.

Por horas a mesma música se revezou consigo mesma na preferência daqueles rapazes, atritando com a minha sensibilidade até o limite extremo. Eram já sete e meia da noite de sábado e eu não suportava mais que gritassem que eu estava dominado porque me considero um sujeito indomável, ou sonho sê-lo.

Saí então de casa, como se for à rua fosse uma atitude capaz de contornar o intolerável da situação, já que não era plausível ir até o vizinho e pedir-lhe a fineza de ouvir a sua “música” em volume urbanamente aceitável porque hoje em dia as pessoas não são mais razoáveis, parece que se tornaram incapazes de compreender qualquer coisa que lhes diminua o terreno e um pedido dessa natureza poderia ser respondido com grosseria, com uma agressão ou com um recrudescimento do já insuportável volume.

Minha única possibilidade de não ser dominado seria ter força suficiente para derrotá-los a todos em uma luta corporal e destruir o demoníaco instrumento de ódio que me impedia de gozar do ócio de sábado dentro de minha própria casa. Claro que eu também poderia fugir, e foi o que tive de fazer.

Eram cerca de oito horas e trinta minutos quando cheguei ao centro da cidade, andando, é claro, sem a mais tênue sombra de pressa. No meio da avenida encontrei um amigo e nos sentamos para tomar umas cervejinhas em um barzinho sossegado ao som da boa e velha MPB, que anda ganhando mofo e perdendo qualidade a cada novo fenômeno não descoberto que faz concurso público em vez de gravar outro disco. Mas a companhia foi somente por uma cerveja, pois meu amigo era casado recente e sua esposa não aceitaria facilmente que permanecesse pelas ruas até altas horas sozinho no sábado.

Fomos juntos até a esquina, onde nos despedimos e voltei a andar a esmo pela rua, buscando distração e companhia. Minutos depois estava no centro nervoso da noite cataguasense e não estava bem. Perambular pelas ruas à noite perdeu o sentido: em vez de ser divertido, tornou-se um desprazer perigoso. Ao virar uma esquina dei de frente com três rapazes enrolando um «baseado». Fingi que não vi — mas vi — e continuei andando para não chamar a atenção. Na esquina meninas precoces contavam aventuras sexuais em alta voz para quem quiser ouvir. Um grupo de bêbados dizia vulgaridades a mulheres vulgares que passavam desfilando carne e produtos de beleza enrolados em tecidos da moda. Ambos os lados obedeciam ao script da moda: o fino é ser grosso.

Carros passavam desobedecendo as mais elementares leis de trânsitom roncando motores turbinados e executando sons tribais em alto volume, em suas cavernosas equipagens de som. Animais no cio passavam neles, batendo a mão do lado de fora e urrando. Garrafas de cerveja voaram pelo ar no meio de uma briga e uma clareira se abriu na selva para dois símios se digladiarem usando garrafas quebradas como clavas. A chegada da polícia foi recebida com vaias, que resultaram em golpes de cassetete que fizeram os corajosos brigões caírem de quatro (mesmo com o risco de não conseguirem mais levantar). Bastou uma breve demonstram de poder para os heróis chamarem os polícias de «doutor», na subserviência conveniente dos que já assimilaram o tipo marginal: sabem-se culpados.

A polícia foi embora levando para um passeio ao xadrez os brigões. Um pouco mais tarde seus ricos pais os tiram de lá, devidamente humilhando os soldados que cumpriram seu dever. E o mundo segue com seus ruídos.

Depois da passagem da viatura o agito foi voltando aos poucos, até atingir de novo o nível extremo de antes. É preciso isso. Somente o barulho pode expressar a alma de uma juventude que não consegue ouvir o próprio coração, imerso nesse poço de mediocridade e insensatez. É preciso fazer barulho, muito barulho. Sem barulho não se existe, sem sufocar a voz alheia não se atrai a atenção, sem animalizar-se não há socialização.

Na música animalesca (não mais tribal, mas realmente animalesca), raiva, acasalamento e auto-realização oral. Ao fundo repica a batida insolentemente pré-fabricada que dá cobertura à boçalidade de alguém que decreta a perdição: «‘Tá dominado! ‘Tá tudo dominado!» Não há mais esperança: eles venceram. Está tudo dominado pela mediocridade. Resta-nos o conformismo ou o suicídio.

Sem conseguir encontrar ninguém conhecido e mais uma vez sozinho na floresta perigosa da noite, não tenho remédio senão voltar para casa cedo. Pelo menos nos bairros os ruídos insuportáveis são proibidos após às dez horas da noite, assim posso estar seguro contra a dominação se ficar escondidinho dentro de casa. Sem sequer a curiosidade de olhar o mundo por uma greta.


05
Set 10
publicado por José Geraldo, às 11:33link do post | comentar

Já que ontem eu escrevi sobre a mula sem cabeça, resolvi aproveitar o embalo, enquanto os dados ainda estão frescos na memória, e escrever sobre o lobisomem, com que ela possui na tradição luso-brasileira, uma relação muito próxima.

O lobisomem luso-brasileiro não é o mesmo lobisomem que é visto nos filmes de terror americanos e que passou a fazer parte da tradição literária europeia. Na cultura pop de hoje a comparação mais próxima que se possa fazer com ele seja a do professor Lupin, da série Harry Potter, que tampouco é uma fera irracional e sanguinária que se manifesta nas noites de lua cheia. Porém, ainda assim, há diferenças inconciliáveis entre os dois.

A exemplo da mula sem cabeça, o “nosso” lobisomem é um instrumento de propaganda da Igreja Católica, cuidadosamente desenvolvido como uma espécie de “propaganda viral” do sacerdócio em uma época em que a Internet ainda não existia. Eu explico. Mais tarde. As características católicas do lobisomem ficam evidentes na natureza de sua maldição, no seu comportamento enquanto transformado e nos métodos utilizados para desviar, neutralizar ou meramente sobreviver à maldição.

O lobisomem do cinema carrega consigo uma maldição de forte conotação sexual, pois é transmitida pelo contato sanguíneo: a violência da mordida do lobisomem é uma metáfora para o estupro da mesma forma como a suavidade da mordida do vampiro o é para a sedução. Ambos, lobisomem e vampiro, na tradição centro-europeia e balcânica (que é a que chegou ao cinema) são seres pervertidos pelos instintos e que transmitem sua brutalidade através de atos de “contaminação”.

Mas o lobisomem luso-brasileiro não é assim: a sua maldição não possui um caráter sexual e ele não é violento como o centro-europeu. É uma maldição individual, uma espécie de predestinação. Trata-se do sétimo filho de um sétimo filho: uma condição que não se transmite, mas com a qual se nasce, e que não se reverte, no máximo, se contorna. Ninguém “se torna” lobisomem: ou você nasce para ser um ou jamais o será.

Uma vez que a condição é pessoal e intransferível, verifica-se que é possível evitá-la de todo: basta que nunca haja um “sétimo filho de um sétimo filho”. Nos dias de hoje isto já não é um problema, visto que as famílias não procriam tanto (isso certamente explica a raridade de lobisomens atualmente), mas até meados do século XX não era incomum as famílias chegarem a essa quantidade de crianças, ou a números ainda mais incríveis: a minha avó paterna teve nada menos do 22 irmãs e cinco irmãos, e o caso dela nem foi tão extraordinário assim. O meu avô, que não era de brincar muito, nas raras vezes em que o fazia mencionava que “antigamente se rezava muito a oração de São Bento: um fora, um dentro”.

