Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
05
Set 11
publicado por José Geraldo, às 22:02link do post | comentar | ver comentários (1)

Fila de banco. Detesto, como muita gente. E como todo mundo tenho que ir. Aliás, eu devia agradecer por haver fila de banco no mundo: ninguém sobreviveria na minha profissão sem poder relaxar durante uma hora aguardando o atendimento. Antigamente era ruim, hoje tem até banquinho acolchoado para a gente sentar. Daí eu posso apenas ligar o som no meu telefone e ficar ouvindo alguma coisa dentro da minha cabeça, me injetando ritmo enquanto os caixas matraqueiam com os dedos nos teclados baratos.

Fila de banco. Proibiram agora o uso de aparelhos celulares. É uma merda. Não posso mais nem ficar com os malditos plugues no ouvido. As pessoas ficam olhando torto, achando que faço parte de alguma quadrilha. Merda! Tenho que desligar toda vez que entro, e ficar quase uma hora sentado olhando para as caras dos outros clientes. Raramente aparece uma moça bonita que valha a pena olhar. Mas ainda mais ramente ela permite que eu olhe sem começar a me ver torto também, me achando um estuprador. Fila de banco. Detesto, como quase todo mundo.

Estou sonolento hoje, dormi mal e dormi tarde. Acordei cedo para trabalhar, como quase todo mundo. Estou aqui meio zumbi. As pessoas veem meus óculos escuros e me acham com pinta de maconheiro. Fila de banco é um lugar onde se concentram todas as fobias e caretices da humanidade.

Os caixas estão lentos hoje. Teria sido um ótimo dia para música. Dava para ter ouvido quase um álbum cheio. Mas tenho que ficar em vez disso olhando para os lados, tentando evitar que meus olhos incomodados retornem à orelha daquela moça. Porra, até que ela é bem gatinha, mas usa um enorme alargador auricular. Imagino que dentro de dois ou três anos terá uma orelha deformada e com aro grande o bastante para eu passar meu punho. Igual o lábio do Raoni. Eu sou meio careta com essas coisas. Fico pensando se dói. Uma tatuagem já me bastou. Nunca mais banco o macho deixando que me enfiem agulhas. Só de injeção, e por necessidade. Não curto dor. Não curto ficar aqui parado esperando a vez e olhando para a orelha daquela moça e pensando nela mocréia com quarenta anos e o lóbulo todo fodido.

De repente o telefone toca. Metade da fila me olha como se eu estivesse cometendo um assassinado ou comendo uma criança. Não é nada demais, só uma mensagem de texto. Alguém tuitou que vai ter uma festa-surpresa. Adoro essas festas mal organizadas. Geralmente a bebida é quente e ruim, o lugar é uma porcaria e a polícia aparece descendo o cassetete em todo mundo. Mas sempre aparece muita gente diferente. Se não houvesse essas festas malucas seria até difícil fazer amizades fora do bairro. Talvez eu nem tivesse amizades: como você puxa assunto com essa gente na rua, todos andando olhando para frente e preocupados com suas bolsas, olhando para mim como se eu fosse um marginal de estilete na mão, pronto para cortar alguém. O telefone tocou convidando para uma festa dessas. Eu vou, claro. Eu sempre vou, ainda mais que o convite vem do Tõezinho. Faz quase um ano que não vejo o verme.

Quando consigo sair do banco eu respondo via SMS perguntando onde. A resposta vem minutos depois: Fenelon Guimarães 80. Nunca ouvi falar. Essa cidade é bem grande, e tem tanta rua quanto você tem veias. Você não sabe o nome de todas as suas veias, não estranho não saber onde fica essa rua maldita. Respondo de novo: preciso de um GPS ou de uma indicação no Google Maps. Tõezinho responde em três tempos: veio o mapa com um percevejo verde marcando a rua. Gandaia, lá vou eu. Beber muito uísque paraguaio com energético e beijar garotas com cheiro de patchouli e batom verde.

Já são quase cinco da tarde quando chego de volta ao serviço. Tempo para jogar uma cantada tosca na telefonista, bater o cartão e sair. Meu velho Chevette 76 me leva mansamente para casa, espargindo pelo ar um leve odor de gasolina e silicone. Hoje é sexta feira, eu mandei lavar, polir, lubrificar. O carrinho está manso e liso como uma mulher que sai do banho. Ser sobrinho de mecânico tem suas vantagens: o motor ronrona gostoso como uma namorada gozando na cama e as molas macias como um colchão de motel nem me deixam sentir os buracos do asfalto.

Minha mãe quer que eu coma em casa. Isso é absurdo. Sexta feira não é dia de ficar em casa depois que anoitecer. Tem que haver algum lugar qualquer para ir, algum lugar que não seja debaixo da saia da mãe. Ela me xinga enquanto eu tomo banho, meu pai ronca deitado no sofá, pronto para um enfarte, e nem liga quando saio. O velho ainda vai engasgar na própria banha qualquer dia desses. Tenho pena de minha mãe: ela era uma menina bonita quando se casou com esse gordo inútil, que só serve para ganhar uma aposentadoria por invalidez, tão gorda quanto ele.

A turma se encontra no posto de gasolina da BR. Digo que é “a turma” para dar uma boa impressão, mas somos só três. Os “mortos de fome do BNH”, como a Dolores nos chamava nos tempos de escola. Dolores era uma vadia, dava para um dono de loja rico e andava mais emperiquitada que uma dançarina de filme francês. Casou com ele graças à barriga e a habilidades orais. Hoje dirige um carro importado preto e não nos conhece mais quando passa por nós. Imagino que ela acharia engraçado nos ver bebendo cerveja barata sentados no capô de um Chevette 76, no estacionamento de um posto de gasolina à margem da BR, numa sexta feira às sete e meia. Somos três perdedores.

— Que história é essa de festa, Miguel?

— Tô de falando, recebi o recado do Tõezinho hoje à tarde. Não sei se é ele que tá organizando, mas com ele não tinha furo: toda festa que ele convidava ficava dez. Eu vou, nem que seja no inferno.

— Assim é que se fala, camarada, segura a capetinha pelos chifres para ela te chupar gostoso!

Ninguém passando pelo asfalto a cento e vinte por hora teria entendido a gargalhada dos três idiotas montados no Chevette marrom.

Saímos do posto cerca das dez da noite. Deixei o Vavá dirigir porque ele não pode beber. Dentre as muitas ziquizilas que ele tem está uma alergia forte ao álcool. Ele compensa de outras formas, claro, mas dá para dirigir bem. Vavá é um fresco, criado a leite de pera e ovomaltino, ele nunca pegou uma mulher, mas jura que não é veado. Hoje nós vamos dar um jeito de arranjar uma vadia bem doida para ver se ele deixa de ser cabaço. Mas ele não sabe ainda.

— Aonde é esse raio de lugar onde vão fazer a festa?

Pego o telefone do bolso e lhe mostro no mapa.

— Isso é longe pacas, Miguel. Tem gasolina nesse gambá aqui?

— Tem sim, claro. Olha aí!

— Parou de funcionar de novo o marcador de gasolina. Por que você não vende essa merda de carro?

— E compro o que com o dinheiro? Uma mobilete?

Vavá não tem argumentos. Com menos de três mil reais eu comprei um Chevette velho, que eu mesmo retifiquei e reformei, com a ajuda de meus tios, que são mecânicos, tanto o irmão do meu pai quanto o da minha mãe. Eles são sócios. E são mais pais para mim do que o gordão que passa o dia vendo televisão e vira a noite assistindo pornô sueco.

Já são mais de nove da noite quando começo a ficar preocupado. A festa parece cada vez mais distante. O centro da cidade já ficou para trás há muito tempo. E olhe que nós saímos da periferia, passamos por dentro e estamos quase saindo do outro lado. Se o odômetro funcionasse eu saberia o quanto rodamos. Deve ter sido muito.

As ruas são mal iluminadas e vazias. Não tem nem birosca aberta. É um bairro industrial, dá para ver pelos imensos edifícios em formato de caixote, alguns com chaminés do século passado. Eu nunca tinha vindo a essa parte da cidade, parece um filme americano de terror, daqueles com gangues de psicopatas sobre motos, matando os rivais arrastando pela rua. Eu vi um filme assim uma vez quando era bem molequinho.

Direita, esquerda, esquerda, direita e esquerda. De esquina e esquina vamos nos perdendo mais até que, de repente, encontramos uma placa indicativa. Estamos na esquina da Fenelon Guimarães com a Juvêncio Estrada. Duas ruas estreitas e perdidas, onde parece que não mora nem alma penada. Não tem ninguém na rua.

— Caralho, Miguel. Te passaram um trote dessa vez. Não tem nenhuma merda de festa rolando por aqui.

— Deve ser num desses galpões aí. Tipo, dessa vez resolveram fazer organizado. Puseram isolamento acústico para não chamar a atenção e fizeram num lugar sem vizinho chato para chamar a polícia.

— Eu acho que a gente devia voltar — diz o Vitinho, pela primeira vez dando uma opinião.

— Tudo bem, a gente volta. Mas primeiro vamos descer e procurar o número oitenta e ver o que tem lá. Depois a gente vai até para a puta que pariu se for preciso.

Concordamos e vamos procurando o 80. O Chevette vai devagarinho, como um gato se esgueirando pelo muro. Achar vai ser Tarefa difícil porque não tem ninguém na rua e nem os prédios tem número. Somente um imenso portão de ferro se destaca. Não sei porque razão eu imaginei que ali poderia ser o lugar. Estranha premonição. Era lá.

Lá era um cemitério.

Meus amigos desgraçam a rir enquanto eu quase me cago de medo.

— Miguel, acho que você devia entrar, deve ter uma capetinha aí dentro pronta para te chupar! — o veado do Vavá se aproveita para zombar de mim. Logo ele que nem deve saber do que está falando.

— Não se brinca com uma coisa dessas — diz o Vitinho, já beijando seu crucifixo de prata, presente da avó siciliana.

— Deixa de ser medroso, Vitinho. Vamos entrar.

— Entrar!? — o instinto fresco do Vavá se manifesta.

— Uai, e por que não?

— Por que sim, você quis dizer! Para que diabo a gente vai entrar no cemitério hoje, logo na quaresma, Miguel. Não tem nenhuma porra de festa por aqui, nem num raio de vinte quilômetros. Vambora pegar um cinema que ainda dá para pegar uma sessão de meia noite.

Eu não me conformo de ter sido passado para trás. Pego o telefone e envio de volta um SMS furibundo: “o inútil que me convidou aqui hoje vai aparecer ou não é macho para isso?” 

Tenho vontade de jogar longe o telefone. Pena que ainda estou pagando. Pena que preciso e gosto dessa merdinha difícil. Tenho mais amigos me seguindo nele do que na vida real. Se eu tivesse comido metade das mulheres que se dizem minhas fãs no Orkut eu me sentiria um artista. Não vou jogar fora o telefone, queria era sentar a mão na cara do veado que me sacaneou.

Vamos voltando para o carro, desolados, quando o telefone toca de novo. Tõezinho de novo. A mensagem de texto diz simplesmente: “Eu estou aquii”.  Um leve sopro de vento arrepia minhas orelhas. Olho para trás e vejo uma luz vaga dentro do cemitério, vindo em direção à porta.

