Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
23
Jan 13
publicado por José Geraldo, às 20:00link do post | comentar
Um dia, conversando casualmente com o meu amigo e também escritor Emerson Teixeira Cardoso, ele me contou uma história curiosa que se passou com ele nos anos 1960, época em que era ator amador em nossa Cataguases natal. Uma história cuja moral, se é que existe alguma, demorei muito para entender.

Era de um grupo não apenas amador, mas também autodidata, que encenava peças diversas na base do amor e do instinto. Certa vez, enquanto ensaiavam para a montagem de “Rinoceronte”, do Eugène Ionescu, calharam de ter a ideia de escrever ao então famoso dramaturgo romeno exilado em Paris, autor da peça. Não sei como conseguiram o endereço, mas conseguiram, e um dos membros do grupo sabia francês, coisa que se sabia naquela época muito mais do que hoje.

Após várias hesitações sobre o conteúdo da carta, que acabou sendo um trabalho escrito a muitas mãos, decidiram que a carta seria mais ou menos assim. Começariam se apresentando como um grupo de teatro amador, localizado no interior do Brasil, em uma cidade que tinha, à época, cerca de 30 mil habitantes. Depois de enfatizarem que tudo o que sabiam de teatro haviam aprendido dos livros que haviam lido sobre o assunto e das peças que haviam ousado encenar, descreviam com minúcias as dificuldades por que passavam e a incompreensão que enfrentavam (e apesar de tudo uma peça teatral daquelas deve ter tido mais público em 1969 do que teria hoje, na mesma cidade, já crescida e mais “desenvolvida”). A carta concluía com uma pergunta ao dramaturgo, como se ele fosse uma espécie de oráculo: “o que devemos fazer?”

A resposta de Ionescu veio quase três meses depois, quando a peça já tinha sido apresentada todas as duas ou três vezes que poderia ser. Era uma frase única, seca, isolada no centro de uma folha de papel ofício:

« tuez-vous »

Meu amigo me contou que todos ficaram perplexos com aquele imperativo formidável pousado na página como um abutre, sutil como uma chifrada de rinoceronte. Não sei se meu amigo já desenvolveu uma teoria sobre as motivações do conselho de Ionescu, ou mesmo se existe uma razão para ele, além do mau humor de um exilado que devia receber centenas de cartas de fãs cada dia.

De fato, tendo refletido posteriormente sobre o enigma desta frase, ainda mais pela carga de gravidade que a exiguidade lhe empresta, eu desenvolvi uma teoria, que vai muito ao encontro (e às vezes de encontro) de certas ideias que eu advogo desde os tempos da revista literária trem azul.

Ionescu, ao tomar conhecimento da existência, no interior do Brasil, de um grupo de pessoas que se dedicava a estudar teatro a partir de livros e montar precariamente as peças teatrais escritas por famosos dramaturgos como ele, deve ter se sentido bastante incomodado com a pergunta que ainda hoje não quer calar em mim quando vejo algo equivalente: o que essa gente pensa que está fazendo?

Veja bem você, vivendo em uma realidade tão específica, e tão oposta à Europa do pós-guerra, enfrentando tantas restrições que te impedem de efetivamente ter acesso à cultura cosmopolita, em uma sociedade que de forma alguma valoriza seu esforço ou compreende o seu trabalho. Se tudo que você faz é tosco, se os seus aplausos são a compaixão de amigos e parentes, se o seu entendimento de teatro se limita aos livros, se seus meios lhe obrigam a improvisar, deformando a cenografia pensada pelo autor etc. Se esta é a sua realidade, você tem mais é que se matar mesmo. Se você vive de costas para a cultura do seu país e busca, ainda que instintivamente, a aprovação de um autor que, por mais talentoso que seja, pertence a outro continente, e praticamente a outro século, então você está se anulando para poder abrir espaço para a imitação do outro. Se você se anula, você se mata metaforicamente. Se você já está morto, matar-se não é uma violência tão maior. Acabe, então, com o serviço já começado. Mate-se.