Se havia tanta família com tanto filho no mundo, então a possibilidade de haver um “sétimo filho de um sétimo filho” era real e presente, sendo necessário evitar essa condição a todo custo. Não era incomum que o sétimo filho fosse morto, ainda era menos incomum que fosse entregue à Igreja para ser feito padre, não era raro que fosse castrado e criado como mulher. O mundo antigamente era muito violento e cruel, muito além do que nós supomos. Na Argentina, onde a lenda do lobisomem chegou muito cedo, pela boca de escravos brasileiros fugidos, sétimos filhos eram abandonados em encruzilhadas, sendo acolhidos por famílias hispânicas, desconhecedoras da tradição luso-brasileira, ou criados por missões da Igreja. A situação se tornou muito grave em certa época, a ponto do presidente Hipólito Yrigoyen ter se disposto a apadrinhar os sétimos filhos e conceder-lhes bolsas de estudo integrais. Formalmente, o primeiro batismo de sétimo filho tendo o presidente por padrinho só aconteceu em 1907, mas o costume se tornou tão arraigado que em 1973 o presidente Perón oficializou-na forma do decreto 848 que automaticamente tornou “afilhado do presidente” todo sétimo filho.

Havia outras formas de ser lobisomem, todas relacionadas a algum tipo de condição impura na origem da criança: filho de padrinho com madrinha, filho de tio com sobrinha, filho de padre. Por esta última razão surgiu a complementaridade em relação à mula sem cabeça, que raramente encontrará o lobisomem na condição transformada. A condição, porém, só se manifestava a partir da puberdade, ou melhor, a partir dos treze anos. A criança, que até então fora normal em todos os aspectos (no máximo apresentando uma magreza ou uma palidez ligeiramente maior do que a regra), passa a sofrer terrores noturnos nas noites de terça para quarta e de sexta para sábado, que vão se tornando progressivamente mais intensos (talvez à medida em que os sinais da maturidade sexual vão se desenvolvendo) até ocorrer a completa transformação do amaldiçoado em um grande cão ou lobo ou, mais raramente, onça. Deve-se notar que não há, na lenda luso-brasileira, relação alguma entre a transformação e a lua cheia. Por fim, nas regiões onde o mito do lobisomem não concorre com a mula sem cabeça de forma frequente, a transformação ocorre nas noites de terça para quarta e de quinta para sexta feira.

O principal sintoma da condição “lobisômica” é o sonambulismo, ou alternativamente a insônia. O amaldiçoado dorme sempre muito mal e padece de sono diurno (sendo, portanto, um mau empregado para se ter a seu serviço). Ele tem uma tendência quase irresistível a sair de casa à noite, especialmente nas noites de transformação, perambulando de preferência pelos lugares ermos, por onde costumam andar os animais.

A transformação do lobisomem ocorre necessariamente em um espojadouro ou em uma encruzilhada. Ali ele rolará na poeira e se transformará. Para quem não sabe, um espojadouro é um trecho de terra onde os animais se deitam e se esfregam para coçar-se ou para dormir. Com o tempo a terra ali fica mais macia e se desprende uma poeira fina. Como a transformação do lobisomem depende da disponibilidade de um espojadouro, pingar água benta ou pó de hóstia em tais lugares impede que sejam utilizados, o que evita o incômoda da “corrida do lobo” pelas redondezas (mas aumenta significativamente o sofrimento do amaldiçoado e a violência de sua transformação seguinte).

Uma vez transformado, o lobisomem, antes de fazer qualquer outra coisa, precisa cumprir a sua sina. A palavra “sina” é cognata de “sinal”, ou seja, trata-se de uma manifestação ritual de alguma coisa. A sina do lobisomem é visitar sete cemitérios, sete encruzilhadas, sete vilas e sete oratórios. As tradições variam quanto à ordem ou quanto a obrigatoriedade dos itens, sendo sempre três as categorias visitadas; mas cemitérios (ou adros de igreja) e encruzilhadas estão sempre na lista. A corrida começa sempre à meia noite, quando ocorre a transformação, e terminará, mesmo que incompleta, quando o galo cantar pela primeira vez (o que ocorre entre as duas e as quatro da manhã, dependendo da região e da raça do galo).

O lobisomem luso-brasileiro raramente buscará ferir um ser humano, exceto se encontrá-lo no meio da estrada, e não é carnívoro. A lenda raramente o menciona alimentando-se enquanto transformado, e quando o faz ele se alimenta exclusivamente de excrementos de animais (“bosta de galinha”, segundo dizia a minha avó). Na verdade parece haver muito pouca deliberação nos atos praticados pelo lobisomem; que estará a maior parte do tempo preso à obrigação de correr por encruzilhadas, cemitérios, igrejas etc.; ou mesmo “maldade”: em vez disso, o “corredor” (como às vezes o chamam em Portugal) é um pobre diabo sofredor, digno de pena e de riso.

Tal como a mula sem cabeça, o lobisomem pode ser redimido parcialmente de sua condição caso alguém lhe tire sangue enquanto estiver transformado. Caso isto aconteça a transformação não mais ocorrerá enquanto estiver vivo o benfeitor (mas os demais sintomas da maldição continuarão), mas existe um perigo relacionado ao sangue: se ao ferir o lobisomem você se sujar com o seu sangue, você passará a se transformar em lugar dele enquanto estiver vivo o lobisomem original. Neste caso, a única maneira de livrar-se da maldição adquirida é matando o amaldiçoado (ou suicidando-se, o que lhe enviará de volta a maldição). Uma outra maneira de se evitar a maldição é confiar à guarda da Igreja a criança que se teme crescer como lobisomem. Sob a proteção direta de Deus, a maldição não se manifestará — ou se manifestará em condições controladas, dentro do claustro.

Quando analisamos este aspecto, em especial, notamos como a Igreja Católica conseguiu engenhosamente utilizar a superstição do lobisomem (de origem romana, relacionada à festa da Lupercália) para construir seu poder: ao amaldiçoar o sétimo filho (ou os filhos de incesto, ou filhos de padre) e apresentar-se como solução para o problema, a Igreja garantia para si um fluxo contínuo de candidatos à vida religiosa. É preciso explicar isso à luz do momento histórico vivido por Portugal entre os séculos XV e XVII, para entender porque isso foi feito.

Na Idade Média vigorava em Portugal um costume chamado “morgadio”, ou seja, o direito de primogenitura feudal. Somente um dos filhos de um senhor feudal poderia herdar seus bens imóveis. Geralmente era o filho mais velho, mas era permitido ao pai indicar outro filho caso o mais velho não se mostrasse digno. Aos demais filhos restava a carreira militar, um posto na Igreja ou uma “sinecura” no governo. As Grandes Navegações, porém, jogaram tudo de pernas para o ar: os filhos sem herança passaram a contar com a possibilidade de virem para as colônias tentar a sorte e, com isso, quem não estivesse disposto a enfrentar o sofrimento da castidade, poderia ter outra opção de vida. Mas diante da perspectiva de viver uma vida de maldição humilhante, na qualidade de lobisomem, pelo menos os sétimos filhos se sentiriam tentados a entrar para o sacerdócio, garantindo a continuidade da Igreja. Desta forma, o mito do lobisomem, tal como ele se apresenta na tradição brasileira, não é senão uma estratégia de “marketing” primitiva que a ICAR desenvolveu para evitar a “fuga de cérebros” naquela época.

Claro que a lenda é mais complexa do que isso, claro que existem outros aspectos a considerar, mas este aspecto, em especial, merece ser considerado, especialmente quando comparamos o lobisomem e a mula sem cabeça.


04
Set 10
publicado por José Geraldo, às 11:06link do post | comentar | ver comentários (2)

A mula sem cabeça é um mito de origem ibérica que existe por quase todo o território nacional, e também por toda a América Hispânica (embora com menos intensidade). Um dos mitos mais ricos e complexos de nossa tradição, é também um dos mais internamente coerentes: é possível explicá-lo de forma coesa, do princípio ao fim, sob o prisma da história das ideias: essencialmente falando, a mula sem cabeça é um mito que pretende inculcar na mulher a submissão ao homem através do casamento.