— Corre, diabo!

Não sei o que foi que tinha no tom da minha voz que os dois entenderam como se fosse um abracadabra. Nem sei como entramos dentro do carro. Lembro-me vagamente de um vidro quebrando e estou com uns arranhões na barriga e a cabeça me doi muito. Por sorte sou sobrinho de mecânico e meu carro velho vive com o motor regulado. Saímos de lá cuspindo fagulha pelo escapamento, que assobiava como um apito de Satanás. Se morava alguém naquele bairro, deve ter acordado. Talvez até os defuntos tenham se incomodado. Sei que alguém chamou a polícia.

Meu pai veio me tirar da delegacia no dia seguinte. Pagou a fiança, soltou o carro. Vavá perdeu doze pontos na carteira e eu vou gastar uma grana boa pondo outro vidro traseiro. Eu não respondo quando me perguntam o que aconteceu, como foi que quebrei o vidro ou que cortei a testa. As pessoas não vão acreditar. Aliás, nem eu vou acreditar se eu me contar. Pode ter sido só a lanterna do zelador, ou uma capa de chuva iluminada pela lua. Ou pode ter sido qualquer outra coisa. 

Eu só sei que foi só no sábado de tarde que eu lembrei de uma coisa que tinha me passado despercebida: Tõezinho morreu, faz um mês, em um acidente de carro na BR, dizem que tava tirando pega usando um Dodginho envenenado. Mas ele me mandou a mensagem. Ou roubaram sua senha para me sacanear. Mortos não dão unfollow. Sei lá.

</html>

25
Ago 11
publicado por José Geraldo, às 21:15link do post | comentar | ver comentários (3)

Antes de começar a efetivamente postar o texto de meu próximo romance aqui, vou fazer alguns comentários sobre a natureza da obra, seus objetivos, suas características e o modo como vou disponibilizá-la. Isto é necessário para que o leitor não caia de paraquedas no texto e fique perdido. Futuramente, ainda, esta página servirá de índice dos capítulos, tal como fiz na tradução da “Casa no Fim do Mundo” (título de que me arrependo: a versão definitiva, que vou fazer em e-book deverá se chamar “A Casa Sobre a Fronteira”).

“Serra da Estrela” é um romance do gênero fantástico que emprega os personagens e a imagística do folclore brasileiro (mais especificamente do estado de Minas Gerais) para tentar construir um efeito de “terror sobrenatural“ semelhante ao obtido por autores como H. P. Lovecraft, Stephen King e outros clássicos do terror americano. Contrariamente a outros projetos meus, “Serra da Estrela” foi concebido desde o começo como uma obra de intenções “comerciais”, no sentido de que ele procura atingir um público grande e jovem.1

A história está integralmente ambientada em um pequeno trecho do estado, entre as regiões da Zona da Mata Mineira e do Campo das Vertentes: dali se originam os personagens, ali se passa toda a ação “real” e ali se encontra o ponto de partida para a ação “surreal” — que de certa forma também se localiza ali. Quem quiser ter uma ideia geral do conceito, pode usar a mini-novela em três partes A Cabana ao Pé da Montanha como uma introdução. “Serra da Estrela” procura desenvolver o mesmo universo sobrenatural, com algumas adições e improvisos, e possivelmente recorrerá a um ou dois dos personagens que ali aparecem (mais provavelmente a mulher de negro) e certamente empregará um ou dois locais onde a ação deste conto se passa.2 Um outro conto que pode ser útil como introdução ao mesmo conceito é Inocência Assassina, de onde retirei a protagonista.3

Entre os personagens haverá pelo menos quatro de natureza sobrenatural: a mula-sem-cabeça, o lobisomem, a iara e um que eu mesmo inventei a partir do imaginário popular europeu, mas cuja existência eu não pude atestar no folclore mineiro. Dos quatro, a mula-sem-cabeça será o mais destacado, talvez até ganhando o status de “protagonista” da história, mas o lobisomem também terá seu valor. Para preparar-me para escrever sobre os dois eu fiz uma razoável pesquisa e cheguei a escrever dois breves ensaios sobre eles (as ligações que incluí).

Eu já tenho desenvolvida até agora a personalidade e os conflitos de pelo menos oito personagens (incluindo três capítulos inteiros inéditos), mas justamente me falta acabar de alinhavar as suas histórias. Digo isto porque, contrariamente aos meus dois primeiros romances, este será bem complexo. “Praia do Sossego” e “Amores Mortos” se caracterizavam por ter um personagem central, que mantinha sempre o foco da história. Um narrador em terceira pessoa não onisciente os acompanhava e os demais personagens só tinham vida à medida em que interagiam com o protagonista. Em “Serra da Estrela” não será assim. Acompanharei quatro as “vidas”4 de quatro mulheres diferentes até que se entrelacem (as vidas, não as mulheres, embora isso não esteja inteiramente descartado…) e durante a maior parte do tempo as quatro linhas serão independentes. Poderão eventualmente tocar-se (as vidas, não as mulheres, repito, mas isso não está fora de questão…), mas seguiram cursos independentes, possivelmente sem chegar a um final comum, pois o assunto central do romance não é um personagem e sua vida, mas um lugar e as coisas que nele acontecem.

Capítulo 1: Língua GeralCapítulo 2: Estrada Estreita, Trilho AntigoCapítulo 3: A Porteira do Mundo

Outro aspecto diferente em relação a este projeto é ele ser uma obra ainda grandemente aberta: ainda com menos de 20% do texto necessário para concluir o projeto (que deverá fechar com pelo menos 350/400 páginas). Isto significa que eu ainda acolherei sugestões e comentários que me pareçam interessantes, preferencialmente feitos por pessoas que vivam no interior de Minas Gerais5 ou que sejam especialistas em folclore.

1 A intenção comercial, no caso, se explica pelo desejo de sensibilizar a juventude de hoje para a viabilidade do imaginário nacional como fonte para a cultura pop, combatendo a americanização dos leitores que se formam hoje em dia lendo best seller.

2 No entanto, que fique bem claro que a ação de “A Cabana…” não tem nada a ver com a ação de “Serra da Estrela”. No máximo pode-se dize que a ação desta noveleta se passa posteriormente em relação aos fatos narrados no romance.

3 Ainda não sei como vou encaixar a ação deste conto no contexto do romance, mas eventualmente ele se tornará parte de “Serra da Estrela”, tal como “Memórias de um Cafajeste” se tornou parte de “Amores Mortos”, meu romance inédito.

4 Fica difícil usar literalmente o termo “vida” para os quatro casos, como o leitor eventualmente perceberá.

5 Estou muito interessado em histórias de fantasmas e criaturas legendárias do estado de Minas Gerais. Disposto até ao ponto de ir entrevistar pessoas que se dispunham a me contar suas histórias para eu escrevê-las.


03
Ago 11
publicado por José Geraldo, às 11:37link do post | comentar
Você tem exatamente três mil horas para parar de me beijar – Cazuza.

Estava escuro ainda quando Manoel acordou. A cerração ainda recobria as encostas da serra e as estrelas estavam sumidas no meio de tanta umidade no céu. Mas tinha ficado difícil continuar dormindo, e ele não sabia porque. Dentro da barraca o frio não entrava tanto, o saco de dormir isolava bem a umidade, mas de alguma forma ele acordou e foi se sentar, ainda enrolado nos agasalhos que catou da mochila. Acendeu o fogareiro e começou a esquentar água para preparar um café solúvel. Reparou então que as outras barracas estavam vazias.

“Mas com mil diabos, aonde esse pessoal foi parar no meio da noite?”

Subitamente lembrou de um sonho que tivera, um sonho molhado com algum tipo de criatura sensual. Por alguma razão inexplicável, no sonho, os seus companheiros de acampamento fugiam esbaforidos, como ratos diante do ronronar de um gato esfomeado. Mas ele ficara. Sentiu retornar à boca o estranho gosto de água de mina, de caneca de latão, de colher oxidada. Gosto rico em ferro.

“Devo ter mordido o lábio, ou estou com as gengivas inflamadas outra vez.”

A água começou a formar bolhas na caneca.

“Onde estará o maldito pote de café?”

Saiu tateando pela escuridão, tentando que a pouca luz das labaredas lhe mostrasse o caminho. Então sentiu novamente arrepiar a nuca, uma sensação que lhe lembrou o sonho. Virou-se assustado, poderia ser uma onça. Mas não era, era só uma mulher. Uma mulher bonita, embora não extraordinariamente bela. A mulher do sonho — ora bolas! Tinha um ar de camponesa, as unhas malfeitas, o cabelo ligeiramente emplastado de umidade.

— De onde você veio?

A mulher não deu sinais de compreender o que ele dizia. Repetiu a pergunta. Ela pelo menos pareceu perceber que tinha sido uma pergunta. Disse-lhe algumas frases em uma língua desconhecida:

— Nu înţeleg ce spui, draga.

— Hem? O que…?

Então era uma gringa. Inútil esperar que ela mantivesse uma conversa normal. Aproximou-se do fogareiro e finalmente viu a lata de café, tombada junto à mochila de um dos companheiros de acampamento. Abriu-a e já se preparava para derramar um pouco na água que já estava prestes a ferver quando resolveu tentar alguma mímica para falar com a estranha. Esfregou a mão no braço, tentando dizer que estava frio e apontou-lhe a água quente e o café.

— Café?

— Da, o cafea mica. Vă rugăm să…

O café ficou pronto instantaneamente, tal como a embalagem prometia. Só não ficou bom. Mas no alto da serra qualquer bebida quente era maravilhosa àquela hora da madrugada velha.

Por alguma razão não conseguia evitar os arrepios na nuca e os nós na garganta. Tinha vontade de correr, de chorar ou de pelo menos dar um berro animalesco. Mas não o fazia. Não sabia porque deveria. Não conseguia entender como se segurava. Terminou de tomar o café, ainda esfregando os olhos para espantar o sono. A mulher ali estava.

Aproximou-se dela com cuidado e curiosidade e loucura. Ousou tocar seu queixo duro, era frio como uma das pedras. Puxou seu rosto para cima e mirou naqueles olhos que redemoinhavam como o Estige e o Aqueronte. Veio puxando lentamente para perto de si aqueles lábios rasgados na carne pálida. Ela não resistiu, ainda que o deslocar de seu rosto fosse pesado, e voluntário. Havia momentos em que até lhe parecia que era o queixo dela que empurrava a sua mão.

Dois pares de lábios se tocaram. A troca de calor parecia provocar oscilações coloridas em sua imaginação. Lembrou-se de uma letra de música, queria que o beijo nunca terminasse. “Estamos, meu bem, por um triz, pro dia nascer feliz.”

Seus olhos queriam fechar-se, mas sua mente, arrepiada como os cabelos de um cavalo assustado por um lobo, insistia que não. Então, por uma sorte destas que ampara aos tolos, conseguiu contemplar a própria mão e notou nela veias saltadas que antes ela não possuía. Então o sonho voltou com mais força à sua lembrança e descobriu por que todo o seu ser queria gritar e fugir da presença da estranha.