“Matar-se” adquire, então, um caráter de libertação. Ionescu sabia que os jovens não se matariam por causa de sua frase (que se matassem, porém, se quisessem, que ele provavelmente nem ficava sabendo). Mas ao serem provocados desta forma, certamente eles tiveram uma sacudida que lhes fez pensar muito sobre suas vidas, sua cultura e seus valores.

Talvez tenham se tornado como aquele que, porém, recusa-se a obedecer a esta ordem e, em vez dela, brada de volta aos modelos e ídolos, cuja aprovação inutilmente buscara:

« je tuerai vous »

Com esta determinação em mente, seguir a vida fica mais fácil, porque temos uma desculpa para vivermos. Se não temos um norte, fica fácil seguir o conselho de Ionesco, aliás, o seguimos em modo automático o tempo todo. Talvez, se o norte for firme e a vontade vier acompanhada de algum engenho, talvez não seja preciso confrontar assim, mas com uma frase mais sutil:

« je survivrai »

Porque, talvez, a melhor reação diante de uma determinação que nos destrói não seja destruir o que nos ameça, mas sobreviver. Às vezes a destruição do inimigo nos destrói também.

Pensando desta forma, quer tenha Ionesco pensado assim ou não, o conselho adquire um caráter de verdadeiro oráculo, e os jovens cataguasenses acabaram tendo na mão o direcionamento que esperavam, apenas não da forma que queriam.

19
Dez 12
publicado por José Geraldo, às 22:33link do post | comentar
Na "praça de alimentação" de um grande shopping em uma cidade razoavelmente grande as pessoas, de vários tamanhos e cores, se amontoam em torno de mesas e competem pela atenção dos garçons. Termino de comer um sanduíche, sem me sentar e vou saindo daquela aglomeração opressiva quando percebo um diálogo divertido acontecendo numa das mesas. Aparentemente uma moça pedira licença a um desconhecido para se sentar em sua mesa, e ele aproveitara a oportunidade para apresentar-se e tentar alguma coisa.

A moça, de cabelos pintados de roxo/rosa/burro quando foge, parece mais preocupada em mastigar trocentas vezes os talos e folhas insossos pelos quais está pagando o preço de um prato gordo e nutritivo. Só ele, o estranho, fica sintonizado em outro canal. Enquanto ela ataca outro naco de brócolos com o garfo, fingindo-se interessada na parede pintada de curioso amarelo, o homem gesticula devagar, mas com amplitude, como se quisesse que ela acompanhasse cada dedo.


— Pois sou eu — ele explica. Nunca ouviu aquela minha música que estourou ano passado? Eu estou muito diferente da imagem no vídeo?

Ela o observa rapidamente. Está claro que não se lembra, que acha que o estranho de sotaque cantado e cabelos compridos é só um maluco que se acha celebridade.

A cena me captura a atenção. Simpatizo-me com o homem. Ele não é nem um pouco bonito, a sua fala denuncia uma cultura rudimentar, os seus modos são tímidos, a sua roupa não parece ser a de um astro da música. Mas ele tem um difuso ar "artístico" e os seus olhos contemplam a cabeleira afogueada da garota com um fascínio que o justifica.

Ela, porém, nem parece digna da atenção do pobre cantor anônimo. Embora bonita, ela tem um jeito comum, esquecível, anódino. Uma beleza que vai passar, e sem ela não ficará muita coisa digna de nota. Só que, enquanto jovem e com a tintura fresca na cabeça, ela se acha melhor do que ele, ou eu acho que ela se acha. Por isso ela o contempla com enfado, com um certo arrependimento de não ter comido em pé como eu, junto ao balcão. Pelo menos o funcionário do restaurante tem uma aparência mais moderna e descolada que o cantor, exibindo um cabelo armado e alguns brincos pelas orelhas e cara.