A doutrina cristã ensina que o homem é “o cabeça” do lar, um ensinamento herdado da tradição romana, na qual o pater familias detinha poder de vida e morte sobre todos que residiam sob o seu teto, além de exercer o sacerdócio do culto hereditário. Somente as prostitutas e as bruxas viviam fora desta estrutura, ambas categorias odiadas e frequentemente associadas. Não ter “um cabeça” se transforma, sutilmente, em não ter “cabeça”, dando à figura da mula a sua característica titular e mais óbvia. De razoável importância é a semelhança fonética entre as palavras “mula” e “mulher”, mas é também significativo que a mula tenha sido, nos antigos tempos, o animal usado pelos padres para o seu transporte regular. Somente os bispos, e mesmo assim apenas em tempo de guerra, poderiam usar cavalos.

Ao não se enquadrar no papel de esposa e mãe, permanecendo solteira, a mulher será imediatamente associada aos três únicos papeis que lhe permite a sociedade: o de prostituta, de bruxa ou de mulher de padre. Os dois primeiros frequentemente se confundem, como vemos nas histórias medievais, nas quais as curandeiras populares prestam favores sexuais aos heróis tanto quanto as prostitutas conhecem unguentos. Portanto, se a mulher sem marido não exerce nenhuma das atividades, conservando uma aparência socialmente aceitável ao não se deitar com homens e nem incorrer no risco de heresia ao receitar remédios para as doenças do corpo (que a fé do espírito deveria curar, segundo a fanática crença do catolicismo medieval), automaticamente será chamada de mulher de padre, visto que os padres não podem se casar e nem assumir publicamente nenhuma relação.

Ser mulher de padre significa, então, agir de forma perfeitamente marital, exceto pela falta de filhos, mas fora dos sacramentos e ditames da igreja, conservando uma aparência de normalidade social que é, de fato, muito frágil, pois se espera que a mulher, antes mesmo que lhe terminem de crescer os pelos pubianos, já esteja casada e, de preferência grávida, “para que não peque”. A transformação da “mulher” em “mula” é um desmascaramento do caráter antinatural de sua situação diante das convenções sociais, uma denúncia de que ela deveria ter se casado e sido mãe de uma penca de filhos em vez de ter permanecido solteira. Mulas sem cabeça são todas as mulheres adultas que não estão casadas, seja qual for o motivo.

Animal híbrido, portanto contrário à natureza, a mula é estéril, como a tradição requer (ou melhor, deseja) que sejam as mulheres fora do vínculo familiar. A prostituta não tem o direito a ter filhos: deve entregá-los a orfanatos porque não tem “condições morais” de criá-los. Isso quando os tem, pois se imagina que ela pratique abortos e outros métodos inconfessáveis para evitar a concepção. Por não possuir quem sustente suas crias em um mundo macho, a mulher/mula “sem cabeça” precisa negar-se à maternidade, uma vez mais praticando atos inaturais. Da mesma forma se suspeita que faça a mulher adulta que não se casou.

Existem duas formas de libertar diretamente a mula de sua maldição: ambas significativamente ligadas ao aspecto sexual. A primeira é “derramar algumas gotas” de sangue do monstro, o que equivale a um defloramento simbólico, assim comprovando que, afinal, a mulher não era sexualmente ativa. A segunda é retirar-lhe o cabresto que lhe foi posto pelo amante ilegítimo, ato igualmente emblemático que representa a sua submissão ao macho. Ao revelar-se, de fato, aceitável perante a norma social, inocente da acusação de perda da pureza, ou, alternativamente, ao transigir diante do papel social que lhe é destinado, a mula se liberta da maldição e pode viver como uma mulher normal. Esta liberdade, entretanto, existe dentro de certas limitações residuais, entre as quais a mais significativa é que a sua libertação dura apenas enquanto viva na mesma paróquia que o seu libertador, o que implica na necessidade de manutenção do vínculo matrimonial. Em alguns casos a crendice menciona que a maldição reverte se morrer o libertador.

A mula nunca é vista como inocente na tradição popular. Tanto assim que uma maneira de romper o encanto é que o seu amante a renegue e amaldiçoe sete vezes antes da missa matinal durante setenta e sete dias. Tendo feito isto, o padre se livra da acusadora presença da mula rondando sua paróquia, mas a alma da mulher é imediatamente condenada ao inferno por ter seduzido o sacerdote. A mulher seduz o sacerdote, nunca o contrário, numa curiosa inversão de papeis, típica das sociedades misóginas, que colocam a culpa na parte mais fraca. Mesmo com a ascendência política e moral que o padre tem sobre os ignorantes, é a mulher (quase sempre analfabeta e supersticiosa) quem lhe seduz e ameaça de perdição.

A maldição da mula é bastante semelhante à do lobisomem em seu modus operandi, sendo inclusive significativo que a mula jamais encontre um lobisomem em suas andanças, a não ser na quaresma, época terrível na qual tudo de ruim acontece no mundo. Os lobisomens se transformam nas noites de terça para quarta feira e nas noites de sexta para sábado, enquanto as mulas se transformam nas noites de quinta para sexta feira e nas noites de domingo para segunda, em geral após a última missa (este segundo dia de transformação não é unânime na tradição). Durante a quaresma ambos os monstros campeiam livremente pela noite, inclusive desobrigados, segundo algumas fontes populares, do fardo de percorrerem sete cemitérios, sete encruzilhadas e sete adros de igreja ou sete cruzeiros; tornando-se, assim, muito mais perigosos.

Uma vez transformada, a mulher se apresenta como uma mula de tamanho padrão, pelo negro ou castanho muito escuro, com a cabeça ausente ou em chamas, com cascos de ferro ou de bronze (mas sempre certamente de algum metal capaz de fazer misérias com o corpo que ela atingir com um coice) e um suor de cheiro forte, mas não exatamente desagradável (uma alusão ao cheiro da vulva?). A mula percorre um roteiro predeterminado (conforme acima) sempre trotando com grande intensidade, como um cavalo passando sobre uma ponte de madeira ou sobre um lajedo. Ocasionalmente ela relinchará de forma assustadora, ou chorará tristemente. Estas ocasiões estão normalmente associadas aos pontos obrigatórios aos quais deve chegar: chorando ao passar pelo cemitério ao lembrar-se do inferno para onde vai após morrer, relinchando ameaçadoramente diante da igreja, por ira do padre que a pôs a perder, novamente chorando na encruzilhada, na esperança de que algum viajante solitário a salve.

Mas a mula não tem controle sobre o seu corpo, visto que não tem cabeça. Rendida aos seus instintos, tal qual a mulher sexualmente ativa que se renega o papel exclusivo de mãe, ela ataca quem se aproxime, fazendo com que aqueles que a poderiam querer salvar a evite. Tal como a prostituta é evitada por homens de bem devido ao risco da doença venérea, tal como a mulher do padre é evitada pelos homens por receio do poder de seu amante, numa época em que a Igreja controlava a sociedade. Quem a surpreender deverá ocultar-se (para que o padre não saiba da quebra do segredo e não “queime o arquivo”?), tendo especial cuidado em não permitir que ela veja nada que brilhe (ou o padre usaria de sua influência para extorquir o ouro e a prata do homem rico que a visse?).

A recompensa por libertar a mula é tomá-la para si como amante, mas não mulher. Recompensa que não envolve responsabilidade, visto que ao ser abandonada ela retorna à condição de monstro noturno. A mula liberta viverá sob a permanente chantagem de seu libertador, obrigada a fazer-lhe todas as vontades sob pena de ele renegá-la, trazendo de volta a maldição.

Como a maioria dos mitos brasileiros, a mula sem cabeça expressa a ideologia de uma sociedade violenta, opressiva e fanática, na qual as pessoas estavam obrigadas a cumprir de forma estrita os papeis que a tradição lhes reservava. Sendo qualquer desvio da norma punido com maldições constrangedoras ou dolorosas.