Atirou-se ao chão como pôde, desprendendo os seus lábios dos dela. Mas ela não o soltou. Apenas conseguiu, por efeito da surpresa, fazer com que o equilíbrio de ambos oscilasse no mesmo instante. Caíram sobre o fogareiro, o gás escapou e envolveu-os em chamas, brevemente. Ela o soltou, deixando um rugido demoníaco sair de sua boca. Enquanto ela gritava, rolou sobre a grama úmida, apagando as chamas. Ela batia as mãos contra as vestes negras, completamente atarantada.

Se tivesse juízo, teria fugido como os demais. Teria aproveitado o sol que dentro em pouco assombraria a paisagem, como prometia a nesga láctea no horizonte. Mas como fazer isso com aquela beldade? Encheu a caneca de água fria da fonte e atirou sobre ela, apagando as chamas.

Ela se calou, intrigada. Uma fumaça branca ainda subia do tecido, a pele estava avermelhada em vários pontos, talvez do fogo, talvez do jorro de energia adquirido. Um forte cheiro de cabelo queimado empestava o ambiente.

— De ce am fost salvat? De ce am fost salvat, draga?

Um comprido raio de sol atravessou as nuvens e atingiu a encosta da montanha desolada. A mulher deu um gemido e cobriu o rosto com os cabelos falhados pelas queimaduras. Depois disso Manuel não se lembra mais de nada. Lembra-se apenas de ter acordado com tapas no rosto e gotas de uma água fria que parecia flocos de geada que derretiam com o calor de sua pele.

— Quem é o veado que está me molhando…?

Nem acabou a frase. Os seus amigos estavam todos em volta, assustados.

— Que merda foi essa que você fez, Manuel?

O fogareiro estava derrubado, e um largo trecho de grama seca estava queimado.

— Vocês não tinham ido embora?

— Embora para onde? Acordamos com os seus gritos, maluco!

Manuel já se erguia, confuso e imaginando que estava louco. Então sentiu outra vez o arrepio na nuca, com uma força tão grande que era como se lhe socassem pelas costas: como não reparara antes em tantos fios grisalhos e tantas rugas de expressão no rosto dos colegas de faculdade? Olhou a própria mão, vincada de veias. E notou, com um horror que nem teve a coragem de mencionar, pedaços de tecido preto ao lado da pedra à beira do barranco.


23
Abr 11
publicado por José Geraldo, às 13:47link do post | comentar | ver comentários (1)

Vocês que acompanham este blog devem ter notado que iniciei um projeto de tradução do romance “The House on the Borderland”, a que intitulei “A Casa no Fim do Mundo” (o título significaria, literalmente, “A Casa Sobre a Fronteira”, mas isto faria pouco sentido para o leitor, razão porque preferi mudar). Como a obra é desconhecida no Brasil (apesar de ter sido escrita no início do século XX e até já estar, inclusive, em domínio público), alguns podem estar perguntando o que motivou a minha decisão de traduzi-la — e qual a relevância literária de um tal trabalho. Este artigo pretende responder, ao menos em parte, este tipo de questionamento.

Antes de mais nada devo dizer que não devemos nos limitar unicamente a fazer aquilo que é grande e que é relevante. Não devemos ler somente o que é clássico, nem devemos ouvir apenas a música que faz mais sucesso atualmente. É na diversidade que se acha o prazer da vida, como diz um sábio ditado: o que seria do azul se todos gostassem do amarelo. Minha decisão de traduzir a obra de William Hope Hodgson; ainda inédita em português, pelo que me consta; motiva-se principalmente pelo desejo de trazer o autor ao conhecimento de um público maior. Seria tolice minha afirmar que Hodgson é um clássico esquecido ou um gênio incompreendido da literatura: não tenho gabarito para tais afirmações. O que afirmo é que se trata de um autor que vale a pena ler, mas que quase ninguém no Brasil já leu, pelo simples fato de não ter acesso à sua obra em nossa língua. Traduzindo-a, permitirei que mais pessoas a conheçam e possam achar motivos próprios para gostar dela.

Um segundo motivo importante é a relevância deste autor para um gênero literário que está em voga atualmente: a literatura “fantástica” (aqui um rótulo abrangente para incluir ficção científica, fantasia, terror, mitologia, ficção histórica e outros temas que se cruzam facilmente na obra de seus maiores expoentes). Hodgson foi um pioneiro do gênero que hoje é chamado de “new weird”, que consiste em justamente empregar com liberdade os temas acima mencionados, e outros inclusive. Há cem anos, este inglês (aparentado com irlandeses) mesclava reencarnação, piratas do Caribe, cosmologia, histórias de marinheiro, romances platônicos, literatura gótica, lendas célticas, arquétipos mitológicos, teorias de psicologia e outras coisas, resultando em um universo caótico e rico.

Hodgson foi autor de uma obra extensa, caracterizada pela virilidade e autoconfiança de seus personagens, que no entanto não são sempre meros homens de ação. De sua obra, dois romances saltam à vista, pela grande qualidade de sua concepção e por estarem intimamente relacionados pelo tema: “A Terra Noturna” (The Night Land) e “A Casa no Fim do Mundo” (The House on the Borderland). Embora, à uma primeira vista, ambos sejam muito diferente (quanto à linguagem e à construção dos personagens, principalmente), os dois se complementares no aspecto da cosmogonia envolvida: uma cosmogonia pessimista que reflete muito o estado de espírito dos homens da Belle Époque.

“A Casa no Fim do Mundo” narra a história de um nobre irlandês, o nome nunca é dito, que se isola em uma antiga e estranha mansão, no extremo oeste do país, o chamado Gaeltacht — a região onde todo mundo falava (pelo menos na época em que a história se passa) apenas a língua irlandesa céltica. A casa, ele comprara por um preço irrisório, devido à fama de mal-assombrada, que lhe havia deixado sem morador por quase um século.

Nesta casa encontramos o narrador, cuja história nos chega através do “manuscrito” achado pelos senhores Tonnison e Berreggnog (uma estranha dupla de ingleses que, sabe-se lá por que motivo, resolveu acampar bem no meio do nada, em uma região da Irlanda cujo povo nem sabia inglês). Ele está diante de um mistério: a aparição de misteriosas criaturas de aparência suína, que passaram a atacá-lo desde que teve um transe que durara um dia inteiro, durante o qual obteve um vislumbre do universo. Acompanhamos este irlandês sem nome, que ali vive sozinho com uma irmã mais velha, chamada somente de “Mary”, enquanto enfrenta os tais caras de porco. Depois o seguimos em suas explorações do terreno, juntamente com ele fazemos interessantes descobertas sobre sua casa até, por fim, mergulharmos com ele em um gigantesco pesadelo cósmico que vai além de tudo quanto podemos imaginar e cujas consequências fogem não apenas às leis básicas da ciência, como vão até contra os princípios mais comuns da lógica narrativa. Tão poderosa e estranha é a narrativa da segunda parte do romance, cujo tom quase psicodélico deixa o leitor quase todo o tempo “sem chão”, que não são poucos os leitores que a rejeitam, não são poucos os que dizem que o romance “teria sido melhor” caso tivesse somente a primeira parte.

Gosto é gosto, uma afirmação tautológica até inútil, mas é verdade que sem a segunda parte “A Casa no Fim do Mundo” mereceria menos atenção, seria apenas uma história de horror bem material, sobre um esquisitão recluso enfrentando porcos espertos (ou algo assim). Certamente menos interessante do que o redemoinho de ideias a que a segunda parte tenta nos levar. Mas é justamente nesse redemoinho que está a parte que mais interessa a respeito de Hodgson: ali está sua singular concepção de um universo fantástico que mescla cosmologia clássica (pré-relativística) com elementos da mitologia grega, teorias de reencarnação, engenharia militar, ideais esportivos (fisiculturismo) e ideologia nacionalista. Uma senhora barafunda, que resulta em um universo fantástico original, muito diferente do padrão tolkieniano de elfos, dragões, feiticeiros e frágeis civilizações perdidas ambientadas numa idade média imaginária. Apenas para atiçar a curiosidade dos leitores, a inspiração de Hodgson não é um passado decadente, mas um futuro inevitável.

Hodgson não é um autor habilidoso com as palavras. Sua narrativa nunca soa redonda, devido à frequência irritante com que repete expressões e palavras, devido à pouca variedade da sintaxe e asperezas diversas. Os seus defeitos ainda foram exacerbados por sua tentativa de ir além dos limites de sua cultura, imitando canhestramente a linguagem de autores barrocos e neoclássicos sem ter vocabulário ou conhecimento filológico para isso. Tais defeitos são bem menos pronunciados em “A Casa no Fim do Mundo”, que está vazada numa linguagem mais chã e quase estudantil, mas prejudicam de modo terrível o seu melhor e mais relevante romance, “Terra Noturna”, a ponto de muitos críticos recomendarem que capítulos inteiros sejam saltados durante a leitura, ou que seja lido em versões resumidas. No entanto, uma tradução cuidadosa, enxugando um pouco dos defeitos da prosa de um autor que pouco interagia com a crítica ou com outros autores, revela a força imaginativa de um homem à frente de seu tempo em uma variedade de aspectos, que, porém, ainda assim, de outras maneiras, era preso a convenções e ideais do passado, como a castidade pré-nupcial, o romance cortês, os valores cavalheirescos e a força de uma religiosidade heterodoxa (Hodgson era espiritualista) que parecia, naquela era de fascínio pela ciência, uma sombra do medievo a repousar sobre seu caráter.

E tal tradução nos permitirá apreciar, em Hodgson, um gênero literário que estava ainda em sua infância, uma época em que ainda não havia se fixado na repetitividade que o caracterizou depois.


Uma lista de conceitos que fazem parte do universo ficcional de William Hope Hodgson

  • Ameaça Alienígena
  • Amor cortês
  • Arcologia
  • Armas misteriosas
  • Deuses Astronautas
  • Energias místicas
  • Fisiculturismo
  • Perigosos Trópicos
  • Poder das Pirâmides
  • Portais Dimensionais
  • Reencarnação
  • Romantismo da Pirataria
  • Terra Oca
  • Valores cavalheirescos
  • Viagem no Tempo
  • Virtude da Virgindade

Se você se interessou, saiba que a tradução terminou e estou preparando já o e-book. Confira os detalhes aqui.


19
Abr 11
publicado por José Geraldo, às 17:49link do post | comentar
Há cem bilhões de flocos de neve girando na fúria do cosmosCada um deles é uma galáxia, um bilhão de estrelas ou mais,E cada estrela, um milhão de terras, um gigantesco sol ardenteNo alto de algum céu, talvez brilhando sobre alguém.E bem no fundo de um floco de neve, flutuo em silêncio.Eu sou infinitesimal, impossível de ver.Sentado na pequenina cozinha de meu lar pequenino,Contemplo através da janela um universo de flocos de neve.Mas minha alma é muito maior do que este meu minúsculo eu,Estende-se pela nevasca, como uma rede pelo mar adentro.De todos os lugares adoráveis aonde meu corpo não pode ir,Eu toco a beleza e a abraço no seio de minha alma.E é tão breve e rápida esta minúscula vida minha,Como uma única semínima na marcha do tempo.Mas minha alma é a música, e vem desde tempos antigos.Antes de vestir a face humana, antes de levar meu nome.Porque minha alma é muito mais velha que o meu ser fugidioE sabe descrever a aurora do tempo como memórias de infância.Ela é uma fagulha produzida na escuridão tempos atrás,O que meu corpo esqueceu, continuo a lembrar em minha alma.Então vivemos juntos a vida, minha alma gigante e o mínimo eu.Uma aparência de eternidade, outra fumaça soprada na brisa.Uma oceano que permanente, outra uma onda súbita e fugaz.Contando as galáxias flocos de neve, juraria que somos iguais.Oh, minha alma pertence à beleza, me leva a alturas sublimes,Ensina-me histórias sagradas, santifica minha vida minúscula,Faz ponte entre as eras, dissolve as fronteiras dos ossos,Pinta para sempre uma face corajosa nesse momento passageiro.