Resolvo traduzir minha simpatia num gesto. Aproximo-me da mesa, faço a melhor cara de surpresa que consigo fingir e digo, imitando uma certa alegria que eu não tenho muito:

— Não acredito! Mas você!… Você, aqui?

O cantor ergue os olhos dos peitos murchos de sua musa e me vê, diante dele, com uma caneta e um bloquinho de notas. Deve ser o primeiro autógrafo que dá nesta cidade, onde não o conhecem ainda. Ele estende a mão como quem tateia o futuro. Treme e treme mais. Mas quando se apossa da caneta, é como se tivesse pego uma espada mística para se transformar em um super herói. Enrijece a coluna, firma os dedos e perpetra os rabiscos que eu esperava.

— Muito bacana o seu novo DVD. Vai cantar na cidade hoje?

— V-vou, vou sim! — ele responde, positivamente embasbacado. Ali tem um cartaz.

Olho na direção indicada e vejo um pequeno anúncio em poucas cores, perdido numa pilastra.

— Vou estar lá para te ver, matar saudades do verão passado, sua música bombava lá na praia.

Despeço-me educadamente e saio de perto dos dois, com a certeza de que não compraria ingressos para vê-lo cantar, nem se fosse o último espetáculo da terra. Mas antes de sumir da vista, olho para trás e vejo o cantor, de óculos escuros, abraçado à garota de cabelos roxo/ruivos enquanto uma outra registra o momento para a posteridade.

04
Jul 12
publicado por José Geraldo, às 19:37link do post | comentar
Era 1993 e eu estava voltando da faculdade, tarde da noite. Havia um burburinho de flamenguistas em um bar assistindo Boca x Flamengo. Os argentinos ganhavam por 1 x 0. Aproximei-me receoso para ver o placar e justo quando cheguei os argentinos marcaram. Gritei Goooooooooooooool e de repente me vi cercado de olhares ferozes. Algumas pessoas se levantavam da cadeira. Sebo nas canelas. Mas era difícil correr gritando— Felizmente sobrevivi para contar a história, e sobrevivi feliz!

09
Mar 12
publicado por José Geraldo, às 21:57link do post | comentar

…ou não andavam tão bem acompanhados. Era um mundo melhor, no qual você não se fazia ouvir nem na esquina, mas podia pelo menos desfrutar da doce sensação de que as suas ideias não seriam incompreendidas e ridicularizadas por idiotas.

O ser idiota é um ser coletivo, gregário, agremiado, associado, mesmo que informalmente. Ninguém consegue ser realmente um idiota quando está sozinho porque o eco das paredes nos dá a estranha sensação de que não somos geniais ou, ainda pior, de que nossa genialidade nunca será compreendida. Em ambos os casos poupamos o mundo de nossas palavras por tempo suficiente para que amadureçam, ou amadureçamos, ou emudeçamos, ou apodreçamos.

Um grupo de pessoas apenas moderadamente bobas pode transformar-se em uma turba vociferante de trogloditas. Um babaca não comprará uma briga contra o carinha que lhe «olhou torto» na rua, um grupo de babacas pode massacrar um mendigo pelo prazer de ouvir ossos quebrando. Coletivamente, a idiotice se potencializa. Mas remova cada um dos idiotas de seu bando e você terá um gatinho educado. Sem «amigos lá fora» para impor sua interpretação idiota do mundo, o gatinho aprenderá a negociar, a conversar. Esta é a grande virtude das prisões: as prisões deveriam ser o «cantinho pensamento» para os meninos maus da sociedade. Infelizmente, vivemos numa sociedade em que os castigos são vistos como manifestações autoritárias da tradição. Talvez sejam, mas negociar uma entrada honrosa no mundo adulto é algo que já saiu meio de moda. Todos querem entrar arrombando, pisoteando, idioteando.