01
Set 10
publicado por José Geraldo, às 20:34link do post | comentar
Uma lua aveludada acarinha minha solidãoe amortece mais o som cavado e longínquoda sinceridade em meu coraçãoe respiramos em silêncio a luz de anêmona,desta luz-feitiço que reveste a noitede um pensamento iníquo.Você trouxe uma taça de licor quando entroue dominou-me pensamentos, palavras, atos e omissões.A noite depois se dobrou sobre nóse vento bateu as janelase derrubou o livro pelo chão.Corujas piaram na escuridão,o vago e incriado exterior,contamos os minutos no relógioouvindo os curiangos no terreiro e mugidos de vacas.Passou a hora incrível, passou a luminosa idadeMas estamos aqui neste exercício de humanidadetentando que o frio do orvalho não nos dome,tentando crer não ser verdade que habitamosneste imenso pasto onde vagam vacas loucas.

Escrito em algum momento entre 2002 e 2003, este foi sempre um dos poemas que eu mantive em todos os meus blogs e sites. Acredito que muita gente já o deve ter baixado, em várias de suas versões.


31
Ago 10
publicado por José Geraldo, às 23:42link do post | comentar | ver comentários (1)

José Tranquilo não era chamado assim por escolha de ninguém. Era seu sobrenome, mas não sua vontade e nem o seu destino. Tinha sido metalúrgico em uma fábrica em uma grande cidade, ganhara algum dinheiro e vivera aventuras, mas tivera que voltar, com o rabo entre as pernas, justamente porque perdeu a calma — e por um triz não perdeu também a alma. Voltou para nossa cidade trazendo na bagagem um uniforme azul com o emblema da Volkswagen e foi ser mecânico de automóveis no Beira-Rio.

Era um homem sem mulher — e isso exacerbava a tendência, comum em mecânicos, de deixar as mãos engrossarem, as unhas ficarem pretas e os poros do rosto se encherem de substâncias escuras. Barbeava-se semanalmente, aos domingos, “para ir ver Deus” e era o único dia em que não o viam de cara coberta por estranhas sardas escuras. Vivia num apartamento acima da oficina, contemplando os veículos estripados em vez de flores plantadas em algum canteiro.

A Rua Nove de Outubro ficava à beira de um lamaçal que diziam ser córrego, na parte do bairro mais infestada de mosquitos e de maconheiros. Os primeiros não incomodavam muito ao Tranquilo, porque nenhuma fome de sangue forçava os pernilongos a picarem através do cheiro permanente de gasolina e de frituras que infestava aquele segundo andar fétido e escuro. Os segundos certamente sim, pois o mecânico, viciado em trabalho como poucos, não admitiria perder a concentração, ou a hora de acordar, devido ao efeito da erva. Por isso não raras vezes apontava a cara de urso à janela para berrar palavrões aos moleques que pitavam seu baseado abaixo do poste de lâmpada eternamente quebrada que havia em frente à oficina. Sempre a turma da fumaça respondia com desconsideração e desrespeito, com ofensas e ameças, mas acabavam indo fumar na moita de goiabeiras que crescia mais para cima, em direção ao Morro dos Macacos. Nenhum deles queria comprar briga com alguém que era Tranquilo de nome.

José Tranquilo poderia ser um homem irascível e descuidado da aparência, mas era católico como poucos e respeitava a Quaresma, mesmo que não respeitasse parâmetros razoáveis para cobrar pelos serviços. Por isso ninguém entendeu quando, num ato de loucura impensada, ele pôs a perder sua alma, mesmo sem nunca ter desgastado sua calma.

O Beira-Rio era tido, naquela época, como um lugar assombrado. Contavam histórias de coisas que apareciam na noite, coisas horríveis realmente. Uma dessas coisas certamente foi horrível, sem ser sobrenatural: o pobre Totonho Pires, capado pelo delegado Honório, nas trevas do regime militar, fugindo nu pelos pastos e berrando “Valei-me Nosssa Senhora”. Quem viu a cena nunca esqueceu. E nunca acharam o corpo de Totonho Pires, mesmo tendo achado sangue nos pastos. Disseram que tinha sido um fantasma. Mesmo os fantasmas não sangrando. Mas essa história de fantasmas era mais antiga, e não tinha só histórias fáceis de explicar como essa. Nas horas mortas escutava-se um grito. Um grito rouco e animalesco vindo de algum lugar imprecisamente fora dos limites da cidade, dos altos pastos que se perdiam na borda da Mata dos Puris. Esse grito se ouvia desde a época da colonização — e não havia delegado nem líder sindical capado que explicassem porque.

O grito não acontecia toda noite, claro. Em mais de cem anos de cidade ninguém nunca conseguiu ter certeza de quando se ouvia. Certamente alguns sabiam que ele nunca fora ouvido em noites que não fossem de sexta ou de terça. Mas não dava para ter segurança disso, porque nem era toda terça ou sexta. Mesmo assim eram muitos os que o tinham ouvido, mas poucos os bastante corajosos para segui-lo na escuridão. Diziam os mais antigos que o grito era coisa dos italianos, que tinha vindo com eles lá de onde vinham, uma terra fria e povoada de terrores antigos. Os italianos, por sua vez, diziam que o grito estava antes deles, e que nem mesmo nos pavorosos cemitérios abandonados dos etruscos, que alguns tinham conhecido, se ouvira jamais alguma coisa tão aterrorizante. Porém, curiosamente, ninguém jamais morreu de forma estranha nas noites do Bairro Beira Rio, nem jamais alguém encontrou a causa do grito.

José Tranquilo, porém, resolveu que precisava de descobrir a razão daquilo. Cansou-se de acordar assustado uma vez ou duas por mês, com o grito propriamente dito, ou com a algazarra de alguns maconheiros desavisados que vinham rolando do Morro dos Macacos abaixo como patos tocados pelo pasto com pressa. Os pássaros nas gaiolas ficavam irrequietos, os gatos nos muros miavam feio como se estivessem sendo estuprados e as pombas que dormem no campanário da igreja voavam para os lados da Torre de Televisão, no Centro. Depois tudo se aquietava e a manhã chegava de leve, como se nem tivesse havido nada.

Na missa de Domingo, na Capela de São Cristóvão, o padre lia alguma homilia sobre a necessidade de estarmos “em guarda pelo espírito” quando as portas duplas se abriram num golpe de ar e as beatas ficaram histéricas. Mesmo com o Padre Bernardo minimizando com uma frase de efeito, dizendo que “anjos passaram por aqui”, a gente simples daquele bairro afastado saiu de lá ressabiada — e José Tranquilo cheio da certeza de que havia alguma coisa que precisava ser feita.

Na segunda feira comprou uma lanterna dessas que usam para caçar rãs, tirou da mala um agasalho de lã de alpaca que tinha usado em São Paulo nos tempos frios em que fora mecânico de fábrica, e esperou a noite de terça para fazer sua exploração pelo escuro.

Saiu de casa à meia-noite, depois de ter dormido boas horas de sono, depois de um jantar carregado de carboidratos. Foi a primeira vez, nos anos que vivia em Bom Porto, que ousou subir até o Morro dos Macacos, passando pela Esquadrilha da Fumaça nas goiabeiras. Surpreendentemente eles o respeitaram, só de ver que ele ia ao encontro da noite e do Grito, levando só uma lanterna e um pulôver. José os cumprimentou, com uma leve censura pelos olhos “vermelhos do capeta” e foi subindo o morro, ofegando, sentindo-se como se tivesse mais do que os trinta e nove anos que tinha.

Além do Morro não havia nada demais, apenas estradinhas, como as que sempre há em torno das cidadezinhas. Mas havia uma lua linda no céu e curiangos curiosos que piavam e pulavam quando seus pés se aproximavam. No frio regular daquela noite de setembro a paisagem parecia tão humana, tão bela. “É quase um sacrilégio imaginar que mesmo em noites dessas tem gente fazendo ruindade no mundo”, lamentou o José, pensando no saco rasgado do pobre Totonho. Resmungando o nome do falecido delegado, decretou que a terra não lhe fosse leve e continuou trotando pela estrada, achando bonito cada cacho branco nas paineiras, cada perfume estranho de madeira, cada bosta de vaca seca num canto. De madrugada voltou para casa sem nada para contar, aliás nem tinha a quem.