11
Abr 11
publicado por José Geraldo, às 18:25link do post | comentar | ver comentários (6)
Inicio hoje um projeto de longo prazo, de traduzir para o português o romance “The House on the Borderland”, publicado em 1907 pelo inglês William Hope Hodgson. Trata-se de uma obra obscura da literatura gótica britânica (a meu ver imerecidamente esquecida), que está de certa forma relacionada a dois outros textos do mesmo autor, merecedores ambos de mérito literário: “The Night Land” (A Terra Noturna) e “The Boats of the Glen Carrig” (Os Botes do Glen Carrig) — uma obra de ficção científica e um romance de capa e espada mesclado com fantasia e piratas.

Acredito que as três obras tenham grande potencial de atrair leitores modernos, especialmente porque, ao traduzi-las para o português, tenho a oportunidade de remover o principal defeito do original: o estilo excessivamente arcaizante e empolado que o autor empregou naquelas duas, ou a relativa falta de polimento que caracteriza “A Casa no Fim do Mundo”. Tais defeitos fazem com que muitas pessoas que se interessariam pelo tema em si destas histórias acabem se afastando. Mas uma tradução é sempre uma oportunidade de recriação do original. Embora não me julgue à altura de um Eça de Queirós, proponho-me a fazer pelas obras de Hodgson algo análogo ao que o genial autor de “Os Maias” e “A Relíquia” fez com “As Minas do Rei Salomão”, do obscuro H. Ridder Haggard.

Esta postagem servirá de índice para que os interessados na leitura possam acompanhar o progresso, em estilo folhetim, de meu trabalho de tradução.
Introdução do Manuscrito pelo AutorCapítulo I — A Descoberta do ManuscritoCapítulo II — A Planície do SilêncioCapítulo III — A Casa na ArenaCapítulo IV — A TerraCapítulo V — A Coisa no AbismoCapítulo VI — As Coisas SuínasCapítulo VII — O AtaqueCapítulo VIII — Depois do AtaqueCapítulo IX — Nos PorõesCapítulo X — Os Tempos de EsperaCapítulo XI — A Busca nos JardinsCapítulo XII — O Abismo SubterrâneoCapítulo XIII — O Alçapão no Porão MaiorCapítulo XIV — O Mar do SonoFragmentos [continuação do capítulo XIV]Capítulo XV — O Ruído na NoiteCapítulo XVI — O DespertarCapítulo XVII — A Redução da RotaçãoCapítulo XVIII — A Estrela VerdeCapítulo XIX — O Fim do Sistema SolarCapítulo XX — Os Globos CelestesCapítulo XXI — O Sol EscuroCapítulo XXII — A Nebulosa EscuraCapítulo XXIII — PimentaCapítulo XXIV — Passos no JardimCapítulo XXV — A Coisa da ArenaCapítulo XXVI — O Ponto LuminosoCapítulo XXVII — ConclusãoLuto
Algumas Palavras Sobre a Obra de William Hope Hodgson
O romance inicia com a seguinte nota:
A partir do Manuscrito descoberto em 1877 pelos Srs. Tonnison e Berreggnog nas Ruínas ao Sul do Povoado de Kraighten, no Oeste da Irlanda. Aqui transcrito, com Notas.
ATUALIZAÇÃO: A versão definitiva, que disponibilizarei em formato e-book, terá o título «A Casa no Limiar», conforme sugerido por um leitor. 

ATUALIZAÇÃO em 20 de janeiro de 2013: Disponibilizado e-book em formato ePUB.

31
Mar 11
publicado por José Geraldo, às 12:04link do post | comentar

Cheguei de viagem cansado, ansioso por dormir. Deixei meu carro na garagem e saí pela noite anódina e sem lua. O ar estava profanado pela chuva ainda recente, exalando uma catinga de morrinha de cachorro molhado e os meus pés chapinhavam nas poças de água barrenta que salpicavam as calçadas. No céu parcialmente limpo algumas estrelas, nenhuma vencendo de todo a iluminação artificial.

Havia uma mulher sentada num banco de praça no meio do meu caminho, uma mulher vestida roupas negras e longos cabelos, com o rosto afundado entre as mãos. Estava imóvel como uma morta e meio apoiada, de um lado, sobre algo escuro e disforme. Observei que curvava a cabeça sobre os antebraços e as mãos ficavam perdidas entre as madeixas escuras, que a brisa da noite discretamente agitava.

Poderia ser uma mendiga, ou qualquer imagem sobrenatural, ou talvez apenas uma jovem drogada. Alguma coisa me fez simpatizar com sua solidão no vazio daquela madrugada perigosa. Por isso, contrariando o senso que sempre me mandava, de noite ou de madrugada, ignorar tudo que tivesse duas pernas e estivesse fora de mim, cheguei mais perto e lhe dei boa noite.

Foi como se rasgassem a mortalha de um féretro antigo. Ela ergueu o rosto pálido e macerado de lágrimas contra a luz apática das lâmpadas elétricas, mirou nos meus com uma devastadora expressão de luto em sua boca e uma potente tristeza torcendo seu cenho. Dava para ver que ela havia chorado recentemente. Não! Chorava ainda: um brilho perolado aparecia na pele ao redor dos olhos, pondo um apelo ainda mais puro aos misturados sentimentos que me acometiam. Percebi, surpreso, que seu rosto não levava maquiagem, que seus dedos não portavam aneis e que havia suspenso em seu pescoço somente um rústico pingente prateado em forma de luar.

A voz que respondeu ao cumprimento foi quase inaudível, como o sussurro de uma profecia em um sonho. Não, eu não poderia ajudar-lhe em nada. Sua expressão desolada certificou-me disso tão logo eu pensei perguntar se precisava de alguma coisa. Mas depois de refletir por um momento, talvez temendo que eu seguisse meu caminho, abordou-me com uma audácia ignorante:

— Tu me amas?

Aquelas palavras ventaram como uma vertigem em meus ouvidos. Como poderia pensar que alguém pudesse amar a quem nem sabe quem é? Disse-lhe isso: “Não a conheço”. Ela não gastou nenhum segundo antes de tentar de outra forma:

— Então me odeias?

Suas palavras saíam como se fossem antigas, com poeira de idades imemoriais, incineradas pela inclemência dos séculos. Achei graça nesse anacronismo e também joguei da mesma forma:

— Como odiaria a quem não pude ainda conhecer?

Ela deixou descer outra gota solitária de seus olhos e afirmou, como quem arranca o próprio fígado:

— Se me conheces, me odeias.

Esta afirmação de futuro usando o presente me parece fatalista além da conta. Mas eu era tolo e suficientemente ousado para uma noite só. Disse-lhe que ninguém odiaria uma mulher tão bela, não sem um motivo muito justo, não sem um ódio anterior da parte dela.

Essas palavras saíram de minha boca tão inesperadas que meus dentes se assustaram com elas e morderam minha língua. Ela então se levantou do banco da praça e disse, de uma forma infantilmente curiosa que não me odiava. Seu corpo exalava um perfume de gaveta, ou de casa abandonada, misturado talvez a ervas mortas. Mas quando ela se aproximou de mim esse cheiro de séculos e tumbas não me pareceu ruim. Era em vez disso um perfume de rosas secas, de sabonetes em gavetas.

Mas ela se movia como um fantasma, sua roupa imensamente negra revoava como as asas de uma alma penada. Havia algo muito estranho naqueles lábios roxos, uma doçura cadavérica e pecaminosa naquela palidez helênica. Ela me tocou o rosto com a mão direita, dizendo:

— Como é possível odiar a inocência? Eu não entendo! Eu apenas existo!

No fundo de minha mente alguma coisa começava a agitar-se, sinalizando às minhas pernas que corressem, enquanto outra parte de mim dizia que já era tarde para isso. Mas eu retribuí o toque, levando meus dedos à sua face. Era lisa como uma lápide de mármore, era fria como a água de um lago à noite, e era dura também, mas sua lisura era boa de tocar, meus dedos gostaram de correr por aquela pele que parecia não ter pelo nenhum. Naquele momento, vencendo meus instintos, eu a achei terrivelmente bela e quis amá-la.

— Por que está sozinha esta noite, nesta praça vazia e perigosa?

— Sozinha eu sempre estou, e certamente esta praça não me oferece nenhum perigo.

Algumas pessoas passaram pelo outro lado da praça, bêbadas, ruidosas, cantando obscenamente, uma felicidade ofensiva. Como era possível estarem felizes. Havia guerra, havia peste. Odiei aquelas pessoas. Como se tivesse lido os meus lábios imóveis, a mulher de negro me aconselhou:

— Ah, não os odeies. Eles apenas sentem a tensão dos últimos dias. Eles dançam e cantam porque em sua ignorância eles sabem que se aproxima o dia em que já não poderão. Felizes aqueles que dançam e cantam, porque os dias de cantar e dançar são muito poucos.

— Então venha beber comigo, cantar e dançar. Como todo mundo, você merece essa pouca felicidade que há.

— Então beija-me agora, se tens esta coragem.

Toquei seus lábios duros com os meus, beijamo-nos brevemente. Ela então aceitou que eu lhe tomasse a mão e a levasse da praça. Mas ao sairmos da sombra onde ela estivera, notei que trazia consigo um saco escuro e uma longa foice de lâmina curva. Naquele momento eu teria entrado em pânico, mas eu a beijara e ela era uma mulher tão linda. Então a beijei suavemente uma segunda vez, tentando envolver seu corpo magro em meus braços. Quando nossos lábios se afastaram ela quase sorriu, tentando talvez ser má, encarou-me de novo e disse:

— Eu sou a tua morte. Odeia-me agora!?

Contemplei-a novamente, ainda lutando com o medo inútil que ruflava no interior de minhas crenças e descrenças. Mas concluí que mesmo assim eu não conseguia.

— Não posso odiá-la. Como posso odiar a morte que nasci sabendo que um dia encontraria. Só não sabia que haveria de ser numa praça tão feia, na forma de uma alma tão linda. Mas não a odeio, nunca a odiei, na verdade fiz versos para ti por muitos anos.

— E não sentes medo?

— Tenho medo e desespero, mas não posso odiar a uma lei da natureza. Sobretudo não tenho ódio, tenho é pena de ti, que odeias a vida.

Ela me tomou a mão, como se uma geleira me tocasse, e disse numa voz dançante e cristalina:

— Na verdade, eis a monstruosidade de tudo, não sou eu quem odeia a vida, eu de fato a amo, talvez bem mais que vós que viveis. Eu amo a vida, esta coisa precária e bela que se destrói e se perpetua. Eu existo para destruir, destruo para existir, mas minha destruição abre caminhos, areja a existência para os que ainda vão nascer. Mas mesmo assim, mesmo sabendo que faço algo que é bom, ainda levo na alma uma culpa que não sei bem do que. E um cansaço nas mãos que já carregaram demais esta foice infernal que me deram.