O mundo era melhor no tempo em que não havia tantos bandos de valentes, no tempo em que os valentes se orgulhavam de resolver sozinhos. Hoje em dia, já que estamos ficando modernos, resolvemos redescobrir a Idade Média e trouxemos de lá o que os franceses chamavam de melée, a guerra bruta e desorganizada que só terminava quando os vivos começavam a tropeçar demais nos mortos. A guerra estúpida e bárbara contra a qual a civilização procurou impor códigos de cavalaria, tréguas dominicais, direitos de asilo, honra militar etc. Briga em porta de escola é um choque de bandos, ninguém ali possui individualidade, são idiotas que se entregam ao espírito do bando — e todo bando é necessariamente idiota, todo partido é utópico, toda associação é ingênua, todo grupo é meio besta. Houve um tempo em que afirmar-se como indivíduo era sinal de honra. Hoje, a folha de grama que se destaca é aparada.

Conformem-se, garotos que estão hoje nas escolas. Vocês não terão a permissão de viver com a liberdade que eu vivi. Eu vivi sob uma ditadura os meus tempos de escola, mas vivi mais livre do que vocês. Porque as correntes com que nos amarramos a nós mesmos são as mais difíceis de romper. Quem romperá a corrente de massificação, de idiotização? Experimente gostar de uma garota diferente, ouvir uma música diferente, passar por uma rua diferente, vestir-se com uma roupa diferente. Escárnio, no começo, xingamentos, pouco depois, talvez uma pedrada na testa ou, se for possível, um linchamento. Moral ou físico, já tanto faz. Não existe muita vida depois que você perde o direito de ser você mesmo. E passa a ser um dos idiotas do bando.


14
Jan 12
publicado por José Geraldo, às 15:57link do post | comentar

Reconhecidamente autor de obras insuportáveis para quem efetivamente lê, em vez de comprar para enfeitar estante ou para ter «lições de vida», Paulo Coelho se tornou o pivô de uma curiosa briga na internet nas últimas semanas. Eu, como sempre, marido traído em matéria de notícias culturais, fiquei sabendo só agora. Em uma postagem no Twitter, o Mago chamou de insuportável o novo livro de Mário Sabino. Achei a atitude do mago bastante imoral, embora o livro criticado seja mesmo, provavelmente, difícil de suportar. Para que o leitor possa entender as razões de meu julgamento, vou fazer um apanhado da história.

Mário Sabino é um jornalista brasileiro. Como muitos jornalistas, tem uma plataforma gratuita para lançar-se como autor literário (mas provavelmente vociferou contra a derrubada da exigência de diploma para o exercício do jornalismo e não aceitaria que autores literários tentassem a mão no jornalismo). Mário Sabino, ao que parece, nunca se notabilizou como repórter, mas chegou a cargos de mando relevantes em publicações como IstoÉ e, até recentemente, Veja. É um cara de ultra-direita (se for sincero), ou totalmente prostituído para a direita (caso não seja). Não tenho problemas com sua ideologia: apenas discordo antipodamente dela (em qualquer das hipóteses). Não estou aqui para falar de sua postura profissional, e nem sequer de suas qualidades de autor, mas do entrevero Sabino/Coelho. Quem não quiser ler a minha versão, pode procurar no Google, que está bombando com o assunto, ou ler a resenha do Luiz Nassif, um jornalista que, a julgar pelo que escreve, deve ser uma ótima pessoa (não o conheço pessoalmente).

Na qualidade de editor-chefe da revista Veja, Mário Sabino sofreu vários tipos de críticas quanto à sua conduta profissional. Estas críticas não me interessam. O que me interessa é que este período de sua vida coincidiu com o início de sua carreira literária. Tal como eu, Sabino é um late bloomer, ou seja, só começou a publicar tardiamente. A diferença é que eu publico em editora pequena e tenho quase nula repercussão. Sabino, devido ao poder emanado de sua condição de manda-chuva editorial de uma das principais publicações do país, publicou pela Editora Record. Tal como muitas celebridades, vendeu muito, mais pelo nome conhecido e pela divulgação recíproca entre seus pares. Provavelmente teria vendido algumas dezenas de exemplares apenas, se em vez de editor-chefe da veja ele fosse editor-chefe da Folha de Cabrobó ou da Gazeta Leopoldinense. É preciso desconfiar do sucesso que é alimentado pelo poder.