Mas disso fez um ritual, e rituais acabam dando resultado. Afinal, um belo dia Deus pode estar a fim de nos dar o que pedimos cada dia, desde que seja algo pequeno. No caso dele, não era.

Estava de novo passando pelas paineiras quando ouviu nas horas mortas um trotar nervoso. Ele, que sempre fora tão tranquilo, teve medo daquele trotar esquisito e apagou a lanterna. Enfiou-se entre dois angicos espinhentos, único abrigo que podia alcançar sem pular a cerca e fazer barulho, e ficou esperando. E fez mal de esperar, como mal tinha feito de ter ido. Vocês hão de imaginar quem era, pois bem. Era ela. A Mula. Já frouxa de uma noite de trote pelos infernos do mundo, vinha resfoleguenta e preguiçosa, louca de vontade de ver a barra do dia, mas o dia ainda vinha bem longe porque o sol só nascia às seis da manhã. Distraída a mula, apesar do fogo mortiço que lhe servia de cabeça, um fogo vermelho escuro, de pouco lume e de pouca labareda.

José Tranquilo viu aquilo e começou a ficar ambicioso. Ele que sempre tinha sido um homem tão avesso, tão estranho. Ora, quem é mais avessa e estranha que a Mula? Dizem que uma Mula Sem Cabeça é uma mulher bonita que pecou com padre, nos tempos em que isso era escândalo. “Foda-se isso, eu não sou de frescuras. Quem gosta de selo é carteiro.” E dizia isso o José porque tentava se lembra de histórias antigas de sua mãe, mulata dos sertões do Mucuri. “Ah, senhora mula, como fazer para quebrar vosso encanto?”, ele se perguntava, de brincadeira, achando-se ridículo, e de repente descobrindo que devia estar sonhando.

Então ela o viu, por descuido. Dizem que a mula enxerga qualquer brilho. Não teria visto a lã fosca do agasalho e nem os olhos deixados na sombra da árvore, mas a maldita fivela do cinto luzira e denunciara-o. Diante disso não havia muito que pensar, a monstra se voltou com suas patas de aço e relinchou de um jeito que arrepiou cada pelo do corpo de cada bicho que havia em volta. Veio empinando com seus cascos pontiagudos e riscou-os no angico, arrancando casca e deixando aquele cheiro de madeira fresca no ar.

Foi pura sorte, ou azar, que Deus permitisse ao José a presença de espírito para usar contra ela, à guisa de arma, a lanterna de corpo metálico, frágil e fria, mas com borda cortante quando quebrada. Gotas ferventes caíram ao chão, queimando a poeira com cheiro de maldição. O relincho se transformou em um berro, humano e horrível, e num piscar de olhos lá estava, refestelando-se no pó imundo, como uma porca no cio, uma mulher morena e assustada.

José se sentiu muito forte naquele momento. Como se tivesse derrotado um Minotauro, ou coisa parecida. Saiu do esconderijo, ousado, cavalheiro, galanteador. A mulher, nua, sangrava, suja e fria do ar da noite.

— A moça me faça o favor de desculpar o mau jeito…

A moça engasgava com a poeira e soluços. Por fim se ergueu, sem vergonha de nada, e o olhou com dois olhos que pareciam brasas:

— Por amor de que um filho de Deus me libertou?

— Por amor de minha vida primeiro, que os teus cascos já quase me degolavam. Mas agora eu vejo que bem devia haver outros amores no caso.

— Você me quebrou o encanto, mas foi muito longe de casa. Estou aqui em pêlo que nem um bicho no mato e logo amanhece. Que vai ser de mim?

— Se a moça puder confiar em um estranho, vou em casa e ainda volto, para buscar a senhorita.

— Confiar é o que eu tenho que fazer. Mas não deixe de vir, que tem muita gente ruim nesse mundo.

José Tranquilo a escondeu numa moita e foi embora, voando pelos pastos como se fosse um fantasma. Quando desceu o Morro dos Macacos e chegou no fim da rua Nove de Outubro já não havia ninguém fumando maconha nas goiabeiras, e nem pombas no campanário. Entrou na velha Brasília azul, ligou-a com muito barulho e saiu acelerado. Tinha setenta minutos antes do sol nascer. Setenta preciosos minutos durante os quais alguém poderia encontrar a Mula Sem Cabeça na estrada. Tinha que acelerar o quanto pudesse, para dar a volta e buscar a mulher. O macacão de mecânico estava no banco de trás: serviria para vesti-la na volta, com pouca suspeita. E depois vinha uma vida, um monte de coisas que podiam mudar, ou não. “Ai meu Deus, me ajuda a chegar logo, antes que maldade do mundo acabe com tudo”. E acelerava com raiva, com pressa, com tesão e com muito cuidado para não parar numa curva da estrada.


publicado por José Geraldo, às 08:05link do post | comentar
O cobertor de nuvens me envolvee amortece os sons enquantoeu me estendo sonolento ao ladode meu amor que respira bem suavee a lua sobe.A noite continua, eu fecho a portae deixo o livro pelo chão:a escuridão se põe em morros calmos,a estação mudou e o vento é morno.Criaturas se levantam, outras dormem.Retenha os seus sonhos, sonhos fogem.Ao gramado chega uma chuva friaque anuncia um amanhecer dourado.E o som do novo dia ergue-se do chãoe eu me apoio nele com meus pés fiéis,e meu amor respira suavemente ao meu lado,e percorro a bruma da manhã que tardaenquanto raios tímidos querem que ela arda.

Este pequeno poema é uma paráfrase, posteriormente estendida e muito modificada, da letra da canção A Pillow of Winds, do Pink Floyd. Uma das razões por que me propus a escrevê-lo foi justamente perceber o caráter “mineiro” (se é que isso é possível) da letra original, escrita Roger Waters, no tempo em que ainda não estava obcecado com o fantasma do pai. A primeira versão apareceu na Web em 2005.


20
Ago 10
publicado por José Geraldo, às 22:03link do post | comentar

Eu costumava ter gato. Adorava acarinhar aquele bicho, mas ele não tinha muito gosto por afagos. Um dia ele morreu, nem lembro do que, e eu comecei a esquecer.

Nunca mais pude ter gatos. Quando cresci fiquei alérgico e fui viver num apartamento. Passo o dia fora e não tenho quem cuide de bichos para mim e detestaria deixá-los cagando soltos.

Lembro com saudades do bichano, mas tudo que tenho para me consolar são meus livros. Os livros são mais ou menos como gatos. Você pega e fica alisando, mesmo depois de já os conhecer muito bem. Alisar um livro é mais ou menos como alisar um gato, e a alergia é praticamente igual.

Os livros têm a vantagem de não fugirem para acasalar e nem ficam miando no pátio quando estão desesperados por sexo. Aliás, livros não ficam desesperados por sexo e nem precisam ir ao pátio. Mas por outro lado é praticamente impossível que fiquem ordeiros e pacatos nos lugares da estante a que são designados. Parece haver algum tipo de ente sobrenatural que os tira do lugar quando eu não estou olhando.

E essa é a semelhança final que me fez gostar de livros em lugar de gatos.

Dedicado a Larissa Redeker.


16
Ago 10
publicado por José Geraldo, às 19:43link do post | comentar

Estávamos bebendo cerveja e jogando conversa fora. Assunto vai e assunto vem, acabamos chegando a falar sobre a dubiedade do caráter humano. Aí algum humorista presente à mesa em dia de péssimo humor atalhou:

— O ser humano também devia ter cauda. Assim ficaria mais fácil identificar o prazer, a alegria, a dor, a contrariedade ou o cansaço. Não ia ser tão frequente esse sofrimento de decepcionar ao outro por não saber como reagir.