— Tenho pena, então, por isso.

— Acima de tudo, estou cansada de destruir àquilo e a quem gostaria de amar.

— Mas é possível amar sem destruir? Se não ao objeto, ao amor em si?

— Não sei todas as coisas, sou apenas um anjo caído que tem uma missão.

— Tu tens a eternidade, então por que não podes ter algumas décadas?

Ela me olhou com esperança, um sentimento que talvez não tenha sido nunca pensado para os corações dos anjos. Uma esperança tão súbita que quase evaporou o resto da lágrima que ainda pendia.

— Eu pressinto verdade no que a tua boca diz. Teus olhos confessam, não posso negar.

— Então não posso dar-lhe boa noite e ir para casa, como antes. Vem comigo.

— Eu vou contigo. E vou ficar contigo até que me odeies, até que te destruas, até que a Ira dEle nos obrigue.

Seguimos para minha casa como se fôssemos qualquer casal de namorados. A morte me acompanhava, mas eu não tinha medo. Dormi um sono pesado, sofri com pesadelos e com sede. Quando amanheceu, havia um sol estranhamente silencioso atravessando a janela, uma quietude de se ouvir pássaros; mas não havia pássaros.

Preparei meu café da manhã ainda chocado pelas imagens bárbaras de um mundo que se acabava em trevas. Terminei minhas fatias com manteiga e meu café com leite vendo o relógio gotejar minutos como uma hemorragia. Então saí de casa para o trabalho.

Os meus passos ressoavam na escada como os de uma múmia num museu. Havia teias de aranha nas paredes que poderiam ser de semanas ou de meses. Havia um silêncio no ar que evocava os porões de uma pirâmide.

A rua estava deserta, cheia de árvores enferrujadas e redemoinhos de poeira que assobiavam como em antigos filmes americanos. As lojas estavam lacradas, silenciosas, como se seus donos tivessem morrido na cama, de madrugada, e nunca viessem mais para abrir suas portas corrediças. Nenhum cão percorria aquela avenida desolada, nenhum ruído ou música que evocasse vida.

Temi estar louco. Continuei pelo caminho até o meu serviço, sorvendo um ar estranhamente ácido. As vidraças de alguns estabelecimentos estavam deformadas, com marcas estranhas que pareciam mãos, mas não podiam ser. Na praça onde deixara a mulher de negro imperava a mesma mágica de amortecimento que embalara o mundo naquele sono estúpido.

Uma frase dita por detrás de minha orelha me arrepiou cada cabelo de meu corpo: “Tu me amas?” Repeti as perguntas comuns que todos os perdidos fazem nessas horas, era como se eu tivesse incorporado um roteiro de cinema de horror e todos os seus clichês. Quando voltei o rosto, ela estava lá e me olhava com aquela expressão gélida no rosto, brilhando sob o sol como uma blasfêmia.

— V-você. Eu pensei que tinha sido só um sonho.

— E me amas?

— Talvez, mas ainda tenho muito medo.

— Amor e medo se misturam bem, eu sei de prazeres que ninguém jamais lembrou nem aprendeu.

— Não gosto desses verbos, tenho muito que esquecer e muito medo de nunca aprender.

Ela se aproximou de mim, sem que seus pés sequer soassem no chão, apesar de todo o silêncio da rua inteira.

— Tu me amarias aqui, se eu tivesse a coragem de me despir?

Olhei em torno, novamente assustado. Não havia alma viva nem voz que aventasse testemunhas.

— Isso seria algo de meter mais medo ainda.

Então ela o fez, e nos amamos em pecado, ali mesmo.


27
Fev 11
publicado por José Geraldo, às 13:46link do post | comentar

Uma história à moda de Malba Tahan…

O comerciante Ali ben-Amin al-Assad el-Hajj tinha uma vida regalada em Basra. Herdeiro de longa tradição de mercadores do Golfo Pérsico, de família aparentada à de uma das viúvas de Maomé, desfrutava de fortuna e de prestígio. Mas nunca cuidou de educar seus filhos nos preceitos do Islã ou nas artes humanas. De sorte que seu único filho homem, Ahmed, ao herdar do pai o amplo bazar defronte o porto, foi alvo de um duro comentário do mulá Omar Ibrahim al-Qassam: “é um depravado, filho de um apóstata e uma infiel, que recebeu dinheiro, mas não sabedoria e será uma desgraça para muitos até que o Juízo de Alá recaia sobre ele.”

Ao ouvir esta admoestação rigorosa, Ahmed deu de ombros e a ignorou. Era uma época decadente aquela, em que filósofos eram mais ouvidos do que profetas e a submissão aos desígnios de Alá era apenas uma preocupação secundária. Ele não sofreu recriminações públicas, não precisou ocultar seu rosto em vergonha e nem fugir da cidade à noite para escapar de um apedrejamento. Tampouco preocupou-se com os pobres, em vez disso até reduziu sua esmola semanal, dizendo:

— Por que devo dar meu dinheiro a gente que se reúne na mesquita cada sexta-feira para ouvir aquele barbudo fedorento falar mal de mim e de minha família? Eles que peçam ao mulá Omar que lhes dê de comer e vestir, e não a mim, já que me odeiam tanto.

E desta forma Ahmed continuou tendo suas ceias fartas de tâmaras do Iêmen, figos de Chipre, queijos da Sardenha e até mesmo proibidos licores trazidos das terras dos povos do Livro.

Aos poucos trabalhar para ele deixou de ser algo respeitável. Mesmo diante da dificuldade de conseguir outros empregos, pessoas que prezavam a salvação de suas almas do mármore do inferno passaram a buscar outra coisa que fazer. Os bazares da família começaram a ser servidos por homens de moral duvidosa, seus navios, a ser tripulados por gente de aparência estrangeira e passado nebuloso, de quem se dizia, à boca pequena, terem sido famosos e cruéis piratas dos mares do Oriente. Não tardou que os lucros declinassem, que navios deixassem de voltar, que mercadorias faltassem. Ao completar seus trinta anos de idade Ahmed ben-Ali al-Assad já não era um homem rico, mas um herdeiro falido que lutava para não ter de desfazer-se de seus palácios de prazeres para pagar os numerosos credores.

Um dia, no auge de seu desespero, uma de suas esposas, que ele fizera vir das distantes estepes da Ásia Central, disse-lhe:

— Meu senhor, por que não trazes sedas do Oriente através da rota que passa pelo Kush? Os mares da China estão infestados de piratas, mas as rotas terrestres estão seguras nas mãos de emires muçulmanos até Samarcanda, minha terra, onde encontrarás as mais finas sedas da China e de Cipango.

Ahmed nunca dera ouvidos às suas esposas, especialmente não os dera àquela estrangeira de olhos amendoados que tão rapidamente perdera sua beleza exótica e se tornara uma matrona precoce de formas gordas, rosto pálido e feições exíguas que pareciam rasgadas a faca. Mas era inegável que aquela mulher de nome impronunciável lhe dera uma boa ideia.

— E onde fica esse lugar, essa tal Samarcanda de que só agora ouço falar?

— Fica na antiga terra dos Tocários, entre a China e a fria estepe da Sibéria, entre o gélido Góbi e as montanhas do Teto do Mundo. Segue a velha Rota da Seda que chegarás a Samarcanda e terás diante de ti as melhores mercadorias de três impérios.

A necessidade é uma péssima conselheira, mas Ahmed nunca chegou a saber disso. Depois de confabular com alguns de seus amigos mais confiáveis, nenhum dos quais digno da confiança de mais ninguém em Basra, decidiu investir suas últimas economias na viagem sugerida por sua mulher. Como se tratava, realmente, de uma ideia fascinante, conseguiu reunir sócios suficientes para montar uma caravana e no ano da Héjira de 322, uma semana após o final dos jejuns do Ramadã, partiu com eles em sua longa busca.

Nenhum dos caravaneiros jamais estivera em Samarcanda. Eram todos loucos como Ahmed, ambiciosos da riqueza fácil que fariam ao trazer para Basra lotes e lotes de pura seda. Eram todos gananciosos e imprudentes jovens, alguns viajando com o consentimento de seus pais, na esperança de aprenderem coisas úteis no mundo. Alguns poucos eram de fato pessoas cujas famílias obviamente desejavam manter afastadas por alguns anos ou, com um pouco de sorte, definitivamente.

Esperavam, no entanto, conseguir ao longo do caminho guias que os levassem através dos desertos chamejantes da Pérsia, das montanhas traiçoeiras do Kush, dos altiplanos frios e desolados do Pamir e até mais além. De fato encontraram muitos que se diziam antigos guias da Rota da Seda, gente que dizia ter antepassados báctrios ou sogdianos, gente que jurava ter visto não apenas Samarcanda, mas também Timbuctu e al-Andalus. Gente que, mediante uma ração de comida e algumas moedas, se dispunha a acompanhar a caravana até o Pamir ou até o Tártaro, desde que não permanecessem vagabundos e famintos em sua cidade.

E assim, guiada por incertas opiniões, seguia a caravana, ocasionalmente em círculos, através dos complicados caminhos do Oriente. Todas as noites os viajantes se reuniam em torno da fogueira para aquecer-se do intenso frio dos desertos, enregelados e tristes por estarem tão longe de casa e sem noção de chegar a algum destino.

A conversa nessas ocasiões girava, invariavelmente, em torno do que fazer quando chegassem. Era preciso economizar todo o dinheiro, para que pudessem adquirir bastante seda quando chegassem a Samarcanda. Era preciso manter a esperança, porque apesar das dificuldades do caminho, em breve lá chegariam e banhar-se-iam em suas piscinas de água limpa, teriam suas costas massageadas por jovens de olhos amendoados e quando voltassem, carregados de seda e de especiarias, seriam celebrados nos bazares como homens bem-sucedidos.

Sempre havia alguém que expressava desagrado pela demora, que ameaçava desistir. “Não podes desistir” — diziam. “Se nos deixas morrerás de frio ou fome, ou nas mãos de algum ladrão que ronda estas estradas. Quem sabe que feras não haverá por estes caminhos?” Quando chegavam a algum lugar habitado, a tentação crescia a ponto de ser necessário organizar-se rondas para impedir deserções. Tal precaução começou a se tornar muito necessária desde que um maldito circassiano entrou em delírio dizendo que os guias eram incompetentes, que estavam todos perdidos. “Samarcanda não existe, é só uma lenda que lhes contaram para fazê-los sair do conforto de suas casas!” Infelizes como ele não podiam ser tolerados em um grupo coeso, têm de ser mesmo sacrificados. Tal foi o destino do circassiano, e suas vestes e suas provisões e seu dinheiro, tudo foi distribuído entre os demais. Deixar o seu cadáver nu para que os leões o devorassem foi visto como exagero por alguns, mas naquela ocasião a medida extrema foi aceita como um ato de defesa contra a insídia de um inimigo.

