Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
05
Nov 11
publicado por José Geraldo, às 23:00link do post | comentar

Você provavelmente nunca ouviu falar de Charles Kembo. Acontece que ele se tornou hoje o pivô de uma das notícias literárias mais interessantes do ano, ao tornar-se o autor do livro “A Trindade dos Super-Garotos, Livro I: A Busca pela Água”. Aparentemente não há razão alguma para que o caso seja “interessante”, mas o caso merece atenção.

Antes de tudo, é preciso dizer que a obra citada é bem justamente o que parece: uma trilogia de ficção científica protagonizada por jovens que salvarão o mundo de uma catástrofe. Mais do mesmo, óbvio. Você já leu esta história tantas vezes que não precisa ler mais esta para saber quase em detalhes tudo que acontecerá. Eu não li, mas as poucas informações que pude obter sobre o livro (que não pretendo comprar, pois meu dinheiro não dá em árvore) me fazem supor que os jovens correspondem a todos os modelos prefabricados de personagens heroicos adolescentes que aparecem nos livros mais vendidos atualmente. Portanto, a menos que Charles Kembo seja um artista genial com as palavras, o livro dele é provavelmente ruim. Acontece que o título por ele escolhido para o primeiro volume de sua trilogia não sugere que ele seja.

Ademais, o canal através do qual esta obra chegou a ser publicada não é nem um pouco recomendável: trata-se da famigerada PublishAmerica (cujo link não incluo para não gerar receita para picaretas), famosa por ter aceitado um pastiche intitulado “Atlanta Nights”, criado por alguns autores filiados à Associação Americana de Autores de Ficção e Fantasia (SFWA), mais um programa de computador. O caso está arquivado aqui (em inglês, sorry). Mas incluo um resumo abaixo, para benefício dos que não sabem inglês (e também da preguiça peluda que em que às vezes certos leitores se metamorfoseiam em noites de lua, cheia ou não, em uma estranha licantropia). Se você já conhece o caso, preferiu ler o texto que está no link ou se simplesmente confia em minha palavra, de que a PublishAmerica deveria chamar-se PublishIt!, salte os parágrafos comentados a seguir.

Muitos autores filiados à SFWA (e também jovens autores não filiados, mas que buscavam conselho) reclamavam das práticas da PublishAmerica, uma editora de fachada que se fazia passar por “tradicional”, mas que apenas arrancava dinheiro dos ingênuos. Esse tipo de empresa é chamada nos EUA de “author mill” (moinho de autores).
As reclamações variavam desde a qualidade da revisão e do projeto gráfico até à falta de promoção, passando pelos altos preços cobrados dos autores (você que escreve deve ter encontrado algo parecido aqui no Brasil, não?). Diante da divulgação destas reclamações pela SFWA (em sua página Writers Beware, ou “Atenção Autores”), a PublishAmerica defendeu-se atacando, de forma arrasadora, não apenas os autores reclamantes, mas todos os autores de ficção científica e fantasia. Segundo a PublishAmerica, o insucesso dos autores não se devia à falhas da editora, mas à falta generalizada de qualidade das obras destes gêneros, que, por serem relativamente fáceis de escrever, atraem um grande número de incompetentes, que se escondem atrás da fantasia para não terem que fazer pesquisa e nem preocupar-se com a verossimilhança de suas histórias. Ainda segundo a editora, os altos preços cobrados eram destinados especificamente aos autores de tais gêneros, pois em relação a eles não havia a menor possibilidade de sucesso devido à péssima qualidade das obras, e o dinheiro assim obtido seria investido nas carreiras de outros autores, mais talentosos.
Diante destas acusações graves e arrasadoras (com as quais eu concordo em parte, mas não em relação a todo e qualquer autor de ficção científica e fantasia), a SFWA se propôs a uma vingança: humilhar a PA provando que eles publicariam qualquer coisa desde que o autor estivesse disposto a pagar, e publicariam não apenas sem revisar, mas até sem ler.
Os autores se propuseram a escrever um livro que não apenas fosse terrivelmente ruim (mal escrito e incoerente), mas também cheio de erros óbvios: dois capítulos com a mesma numeração, um número de capítulo faltando, um capítulo com numeração menor que o anterior, personagens que não apenas morrem e depois reaparecem, mas até mesmo mudam de sexo de uma página para outra. Um dos capítulos foi produzido através de um programa de computador chamado Bonsai Text Generator, que produz frases gramaticalmente corretas, mas absolutamente sem sentido, a partir de um outro texto longo dado como amostra.
A obra assim produzida foi submetida à apreciação da PublishAmerica e não apenas foi aceita (com as congratulações e elogios de praxe, acompanhadas da “perspectiva de tornar-se um sucesso”) como foi supostamente “revisada” e “formatada” para impressão. Tendo coletado as provas (através de comunicações via e-mail) os autores foram aconselhados por um advogado a não assinar o contrato (pois incorreriam em falsidade ideológica) que permitiria a publicação (pois causariam prejuízo intencional). Preferiram divulgar amplamente o caso, achando que haviam obtido sua vingança.
Infelizmente, o mundo não é justo. Nasce um idiota a cada dia, e o fluxo contínuo de idiotas mantém a PublishAmerica funcionando e ganhando dinheiro até hoje. Talvez a PublishAmerica tivesse razão.

O que torna o caso de Charles Kembo literariamente interessante não são os aspectos intrínsecos de sua obra (que é provavelmente lixo), mas as circunstâncias que envolvem o autor. Se você já ouviu falar de “literatura marginal”, deveria engolir em seco, pois trata-se de muito mais do que isso: Charles Kembo é um assassino condenado à prisão perpétua por vários crimes ocorridos entre 2002 e 2005, um perfeito exemplar da fauna norte-americana de serial killers.

Por chocante que esta revelação possa parecer, ela traz à baila um debate importante para a literatura: até que ponto devemos separar a vida e a obra de um indivíduo. Recentemente, no Brasil, houve um sério debate sobre a proibição (ou pelo menos a restrição da divulgação) da obra infantil de Monteiro Lobato porque o autor era manifestamente racista. Charles Kembo é comprovadamente um assassino cruel e calculista, sem nenhum remorso. Isto, claro, é muito pior do que ser meramente racista. Ainda mais: ele está vivo, pronto para causar mais mortes se sair da cadeia, enquanto Monteiro Lobato, do túmulo, não pode produzir mais nenhuma frase racista além das que cometeu em vida. Quando do debate sobre a obra do criador do Sítio do Picapau Amarelo, defendi a tese de que as obras deviam ser analisadas em seu contexto, e não à luz dos defeitos do homem que as produziu, pois se formos policiar o caráter dos indivíduos para julgar o que fazem, então praticamente não haverá obra neste mundo que possa ser aceita, pois todos são, de alguma forma, moralmente reprováveis, ainda que apenas pelo bolinho que roubaram da vendedora ambulante quando crianças. Mas será que eu tenho a coragem de pregar o mesmo no caso de um assassino que se torna escritor?

No caso em questão eu não preciso me preocupar, porque o livro escrito pelo serial killer é uma porcaria óbvia. Ou melhor, pensando bem, preciso preocupar-me sim, porque a história recente nos tem mostrado que porcarias óbvias estão se transformando em livros muito vendidos e influentes. Não cito nomes porque não estou a fim de levar pedradas hoje, mas provavelmente você que me lê deve ter na cabeceira pelo menos uma obra que, se algum dia acumular mais leituras, se envergonhará de admitir que leu.

Então, se a falta de qualidade da obra não nos permite afastar a possibilidade de que ela faça sucesso (da mesma forma que a picaretice da PublishAmerica não a impede de continuar tendo um grande número de clientes até hoje), precisamos analisar o caso com atenção, e três perguntas se configuram:

1 - É aceitável que um criminoso tente tornar-se um artista? Vivemos a ilusão de que a cadeia é uma instituição que se propõe a regenerar o criminoso. Ao mesmo tempo convivemos com a existência no mundo de penas capitais e de prisão perpétua, que negam a possibilidade de regeneração de alguns criminosos ou, alternativamente, negam a aceitabilidade de que, tendo cometido certos crimes especialmente graves, alguém tenha o direito de querer regenerar-se. Existem até estudos psiquiátricos fundamentando que certos indivíduos, os tais “sociopatas” seriam criminosos incuráveis. Temos então duas posições possíveis, antagônicas.

A primeira nos diz que o indivíduo que comete um crime, qualquer crime, tem o direito de regenerar-se e eventualmente retornar ao convívio da sociedade, tendo cumprido sua pena. Se aceitarmos esta tese como correta, então não podemos negar a Charles Kembo o direito de aspirar a ser um escritor. Afinal, escrever é um tipo de trabalho (ainda que muita gente ache que não), inclusive um que tem grande potencial para utilização em tratamento psicoterápico ou psiquiátrico, devido à possibilidade que oferece de se ter acesso aos processos mentais do paciente. Permitir que um criminoso escreva é permitir que ele produz extenso material que pode ser utilizado para analisar seu comportamento e seus processos mentais, o que pode ser útil para definir se ele pode ser ressocializado.

A segunda posição nos diz que existem certos crimes para os quais não há e nem pode haver perdão ou regeneração, apenas a vingança. Você comete o tal crime e a sociedade se vinga de você, aprisionando-o pelo resto da vida em um cubículo, com acesso controlado a todas as coisas que definem a vida livre de um cidadão (ar puro, sol, liberdade de expressão, direito de ir e vir etc.), ou então matando-o de forma mais (enforcamento, apedrejamento, garroteamento, empalamento, linchamento, afogamento, sufocamento) ou menos (envenenamento, guilhotinamento, fuzilamento) dolorosa. Nesse caso a pretensão literária de um condenado à pena perpétua é uma violação de sua reclusão, e deve ser impedida.