— Quem tem cauda é cachorro, ó João. Deixe de ser besta porque o único rabudo aqui é você!

— E você quer um animal mais afetuoso que o cão? Pare para observar esta pequena maravilha que é a raça canina. O cão de um homem lhe traz mais alegrias que seus filhos!

— Sai dessa! Cão é cão, filho é filho!

— Concordo com você: cães nunca tiram notas baixas na escola, nunca fazem birra na hora do almoço porque não querem carne ou não gostaram dos legumes, não insistem pedindo sorvete quando os levamos para passear mesmo que não tenhamos dinheiro, não precisam ouvir historinhas para dormir, não precisam ganhar presentes caros no Natal, não pedem carro emprestado para sair no fim-de-semana, não chegam de madrugada cheirando a álcool, não usam drogas, não nos dão desgosto quando adotam uma opção sexual diferente, não causam desgosto em ninguém quando tiram a virgindade da filha do vizinho, quando engravidam vagabundas não há problema de pensão alimentícia, etc. e etc.

— Mas cachorro é um bicho. E ainda por cima um bicho fedorento. Você não pode beijar cachorro…

— Mas se beijar seu filho pode dar sapinho ou cáries.

— Cachorro não sabe seu nome…

— Mas não se ofende quando você esquece o dele.

— Cachorro nunca vai ser nada na vida e te dar orgulho…

— Mas também não vai virar nem maconheiro nem puta.

— Ah, João, assim não dá para conversar com você!

— Mas o João aqui tem razão num ponto — entrou na conversa o Frederico, que andava quieto só escutando — cachorro é um bicho que sabe fazer companhia ao dono. Vira-latas principalmente. Nunca vi nada que se compare a um.

— Mas o sentimento que se tem por um cachorro é um sentimento meio mercenário, meio seco demais. Eu não conheço ninguém que dê a vida por seu cachorro…

— Alto lá que eu conheço! — atalhou o João.

— Algum demente, só pode ser!

— Nem tão demente assim. Um sujeito perfeitamente normal até o dia em que tudo aconteceu. Quer ouvir a história?

— Que história?

— Eu já contei essa história numa crônica que escrevi faz uns dois anos para o Correio da Cidade. Você vai me dizer que não leu na época?

— Não tenho o hábito de ler os jornais daqui. Eles não são jornais com J maiúsculo. Se juntar os oito não dá um.

— Discordo! — interveio outra vez Frederico — você está sendo injusto. Não se pode querer que exista aqui um jornal como O Globo ou o Jornal do Brasil. Aliás, aqui nesta cidade quase não acontece nada. De que ia adiantar querer fazer um Jornal com jota maiúsculo, como diz você?

— Estamos saindo do assunto — relembrou o João.

— Então conta logo a tal história do sujeito que morreu por causa de um cachorro — pedimos.

— Bem, ele não morreu exatamente por causa de um cachorro. Foi mais ou menos assim…

“O sujeito era empregado de uma fazenda e levava uma vida normal de tudo. Ele tinha um cachorro vira-latas meio-perdigueiro e meio-terrier que lhe acompanhava para cima e para baixo. Um belo animal, manso como só ele.

“Um bicho amoroso que até parecia meio gente também: brincava com os filhos do cara sem nunca machucar nenhum. Como era grande, as crianças menores costumavam tentar cavalgá-lo. Ele sempre saía de baixo com cuidado e nunca nem rosnou.

“Até o dia ficou doente. Não se sabe qual doença. O animal foi ficando tristonho e arredio e todo mundo achou que houvesse algum problema. Parecia ser vermes, caso que poderia ser facilmente resolvido com meio comprimido de Ascaridil dissolvido no leite. ‘Mas eu não vou dar remédio a meu cão sem a opinião de um doutor — disse ele.

“Ele gostava muito do cachorro e resolveu procurar ajuda.

“Claro que foi difícil encontrar. Naquela época, idos de 1970 pouco mais ou menos, não havia veterinário na região a não ser os que trabalhavam junto às cooperativas de produtores de leite. Mas é claro que estes estavam interessados em vacas ou, na melhor das hipóteses, em cavalos, porcos, bodes, ovelhas, etc.

“E é claro também que estes veterinários atendiam somente ao particular ou então por conta das cooperativas. O nosso amigo estava numa situação difícil porque não podia pagar a consulta, e ninguém se importava com a doença do seu cachorro.

“À medida em que o tempo foi passando e o animal foi piorando, o cara foi ficando cada vez mais alterado. Até que um dia chegou no consultório de um veterinário e atirou sobre a mesa o cachorro já meio lambuzado de fezes — porque havia um pouco de diarreia também — e um maço de notas de pequeno valor, pouca coisa, na verdade. Ele olhou fixamente nos olhos do homenzinho careca e deixou sair de uma só vez: “O doutor vai curar o Baruio ou não vai?”

“E disse isso com tanta convicção que o veterinário até se assustou. Mas aí veio a crueldade. Em vez de mandar que o enxotassem do consultório com aquele animal fedido e sujo. O veterinário quis divertir-se com o sofrimento alheio.

“Mandou que lavasse o cachorro num tanque dos fundos e só depois o trouxesse de volta. Com o cachorro lavado e esticado sobre a mesa de trabalho, o veterinário tomou uma injeção de vermífugo das mais potentes e aplicou no bicho. Vermífugo para boi, vejam vocês. E para complementar o mal feito, ainda pegou um vidro de azeite de mamona…

— Azeite de quê? — perguntou o Frederico, que era carioca e não conhecia muito das coisas da terra.

— De mamona. Antigamente se usava isso para dar purgante em animais, e às vezes até em gente.

— Cruz-credo!

— Mas deixe eu continuar.

“Ele tacou todo o azeite pela boca abaixo do cão usando um funil de plástico. Como o vidro estava sem rótulo, foi só na hora em que o líquido já estava descendo viscoso pelo esôfago do animal que seu dono percebeu o que estava acontecendo.

“Indignado ele interpelou: “Doutor, o senhor não devia estar dando purgante pro meu cão, ele já ‘tá com caganeira demais.”

— Você está enganado, este purgante vai ajudar a limpá-lo por dentro.

— Que revoltante — inclui Frederico.

“O cara também não gostou nem um pouquinho e começou a discutir com o veterinário e a falar muitas palavras duras com ele. Até que o veterinário perdeu a paciência e resolveu mandar o cara ir plantar batatas.

— Não é justo! — adicionei.

— Cale a boca que comunista não entende de justiça, e me deixe terminar:

“Foi preciso chamar a polícia para tirar o cara de lá. E os policiais, como era costume na época, aproveitaram para dar uma surra de cassetete no pobre coitado. Tiveram o requinte de dar umas bordoadas no cachorro também.

“Nosso ar de desaprovação já estava a ponto de nos fazer declarar amor aos cães, contrariamente às coisas que havíamos estado dizendo minutos antes.

“Aquela noite ele passou ao relento na cidade porque já era muito tarde para voltar para casa. Passou-a ao lado de seu cão, afagando-lhe a cabeça e lavando-o continuamente a cada jato de fezes misturadas com lombrigas que o animal expelia.

“Milagrosamente, ou talvez porque o veterinário tivesse — sem querer — feito a coisa certa, o cão sobreviveu.

“Quando o dia amanheceu ele se pôs a caminho de casa. Chegou ali pela hora do almoço, cerca de meio-dia e meia, mais ou menos. Infelizmente o seu sofrimento mal havia acabado de começar…

“Sua mulher o esperava à porta quando ele chegou. Ela estava impaciente e não aceitou desculpas e nem explicações. Xingou-o de todos os nomes que você conhece e mais alguns que inventou na hora. Botou o marido para fora de casa dizendo que era um absurdo que um sujeito passasse três dias fora de casa atrás de remédio para um cachorro inútil que nem doente estava.