E assim, ao longo das estradas esquecidas, seguia a caravana. Apesar da contínua insistência de todos em afirmar os objetivos da viagem, os guias não puderam evitar certas confusões. Esta situação foi a mais difícil de todas que enfrentaram durante a viagem, pois não apenas divergiam sobre que caminho seguir até Samarcanda, como não sabiam tampouco o que dizer sobre o que lá fazer. Por fim, Ahmed, que ainda desfrutava de uma posição de relativa liderança, tomou o que todos chamaram de “uma medida sensata”, anunciando em voz grave:

— Amigos, me parece que os guias já não estão mais tão seguros se querem levar-nos a Samarcanda ou se foram corrompidos pelo desejo de continuarem comendo a comida que compramos com nosso dinheiro. Parece que já nos disseram tudo que sabiam, do caminho e da cidade. E agora, ou não sabem mais nada ou não querem mais dizer nada. Por que precisamos, então, continuar pagando guias inúteis? Sigamos com o que já aprendemos e vamos aprender o resto no caminho.

Os mais exaltados, inclusive alguns que haviam sido punidos por duvidar dos guias, não perderam tempo em aderir à proposta ousada de Ahmed. Na manhã seguinte, quando a caravana partiu havia mais alguns cadáveres nus para os leões.

Em Fergana, cidade mítica a que chegaram depois de dois duros anos perdidos no Teto do Mundo, tiveram oportunidade de ouvir muitas histórias mais sobre as cidades do Oriente, e de contratar outros guias. No entanto, estes não foram tão bem-sucedidos quanto os primeiros, visto que suas informações não apenas contradiziam tudo que se sabia sobre Samarcanda como ainda desiludiam os viajantes: “Samarcanda está perto, mas não é tudo isso que dizeis. É uma cidade importante, mas já não mantém boas relações com a China e nunca houve lá sedas de Cipango.” Por fim, diziam que a cidade não estaria mais a leste, rumo à China e ao deserto de Gobi, mas sim mais o Oeste, além de Chach, quase nos próprios confins da Pérsia!

Por fim os caravaneiros decidiram partir de Fergana levando apenas o que já sabiam, sem guias, para cruzar a última parte da viagem, confiantes de que Samarcanda estaria a poucos dias de caminhada:

— Vê-se pelo ar e pelos rostos das pessoas — dizia o mercenário sírio — que já estamos na Terra da Seda.

Seguiram por vários meses ainda, sem chegar a nenhum lugar que se parecesse com Samarcanda. Aos poucos, o clima ficava mais frio, não apenas porque se aproximava o inverno, mas também porque se aproximava o temível deserto de Góbi, onde a morte punha incontáveis armadilhas e apenas os mongóis eram senhores relutantes.

Já não mantinham mais calendário, já não sabiam que mês ou estação era, lá onde o clima era tão diferente e parecia não haver um verão de fato. Sabiam apenas pelo ciclo do sol no céu que deviam ser passados sete anos desde a partida de Basra, e que àquela altura já deviam ser dados como mortos por seus parentes e credores.

— Se de fato Samarcanda existe — a contragosto murmurou o sírio — deve ser um lugar triste e frio, perdido nessa planície interminável.

No dia seguinte ficou mais um corpo nu na estrada, mas por lá não havia leões para devorá-lo: os nobres tigres não se rebaixam a devorar carcaças mortas, exigem a iguaria fina da carne quente, do sangue que jorra. E não se intimidam com pequenas fogueiras ou armas de fio estreito. Por uma sorte imensa não atacam em bandos, por uma felicidade extrema um homem é manjar suficiente para uma noite.

Somente a ajuda preciosa e cara dos caçadores uigures permitiu que os audazes viajantes cruzassem o trecho final, e mais cruel, de sua incrível viagem. E provavelmente foi por volta do Ramadã do ano 330 da Hégira que os nove sobreviventes, dos quarenta que haviam partido de Rages na Pérsia, entraram em um lugar que os taciturnos uigures lhes disseram chamar-se “Karamay”, que os viajantes entenderam ser o nome local para Samarcanda.

Era uma cidade, mas que não tinha nada da glória esperada de um grande entreposto de comércio na Rota da Seda. Estava localizada, de fato, à borda desta, mas a bacia da Dzungaria, nome dado pelos uigures ao lugar onde estavam, era desolada e pouco populosa. Raras caravanas passavam, levando poucos produtos. Parecia ser uma época de pouca atividade, de fato. Em Karamay isto significava decadência. A cidade parecia muito mais descuidada do que qualquer outra onde tivessem estado. Os habitantes viviam preguiçosamente à espera das estações, criando camelos e ovelhas, plantando milhete, rábanos ou sorgo vermelho.

— Esta não pode ser Samarcanda!

A afirmação, peremptória, causou a última grande briga dos caravaneiros. Ahmed tentou em vão segurá-los, mas na manhã seguinte, além de dois corpos nus numa viela, o amplo céu de Alá viu seis homens, em direções diferentes, enfrentarem os caminhos traiçoeiros do Tarim e do Taklamakan, para nunca mais se ouvir falar deles.

Em Karamay, tendo gastado suas últimas moedas, Ahmed ben-Ali al-Assad tornou-se um vagabundo, um esmoler. Sem a caridade do pobre povo, tornou-se um salteador. Sem a complacência dos governantes, evoluiu para um condenado. E graças a um lance de sorte, foi vendido como escravo a um comerciante de olhos estreitos que falava em língua persa.

Somente depois de deixar para trás as montanhas do Pamir foi que Ahmed ousou contar ao desconhecido quem realmente era. Seu proprietário, com um sorriso amável no rosto, respondeu-lhe:

— Eu já ouvi falar de Ahmed ben-Ali al-Assad, de Basra. Mas tu, tu não podes ser ele. Faz já nove anos que ele deixou sua terra, seus amigos e sua família, em busca de Samarcanda, onde queria comprar tecidos e ganhar glórias. Desde então tudo que se soube dele foi que andou com mercenários, piratas, ladrões e escroques de toda espécie, aterrorizando as estradas.

— Sabes que isto não é verdade, amo. As pessoas costumam culpar os estrangeiros por todo o mal que acontece em sua terra. Eu mesmo juro que nunca matei nem roubei ninguém.

Era uma mentira, obviamente, pois mesmo não sendo culpado de aterrorizar as estradas do Oriente, Ahmed matara e roubara. Não apenas aos habitantes da Transoxiana, da Bactriana e de Fergana, mas também aos próprios companheiros de sua malfadada viagem, guiada por estúpidos que nada sabiam.

— Na verdade — disse o homem que falava em persa — é bem apropriado que Ahmed ben-Ali al-Assad esteja morto, pois se fores tal homem e eu o anunciar em Basra, não escaparás de ser vergastado cruelmente por seus credores, pelos pais de suas esposas. Há circunstâncias na vida, estranho, em que melhor é ser escravo e estar vivo do que seres quem és, ou dizes ser, e pagar com a vida as dívidas desgraçadas que não pagaste com honra.

Há palavras que amargam na boca quando dizemos, outras que saem sem deixar gosto algum, outras que trazem a doçura venenosa do escárnio. Nem sempre o seu som, quando chegadas ao ouvido, traduz a mesma intenção que a língua emprestou-lhes. Estas, ditas pelo homem que falava persa, pareceram extremamente cruéis a Ahmed ben-Ali al-Assad que as ouviu naquela língua docemente fluida. Em outras épocas ele não teria se importado, pois não tivera nunca honra alguma. Os nove anos de vagar pelo mundo lhe haviam mudado, porém, e a perspectiva de que era impossível retornar ao antigo lar, pelos exatos motivos explicados, abateu demais o seu semblante.

Quando saiu para um canto do acampamento, para ouvir o rosnar dos tigres na noite, como gênios do mal conspirando nos desertos, ele já não era o mesmo. Mal sabia ele que há vezes na vida em que palavras duras são usadas como açoite porque o carrasco, por amor ou outro tipo de afeição, prefere vergastar a alma e absolver o corpo.

Quando amanheceu e o triste espetáculo se revelou, com os raios do sol iluminando através do pórtico do velho templo idólatra a sombra pendente ali, desesperou-se o homem que falava persa, a ponto de chorar diante da cena:

— Meu pai, por que fizeste tal loucura?


20
Fev 11
publicado por José Geraldo, às 00:01link do post | comentar

Adormeci na frente do computador, sem terminar a monografia. Com o prazo quase esgotado, passara mais de quatro horas digitando como louco a partir de notas desconexas que reunira nos meses de pesquisa, mas em vão. Tanto esforço que minha mente começou a sair de controle e acabei caindo de cara no teclado no meio da madrugada, apesar de todo o café.

Não sei quanto tempo fiquei apagado. Podem ter sido segundos ou horas, porque não estava prestando atenção ao relógio quando dormi. Sei que quando tomei um susto e joguei a cabeça para trás em um gesto brusco, eram 04:12 e fora disparado o maldito alarme de um automóvel que dormia na rua.

Levantei grogue de sono, com a cabeça pesando meia tonelada, e fui tomar um banho antes de ir dormir. O calor não estava mais insuportável, mas eu tinha suado demais. Tomei um banho rápido e frio, dos que gosto quando vou me deitar. Quando voltei do banheiro, pelado e me enxugando na toalha felpuda que cheirava a mofo e a álcool, tomei um susto, que espantou todo sono que ainda pudesse ter.

Tinha deixado o computador ligado. Saíra tão depressa para o banho que não o desligara. O documento da monografia estava aberto no editor de textos e o cursor piscava na tela de fósforo verde. Então notei que o ponto de luz não estava parado à espera do toque seguinte: movia-se rápido pela tela, deixando atrás um rastro de letras e números, mesclados a códigos de formatação LATEX.

Minha primeira reação teria sido — ou deveria ter sido — entrar desastradamente na frente do aparelho e ver que raio era aquilo, mas eu costumava ser um sujeito frio, não o tipo que se apavora e surta. Fiquei parado onde estava, ainda sob o batente da porta, olhando de soslaio para o monitor. Acredito que o computador não me “viu”, pois continuou cuspindo código como se os Digitadores do Inferno estivessem ali. Permaneci observando a cena, tentando decifrar mentalmente a sucessão de códigos que aparecia. Olhei a tomada, na esperança de ver o modem conectado à linha telefônica, mas não. Teria sido fácil admitir como explicação que alguém havia tomado o controle de meu computador doméstico e estava fodendo com a minha pobre monografia, mas não poderia haver acesso remoto se não havia conexão. Ou poderia?

O computador não chegou a notar minha presença. Quando finalmente parou, havia sido digitado \fi e uma sequencia de linhas em branco, como eu tinha por hábito fazer ao terminar os capítulos. Eu não teria notado mudança no código do documento se não tivesse tomado o banho rápido demais.

Sentei-me fingindo que estava tudo bem, dei Control-End e digitei algumas ideias aleatórias do capítulo seguinte. Depois salvei o arquivo no disco rígido, sempre fazendo a cópia de backup no disquete e desliguei aquela máquina do diabo.

Não consegui dormir. Tinha a curiosidade de saber que raio de conteúdo teria sido inserido em meu texto, sabe lá por quem ou que. Poderia ter compilado e impresso o documento, mas teria demorado muitos minutos se houvesse uma matriz XY. Também o computador poderia desconfiar. Preferi deixar para o dia seguinte e tentar pensar melhor.