2 - Quais os riscos envolvidos em ler uma obra produzida por um criminoso? Esta pergunta embute o conceito de que as pessoas são influenciáveis por aquilo que leem, o que eu acho correto, e que os autores conseguem fazer com que suas obras influenciem os leitores sempre em uma direção deliberada durante o ato da escrita, o que já acho altamente discutível. O grande problema com esta pergunta é que ela ignora um fato: não existe fundamentalmente nada diferente na mentalidade de um delinquente que não tenha pelo menos uma vez passado pela mente de alguém que nunca delinquiu.

A diferença é que algumas pessoas resolvem não fazer certa coisa, enquanto outras resolvem fazer. Podem existir razões que condicionam a escolha para uma direção ou para outra, mas existe também a sublimação: a possibilidade de converter um impulso destrutivo em uma ação não destrutiva. Um piromaníaco pode tornar-se um especialista em efeitos especiais, a fim de saciar sua vontade de ver as coisas queimando através da encenação de incêndios em cenários. E uma pessoa com tendências sádicas pode contentar-se em escrever livros profundamente violentos, detalhando torturas e mutilações espantosas. Nesse sentido, pelo pouco que li dos dois, existe mais violência na obra de um autor incensado, como Chuck Palahniuk, do que na tímida obra infanto-juvenil de Charles Kembo. Então é óbvio que o perigo de uma obra escrita por um assassino em série não está no seu conteúdo, visto que obras ainda mais violentas podem ser produzidas por pessoas de bem, que nunca fizeram mal a uma mosca. Se chegamos a esse ponto do raciocínio, fica a dúvida: qual seria, então a natureza do perigo envolvido na leitura de uma tal obra?

3 - Quais as motivações pelas quais Charles Kembo escreveu sua obra? Esta terceira pergunta é a consequência lógica da dúvida mencionada no item anterior. Se nos parece óbvio que o livro escrito por um criminoso violento e impiedoso não possui elementos tais, evidentemente isso se deve às motivações pelas quais a obra foi escrita. Quando Charles Kembo estava matando pessoas (sempre brancas, adultas e de classe média para baixo) ele tinha um determinado recado para a sociedade. Agora que ele está escrevendo, pode ser que ele tenha outro recado, relacionado ou não. Se existe um recado subjacente, então existe um perigo também: poderia o autor estar querendo passar algum tipo de mensagem codificada para alguém fora da cadeia? Ou está apenas querendo atrair simpatia para sua causa? Não custa lembrar que o famoso “Maníaco do Parque” pôde escolher uma esposa entre centenas de candidatas, jovens bonitas e estudadas — e não precisou escrever nada.

Penso que existem no mundo muitos livros mais perigosos do que qualquer obra escrita por um assassino confesso e condenado, como Charles Kembo (por quem, admito, desenvolvi certa simpatia ao escrever estes comentários). O autor dos “Protocolos dos Sábios de Sião” foi um funcionário público respeitável, que provavelmente morreu sem saber das consequências nefastas de seu patético esforço para convencer o povo russo de que todos os males do país eram resultado de um complô secreto dos judeus. É espantoso que tal livro tenha ensejado uma guerra mundial e justificado o massacre de dezenas de milhões de judeus ao longo do século XX (não estou me limitando aos judeus mortos pela Alemanha nazista, mas incluindo os linchados ou executados pela URSS, pela Turquia, pelas nações árabes após a partilha da Palestina e até pelos EUA). Dificilmente a obra humilde de Charles Kembo provocará algo de tal gravidade — e eu duvido muito que seja esta a sua intenção, a menos que ele tenha uma personalidade de vilão de desenho animado.

Como você já deve ter percebido, as respostas para estas três perguntas são difíceis. Para a primeira é possível simplesmente deixar que cada leitor escolha uma, de acordo com suas opiniões. Mas para as duas outras não há como achar explicação, somente poderíamos ter resposta se pudéssemos ler a mente do autor.

O resultado desta falta de solução é o espanto com que contemplamos o esforço literário de um condenado por tantas mortes. Cabe perguntar que tipo de gente se interessaria em ler tal livro? Que tipo de gente lê livros apelativos, pornográficos, violentos? Que tipo de gente desenvolve simpatia por criminosos (a ponto até de querer casar com eles)? Que mundo é esse, meu Deus?

Eu só sei de uma coisa: continuo mantendo a minha opinião. A obra é uma coisa separada do artista. Não me importa se quem a produziu era o maior dos depravados, desde que a obra produzida seja boa. Eu até acho aceitável rejeitar obras que tenham sido produzidas especificamente através do crime (uma obra escrita, por exemplo, com o sangue das vítimas do assassino, ou o seu diário “de campo” seriam totalmente inaceitáveis), mas se a obra não está diretamente conectada, na posição de “resultado” com o ato do criminoso, que mal há nela? Muitos autores foram, em algum momento de suas vidas, condenados (alguns até a morte). Tal condenação tem efeito retroativo para desqualificar as suas obras? Ou somente as obras produzidas depois dos crimes são “ruins”. Uma pessoa que comete crimes (especialmente crimes em série) não tivera sempre dentro de si o impulso para o mal?

Se não quisermos ter que responder a estas questões bizantinas, teremos que nos contentar com a solução pela simplicidade: julgue a obra por si, de forma que o autor possa até ser elevado ou rebaixado por ela, mas não deixemos que os erros ou acertos do autor interfiram nos erros ou acertos de sua obra. Pois, não custa lembrar, aquilo que é válido para o mal igualmente vale para o bem: devemos ler avidamente os livros péssimos escritos por pessoas de ótimo caráter?


05
Set 11
publicado por José Geraldo, às 22:02link do post | comentar | ver comentários (1)

Fila de banco. Detesto, como muita gente. E como todo mundo tenho que ir. Aliás, eu devia agradecer por haver fila de banco no mundo: ninguém sobreviveria na minha profissão sem poder relaxar durante uma hora aguardando o atendimento. Antigamente era ruim, hoje tem até banquinho acolchoado para a gente sentar. Daí eu posso apenas ligar o som no meu telefone e ficar ouvindo alguma coisa dentro da minha cabeça, me injetando ritmo enquanto os caixas matraqueiam com os dedos nos teclados baratos.

Fila de banco. Proibiram agora o uso de aparelhos celulares. É uma merda. Não posso mais nem ficar com os malditos plugues no ouvido. As pessoas ficam olhando torto, achando que faço parte de alguma quadrilha. Merda! Tenho que desligar toda vez que entro, e ficar quase uma hora sentado olhando para as caras dos outros clientes. Raramente aparece uma moça bonita que valha a pena olhar. Mas ainda mais ramente ela permite que eu olhe sem começar a me ver torto também, me achando um estuprador. Fila de banco. Detesto, como quase todo mundo.

Estou sonolento hoje, dormi mal e dormi tarde. Acordei cedo para trabalhar, como quase todo mundo. Estou aqui meio zumbi. As pessoas veem meus óculos escuros e me acham com pinta de maconheiro. Fila de banco é um lugar onde se concentram todas as fobias e caretices da humanidade.

Os caixas estão lentos hoje. Teria sido um ótimo dia para música. Dava para ter ouvido quase um álbum cheio. Mas tenho que ficar em vez disso olhando para os lados, tentando evitar que meus olhos incomodados retornem à orelha daquela moça. Porra, até que ela é bem gatinha, mas usa um enorme alargador auricular. Imagino que dentro de dois ou três anos terá uma orelha deformada e com aro grande o bastante para eu passar meu punho. Igual o lábio do Raoni. Eu sou meio careta com essas coisas. Fico pensando se dói. Uma tatuagem já me bastou. Nunca mais banco o macho deixando que me enfiem agulhas. Só de injeção, e por necessidade. Não curto dor. Não curto ficar aqui parado esperando a vez e olhando para a orelha daquela moça e pensando nela mocréia com quarenta anos e o lóbulo todo fodido.

De repente o telefone toca. Metade da fila me olha como se eu estivesse cometendo um assassinado ou comendo uma criança. Não é nada demais, só uma mensagem de texto. Alguém tuitou que vai ter uma festa-surpresa. Adoro essas festas mal organizadas. Geralmente a bebida é quente e ruim, o lugar é uma porcaria e a polícia aparece descendo o cassetete em todo mundo. Mas sempre aparece muita gente diferente. Se não houvesse essas festas malucas seria até difícil fazer amizades fora do bairro. Talvez eu nem tivesse amizades: como você puxa assunto com essa gente na rua, todos andando olhando para frente e preocupados com suas bolsas, olhando para mim como se eu fosse um marginal de estilete na mão, pronto para cortar alguém. O telefone tocou convidando para uma festa dessas. Eu vou, claro. Eu sempre vou, ainda mais que o convite vem do Tõezinho. Faz quase um ano que não vejo o verme.

Quando consigo sair do banco eu respondo via SMS perguntando onde. A resposta vem minutos depois: Fenelon Guimarães 80. Nunca ouvi falar. Essa cidade é bem grande, e tem tanta rua quanto você tem veias. Você não sabe o nome de todas as suas veias, não estranho não saber onde fica essa rua maldita. Respondo de novo: preciso de um GPS ou de uma indicação no Google Maps. Tõezinho responde em três tempos: veio o mapa com um percevejo verde marcando a rua. Gandaia, lá vou eu. Beber muito uísque paraguaio com energético e beijar garotas com cheiro de patchouli e batom verde.

Já são quase cinco da tarde quando chego de volta ao serviço. Tempo para jogar uma cantada tosca na telefonista, bater o cartão e sair. Meu velho Chevette 76 me leva mansamente para casa, espargindo pelo ar um leve odor de gasolina e silicone. Hoje é sexta feira, eu mandei lavar, polir, lubrificar. O carrinho está manso e liso como uma mulher que sai do banho. Ser sobrinho de mecânico tem suas vantagens: o motor ronrona gostoso como uma namorada gozando na cama e as molas macias como um colchão de motel nem me deixam sentir os buracos do asfalto.