“Ele então procurou seu patrão para perguntar se podia construir para si outra casinha de pau-a-pique — já conformado em procurar outra cara-metade. Mas a sorte madrasta ainda não tinha terminado. Nos três dias em que estivera fora, o patrão havia decidido despedi-lo e já havia outro trabalhando em seu lugar. Tamanhos eram os requintes de crueldade do destino que o seu substituto no serviço havia também passado a substitui-lo na cama da esposa.

“Não havia para onde ir e nem o que fazer. Tinha de deixar o próprio filho nos braços da mãe adúltera porque não tinha como conseguir ainda um lugar para dormir a noite.

“Daquele dia em diante ele não foi mais o mesmo. Mas ainda queria consertar a vida. Passou a andar pelas estradas em companhia do cachorro pedindo emprego nas fazendas por que passava e, se não davam o emprego, pelo menos um prato de comida e uma caneca de leite.

“Isso não o ajudou em nada a melhorar a sorte. Ninguém achava boa ideia contratar um homem tão estranho; sujo e usando sempre a mesma roupa porque era apenas uma muda de roupa que possuía — já que nada pudera retirar de casa.

“O cachorro era outra razão de desconfiança. “Por que alguém andará pelas estradas levando um animal desses?” — a gente se perguntava.

“Quando o dono estava dormindo, o cão lhe montava guarda com fidelidade extrema. Atacava com toda ferocidade qualquer um que tentasse se aproximar. Com o tempo circulou a notícia de que havia um mendigo louco vagando pelas estradas com um cachorro zangado. Logo se disse que o próprio mendigo teria contraído a hidrofobia. Definitivamente as portas da vida se fecharam para o pobre coitado.

“Um dia um fazendeiro local se cansou da história e mandou chamarem o hospital psiquiátrico do município vizinho. Internaram o mendigo louco sob seus raivosos protestos, em que insistia que não era louco, que tinha mulher e filho, que queria um emprego para ganhar a vida e que não era crime ter um animal de estimação.

“Sob os protestos também do cão. Foi preciso dar tiro para tudo quanto é lado para afugentá-lo. Mas não o mataram porque ele era esperto: estava acostumado a caçar e sabia o que eram espingardas.

“No hospício lhe deram o tratamento-padrão da época: eletrochoques, barbitúricos, sedativos e surras. Sua revolta contra o fato de o estarem tratando como um louco só fez com que mais ainda lhe dessem o chamado “sossega-leão”. Até que finalmente ele deve mesmo ter perdido o juízo.

“Depois que ele se acalmou e se conformou com a sua situação, as coisas ficaram mais fáceis e dentro de poucos meses já o estavam pondo de volta no mundo.

— Mas para quê? — perguntei — o cara não tinha mais família, não tinha emprego, todo mundo o chamava de doido. Que vida o coitado podia ainda ter?

— Nenhuma. E foi exatamente assim que aconteceu.

“Pelo menos lhe deram uma muda de roupas nova e alguns trocados “para recomeçar a vida, agora que está curado”. Ele voltou à mesma região onde antes vivera. Queria reecontrar o filho que deixara nos braços da mãe com menos de dois anos de idade e queria também procurar pelo seu cão.

“As coisas começaram, então, a ficar ainda mais tristes para ele. Imaginem vocês qual foi a reação da ex-mulher ao vê-lo chegar, ainda de cabeça raspada?

— Foi ao portão recebê-lo rindo? — disse Frederico.

— Não. Não acredito nisso — disse eu. Esse tipo de história nunca tem final feliz.

— Não tem mesmo.

“Ela trancou-se em casa. Trancou-se com o filho e mandou que pedissem socorro ao patrão porque o louco de seu ex-marido estava perambulando em torno da casa querendo roubar-lhe o filho.

“Alguns empregados da fazenda vieram e o expulsaram a chutes na bunda. E o pobre estava de novo jogado ao vento.

— Parece mesmo que o cachorro era o único amigo que ele tinha. Pobre diabo — disse eu.

— Tinha. Você disse bem. Porque já haviam encontrado uma maneira de acabar com a raça do Baruio.

“Mais ou menos nos mesmos dias em que o haviam levado ao hospício, algumas pessoas resolveram tomar o encargo de livrar a região do “cachorro do louco” e começaram a pôr-lhe armadilhas. Muitas falharam até que uma “bola” o pegou.

— O que é uma “bola” — interrompeu o Frederico.

— Xi, o carioca ‘tá vendido outra vez… — disse o João.

— Uma “bola” — eu expliquei — é um pedaço de comida, geralmente carne, com veneno dentro. Se usava lá na roça antigamente para matar o cachorro dos outros quando ele se acostumava a vir comer nossas galinhas.

— Pois deram veneno assim?! Isso não se faz! Covardia!

— Muita covardia — disse João. Mas era uma coisa necessária quando o dono não tomava providências para impedir seu cão de alimentar-se no galinheiro do vizinho. Mesmo assim, muita covardia. E no nosso caso foi algo muito gratuito. O tal cachorro o que fazia era andar pelas estradas uivando de saudades do dono e caçado um animalzinho aqui e ali para comer: piriá, jacu, tatu, etc…

— Mas então deram uma bola ao cão… — insisti.

“A vida do pobre homem, a partir de então, passou a resumir-se à procura por seu cão. Ele nunca ficou sabendo que o haviam matado e nem como fora. Acredito que depois de um tempo ele começou a desconfiar, mas à medida em que essa desconfiança ia se formando ele ia perdendo a noção das coisas e se perdendo nos labirintos de si mesmo.

— Mas não morreu por causa do cão.

— Ah, foi mais ou menos.

— Um dia alguém, de gaiato ou querendo vingar-se, disse-lhe que o cão estava preso na propriedade de um certo Antônio Alves. Isso parece que renovou as energias do coitado. Achando que sabia do paradeiro do querido animal ele passou a viver em função de fazer planos para ir buscá-lo.

— Chegava nas vendas, nos bares, nas esquinas, em todo lugar onde houvesse concentração de pessoas e propunha: “Quem quer me arranjar uma arma para eu ir matar o Tõe Arve e pegar meu cão?”

— Um dia lhe deram a arma. Satanás sabe como escrever torto por linhas tortas. Apareceu um louco mais louco que o louco e lhe deu uma arma de fogo. E, de garrucha à mão, ele se dirigiu à fazenda do tal “Tõe Arve”.

— E o tal “Tõe Arve” tinha alguma culpa na história? — perguntamos os três.

— Provavelmente nenhuma porque era um sujeito do tipo que não se metia na vida dos outros por nada. E sua fazenda era uma das fazendas aonde o pobre “louco” nunca fora nem buscando emprego e nem pedindo comida, já que ficava num canto ainda pouco desenvolvido perto de um mato.

“Logo a notícia correu de que o louco estava indo armado à fazenda do Antônio Alves para matá-lo e roubar seu cão. Chamaram a polícia e o “louco” foi perseguido por um batalhão de soldados com fuzis em punho.

“Quando ficou sabendo o que estava acontecendo ele ficou apavorado. Odiava policiais, mas não gostava de se meter em encrenca. Ou talvez tivesse lhe passado pela cabeça um raio de serenidade e lucidez no meio da tempestade de loucura em que vivera por meses.

“Decidiu abandonar a sua busca e ir render-se. Foi em direção ao lugar onde, lhe disseram, os soldados estavam procurando.

“Quando os viu, gritou-lhes: “Ei, estou aqui!” e visivelmente mostrou-lhes a arma que pretendia deixar cair ao chão. Mais tarde se soube que ele sempre morrera de medo da polícia, mesmo antes de ter tomado a surra do começo da história.

“Mas antes que tentasse qualquer coisa já o haviam enchido com uma rajada de tiros de fuzil que não lhe deixou nenhuma parte do corpo intacta.

— Que revoltante — disse Frederico. Mas como você sabe que ele pretendia largar a arma?