Pelo que pude verificar, Sabino publicou quatro livros durante sua fase na Veja (não sei e não quero saber se publicou algum antes): dois romances e dois volumes de contos, a saber:

O Dia em que Matei Meu Pai
Romance, traduzido para italiano, espanhol (Argentina), francês, holandês, inglês (Austrália e Nova Zelândia), coreano e romeno. Republicado em Publicado em Portugal. Ou seja: deve ser um livro razoável, ou não teria atraído tanta atenção. Se bem que ficou notoriamente fora de países importantes do mundo literário, como Espanha, México, Rússia, Polônia e Alemanha, e certas traduções foram publicadas na periferia (em inglês, na Austrália e Nova Zelândia, em espanhol, na Argentina). De qualquer forma, eu estaria rindo de orelha a orelha se tivesse tido repercussão igual.
O Antinarciso
Coletânea de contos, vencedor do Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional.
A Boca da Verdade
Coletânea de contos. Ao contrário dos dois livros anteriores, nem foi traduzido no exterior e nem ganhou prêmio.
O Vício do Amor
Romance, publicado recentemente, e pivô da crise com Paulo Coelho.

Na época em que era editor-chefe da Veja, os livros de Sabino foram bastante elogiados na imprensa brasileira. Aliás, os elogios e a vendagem de tais obras foi alvo de uma controvérsia, com suspeita de manipulação da lista dos Mais Vendidos, além de certas relações inadequadas no mercado editorial.

Nada disso importa, porém, se considerarmos que, por medo ou indiferença, os livros de Sabino eram elogiados (ainda que esses elogios fossem ouvidos apenas pelo eco), foram vendidos e foram promovidos na grande imprensa. Paulo Coelho, por exemplo, jamais se manifestara sobre o caso. E tinha direito, visto que ser autor de obras insuportáveis não impede um crítico de detectar a insuportabilidade alheia. Como meu dentista certa vez disse: «mau hálito você só sente o dos outros». Falta de talento é uma espécie de «mau hálito», mas, em nome da higiene universal da arte, não devemos esperar que somente os de boca limpa tenham o direito de se incomodar com o hálito alheio.

Acontece que Mário Sabino foi demitido (ou demitiu-se) da Veja no final do ano, em circunstâncias ainda misteriosas. A ser verdade o que se especula por aí, sua saída, se por demissão, foi em condições tão desfavoráveis que dificilmente ele ainda terá um futuro no ramo. Espero que tenha uma boa poupança. E não demorou para que se manifestassem alguns que permaneceram em silêncio durante todo o tempo em que Sabino detinha o poder fulminatório da Veja em suas mãos. Veículos de imprensa, como o Valor Econômico (que é um jornal de economia, não de literatura) e a Folha de São Paulo não perderam tempo em atacar-lhe justamente no que um autor (bom ou mau) tem de mais sensível: a sua auto-estima de criador. Depois que o inimigo é derrotado, aparecem muitos heróis para ir no campo de batalha cuspir nos cadáveres, dizia um antigo ditado polonês (ou iídiche, não consegui descobrir). Além de perder subitamente seu poder de editor-chefe da maior revista deste país, Sabino ainda foi chamado de vários adjetivos.

E justamente Paulo Coelho, notório autor de livros insuportabilíssimos, tuitou que o último livro de Sabino seria insuportável. A julgar pelas resenhas, deve ser mesmo. Mas por que razão será que Paulo Coelho deixou para falar mal de Sabino apenas depois de ele ter perdido seu emprego na Veja?

Em tempo, se alguém quiser tuitar que meu livro é insuportável, favor deixar o link do blogue e da editora. E se tiver mais artigos interessantes, talvez eu ponha no blogroll.