Minha mãe quer que eu coma em casa. Isso é absurdo. Sexta feira não é dia de ficar em casa depois que anoitecer. Tem que haver algum lugar qualquer para ir, algum lugar que não seja debaixo da saia da mãe. Ela me xinga enquanto eu tomo banho, meu pai ronca deitado no sofá, pronto para um enfarte, e nem liga quando saio. O velho ainda vai engasgar na própria banha qualquer dia desses. Tenho pena de minha mãe: ela era uma menina bonita quando se casou com esse gordo inútil, que só serve para ganhar uma aposentadoria por invalidez, tão gorda quanto ele.

A turma se encontra no posto de gasolina da BR. Digo que é “a turma” para dar uma boa impressão, mas somos só três. Os “mortos de fome do BNH”, como a Dolores nos chamava nos tempos de escola. Dolores era uma vadia, dava para um dono de loja rico e andava mais emperiquitada que uma dançarina de filme francês. Casou com ele graças à barriga e a habilidades orais. Hoje dirige um carro importado preto e não nos conhece mais quando passa por nós. Imagino que ela acharia engraçado nos ver bebendo cerveja barata sentados no capô de um Chevette 76, no estacionamento de um posto de gasolina à margem da BR, numa sexta feira às sete e meia. Somos três perdedores.

— Que história é essa de festa, Miguel?

— Tô de falando, recebi o recado do Tõezinho hoje à tarde. Não sei se é ele que tá organizando, mas com ele não tinha furo: toda festa que ele convidava ficava dez. Eu vou, nem que seja no inferno.

— Assim é que se fala, camarada, segura a capetinha pelos chifres para ela te chupar gostoso!

Ninguém passando pelo asfalto a cento e vinte por hora teria entendido a gargalhada dos três idiotas montados no Chevette marrom.

Saímos do posto cerca das dez da noite. Deixei o Vavá dirigir porque ele não pode beber. Dentre as muitas ziquizilas que ele tem está uma alergia forte ao álcool. Ele compensa de outras formas, claro, mas dá para dirigir bem. Vavá é um fresco, criado a leite de pera e ovomaltino, ele nunca pegou uma mulher, mas jura que não é veado. Hoje nós vamos dar um jeito de arranjar uma vadia bem doida para ver se ele deixa de ser cabaço. Mas ele não sabe ainda.

— Aonde é esse raio de lugar onde vão fazer a festa?

Pego o telefone do bolso e lhe mostro no mapa.

— Isso é longe pacas, Miguel. Tem gasolina nesse gambá aqui?

— Tem sim, claro. Olha aí!

— Parou de funcionar de novo o marcador de gasolina. Por que você não vende essa merda de carro?

— E compro o que com o dinheiro? Uma mobilete?

Vavá não tem argumentos. Com menos de três mil reais eu comprei um Chevette velho, que eu mesmo retifiquei e reformei, com a ajuda de meus tios, que são mecânicos, tanto o irmão do meu pai quanto o da minha mãe. Eles são sócios. E são mais pais para mim do que o gordão que passa o dia vendo televisão e vira a noite assistindo pornô sueco.

Já são mais de nove da noite quando começo a ficar preocupado. A festa parece cada vez mais distante. O centro da cidade já ficou para trás há muito tempo. E olhe que nós saímos da periferia, passamos por dentro e estamos quase saindo do outro lado. Se o odômetro funcionasse eu saberia o quanto rodamos. Deve ter sido muito.

As ruas são mal iluminadas e vazias. Não tem nem birosca aberta. É um bairro industrial, dá para ver pelos imensos edifícios em formato de caixote, alguns com chaminés do século passado. Eu nunca tinha vindo a essa parte da cidade, parece um filme americano de terror, daqueles com gangues de psicopatas sobre motos, matando os rivais arrastando pela rua. Eu vi um filme assim uma vez quando era bem molequinho.

Direita, esquerda, esquerda, direita e esquerda. De esquina e esquina vamos nos perdendo mais até que, de repente, encontramos uma placa indicativa. Estamos na esquina da Fenelon Guimarães com a Juvêncio Estrada. Duas ruas estreitas e perdidas, onde parece que não mora nem alma penada. Não tem ninguém na rua.

— Caralho, Miguel. Te passaram um trote dessa vez. Não tem nenhuma merda de festa rolando por aqui.

— Deve ser num desses galpões aí. Tipo, dessa vez resolveram fazer organizado. Puseram isolamento acústico para não chamar a atenção e fizeram num lugar sem vizinho chato para chamar a polícia.

— Eu acho que a gente devia voltar — diz o Vitinho, pela primeira vez dando uma opinião.

— Tudo bem, a gente volta. Mas primeiro vamos descer e procurar o número oitenta e ver o que tem lá. Depois a gente vai até para a puta que pariu se for preciso.

Concordamos e vamos procurando o 80. O Chevette vai devagarinho, como um gato se esgueirando pelo muro. Achar vai ser Tarefa difícil porque não tem ninguém na rua e nem os prédios tem número. Somente um imenso portão de ferro se destaca. Não sei porque razão eu imaginei que ali poderia ser o lugar. Estranha premonição. Era lá.

Lá era um cemitério.

Meus amigos desgraçam a rir enquanto eu quase me cago de medo.

— Miguel, acho que você devia entrar, deve ter uma capetinha aí dentro pronta para te chupar! — o veado do Vavá se aproveita para zombar de mim. Logo ele que nem deve saber do que está falando.

— Não se brinca com uma coisa dessas — diz o Vitinho, já beijando seu crucifixo de prata, presente da avó siciliana.

— Deixa de ser medroso, Vitinho. Vamos entrar.

— Entrar!? — o instinto fresco do Vavá se manifesta.

— Uai, e por que não?

— Por que sim, você quis dizer! Para que diabo a gente vai entrar no cemitério hoje, logo na quaresma, Miguel. Não tem nenhuma porra de festa por aqui, nem num raio de vinte quilômetros. Vambora pegar um cinema que ainda dá para pegar uma sessão de meia noite.

Eu não me conformo de ter sido passado para trás. Pego o telefone e envio de volta um SMS furibundo: “o inútil que me convidou aqui hoje vai aparecer ou não é macho para isso?” 

Tenho vontade de jogar longe o telefone. Pena que ainda estou pagando. Pena que preciso e gosto dessa merdinha difícil. Tenho mais amigos me seguindo nele do que na vida real. Se eu tivesse comido metade das mulheres que se dizem minhas fãs no Orkut eu me sentiria um artista. Não vou jogar fora o telefone, queria era sentar a mão na cara do veado que me sacaneou.

Vamos voltando para o carro, desolados, quando o telefone toca de novo. Tõezinho de novo. A mensagem de texto diz simplesmente: “Eu estou aquii”.  Um leve sopro de vento arrepia minhas orelhas. Olho para trás e vejo uma luz vaga dentro do cemitério, vindo em direção à porta.

— Corre, diabo!

Não sei o que foi que tinha no tom da minha voz que os dois entenderam como se fosse um abracadabra. Nem sei como entramos dentro do carro. Lembro-me vagamente de um vidro quebrando e estou com uns arranhões na barriga e a cabeça me doi muito. Por sorte sou sobrinho de mecânico e meu carro velho vive com o motor regulado. Saímos de lá cuspindo fagulha pelo escapamento, que assobiava como um apito de Satanás. Se morava alguém naquele bairro, deve ter acordado. Talvez até os defuntos tenham se incomodado. Sei que alguém chamou a polícia.

Meu pai veio me tirar da delegacia no dia seguinte. Pagou a fiança, soltou o carro. Vavá perdeu doze pontos na carteira e eu vou gastar uma grana boa pondo outro vidro traseiro. Eu não respondo quando me perguntam o que aconteceu, como foi que quebrei o vidro ou que cortei a testa. As pessoas não vão acreditar. Aliás, nem eu vou acreditar se eu me contar. Pode ter sido só a lanterna do zelador, ou uma capa de chuva iluminada pela lua. Ou pode ter sido qualquer outra coisa. 

Eu só sei que foi só no sábado de tarde que eu lembrei de uma coisa que tinha me passado despercebida: Tõezinho morreu, faz um mês, em um acidente de carro na BR, dizem que tava tirando pega usando um Dodginho envenenado. Mas ele me mandou a mensagem. Ou roubaram sua senha para me sacanear. Mortos não dão unfollow. Sei lá.

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27
Ago 11
publicado por José Geraldo, às 17:40link do post | comentar

Amanheci com náuseas. Não é infrequente que isso aconteça comigo: mesmo depois de ter removida a vesícula eu ainda passo por esses perrengues ocasionais. Especialmente depois de comer chocolate, ou frituras. Mas quem disse que eu vou deixar de comer um belo pastel de queijo só por causa de um fígado? Pois é, rendi-me à gula e amanheci mareado como um marujo de primeira viagem.

Só não vomitei. Talvez tenha sido o meu azar: os males materiais, tanto quanto os espirituais, nos deixam de atormentar quanto “postos para fora”. Uma confissão de culpa, um pedido de perdão, uma diarreia ou um berro pelo Juca. Todas são formas de purificação.

Mas melhorei um pouco depois de tomar um sal de fruta e um comprimido para enjoo e fui trabalhar. Má ideia, má ideia. Passei a manhã com calafrios, uma ligeira dor de cabeça, dificuldade para ficar de pé sem tontear e uma vaga vontade de algo que eu não sabia o que poderia ser. Lá pelas onze e quarenta da manhã eu desisti. Antes de sair para almoçar comuniquei ao gerente que eu positivamente não estava bem e que estava indo ao médico.