Quando amanheceu, desisti de tentar dormir e levei o disquete comigo à universidade. Sentei-me diante de um terminal público na biblioteca e abri o arquivo para analisar, como legítimo “escovador de bits”, embora soubesse pouca programação. Logo achei indícios da patranha.

Ao final do terceiro capítulo, havia um \iffalse\iffalse\fi e pouco antes de onde começaria o capítulo seguinte, um \iffalse\fi\fi. Estas enganosas sequências de códigos realizavam algo diferente do que prometiam ao olhar distraído. Tanto o início quanto o fim do código oculto estavam, na verdade, ocultando os comandos de início e fim dos comandos de ocultação, se é que você consegue entender. Talvez esta história maluca só faça sentido para quem manja um pouco de LATEX. Mas digamos que tudo após \iffalse é ignorado, até chegar um \fi. Quem tiver algum talento lógico perceberá a malícia.

O bloco de código não era legível. Era uma sucessão de comandos descrevendo curvas, gráficos, matrizes. Talvez alguém realmente louco de usar LATEX conseguisse o milagre de visualizar a plotagem daquelas fórmulas, mas para mim era como contemplar uma sopa de letrinhas verdes no quadro negro do monitor. Queria logo compilar e descobrir no que dava.

Para isso teria, porém, que ter permissão da bibliotecária, porque os terminais tinham capacidade limitada e a fila de uso era grande. Ela não se opôs, diante da pequena quantidade de alunos que estava na faculdade naquele dia anterior a um feriado prolongado. Dirigi-me ao terminal, então, e ordenei:

latex mono.tex

Naquele tempo os computadores podiam levar horas a compilar documentos complexos, como parecia ser o meu. Por isso logo me cansei de ver a dança interminável das letras elétricas que brilhavam verdes como a fosforescência de uma aparição. Fossem quais fossem os erros, não teria mesmo chance de consertar porque não sabia o que continha o misterioso código. Ainda fiquei uns minutos refletindo sobre mensagens de overfull hbox, lamentando a quebra da margem direita, ou underfull vbox, lamentando os parágrafos separados demais; mas logo me levantei e fui até à cantina tomar um café.

Não contei os minutos na cantina. Ninguém faz isso, a não ser os que já estão loucos e eu não estava. Voltei com um copo cheio de café preto, para espantar o sono que ficara da noite sem dormir, e biscoitos salgados que controlariam a fome enquanto não pudesse ter uma alimentação saudável na lanchonete mais próxima.

Quando retornei ao saguão da biblioteca, notei uma movimentação estranha em frente ao computador que deixara compilando. Havia uns três ou quatro caras do último período de Sistemas que contemplavam a dança das letras parecendo fascinados.

— Caralho, o que é isso que esse louco fez? Vai fritar os circuitos do terminal antes de compilar! — dizia um deles, risonho e preocupado. Aproximei-me quieto, tentando captar a conversa, mas falavam pouco e olhavam muito.

— A Alana precisa ver isso — finalmente disse um, dirigindo-se à porta em frente, com rapidez de elfo. Pigarreei para anunciar minha presença e os outros olharam com respeito inesperado. Os caras de Sistemas não têm o hábito de olhar com essa expressão quem não é de sua própria estirpe.

— Isto aqui é seu? — perguntou um deles, um grandalhão de cabelos ressecados e de cor de cenoura.

— É sim, por que?

— Como pode alguém de Matemática ser besta de programar um loop num documento LATEX?

— Um loop? Merda!

— Eu não sei de nada, a gente estava passando, viu o computador compilando sozinho e resolvemos olhar o código, para tentar adivinhar o que é. Foi aí que notamos que o código está em loop. O que você estava querendo fazer?

Meus olhos percorreram o cabeamento da sala, notando para meu imenso espanto que aquele terminal, sim, estava conectado.

— Contaram quantos loops ele deu? — perguntei, já me sentando.

— Uns dez ou doze nesse meio tempo em que estamos aqui.

— Dez ou doze, hem? Que diabo será isso?

— Você não sabe?

Eu tinha vergonha de confessar, mas preferi ser honesto, afinal eu precisava de ajuda para não ter que, humilhantemente, apertar o botão de reset, como um novato. Eu jamais seria encarado com respeito, sequer pelas namoradas dos caras de Sistemas, aquelas garotas de peitos grandes que cursam “Estudos Sociais” e só passam de ano porque são líderes de torcida.

— Não sei. Achei um documento cheio de códigos os mais estranhos e resolvi compilar para ver o que era.

— Caralho, você é maluco? Sabe-se lá se não é um código malicioso!

— Bem, eu não sei se é nocivo, mas malicioso isso tenho certeza que é.

Eles me olharam, sem entender.

— Alguém entende de LATEX?

O outro cara, que tinha ficado quieto esse tempo todo olhando a dança das letras elétricas, acenou com a cabeça e fez o característico “ahã” dos que estão dizendo que sim.

— Devemos deixar compilar ou tentar interromper?

LATEX não vai fritar os circuitos, a menos que comece a ficar recursivo. É exatamente isso que eu estou tentando entender, se é um loop recursivo ou se é apenas circular. Se for recursivo, você vai ter que desligar no botão de reinício porque vai travar os sistemas de entrada e saída.

Ele tomava notas no seu bloco, em um tipo de taquigrafia pessoal que parecia árabe. Demorou quatro minutos ate ele finalmente decretar:

— Parece que não é recursivo. Deve haver uma condicional em algum lugar que está fazendo o TEX dar várias passagens no mesmo código. Mas essa condicional pode resultar verdadeira em algum momento, então o loop acaba e o arquivo imprimível é gerado.

Alana chegou. Era a única mulher do último ano de Sistemas, era obcecada com criptografia e lia todo tipo de teoria de conspiração. Não era bonita e nem simpática, mas os caras da turma queriam tê-la por perto, fosse como bicho de estimação ou fonte permanente de análise matemática apurada. Era um legítimo “crânio”, capaz de efetuar cálculos mentalmente com facilidade humilhante. Acima de tudo, tinha a capacidade algo sobrenatural de visualizar gráficos a partir de suas fórmulas. Mais que isso, contribuía sob pseudônimo para vários projetos de programação de várias faculdades, inclusive a nossa. Alana não assinava seu nome em documento algum.

No momento em que ainda estava sendo informada do acontecido, dois pares de peitos loiros surgiram à porta chamando os rapazes de forma que nem Alana e nem eu soubéssemos. Não sei se ela soube, mas tenho a visão periférica muito desenvolvida. Os dois caras se despediram e saíram dizendo que tinham que estudar para uma prova e foram levar as duas a alguma festinha. Alana e eu ficamos olhando a tela onde dançavam infernalmente as letras.

— Você já sabe o que é isso, Alana?

— Ainda não.

— Eu imaginei que…

— Não sou uma máquina, Tony — ela me interrompeu.

Tive vergonha do modo como a tratava. Naquele dia, em que justamente o seu lado maquinal estava sendo usado, ela me jogava na cara que era um ser humano. De certa forma, mesmo eu não a achando bonita, naquele dia eu me sentia ligeiramente atraído. Talvez fosse por notar que as suas orelhas tinham um formato curiosamente harmonioso, suas mãos minúsculas pareciam esculpidas. Era só não olhar para seus dentes que teimavam em querer sair dos lábios ou os óculos pesados, que ela parecia ter roubado de sua avó.

Subitamente as letras mudaram de feição. A dança infernal parou e o monitor começou a cuspir uma série de linhas com nomes de arquivo. Era o fecho da compilação. O loop fora interrompido ao encontrar valor positivo. O prompt de comando apareceu então, desafiando enigmaticamente nossa curiosidade. O cursor piscava como se estivesse rindo de mim. Alana foi rápida. Curvou-se sobre o teclado e recuou a sequência de comandos até identificar o arquivo que eu compilara. Então digitou:

more mono.tex

O terminal começou a listar o código, página a página, enquanto ela, ainda curvada, parecia ignorar que eu, olhando por dentro do decote folgado do vestido, contemplava seus dois belos seios, que pareciam as divinas mamas da Vênus de Milo e exalavam um perfume madeirado delicioso. Ela não se interessou nem minimamente pelo meu trabalho, mas quando chegou ao famigerado bloco de código, arregalou os olhos como se tivesse achado um pote de ouro e usou o braço esquerdo para se apoiar no encosto da cadeira, tocando com ele minha nuca, que arrepiou como se estivesse ligado a uma tomada elétrica. Comecei a suar, talvez de sono ou embriaguez do perfume diabólico e da visão daqueles seios miúdos, que pareciam duros como pedras e me imploravam para que os pegasse nas mãos e apertasse gentilmente como botões para abrir uma passagem secreta ao paraíso. Mas quando tentei dizer alguma coisa, acabei dizendo:

— Não prefere se sentar?

Ela ergueu-se, acusando alguma dor nas costas devido à posição, e arrastou uma cadeira. Sentou-se tão perto que todo seu lado esquerdo encostou no meu corpo. Um daqueles seios pontudos cutucava minha axila e minha mente rodopiava sem controle. Queria perder os sentidos rapidamente, antes que ficasse louco e tentasse algo inadequado. Mas não aconteceu nada, porque Alana era rápida com os dedos e com a mente: não demorou a terminar de listar o código. Levantou-se e andou em círculos batendo os saltos pesados dos tamancos nos tacos coloridos do chão da biblioteca enquanto gesticulava e balbuciava multiplicações.

— Acho melhor você não entregar a monografia — disse, por fim.

— Preciso entregar, ou não consigo créditos para passar em trigonometria.

— Tenho um mau pressentimento sobre isso. De onde disse mesmo que saiu esse documento?

Eu não tinha dito nada, mas ela me olhava com a expressão aguda, como se soubesse até as vezes que tinha me masturbado no semestre anterior. Alana intimidava, parecia saber de tudo. Mas não me importava, naquele momento, eu sabia que nenhuma outra mulher do universo teria graça para mim.

— Não sei, nesse exato momento só consigo me lembrar que dormi mal essa noite e preciso sair com você na sexta-feira.

Esta frase a desarmou. Talvez fosse a última coisa que imaginava de mim.

— Sair… comigo? Na sexta-feira?

— No sábado, se preferir.

— Mas por que isso logo agora?

— É a primeira vez que consigo conversar com você a sós.

— Eu… preciso pensar.

— Posso ligar?

Ela deu o número de seu telefone e saiu apressada da biblioteca, me deixando sozinho com minha obra. Então, aproveitando que o lugar estava vazio, comecei a imprimir o dvi, sem testemunhas.

A impressora matricial deu alguns arrotos e rosnados, antes de finalmente acertar a margem do papel. Então o cabeçote começou a dançar, rabiscando linhas interrompidas que formavam o desenho de letras e gráficos.

Uma página, duas, três, vinte, quarenta, noventa e cinco. Quando a impressão terminou, dobrei com cuidado toda aquela tripa de formulário contínuo e guardei com carinho na maleta e voltei ao meu apartamento no campus.

A primeira coisa que fiz, porém, foi ligar. Sentia-me idiota por estar apaixonado, mas nenhum idiota era tão feliz, e não importava nada mais se ela apenas dissesse que sairia comigo. E ela disse. Mas depois disso, enfatizou:

— Você não deve entregar a monografia.