P. S. — não se trata aqui de ficar implorando por atenção. A questão é que, para um autor, a divulgação de seu livro é sempre interessante, mesmo que seja uma divulgação negativa. A literatura é uma das únicas profissões na qual um renome, mesmo horrível, ajuda a vender. Além do mais, ao contrário de certos autores, eu já desencanei de minha obra, e vejo os comentários, mesmo os mais críticos, com distanciamento. Quem não consegue esse distanciamento (e parece que o Mário Sabino ainda não consegue) acaba desestimulando a crítica, ou fazendo com que ela se torne rancorosa.


07
Set 11
publicado por José Geraldo, às 15:57link do post | comentar | ver comentários (3)

Reza uma lenda urbana que um certo cantor gaúcho certa vez entrou em um boteco e encontrou um palhaço comendo uma coxinha com Coca-Cola. Um palhaço desses que animam festa infantil e vendem balões na praça. Dizem que o famoso cantor, bêbado ou drogado (sabe-se lá), implicou com palhaço dizendo-lhe: “Ei, palhaço, faz uma palhaçada para a gente aí”. O palhaço, talvez já de paciência esgotada por aguentar crianças, ou por não ser a primeira vez que lhe provocavam, deixou a coxinha sobre o balcão e sentou a mão na cara do cantor, que saiu rodopiando e caiu de cara na calçada, para gargalhadas gerais dos frequentadores do lugar, e arrematou: “Sou palhaço para quem me paga.”

Esta história — verdadeira, segundo juram os alfarrábios da música brasileira — encerra uma importante moral, aliás, duas importantes morais. A primeira é que as pessoas não costumam ser em sua vida pessoal a mesma coisa que em sua vida profissional. Aquele palhaço era um anjo de paciência com as crianças porque ganhava a vida suportando-as, mas não tinha nenhuma obrigação de ser paciente com bêbados, mesmo que famosos ou pseudo-famosos. A segunda lição é que é uma ofensa pedir ao profissional que faça de graça para você algo que ele faz por dinheiro. O palhaço ganhava a vida fazendo palhaçadas, mas cobrava por isso. Fazer uma palhaçada para o cantor ver seria ridículo.

Acredito que todo profssional tem a sua dignidade, mesmo aqueles a que as pessoas costumam dar valor — como palhaços e escritores. Seja lá o que for que o sujeito faça para ganhar a vida, se não é crime e não faz mal a ninguém, é um meio honrado de ganhar a vida. Merece respeito. Não é porque você pinta a cara com uma maquiagem engraçada que você passa a ser uma pessoa inferior. E nem porque sua arte é ingênua e aparentemente fácil (digo aparentemente, porque não é realmente fácil fazer uma criança feliz).

Mas em geral as pessoas tendem a achar que as pessoas que fazem arte não precisam ou não estão interessadas em dinheiro. Pedem uma “palhinha” para o amigo músico, acham feio o amigo escritor querer vender-lhes o seu livro em vez de dar de presente, querem que o humorista conte suas piadas na mesa do bar. Dizem que o falecido comediante Bussunda certa vez protagonizou um caso desses, ainda no começo da carreira, quando a sua fama de mal-humorado ainda era pouco conhecida. Um parente de um amigo a quem foi apresentado pediu-lhe para ver se ele era mesmo engraçado, pediu-lhe que contasse uma piada. Bussunda se prontificou a contar a piada, mas antes pediu licença ao novo conhecido porque precisava de um favor. Sabendo que o sujeito era médico, começou a descrever-lhe uma série de sintomas e a pedir-lhe opiniões sobre medicamentos. O homem o interrompeu dizendo que não poderia dar uma resposta ali no palco e o convidou para ir ao seu consultório. Bussunda, então, retrucou que não poderia fazê-lo rir ali e o convidou para ir assistir ao espetáculo que estava fazendo (“A Noite dos Leopoldos”) ou comprar um dos livros que fizera ou então assistir ao programa na televisão (na época acho que ainda era o “Dóris Para Maiores”).