Sexta-feira, puxa vida! Coisa mais difícil é achar médico hoje! A não ser pelos que estão nos plantões, os outros certamente já estão viajando ou então com consultórios lotados. Mas tudo bem, para isso existe o pronto socorro e eu não estou exatamente morrendo neste momento. Depois de me certificar que a carteirinha do plano de saúde estava no bolso, encarei a subida.

Disse “subida” porque o hospital é conveniente situado no alto de um morro bem alto. Quem não tem dinheiro para táxi só chega lá se for de ambulância ou a pé, subindo uma escadaria maior que a que Jacó sonhou que levava ao céu. Pelo menos é o que você sente quando está passando mal e tentando galgar aqueles malditos degraus. Eu poderia ter ido de táxi, mas meu orgulho macho me impedia de pagar oito reais para um deslocamento de apenas duzentos e vinte e metros, ainda que fosse praticamente na vertical.

Meu primeiro desafio foi adivinha onde deveria me apresentar para o atendimento. Cada vez que venho aqui me indicam uma porta diferente. São apenas duas entradas, mas eu consigo sempre escolher da primeira vez a porta errada. Não é curioso isso? Parece que, como a maioria dos humanos, eu só faço a coisa certa depois de esgotadas as outras possibilidades. Pensando bem o mundo seria um lugar melhor se não houvesse tantas opções…

Eu já mal conseguia falar quando entreguei meus documentos para a recepcionista. Por sorte ela conseguiu compreender os meus grunhidos. Ou talvez ela apenas tenha tido a inteligência de imaginar que eu estava ali procurando atendimento. Digo “inteligência” porque houve outras vezes e lugares em que eu não tive a sorte de ser compreendido com tanta facilidade.

Esperei cerca de duas revistas semanais inteiras. Duas vezes me apresentei de novo ao balcão, para espanto da recepcionista: “Mas você não foi atendido ainda? Aguarde só mais um momento que eu vou verificar se o Doutor já pode recebê-lo”. Mesmo com vontade de vomitar no saguão eu conseguia achar estranho que ela colocasse os pronomes com tanta competência.

Por fim me vi diante do médico. Imagino que ele deve encarar umas trinta pessoas por semana sentindo o mesmo que eu. Para um médico experiente certos males devem quase deixar uma etiqueta na testa do paciente. Pálido, esverdeado, reclamando dor de cabeça, querendo vomitar mas não conseguindo, zonzo.

— Muito bem, meu filho, você comeu alguma coisa estranha ontem?

— Lembro vagamente de ter comido um pastel de queijo, doutor.

Ele me recriminou com um olhar penetrante:

— Foi só isso?

Diante da argúcia quase sacerdotal daquele homem eu tive de confessar:

— Também uns biscoitos recheados de chocolate. Mea culpa, mea grandissima culpa.

— Você devia saber que não deve abusar. Seu fígado não aguenta tudo isso, meu filho.

Ele rabiscou seus hieróglifos nos formulários e me indicou a uma enfermeira. Ela, porém, se limitou a me instalar em uma cama na enfermaria. Deitei-me ainda calçado de sapatos, com a gravata afrouxada, a carteira no bolso da camisa, o relógio no braço, o celular no bolso esquerdo da calça e o chaveiro no direito.

Longos minutos depois apareceu um enfermeiro para me pôr no soro. Não gostei. De alguma forma sempre acho que as agulhadas dadas pelas enfermeiras doem menos. Ele até que tentou facilitar as coisas, contando umas piadinhas e tentando fingir que me conhecia de algum lugar, mas eu quase lhe mandei para aquele lugar quando ele enfiou a agulha no dorso da mão. Detesto agulhas, detesto injeção, detesto soro, detesto coleta de amostras, detesto tudo isso. E não detesto por frescura, mas por excessivo costume.

Ele queria também que eu mijasse num potinho para fazer o exame de urina. Confesso que nunca na minha vida mijei na frente de um homem. Deve ter tido uma vez ou duas em que fiz isso diante de uma mulher — e nem assim gostei. De qualquer forma eu não tinha nada na bexiga ainda, porque meu estômago andava tão embrulhado que até água me fazia enjoar. Ele então me disse que voltaria quinze minutos depois para colher sangue e eu teria uma segunda chance. Não me empolguei com essa perspectiva.

Não foi ele que voltou, foi um enfermeiro com cara de lutador de jiu-jitsu. O tamanho do braço do cara me fez tremer mais do que o meu fígado empesteado. Só de pensar que seria ele a colher amostra do meu sangue eu tive vontade de levantar da cama, dizer que já estava bom e rolar morro abaixo até em casa.

Meu braço esquerdo estava com o soro, por isso ele resolveu fazer a coleta no direito. Como a cama ficava encostada na parede e a posição ficava meio desajeitada, ele resolveu o problema simplesmente eguendo-a, comigo em cima, e deslocando um metro para o lado, sem sequer fazer careta. Depois disso pegou a seringa e se preparou para coletar o sangue. Eu devia estar passando mal a ponto de estar fora de meu juízo, pois nesse momento ao escrever eu tenho mais medo do que senti na cena ao vivo. Mas ele tinha uma mão surpreendentemente leve, e colheu o sangue sem que eu quase sentisse. Muita mocinha bonita de sorriso meigo me causou mais dor do que aquele homem que erguera uma cama de ferro com meus cem quilos em cima. Mesmo assim, quando ele me perguntou se eu já estava pronto para a amostra de urina eu disse que não. Jurei que não. Por nada nesse mundo admitiria que sim.

O soro estava previsto para vinte minutos. Durou quarenta e cinco. Em parte porque eu mesmo, prevendo que iam demorar a me visitar de novo, fui ajustando as gotas para diminuírem de ritmo. Mas acabei cochilando e quando acordei o meu sangue havia subido até a metade do tubo. Não havia campainha ali, nem qualquer meio para chamar socorro. Fechei rapidamente o torniquete e levantei da cama para buscar alguém. O corredor da enfermaria estava vazio, a não ser por dois pedreiros fazendo uma reforma. Alguns pacientes e seus acompanhantes murmuravam nos outros quartos.

Deitei de novo, por alguns minutos, e então a bexiga começou a me incomodar. Olhei no relógio, já eram quase duas horas da tarde, o soro tinha acabado quase quarenta minutos antes. Peguei o potinho de plástico e me arrastei até o banheiro carregando o poste do soro. Urinei uma amostra e tentei acertar o resto no vaso, mas molhei a mão, o pote, o tubo de soro e o meu sapato. E ainda sobrou um pouco para a cueca. Sempre sobra. Lavei as mãos na pia, tentei limpar a calça e não me incomodei nem com o inalcançável sapato e nem com o tubo do soro.

Então me dirigi ao balcão, onde a enfermeira distraída preenchia uma ficha. Eu tinha chamado tantas vezes e ela não me ouvira. Por sorte meu caso não era grave, ou ela só teria ouvido o choro da família no dia seguinte. Entreguei-lhe o pote todo molhado de urina, com a metade de um sorriso no rosto. Uma doce vingança. Ela me fuzilou com os olhos e eu comecei a ter dificuldades para segurar o resto do riso.

No meio do caminho até o quarto encontrei o primeiro enfermeiro, o que me pusera no soro. Ao ver minha situação ele me pediu calma e disse que iria logo me tirar daquela situação. O “logo” demorou quase um quarto de hora. Mas enfim ele tirou a agulha da minha mão, não sem outro xingamento abafado de minha parte.

O doutor estava ocupado. Me pediram que aguardasse, pois o exame de sangue ficaria logo pronto. Dentro de uma hora mais ou menos eu saberia se não estava com dengue ou alguma “virose” e poderia ir para casa. Ainda estava enjoado, bastante enjoado, e sentia uma forte dor de cabeça. Mas tudo isso acompanhado de uma sonolência intensa, e a cabeça não doía quando eu fechava os olhos. A consequência natural desse conjunto de sintomas foi eu dormir logo, tão logo me vi sem soro no braço para me incomodar. Aninhei-me no leito em posição fetal e dormi de babar na fronha do travesseiro.

Quando acordei a luz mortiça do entardecer entrava obliquamente pela janela. Pardais chilreavam nas árvores próximas à janela. Assustei-me com a hora. Será que me fariam passar a noite? Saí ao corredor em busca de respostas e fiquei ainda mais estupefato de saber que ninguém da turma que me atendera estava ainda por lá. O médico era outro, inclusive um velho conhecido meu, as enfermeiras eram outras. Eles me viram até com certa surpresa, como se eu fosse uma espécie de aparição. Por um momento eu tive a vaga impressão de que eles não sabiam quem eu era e o que eu estava fazendo ali. Se eu não estivesse amarrotado da soneca eles talvez achassem que eu estava chegando. Ou talvez ainda assim achassem, pois bêbados costumam chegar amarrotados.

Depois que me expliquei com o médico, quase pedindo desculpas, ele finalmente achou meu prontuário, mas não conseguiu saber o que fazer comigo. Não sei se foi porque não leu os hieróglifos do outro ou se os registros estavam incompletos. Os exames ainda não estavam prontos àquela hora, ou estavam, não sei. Ele tampouco. Chamou-me ao consultório, mediu-me a pressão e a temperatura e me fez algumas perguntas, sempre insistindo em perguntar se eu estava me sentindo bem, afinal. Respondi que sim em duas das três vezes e ele concluiu, então, que eu devia ir embora.

Saí pela porta da frente do hospital, cambaleando como quem sai de uma festa sozinho. Desci o morro com cuidado para não tropeçar e enfim cheguei em casa. Houve um tempo em que morar perto do hospital já foi considerado um conforto. Tomei um banho rápido, porque ainda me sentia tonto de ficar em pé, e caí na cama para dormir ainda mais. Quem me curou foi o tempo: amanheci melhor no dia seguinte.