— Por que eu era um dos soldados naquele dia. Quando eu olhei para o homenzinho que apareceu no alto de uma elevação mostrando uma garrucha eu entendi imediatamente que aquilo não era um gesto de ameaça, mas de rendição.

— Essa é a sua opinião.

— Ele poderia ter chegado atirando.

— Isso é verdade.

Então nos demos conta de que toda a alegria inicial havia se dissipado à medida em que a história fora desfiada pelo João.

— Alguém sabe o nome do pobre coitado?

— Dizem que ele se chamava Pedro.

— Pedro de quê?

— Sei lá. Talvez Pedro Silva, mais um dos muitos que há.

— Vamos erguer um brinde em memória desse cara. E desejar que na próxima encarnação ele não nasça para viver outra “vida de cachorro” como essa.

— Não, meu amigo — disse o João — não dá para levantar um brinde ao homem e esquecer a história. Ela está queimando dentro de mim faz quinze anos e nada a apaga.

— Você atirou também?

— Sim.

— Por quê?

— Depois que eu vi que todos haviam atirado e ele ia morrer mesmo de tanta bala, achei melhor dar um tiro porque o sargento estava me olhando feio.

— Solidariedade no crime — observei.

— Se algum de nós não atirasse poderia depois recriminar aos outros, especialmente porque quase que imediatamente todo mundo percebeu a inutilidade e o absurdo daqueles tiros.

— Então você abdicou do direito de apontar o erro alheio, errando de propósito junto com eles? — disse Frederico.

— João — eu acrescentei — você é pior que os seus companheiros. Eles erraram, você calculou.

— Vocês vejam se vão à merda! — disse João e se levantou da mesa e foi embora.

Troquei um rápido olhar com Frederico.

“Merda de mundo esse em que gente de bem às vezes se vê obrigada a fazer maldades para continuar vivendo!”

dezembro de 2003


20
Out 07
publicado por José Geraldo, às 00:05link do post | comentar

A única conexão que eu consigo fazer é entre o desaparecimento dos pardais e o surgimento destas avezinhas negras que infectam nossos carros com seus excrementos azulados, cheios de ácido clorídrico, capazes de estragar a mais resistente das pinturas e arranhar os vidros quando escorrem.

Inútil dizer que afugentar estas pestes está sendo bastante difícil. Nosso governo ainda não se deu conta da gravidade do perigo que os Pássaros Negros representam para a nação porque eles parecem estar vindo das profundezas do mundo esquecido e passando por nossa terra remota ainda não chegaram à capital onde o Supremo come seu caviar e perdoa seus pares.

Sem fumigações e armadilhas oficiais, nos vemos obrigados a conviver com eles, a ver nossos veículos e telhados irremediavelmente danificados. Não há espantalho que os ponha medo: eles parecem ter dentro dos olhos a experiência de cada ave que já enganamos em nossa história de luta contra a natureza. E nos olham com expressões de tédio quando lhes fazemos barulho, quando brandimos inutilmente varas e lhes atiramos pedregulhos. Às vezes me causa ainda mais ódio porque me parece que nos olham com superioridade… e tédio.

Os pardais foram sumindo e eles foram se instalando. Maiores e mais forte que aquelas avezinhas de que tanto gostávamos, os Pássaros Negros roubaram delas todas as suas fontes de alimento. Por mais que os afugentássemos eles sempre levavam todas as sobras de comida.

Não bastando isso, têm ainda um sentimento de territorialidade que é realmente trágico: divididos em pequenos bandos de cinquenta ou cem, esses pequenos ladrões controlam áreas entre cinquenta e cem metros quadrados (onde abunda o alimento) ou quilômetros (onde escasseia). E não toleram que outros pilhadores da sujeira urbana se refestelem em seus recursos: Tão logo detectam a presença de algum salteador emplumado, mandam-lhe ao encalço uma verdadeira esquadrilha de jovens rápidos e ferozes que invariavelmente perseguem o invasor até quilômetros além da «fronteira» (se ele é veloz) ou o matam antes, se for o caso, para torná-lo também parte do permanente banquete de excrementos em que se cevam.

Apenas os urubus rompem o cerco, mas não ousam fazê-lo individualmente. Geralmente chegam em grupos de doze ou vinte: E deixam algumas sentinelas! Nas poucas vezes em que urubus solitários tentaram comer em um território controlado sofreram o mesmo ataque.

Ordeiros e disciplinados, os Pássaros Negros não se espalharam pelo campo imenso, que não poderiam controlar. Preferiram instalar-se em uma determinada região e aí proliferaram. Quando o bando cresceu, dividiu-se e outros territórios foram ocupados. É claro que esta ocupação não era sedentária. Assim fosse, poderíamos fumigá-los com venenos ou matá-los com nossas espingardas. Se um indivíduo era morto em determinado local, o bando se mudava. Se algum era mesmo ferido ou sofria séria ameaça, não ficavam os demais nem mais um dia dormindo no mesmo quarteirão.

Agora que já dominaram toda a cidade e arredores, e outras das cidades e parte do campo que as circunda; este receio desapareceu. Se tornaram frios e são capazes de ver a execução de um companheiro cinicamente e sem esboçar reação. Se porém o agressor está só o bando o agride sem piedade. Houve já casos de pessoas mortas por matarem Pássaros Negros. Num dos casos mais impressionantes o morto humano havia investido (dias antes!) contra uma ninhada e matado alguns filhotes. Quando voltava para casa à noite foi cercado por dezenas deles e bicado até a morte. Abriram-lhes as veias no meio da rua e perfuraram-lhe o abdômen e os olhos antes que morresse de hemorragia.

Escusado dizer que poucos são os que se atrevem a atacar os bandos. Quem o faz vai em grupos e usando roupas grossas que cobrem todo o corpo e máscaras que não permitem que a face seja desvendada. Usam também misturadores de voz porque se teme que os Pássaros Negros sejam capazes de identificar humanos pelo tom de voz.

Também não é preciso mencionar a catástrofe ecológica que isto está causando. Os Pássaros Negros devoram insetos em quantidades exorbitantes e pouco deixam para os outros. Essa escassez produz a fome entre as demais espécies, que inutilmente migram, já que aparentemente estes anjos do Apocalipse se instalaram em toda a região. Também atacam os pequenos animais: já não há ratos-do-campo, nem piriás, nem beija-flores, nem porquinhos-da-índia e nem ratos em parte alguma. Exceto os animais do Zoológico, os outros estão morrendo de inanição e vêm desesperadamente à cidade, alguns, buscando comida às portas dos homens. Muitos são os que se comovem e os alimentam. Muitos são os que os matam para comê-los, porque também para nós humanos os Pássaros Negros estão trazendo perigo: Não há horta que se lhes resista e nem plantação que vingue diante de sua voracidade.

Mais uma vez eu abro a minha janela e contemplo os fios de luz nos postes cheios das odiosas figuras. Agora começam a bicá-los e também aos cabos telefônicos. Em breve teremos problemas mais graves. O último grito de desespero de uma cidade do interior nos aterrorizou: lá já não é possível viver, dada a proliferação de Pássaros Negros. Já nos chegam retirantes, alguns cegos. E todos contam que os nossos inimigos proliferam mais que coelhos.

Agora na cidade todos voltaram a usar chapéu e ninguém sai de casa sem óculos escuros por medo de ter o globo ocular traiçoeiramente perfurado por um desses voadores nojentos. Alguns chegam ao requinte de usar óculos de mergulho amarrados atrás da cabeça. Ponho o meu chapéu e meus óculos de serralheiro e saio à rua. Gosto dos óculos de serralheiro porque são enormes e me permitem olhar por todo o alcance de meu músculo ocular. O céu está silencioso hoje, como sempre. Em frente a Igreja o Padre esquálido contempla o céu rezando não mais por chuva como antigamente mas para que o fogo divino nos consuma.


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