— Tem alguma ideia do que é aquele código?

— Sim. Os comandos lá codificam instruções vetoriais em PostScript. Alguém inseriu no seu texto um código que “desenha” coisas em uma ou mais páginas.

— “Coisas”, que coisas?

— Não sei. Podem ser gráficos, desenhos, uma fonte, um texto até…

Assim que desliguei o telefone, tratei de cortar e encadernar as noventa e cinco páginas, com todo cuidado para que nenhuma rasgasse. Fixei-as num fichário e comecei a folhear, tentando ver onde haviam sido feitas mudanças. Ao fim do terceiro capítulo começava a coisa. Saltava uma página, no meio da qual haviam posto algo que parecia uma ofensa direta contra mim:

«Esta página foi intencionalmente deixada em branco.

«E as anteriores deveriam ter sido mantidas assim também.»

A página seguinte era outra capa, com meu nome, identificação da faculdade, o mesmo título, um subtítulo ligeiramente diferente e um reinício do documento, inclusive numeração, sumário, tudo. Se o tema ainda era «Método de plotagem trigonométrica de órbitas para satélites geoestacionários», o conteúdo quase não tinha a ver. Meu texto ainda estava em grande parte lá, mas entremeado de uma montanha de citações de autores de que nunca ouvira falar e fórmulas de cálculo avançado que eu nem sabia o que eram. Algumas me pareciam referenciar coisas avançadíssimas de física quântica. Várias citações eram em alemão (Schrödinger, Planck, Heidegger, Cantor, Kant), outras em francês (Lamaître, Galois). Autores clássicos eram citados ao lado de outros que talvez fossem novos e pouco conhecidos. Vários trechos não tinham citação, mas fórmulas acompanhadas de ousadas afirmações à banca, do tipo “como se pode provar pelo cálculo a seguir”.

Li todo o trabalho e fiquei embasbacado por não conseguir entender nem metade do que ali estava, muito embora meu estilo de redação estivesse em cada parágrafo. Do pouco que entendi, cheguei à conclusão de que propunha um método através do qual satélites poderiam ser içados a uma órbita, em vez de lançados até ela por um foguete. Os cálculos provariam que a energia necessária a tal sistema seria dezenas de vezes menor, reduzindo o custo do lançamento de satélites a uma fração do então possível, algo revolucionário demais. Eu tinha de entregar a monografia, apesar do alerta de Alana. E o fiz.

Na sexta-feira pela manhã fui buscá-la em seu apartamento. Estava vestida do modo sóbrio de sempre. Trazia apenas bagagem de mão e hesitou em entrar no meu carro. Seus seios pareciam invisíveis naquele vestido. A maioria dos caras da faculdade a chamavam «tábua de carne» por isso. Era difícil crer que uma mulher aparentemente tão reta tivesse seios tão curiosamente belos e harmônicos, e de um formato e consistência tão atraentes.

Almoçamos em um restaurante à beira mar, fomos ao cinema e tomamos cerveja no bar panorâmico do píer; terminando a tarde no meu apartamento, ouvindo Stones e conversando descontraidamente. Não ousei muito coisa. Eu sonhava Alana como se fosse para sempre, e algo que é para sempre não precisa de pressa. Apenas nos beijamos, e nesse beijo senti seus seios contra meu peito e tive a certeza do que queria.

— Alana, pode me achar louco por dizer isso, mas acho que a amo. Acredita em amor à primeira vista?

— Acredito, Tony. Mas amor à primeira vista tem que esperar o mesmo tempo que o amor à décima oitava vista — disse ela, algo cruel, apertando o botão da gola do vestido sem decote que usava.

— Ora, Alana. O que a gente sonha para sempre não precisa começar agora.

Ela riu e me beijou nos lábios, com um tremor na boca que só mais tarde soube ser amor também.

— Por favor, Tony. Leve-me para casa antes que implore para fazer amor com você. Isso não seria bom para nenhum de nós dois agora. Estou me sentindo totalmente frágil e insegura. Não se aproveite de mim.

Os dias seguintes foram de expectativa. Ninguém da Banca Examinadora me contactara ainda, mas eu tinha a estranha sensação de que quando lessem o meu trabalho o meu telefone fatalmente tocaria.

Saí com Alana na sexta-feira seguinte mais uma vez. Não havíamos tido encontro no fim de semana porque ela viajara para visitar os pais, numa distante fazenda nas chatas planícies do Norte. Da segunda vez o encontro se desenvolveu com muito mais fluidez, em parte graças ao traiçoeiro vinho licoroso que lhe servi. Porém, quando ela percebeu que sua cabeça não estava mais tão firme sobre o pescoço, mais uma vez me pediu que a levasse para casa e eu, mais uma vez, me vi moralmente forçado a isso.

Levei-a de volta ao seu apartamento no campus. Àquela hora quase não havia viva alma na universidade. Somente os pobres e que vinham de longe, como nós dois, passávamos os feriados lá. Quando saía, ela me chamou para dizer, depois de jogar um beijo:

— Não entregou aquela monografia, entregou?

Fiquei envergonhado:

— Alana, me perdoe, mas eu a entreguei naquele mesmo dia.

Ela levou as duas mãos à boca, com os olhos totalmente arregalados, e me pediu para entrar. Atirou-me a um sofá e começou a trancar obsessivamente janelas e portas. Depois se atirou sobre mim e quando finalmente percebi o que estava acontecendo já estávamos nus fazendo amor. Ao terminamos, ainda estendidos no tapete macio da sala, tive que perguntar:

— Por que isso, Alana? Não tínhamos que esperar, não havia aquela história de que o que é para sempre não precisa começar hoje.

— Querido, lamento, mas precisava disso. Se não fosse hoje, talvez não fosse nunca. O que vai terminar hoje precisa começar hoje.

Faróis altos brilharam no pátio e um ruído sibilante cortou o ar. Exceto por ele, porém, não havia nenhum outro som em todo o campus. Bateram à porta.

— Oh, querido, lamento muito, muito.

Bateram de novo à porta.

Alana se enrolava no tapete para cobrir sua esguia nudez, enquanto eu tentava me vestir, procurando as peças de roupa espalhadas.

Arrebentaram a porta.

Lá fora uma luz fria e azul oscilava. Entraram homens altos e magros, magros como Alana. Falavam uma língua estranha e eram estranhamente pálidos, como Alana. Senti algo picar o meu peito, olhei e vi um dardo tranquilizante.

Acordei aqui. Você tem que acreditar em mim. Não sei de nada da morte da Alana. Tem que acreditar em mim.

— É difícil, Tony. Muito difícil. Você entregou à Banca Examinadora um bilhete contendo a confissão de que pretendia matá-la, e fez exatamente o que o bilhete dizia. Seu esperma foi encontrado no corpo, suas impressões digitais estão por toda parte, e a polícia o achou lá, ao lado do cadáver ainda quente. O que tem para me convencer de que nada dessa história é verdade?

— Você tem que acreditar em mim, Rick. Os aliens, eles usam a rede elétrica para comunicar-se, alguns são brincalhões e ficam corrompendo arquivos em nossos computadores, ou talvez queiram nos avisar. Alguns estão espionando por aí. Alana era uma espiã, Rick.

— Por isso a matou?

— Não a matei, Rick. Mesmo ela sendo uma deles não a matei porque a amava, porque era a mulher mais interessante que conheci em toda a minha vida. Não a matei, foram eles. Mataram-na porque me avisou para não entregar a monografia, mas não me impediu.

— Tudo bem, Tony. Vou ver o que posso fazer. Mas acho que é melhor alegar insanidade. Se não fizer isso, vai encarar o corredor da morte. Alana poderia ser alienígena, mas apareceram dois pais pobres, lá do interior do Canadá, que confiavam no diploma da única filha para seu sustento na velhice. Uma história comovente, Tony. Nenhum jurado desse país terá simpatia por você.


23
Jan 11
publicado por José Geraldo, às 14:57link do post | comentar | ver comentários (1)

Em algum momento, em 2003, eu tive um sonho no qual me via seguindo uma mulher a cavalo, vestida de negro. Na época eu ainda não conhecia o som do Uriah Heep e não poderia ter feito a ligação com “Lady in Black”. Em vez disso, o sonho se referia mais à uma figura existente na capa da edição de “As Brumas de Avalon” que eu tinha comprado naquela época. A “Senhora da Magia” levando Excalibur à mão e cavalgando um cavalo branco.

Este sonho acabou se conectando, pelas tortas vias da inspiração, com outro que eu tive no dia seguinte, no qual me via na pele de um perseguido político, ameaçado de tortura. A conexão dos dois resulta no argumento inicial do conto. A segunda parte, escrita cerca de duas semanas depois, procurou relacionar os episódios algo sobrenaturais narrados na primeira a algum tipo de acontecimento histórico conhecido. Eu planejava fazer outras conexões mais amplas, usando, por exemplo, um outro conto que eu intitulava “História de uns Fantasmas” (que acabou resultando em “Inocência Assassina”). O plano que eu tinha era de um romance, ou um ciclo de contos, baseado em um universo paralelo conectado com o interior de Minas Gerais.

Mas o projeto não prosseguiu. Em parte isso foi porque eu não gostava muito de histórias de fantasia e terror, mas a principal razão foi eu não vislumbrar maneiras de dar prosseguimento à história. Durante muito tempo os contos “A Cabana ao Pé da Montanha” (atual Parte I) e “A Mansão Além da Montanha” (núcleo da Parte II) figuraram como duas histórias independentes e inacabadas em meu antigo site. Porém, durante o ano de 2009, eu resolvi retomar o projeto do “Grande Romance Místico Mineiro” e acabei revisitando os dois contos. Na época escrevi um terceiro conto, chamado “O Círculo Entre as Montanhas”, que foi o esqueleto da Parte III. Este conto nunca foi publicado.

Por fim, agora no comecinho de 2011, numa tarde razoavelmente inspirada, eu revisei os três contos, consertei as conexões entre eles, tornando-os efetivamente partes de uma mesma história, e os publiquei no blog (usando a ferramenta de agendamento de postagens).

A “Cabana ao Pé da Montanha” ainda será revisado algumas vezes, certamente aumentado em talvez até 50%, mas já está em uma forma apresentável. Ele será, futuramente, uma espécie de introdução ao universo da “Serra da Estrela”, no qual vou ambientar um romance e alguns contos. Nesse universo, as lendas brasileiras existem, de certa forma, e algumas maldições portuguesas foram desterradas.


mais sobre mim
Março 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


comentários novos
Ótima informação, recentemente usei uma charge e p...
Muito bom o seu texto mostra direção e orientaçaoh...
Fechei para textos de ficção. Não vou mais blogar ...
Eu tenho acompanhado esses casos, não só contra vo...
Lamento muito que isso tenha ocorrido. Como sabe a...
Este saite está bem melhor.
Já ia esquecendo de comentar: sou novo por aqui e ...
Essa modificação do modo de ensino da língua portu...
Chico e Caetano, respectivamente, com os "eco...
Vai sair em inglês no CBSS esta sexta-feira... :)R...
Posts mais comentados
pesquisar neste blog
 
arquivos
blogs SAPO