17
Ago 11
publicado por José Geraldo, às 18:00link do post | comentar

Ontem meu amigo Ronaldo Brito Roque, uma dessas inexplicáveis criaturas de Cataguases, brindou aos seus seletos leitores com um texto que realmente é destes que me dá vontade de ter escrito. Tenho isso, às vezes: leio alguma coisa e penso comigo que eu precisava ter sido o autor daquilo. O texto em questão é um delicioso conto sobre um restaurante que só serve três pratos; intitulados “o melhor”, “o médio” e “o pior”; e as reações dos fregueses a tal estranho cardápio.

Nas mãos de um reles autor de auto-ajuda isto provavelmente redundaria num texto de estilo parecido ao das “correntes de e-mail” que pululam na Internet, com uma moral bem tosca e óbvia ao final, para nos fazer ter algum tipo pasteurizado de “iluminação”. Mas Ronaldo Brito Roque não é um autor de tal naipe, mas um ironista hábil, que reduz a pó qualquer intenção moralista, e o texto termina mais fazendo troça do que ensinando.

Existem, claro, algumas falhas no texto. Especialmente o final, que poderia ter sido o melhor,* mas foi apenas o médio. Mas a habilidade do autor em evitar a pieguice faz com que o andamento geral da história recaia na sátira, e não na parábola filosófico-religiosa-self-service que agrada às massas.

Não vou falar muito mais sobre o texto, vou deixar que vocês o saboreiem com cuidado, e que se perguntem quantas vezes na vida não se contentaram em pôr umas alcaparras por cima de algo medíocre, torcendo para o cliente não saber reconhecer o melhor que você pode fazer.

*Pergunta-me o autor deste texto: “mas, afinal, de que forma você teria escrito o final?” É uma pergunta justa, tanto quanto é difícil de responder. É sempre muito mais fácil detectar algo “errado” do que sugerir o melhor conserto. Séculos antes da invenção do remédio a medicina já tinha o diagnóstico. Acredito que eu teria feito um final mais cético, no qual o cozinheiro não desse nenhuma lição de moral do tipo auto-confiança, valorização de si próprio, etc. Faltou ao cozinheiro um pouco mais de desprezo pelos fregueses. Não que uma dose extra de desprezo tornasse o texto mais crível. Literatura não tem que ser crível. Tem, aliás, que ser incrível. Coisas críveis eu leio nos jornais. Refiro-me apenas que tal atitude tornaria o todo mais harmônico. Pelo menos em minha modesta opinião.


30
Jul 11
publicado por José Geraldo, às 00:30link do post | comentar

Para autores, em sete lições

  1. Não os escreva.
  2. Se porventura acabar escrevendo algum, jogue-o fora.
  3. Se por razões pessoais não conseguir jogá-lo fora, esconda-o.
  4. Se tiver de publicar, não faça de seus amigos os seus fregueses. Amizade e negócios não combinam.
  5. Se vender a amigos e eles elogiarem, não peça detalhes. Evite a decepção de descobrir que estão elogiando porque são amigos, mas nem leram.
  6. Somente se pedir detalhes (oh, ousadia!) e eles disserem coisas que fazem sentido, suspeite que o livro seja mesmo bom.
  7. Nesse caso, chore os que jogou fora.

Para leitores, em dez lições.

  1. Leia a sinopse. Se a sinopse já é um ruim, imagine o livro.
  2. Não ligue para o prefácio. Prefácios são escritos por amigos, ou por alguém pago para isso.
  3. Desconfie dos livros que têm longas introduções e apêndices, a menos que o nome do autor seja John Ronald Reuel Tolkien. Se precisam de muita explicação, é porque não conseguem explicar-se por si mesmos.
  4. Antes de ler um livro de setecentas páginas escrito por um desconhecido, escreva aquele livrinho de cem páginas que ele também escreveu. Quem escreve mal um livro de cem páginas, dificilmente se sairá melhor num outro mais longo.
  5. Evite livros que tentam atingir vários públicos ao mesmo tempo. Imagine um automóvel ao mesmo tempo econômico, compacto, fora-de-estrada, familiar, de luxo e esportivo.
  6. Desconfie de livros ambientados em lugares inventados: é um truque fácil para esconder a preguiça de pesquisar sobre lugares reais ou a falta de vivência real do autor.
  7. Quando o autor diz ostensivamente que o livro é resultado de anos de trabalho, ele está implorando que você goste.
  8. Desconfie de apelos emocionais (livros que falam de algum lugar pobre, da guerra que está na moda ou de lugares recentemente focados pela “caridade” internacional.
  9. Fuja de livros que têm muitos erros de ortografia. Se a editora não corrige o que é mais fácil de detectar, então esqueça revisão estilística, aconselhamento editorial ou uma política de seleção focada na qualidade.
  10. Nenhum livro de auto-ajuda presta. Eu disse “nenhum”. Isto inclui este em que você está pensando e também aquele que mudou a sua vida, e também aquele que todo mundo leu. Se acha que presta, talvez seja hora de variar suas leituras. Quem só come arroz provavelmente não imagina o gosto que feijão tem.

31
Jan 11
publicado por José Geraldo, às 22:41link do post | comentar | ver comentários (1)

Se você vai a um restaurante e não está satisfeito com o ponto do bife ou com o tempero da sopa, não peça ao cozinheiro para dar uma passadinha a mais ou uma pitada extra de pimenta. Além de fazer o que você pediu ele provavelmente cuspirá na sopa ou acrescentará outro ingrediente que você não pediu. Talvez isso não seja mais feito em restaurantes super vigiados e com cozinhas abertas, como os que temos hoje, mas ainda segue sendo bom conselho: não gostou do prato, apenas não coma e diga que o apetite não bastou para tudo.

O que vale para restaurantes vale para qualquer serviço especializado. O profissional se ofende quando você lhe faz algum pedido ou sugestão. É quase automático que ele, além da mudança solicitada, faça outra com o objetivo de desandar o conjunto, para depois dizer que foi a sua sugestão que estragou tudo. Ele então se oferecerá para refazer e talvez até incorpore algo de suas sugestões, mas cobrará de novo porque foi “culpa sua” o que aconteceu da primeira vez.

“Que tal pôr a tomada aqui?” pergunta o inocente proprietário ao engenheiro elétrico. Ganhará naquele lugar exato uma tomada defeituosa porque naquele ponto da parede não havia “boas condições de fixação” ou porque “a distância até a fonte de força era muito grande”. “Eu queria um decote maior” pede a recatada mulher ao costureiro, que a brindará com um rasgo quase chegando ao umbigo porque “na verdade o tamanho anterior já estava no limite”. “O problema não requer formatar e reinstalar o Windows, é só a placa de rede que queimou ontem, o resto está OK” diz o freguês ao técnico de informática, que instalará a pior placa de rede do mundo (mesmo que tenha que encomendá-la da Bolívia no lombo de um jegue) apenas para poder dizer que o problema “também havia afetado a placa mãe” e “toda placa de rede vai funcionar mal” e “a solução agora é comprar outra placa mãe e outro processador”. “Não gostei da fonte, queria uma mais sóbria” diz o pobre autor ao designer de seu livro. Apenas para receber de volta um livro com fonte “mais sóbria” mas também de qualidade inferior a ponto de doer nos olhos.

O perfeccionista acaba vivendo o inferno de ser mal atendido por todos e a frustração de não poder se especializar em tudo.


09
Nov 10
publicado por José Geraldo, às 22:16link do post | comentar

Um livro “xarope” é aquele que consegue o milagre de ser enjoativamente doce, mas tem um gosto ruim. Geralmente você lê esses livros porque alguém diz que vai ser bom para você. O consumo frequente pode levar à dependência e o efeito do consumo é meramente sedativo daquilo que o incomoda.

  1. Personagens: anjos, duendes, fadas, gnomos, elfos e quaisquer seres que andem descalços, tenham asas ou andem com eternas expressões sorridentes no rosto.
  2. Imagens na capa: céu azul, sol poente, cachoeira entre pedras, flores, samambaias, animais selvagens correndo livres; qualquer coisa dessas.
  3. Palavras no título: amor, amizade, afeto, união, luz, palavra, vida, sentido, paixão etc.
  4. Quantidade de páginas: convenientemente fino, com não mais que umas 130 páginas.
  5. Tamanho das letras: 120% ou mais o tamanho normal que você vê nos outros livros. Um aumento imperceptível aos olhos dos fãs desses livros, mas que é visto facilmente por quem está acostumado com tipografia.
  6. Desenho interno: ornamentos florais separando seções, títulos de capítulo em fonte pseudo-manuscrita, títulos de capítulo escritos sobre um plano de fundo com reproduções em preto e branco do mesmo tipo de imagens citado no item 2.
  7. Desenho interno: impressão de texto em sépia, malva, violeta, azul-marinho ou verde.
  8. Ilustrações de pessoas (tanto na capa quanto no interior): faces inexpressivas ou aparentando dor ou êxtase, olhos voltados para cima, gestos simétricos, pose estática.
  9. Roupas das pessoas nas imagens: em estilo “bíblico” (pseudo hebraico antigo) ou “medieval” (ou seja, vestes semelhantes aos reis e rainhas da Renascença usadas por camponeses de uma suposta Idade das Trevas). Alternativamente, roupas contemporâneas, mas singelas e em cores suaves.
  10. Argumento de venda: “uma importante lição”, “ensinamentos para a vida”, “revelações importantes”, “descubra seu potencial” e coisas assim.
  11. Orelha, prefácio ou equivalente: quando existe, é assinado por algum líder religioso ou por alguém que se apresenta como executivo de uma grande companhia. Em geral um recomenda o outro, isso quando o autor não tenta ser simultaneamente os dois (“guru das vendas”, “mago da administração” etc.).
  12. Perspectiva de “desova”: pequena, pois todas as bibliotecas do seu bairro já devem ter, seus amigos já aprenderam a lição em algum grupo de auto-ajuda ou algo assim. Você vai tentar valorizar dizendo que é um livro que você jamais daria a alguém por causa de seu valor. Com isso, a única pessoa que talvez o aceitasse de você vai ficar resignada e comprar um.

27
Set 10
publicado por José Geraldo, às 22:20link do post | comentar

Há momentos na vida (ou na morte) que precisam ser encarados com relativa seriedade, ou pelo menos devem ter um mínimo de respeito. Se não pelos mortos, que não estão nem aí para o que vai ser dito ou cantado a respeito deles, pelo menos por causa dos vivos. Mas o ser humano, em sua insuperável capacidade de subir o tom da estupidez enquanto não encontrar alguma barreira, tem levado o significado dos rituais religiosos em funerais a limites além da imaginação. Sinceramente, funerais na Austrália, por exemplo, devem ser um barato.

Digo isso porque recentemente o Arcebispo de Melbourne resolveu proibir que em funerais e casamentos sejam executadas «canções românticas, música popular, rock’n’roll ou hinos de futebol». Se você possui um nível de insanidade relativamente baixo, como o meu, você leu esta notícia e imaginou que canções românticas estavam sendo cantadas em casamentos, música popular e rock’n’roll nos bailes que são dados após e os hinos de futebol… bem, caramba, onde é que hino de futebol pode combinar com casamento ou funeral?!

Diante dessa cruel dúvida eu fui pesquisar mais a fundo sobre o Arcebispo e sobre sua polêmica decisão. Logo de cara eu percebi que Dennis Hart deve ser uma pessoa normal: em 2009 ele foi processado por uma paroquiana a quem ele teria dito «Vá para o Inferno, vadia» quando ela o despertou às três da madrugada para pedir uma confissão. Dificilmente haveria algo mais apropriado para se dizer à alma desastrada que teve essa ideia infeliz de acordar o pároco tão tarde da noite. Se fosse uma extrema-unção ainda seria aceitável, mas uma confissão…

Portanto, tendo ficado estabelecido que o Sr. Arcebispo é uma pessoa sensata (porque alguém que não mandasse a beata pro Inferno não o seria), eu comecei a pensar que ele deveria ter boas razões para restringir o tipo de música que se pode tocar nos serviços religiosos católicos na Austrália. Um pouco mais de pesquisa e eu vi que não estava enganado. A medida pode ser um exagero, mas reações exageradas costumam ter motivações igualmente exageradas. Tal foi o caso.

Eu consigo imaginar razões para alguém desejar que um desafeto seja mandado para o além ao som de Highway to Hell (Rodovia para o Inferno), do grupo australiano AC/DC, cujo refrão («Estou dirigindo pela rodovia para o Inferno») é precedido da desagradável afirmação de que «Meus amigos todos já estão lá». Portanto, foi algo chocante para mim saber que houve funerais australianos ao som dessa canção. Igualmente chocante é imaginar um parente partindo ao som de Another One Bites The Dust (Outro Beija o Chão), que possui um verso que diz «Hey, eu vou pegar vocês também». Tenso. Muito tenso.

Só mesmo um genro aliviado, ou um marido muito sofrido tocaria no funeral de uma mulher a canção Ding Dong The Witch Is Dead (Ding Dong, a Bruxa Está Morta), do musical Mágico de Oz. Mas isso aconteceu. E certamente foi tão inesperado quanto o casamento ao som da «Marcha Imperial», de John Williams, aquele triunfante tema instrumental que acompanha o vilão Darth Vader em O Império Contra-Ataca.

Que fique, então, bem esclarecido que eu concordo com a medida tomada pelo Arcebispo. Mesmo tendo me casado ao som de A Whither Shade of Pale. Melhor mesmo proibir esses exageros, ou logo veremos gente sendo velada ao som do Falamansa: Ha ha ha ha ha, Mas eu tô rindo à toa. Não que a vida esteja assim tão boa, mas um sorriso ajuda a melhorar.


20
Set 10
publicado por José Geraldo, às 08:34link do post | comentar

Um mistério do Orkut de quase dois anos está prestes a terminar: a identidade de “Juninhuuu Ribeiro”, um fake que postava na comunidade Novos Escritores do Brasil um tópico intitulado “A Minha Saga”, no qual contava as aventuras pornográficas e escatológicas de um alter ego picaresco e inverossímil. Famoso pela “cheirada”, pelo “gol anal” e ereção no teatro; Juninhuuu era uma espécie de mascote da N.E.B., pelo menos enquanto a brincadeira teve graça (e a própria comunidade).

Muito bem, até aqui eu falei muito sobre ele, mas não os deixei tomar informações. Para quem deseja conhecer a “obra” de Juninhuuu, aqui estão os links para as duas únicas produções suas conhecidas:

O blogue também pode interessar, pois lá existem alguns textos avulsos do “poeta censurado”, como a aventura de Adamastor, o Explorado. Agora passamos a especular: quem é Juninhuuu?

Especulações iniciais

Eu sempre suspeitei que Juninhuuu estava equivocado artisticamente, mas que sua atitude tinha objetivos que iam além do texto. Embora na superfície o seu texto parecesse desconexo, nojento e machista — qualidades suficientes para que a maioria dos leitores não perdesse tempo em analisar — uma análise mais detida me sugeria que a pessoa por trás do personagem era alguém que sabia fazer melhor, ou que poderia, mesmo sem ter essa noção. Certamente Juninhuuu era um personagem criado por alguém que queria mostrar alguma coisa e a “ruindade” aparente de seu texto era obtida através de uma cuidadosa preservação de todos os erros cometidos durante a escrita, por acaso ou de propósito, que provavelmente era feita através de um processo de “escrita automática” análogo ao empregado pelos surrealistas e pelos médiuns.

Inicialmente as suspeitas sobre a identidade de Juninhuuu recaíram sobre Sinki e sobre mim, ou sobre nós dois, embora nunca tenhamos compartilhado sequer um parágrafo em um terreno comum quanto a estilo ou objetivos literários. Surgiram várias teorias, algumas decididamente mirabolantes, houve até quem dissesse que o personagem era criado e mantido por uma mulher — e logo se aventou a possibilidade de Ilka ou Kate estarem por trás disso.

O que sempre foi evidente era que Juninhuuu representava um Id, a parte reprimida e frustrada da personalidade de alguém que tinha certo talento com a escrita, mas que também tinha uma profunda revolta com alguma coisa — e que, no delírio expressivo do criador do personagem, nunca sofre as consequencias de seus atos. O estilo desenfreado, priápico e desbocado com que Juninhuuu se comportava era um desabafo de alguém que teria de ser o oposto disso em sua vida normal: controlado, relativamente casto e educado. Um personagem real que fosse como Juninhuuu, mesmo que parcialmente, não teria desenvolvidas as habilidades (verbais e informáticas) exibidas pelo dito cujo.

A Prova no senac

Quando essas teorias começaram a ser ventiladas, surgiu uma suposta prova que teria sido feita por ele. Curiosa essa prova. Para começar ela está assinada exatamente como “Juninhuuu Ribeiro”, o que é inesperado, se considerarmos que esse não deve ser o nome real de ninguém: pois ninguém se chama “Juninhuuu”. Mais curioso é que essa prova seja mencionada em “Minha Saga”, capítulo 9. Aliás, o capítulo 9 consiste dessa prova, exclusivamente.

Existem outros aspectos problemáticos em relação à prova, mas falemos do momento em que ela apareceu, justamente quando muitas teorias sobre Juninhuuu estavam circulando. Outro aspecto que vale a pena mencionar é que só conhecemos a segunda (ou terceira) folha da referida prova (a que o aluno chama de “concurso”): por que não existem imagens das outras folhas e por que uma escola como o senac não teria nenhum tipo de papel timbrado para fazê-las? Merece também atenção o fato de a prova não ter data, mas se supõe que seja recente, da década de 2000, mesmo assim Juninhuuu se identifica com o Kiss, uma banda de hard rock setentista que já sumiu de cena há muito tempo. Somente pessoas de mais idade do que dezesseis anos ainda teriam contato com eles. Um personagem tal como Juninhuuu pretende ser estaria mais identificado com o funk, o hip-hop ou o pseudopagode — no máximo com o sertanejo ou o forró. Supor que Juninhuuu seja fã do Kiss reduz a credibilidade do personagem, especialmente se considerarmos o resto de sua “obra” e o contexto social no qual o personagem se insere.

A Aventura Argentina

Depois de algumas discussões sobre sua identidade, Juninhuuu desapareceu, reaparecendo tempos depois com sua aventura escatológico-surrealista na Argentina, momento no qual toda pretensão de realismo desaparece e Juninhuuu deixa de ser um personagem viável para ser uma espécie de ícone das taras e frustrações de seu autor. Novamente desaparecido, ele retorna muitos meses depois com suas aventuras sexuais no teatro, depois desaparece outra vez e retorna com seu relacionamento com a professora e depois com a matrícula no colégio interno.

O segundo episódio, na Argentina, parece deslocado da trama, mas é emblemático do tipo de pessoa que o autor de Juninhuuu realmente é. E os argentinos são vítimas disso.

Evidências da Identidade de Juninhuuu

Claro que eu não posso dizer o nome do suspeito que tenho em mente, para não ser processado por calúnia (atribuir a autoria dos textos de Juninhuuu a alguém é quase um crime, se não for crime mesmo). Mas vou lhes dar muitas pistas interessantes, a partir das quais vocês poderão tirar as suas conclusões.

Vocabulário

Juninhuuu afirma (pág. 4): “eu nao estou nem aí pra inteligência”. No entanto, o vocabulário empregado por ele é curiosamente elaborado para um moleque “rebelde” e ignorante de dezesseis anos. Você já viu algum pivete por aí dizendo ler Álvares de Azevedo ou empregando palavras como “púbis”, “subversão da juventude”, “estático”, “precipitações”, “expressão corpórea”, “nudez pública”, “fumaça cancerígena ”, “mente incontrolável”, “porão medieval”, “gárgula voraz”, “prostíbulo”, “revolução doméstica”, “famílias perdidas do século 21”, “liberar minhas endorfinas”, “troglodita diplomata”, “ exposição peniana”, etc.?

O nível de vocabulário que Juninhuuu emprega é surpreendente para alguém que teria dezesseis anos e seria um rebelde sem causa. Ele emprega nada menos do que 1458 vocábulos diferentes ao logo de todos os capítulos da saga e mais o conto Adamastor. Pode parecer pouco, mas é palavra que não acaba mais se você considerar que uma pessoa de cultura mediana costuma se sair muito bem com cerca de seiscentas.

Mas o vocabulário de Juninhuuu não é apenas extenso: ele também possui certas especificidades, como uma estranha familiaridade com termos teatrais, como “palco”, “plateia”, “canastrona”, “ tablado”, “ensaio”, “apresentação” e com termos políticos de esquerda.

Sexualmente falando, Juninhuuu não narra nenhum episódio que envolva penetração, muito curiosamente, aliás, para alguém que fala incessantemente de sexo e tenha uma verdadeira obsessão em decantar o tamanho do próprio pênis.

O autor que está por trás do personagem Juninhuuu escreve melhor do que a média dos autores orkutianos: ele só comete erros ortográficos nas palavras de uso mais comum. As palavras raras que ele emprega são sempre escritas corretamente. Ora, o que será que isso quer dizer? Se você estivesse realmente lidando com alguém capaz de escrever tão mal quanto Juninhuuu, seria duvidoso que ele fosse capaz de olhar palavras difíceis no dicionário (ou que fosse querer). A explicação mais óbvia é que ele escreve errado de propósito um certo número de palavras (além de adotar certas convenções, como não escrever “não” com til e nunca empregar inicial maiúscula), mas deixa certas as palavras incomuns, para que elas possam ser reconhecidas. A verdade é que o texto do Juninhuuu comete erros calculados, que nunca atrapalham o entendimento do desenrolar da trama — sem falar que ele pontua melhor do que muita gente que é dona de comunidade no Orkut.

Mas ele não se limita a escrever corretamente, ele também as emprega corretamente. As palavras raras que Juninhuuu emprega estão sempre usadas em seu sentido normal. Ele aparenta conhecer e usar essas palavras com razoável frequencia.

Organização da Narrativa

Embora o texto seja calculado para parecer tosco (inclusive não empregando iniciais maiúsculas), a verdade é que a aventura de Juninhuuu ocorre de maneira sempre linear, em episódios que se sucedem e que são completos em si mesmos. Na verdade, os diversos episódios da “Saga” parecem seguir uma sequencia lógica, abordando cada aspecto das frustrações de um nerd adolescente:

  • Juninhuuu começa a história isolado
  • Mas vai para a “praça” tocar violão e fumar maconha
  • Ele se liberta da opressão em que vivia quando toma banho nu na chuva e sua nudez é admirada por uma “velha”
  • Ele se rebela contra a escola e “compra uma camisa do Che Guevara” para se tornar “revolucionário”
  • Depois de cometer um ato terrorista para reivindicar o asfaltamento de sua rua, ele pega o seu patinete e vai a um puteiro (sic)
  • No prostíbulo ele fica com três mulheres, mas se masturba sobre seus rostos
  • Ele se revolta contra a sua mãe e destroi a porta de casa para representar sua rebeldia contra a opressão do lar
  • Ele foge de casa e vive na rua, até finalmente ficar com fome e resolve roubar uma loja do Carrefour, momento em que faz um discurso nacionalista e denuncia aquela empresa (aparentemente Juninhuuu é esquerdista-nacionalista ou simpatiza com esta ideologia)
  • Ele segue uma mulata até um trio elétrico que estava passando, mas em vez de aceitar transar com ela, ele prefere subir no trio elétrico e tocar uma música do Iron Maiden, protestando contra a música tocada pelo trio elétrico. Ao fazer isso ele é perseguido pela multidão e tem de fugir e esconder-se.
  • Ele vai à Argentina, excursionando com o time de futebol do bairro, ocasião em que marca um gol “anal”, para espanto da torcida do Boca Juniors.
  • Para tentar fazer as pazes com a mãe Juninhuuu se inscreve num concurso do senac, mas não estuda e passa o capítulo inteiro tentando dar um jeito de não ser o último colocado. Nesse momento, como em vários outros, Juninhuuu expressa frustração por ver pessoas que parecem ser mais cultas e/ou inteligentes que ele mesmo.
  • Matricula-se em um curso de teatro, no qual tem de interpretar nu, em uma peça de teatro que representava um ritual satânico. Para tentar impressionar umas garotas ele se apresenta sob o efeito de Viagra, com o pênis preso à perna por uma fita adesiva, mas ao ver uma mulher dando de mamar a uma criança a fita adesiva não resiste e após uma série de peripécias que ocorrem num curto espaço de tempo ele ejacula inesperadamente sobre a atriz que fazia o papel da vítima do sacrifício, causando revolta de todos os demais atores e espectadores
  • Tendo voltado à escola (não se menciona quando) e correndo o risco de tomar pau, Juninhuuu resolve seduzir a professora porque acreditava que ela seria mais benevolente com as notas após uma “fudelança geral”. Sua mãe descobre tudo e o plano acaba dando mais certo do que ele mesmo esperava. Mais uma vez o “ato sexual” de Juninhuuu envolve masturbação, e não penetração.
  • Depois de passar de ano, ele é matriculado em um colégio militar, de onde é expulso após usar a bandeira nacional como papel higiênico duas vezes.

Outras Indicações

No capítulo 9 Juninhuuu deixa escapar que usa óculos — algo que não combina com um adolescente rebelde, mas com algum nerd que expressa suas frustrações através de um personagem como ele.

Juninhuuu é na verdade “Paulo”, nome do usuário do computador que compilou o PDF que ele disponibilizou para download.

“Paulo” é um usuário do Windows e formatou a “Minha Saga” usando o Microsoft Word.

Possivelmente Juninhuuuu se chame “Paulo Ribeiro Júnior”, mas é impossível saber se esse é o seu nome real ou se é o nome do personagem.

Evidentemente Paulo/Juninhuuu possui habilidades com programas gráficos e com desenvolvimento para a web, como se nota pelo blogue e pela formatação do PDF.

Juninhuuu já leu “Os Lusíadas” (ou leu algo sobre esse livro), pois caracteriza um “grande homem” que era “explorado” por “capitalistas” com o nome de Adamastor, curiosamente o nome do gigante que os exploradores portugueses avistam no Cabo da Boa Esperança durante a viagem em busca da rota para as especiarias. É inexplicável que uma associação de ideias sofisticada assim exista na cabeça de um mané qualquer, e é até possível que ela só exista na minha cabeça e a escolha do nome Adamastor seja casual.

A criação e divulgação via web da “prova do senac” indica que o criador do personagem Juninhuuu foi tão longe quanto possível para dar credibilidade à sua farsa. Mas com que objetivo alguém faria isso?

Os Objetivos de Juninho — Uma Especulação

O fato de Juninhuuu se identificar como “O Poeta Censurado” merece análise: é mais uma pista de sua identidade e um indício de seus objetivos.

Na Novos Escritores do Brasil nunca foi segredo que os poetas não eram bem vindos. Era política oficial, ditada pelo dono da comunidade, que os poetas só seriam tolerados postando seus textos no Tópico Único. Muitos foram expulsos por não aceitarem isso, muitos se sentiam tolhidos, censurados por isso.

Curiosamente houve um Paulo poeta que foi expulso por justamente rebelar-se. O “Paulo Palhaço” (como o chamávamos, por causa de seu avatar com o palhaço chorando) poderia ser um forte candidato a “pai” do Juninhuuu se a expulsão dele tivesse ocorrido antes, mas não é impossível que ela tenha acontecido mesmo antes, com outro perfil. Há muitos paulos nesse mundo.

Se o criador de Juninho for um poeta expulso então ele deve ter se sentido muito mal por ver tantos textos medíocres sendo aceitos e comentados enquanto o dele, apenas por ser em versos, fora rejeitado. Que melhor maneira de denunciar isso do que fazendo um terrorismo poético” e criando um texto em prosa, de qualidade propositalmente horrível, mas de acordo com as regras da comunidade (pelo menos até certo ponto). A aceitação do tópico, os elogios que receberia, etc. seriam motivo de chacota para o criador de Juninhuuu e para as demais pessoas que compartilhem do segredo (possivelmente mais de uma). Ver o dono da comunidade, seus moderadores e alguns de seus membros mais influentes tendo que lidar com aquele tópico cheio de grosserias (literárias e civis) era uma vingança por ter tido um texto poético chutado apenas por ser poesia.

Conclusões

Eu não sei se a partir de algum ponto o Juninhuuu adquiriu vida própria, se o seu criador passou a gostar da coisa e a usá-lo para extravasar as suas frustrações (algo que é possível), ou se ele continua sendo apenas uma destilação de veneno contra Sir Adryan Sinki Peruano Tinen e sua comunidade. Neste caso a pessoa por trás do personagem é realmente doentia, para além de sua fixação masturbatória e de outros indícios de desajustamento psicológico que transparecem do texto.

O que eu sei é que a cada dia fica mais clara a minha tese inicial, que na época ninguém levou a sério: Juninhuuu é uma grande brincadeira que alguém está fazendo (talvez inspirado em uma outra brincadeira que eu mesmo fiz certa vez, usando um fake meu). Em algum lugar alguém está rindo muito de tudo isso.


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Set 10
publicado por José Geraldo, às 22:29link do post | comentar

Talvez você nunca tenha ouvido falar da Máquina Dadá (“The Dada Engine”), mas este curioso software feito por um grupo de adolescentes americanos é uma das coisas mais revolucionárias em termos de literatura nos últimos cinquenta anos. O impacto de sua existência ainda não foi percebido porque ele ainda é relativamente difícil de configurar e de usar, mas no dia em que escrever uma gramática e um dicionário para um programa análogo à Máquina Dadá, metade da produção literária e musical do século XX deixará de ter valor, milhões de livros não serão mais que bonitos calços de móveis.

Vamos recapitular as coisas para vocês acompanharem meu raciocínio, porque a inspiração dessa conclusão me “eletrificou” de uma forma que eu ainda nem acabei de pôr minhas ideias em ordem.

Em 1917 um poeta romeno chamado Tristan Tzara vivia exilado em Zurique. Um belo dia, enquanto penosamente estudava francês com a ajuda de um dicionário ele teve uma “ideia” para uma nova forma de fazer literatura: recortou palavras a esmo em um exemplar do Le Figaro e as misturou em uma tigela, sorteando-as ao acaso. Aos “textos” assim obtidos ele chamou “dadaístas”. Há muitas lendas sobre a origem da palavra “dadá”, que significaria “cavalinho de pau” em francês ou que seria uma brincadeira com o hábito dos exilados romenos pontuarem sua conversa com a exclamação “Da, da!” (“Sim, claro que sim”). O fato é que muita gente embarcou na onda da livre-associação de palavras, acreditando que essa nova literatura, que buscava ter acesso a insights interessantes da psique humana a partir da contemplação de palavras aleatórias. Carl Jung, o psicólogo, não deu-lhe muita importância: “É idiota demais para sequer ser doentio.”

Um pouco mais tarde surgiram os surrealistas, que acreditavam no poder da imaginação desenfreada para criar obras livres das amarras do academicismo. Os concretistas, que negavam toda forma de inspiração não-racional e produziam obras mais para sere vistas do que lidas, etc.

Quase todos estes estilos tiveram em comum o ataque à coerência do discurso da palavra, da intencionalidade. E é justamente aqui que a Máquina Dadá desfere seu golpe devastador na arte que se construiu sobre estas premissas, especificamente falando da arte literária construída desta forma. A Máquina Dadá é um software que gera textos.

Sim, textos. O nome não é casual. Os autor Andrew C. Bulhak (o site “Null Device” não indica o autor, mas seu nome é conhecido) quis intencionalmente referir-se a Tristan Tzara recortando palavras de jornal e sorteando-as de forma a produzir “textos”. Só que a Máquina Dadá faz melhor do que ele: ela produz textos sempre legíveis em a necessidade de adição de quaisquer artifícios, embora normalmente tais textos sejam absurdos.

Existem poucas aplicações práticas da Máquina Dadá porque programá-la para obter bons resultados é algo bem difícil. Requer um arquivo de “dicionário” no qual as palavras estejam devidamente identificadas com sua função e um arquivo “gramática” no qual as regras de formação e pontuação de frases estão fixadas. Tendo os dois, a Máquina Dadá sorteará palavras a partir de um conjunto de textos, segundo as regras dadas, e cuspirá de volta novos textos que refletirão de alguma forma a “inspiração” do original.

Vocês estão entendendo as implicações disso? Se um software é capaz de produzir textos legíveis a partir de um conjunto de arquivos de referência, então QUAL O VALOR ARTÍSTICO DE UMA OBRA QUE, no fim das contas, NADA MAIS É DO QUE UM TEXTO PRODUZIDO ALEATORIAMENTE? Qual é o caráter artístico de um texto que não se diferencie de outro produzido por uma máquina? Vejamos alguns exemplos de aplicações da Máquina Dadá para deixar as coisas mais claras.

O primeiro exemplo de Máquina Dadá é o “Gerador de Ensaios Pós-Modernos” do blog Communications from Elsewhere. Esta máquina dadá gera artigos de “Ciências Sociais” sobre temas como metalinguística, sociologia, semiologia, etc. Os autores tiveram o cuidado de usar referências fictícias para evitar processos dos autores satirizados (Husserl, Rossett, Eco, Foucault, Jakobsen, etc.) ou de suas famílias, mas aos olhos do leigo, os textos do gerador de pós-modernismo não são distinguíveis dos legítimos ensaios produzidos pelos mais famosos autores destas áreas.

O físico americano Alan Sokal foi bem-sucedido em submeter um ensaio absurdamente idiota produzido pelo gerador de pós-modernismo, com algumas modificações nas referências e na introdução e na conclusão, à revista americana “Social Text”, no que ficou conhecido como o “Caso Sokal”, que gerou graves discussões no meio acadêmico.

Americanos satirizam algumas universidades que consideram “de terceira linha” obtendo pós-graduações nelas usando textos gerados eletronicamente por uma versão da “Máquina Dadá” que circula entre a comunidade hacker americana como um quase segredo de estado. Estima-se que até 30% das pós-graduações em algumas universidades americanas são obtidas de forma fraudulenta. Se os estudantes brasileiros aprenderem a programar uma máquina dadá só Deus sabe aonde isso vai parar.

A versão mais popular da Máquina Dadá é conhecida como “Gerador de Nomes de Grupos de Rock”. É uma dos muitos “Geradores” hospedados no site Generator Land. Trata-se de uma aplicação bastante simples, de gramática fácil de programar: baseia-se na seleção de uma determinada quantidade de termos (um, dois ou três; fora os artigos e preposições) que são pescados de uma lista de nomes de grupos musicais que realmente existem ou existiram. Brincando com essa máquina em alguns minutos eu produzi nomes hilários e interessantes, como “the Small Mice” (os Ratinhos), “the Plague of Fingers” (A Peste dos Dedos), “Invisible Clowns” (Palhaços Invisíveis), “The Kamikaze Peace Makers” (Os Pacificadores Kamikazes), “Bag of Hogs” (Saco de Porcos), “Unholy Bone” (Osso Sacrílego), “Ganja Market” (Mercado de Maconha), “A Pool of Devils” (Uma Piscina de Diabos), etc.

Outras aplicações mais complexas da “Máquina Dadá” que podem ser interessantes são o Gerador de manifestos políticos, o Gerador de textos criacionistas, o Gerador de papo de advogado e o Gerador de xingamentos e Todas estas estão hospedadas no site Herbert, The Little Red Haired Girl (atualmente parece haver um problema de configuração com estes scripts, que não estão funcionando).

As aplicações a seguir não são máquinas Dadá, mas se inspiram nela ou seguem os mesmos princípios:

  • O gerador de ensaios em ciência da computação SciGen
  • O gerador de mensagens suicidas Orkuticídio
  • O gerador de novelas românticas NovelWriting (atualmente fora do ar)
  • O gerador de poemas românticos e letras de música pop Poem Generator

Este último produz textos romantiquinhos melosos e convencionais do tipo que “poetas” adolescentes escrevem, a partir de uma série de palavras informadas em um formulário: fruta preferida, adjetivo em que você está pensando, flor mais bonita, instrumento musical, nome de mamífero, nome de ave, peça de roupa, um nome, uma parte do corpo, um tipo de barulho, uma outra peça de roupa, outro substantivo, uma bebida, etc.

Utilizei o Poem Generator e obtive o seguinte texto:

Your skin glows like the Orange,blossoms Purple as the Rose in the purest hope of spring.My heart follows your Guitar voiceand leaps like a Jaguar at the whisper of your name.The evening floats in on a great Hawk wing.I am comforted by your Socksthat I carry into the twilight of Moonbeams and hold next to my Leg.I am filled with hopethat I may dry your tears of Wine.As my Eye falls from my Face,it reminds me of your Strangeness.In the quiet, I listen for the last Rap of the day.My heated Ear frets my Jacket.I wait your coming in the moonlight through your secret Stairwayso that we may Share as one, Ear to Ear,in search of the magnificent Red and mystical Madness of love.

Uma tradução, para benefício de quem não fala inglês:

Sua pele reluz como a laranja,floresce roxa como uma rosa na mais pura esperança de primavera.Meu coração segue sua voz de guitarrae salta como uma onça ao ouvir o seu nome.A noite flutua até mim nas grandes asas de um falcão.Estou confortável entre suas meiasque me levam ao crepúsculo banhado em luar que tenho junto às pernas.Estou preenchido com a esperança de que secarei o vinho de suas lágrimas.Enquanto meu olho cai de minha face,ele me lembra sua estranheza.Na quietude, eu ouço a última batida do dia.Minha orelha quente se esfrega em meu paletó.Eu espero você vir à luz da lua, por sua escadaria secretapara que compartilhemos, como um só, orelha a orelha,a busca da magnífica loucura do amor, vermelha e mística.

Não ficou grande coisa, mas desconfio que se alguém postasse isso em um blogue acharia quem gostasse. Por fim, não custa lembrar um produto nacional semi-equivalente, o “Fabuloso Gerador de Lero-Lero”, que produz ensaios de administração de empresas melhores do que a maioria das apostilas da matéria…

A conclusão de tudo isso, que se formou em minha mente, é a de que não haverá mais como enxergar valor em obras de arte literária, a menos que elas contenham “algo” que não pode ser produzido por um programa de computador. Debatamos em que consiste esse algo, mas vamos deixar de lado a ilusão de que podemos fazer algo de valor sem colocar nossa humanidade, nossa sofisticação.


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