Essas histórias me chegaram, todas, por e-mail. Enviadas por conhecidos, alguns escritores outros não, quando chegou-lhes ao conhecimento que eu estou com meu primeiro livro publicado. Alguns ainda me criticaram por publicar quase tudo que escrevo neste blog.

Se você vendesse salgadinho na rua, não sairia dando quibe de presente. Mas você escreve ficção, e fica distribuindo de graça no blog. Você não deveria dar de graça aquilo que você tem para oferecer.

Tudo isso me faz pensar, especialmente considerando a ameaça que a internet realmente representa para o futuro da arte. Um músico pode dar de graça as suas gravações e tentar viver de suas apresentações ao vivo. Mas se eu dou de graça as minhas “escreveções”, onde vou me apresentar ao vivo como escritor para ganhar a vida? Aliás, o que seria a apresentação ao vivo de um escritor, seria eu me sentar na praça com um laptop e escrever as histórias das pessoas que passarem? Alguém vai parar para ver? Alguém vai pagar?


28
Ago 11
publicado por José Geraldo, às 19:20link do post | comentar | ver comentários (4)

A falta de profundidade é uma necessidade quando se escreve para pôr no Orkut, onde textos mais complexos geram comentários depreciativos de pessoas que os consideram… complexos demais. Felizmente já há um bom tempo em que eu não levo o Orkut tão a sério e brindo-o apenas com meus rascunhos, para talvez detectar pontos potenciais que possam ser melhorados.

Cheguei a essa conclusão porque entendi que os leitores daqui não apreciarão o que eu escrevo de jeito nenhum. Nem quando eu estiver dentro do tema, nem quando estiver fora, nem quando o texto for complexo, nem quando for simples, nem quando eu tiver levado quatro meses escrevendo, feito revisão e usado leitores-beta, nem quando tiver escrito em sete minutos e postado assim mesmo (como foi o caso desse). Não sei se isso é por eu um dia ter sido moderador da NEB, ou talvez por eu tentar dar ao meu texto uma seriedade e um caráter tradicional, ou por talvez não ser loiro o bastante, ou por não me chamar Johnny…

Um dos problemas aqui do Orkut é a falta de profundidade. As pessoas querem o infinito em trinta segundos. Querem o impoderável em vinte gramas. Querem o indescritível em poucas palavras. Porém há coisas que não cabem aqui, ou cabem mal. Tolice é tentar pegar o martelo e fazer caber. Alguns já nascem no tamanho certo, outros não vão aceitar encolher, outros não conseguirão esticar.

O outro problema é que nem todos que aqui estão se adequam. Eu, por exemplo, não me adequo. Eu sou um dinossauro, sou do tempo da máquina de escrever e do mimeógrafo. Sou do tempo do telex e da loja de fotocópia. Tenho arquivos datilografados ainda. Tenho uma biblioteca em casa. Desconfio do Kindle e de outros quejandos. Eu ainda uso palavras como “quejandos” — e as pessoas me acham pretensioso por escrever assim, sendo que isso é natural para mim.

Enfim, desde o final do ano passado que eu já sabia que esses concursos nunca funcionariam para mim. Amadores julgando sempre tenderão a colocar o nível de excelência próximo do nível que conseguem. Por isso as apreciações feitas pelos grandes nomes da literatura costumam ser surpreendentemente diferente das feitas pelos críticos de jornalão e por isso a opinião da crítica diverge da opinião pública.

Todo concurso é furado, isso todo mundo sabe. Envolve interesses que vão além da mera “qualidade literária” (conceito que por si só já é discutível). Esse ano, por exemplo, teve o “Escândalo do Jabuti”, no qual Chico Buarque ganhou o Grande Prêmio sem ter vencido nenhuma categoria, por exemplo, o que acabou levando a Editora Record a retirar-se de futuras edições do prêmio, em protesto. E nunca custa lembrar que Fernando Pessoa não venceu o único concurso que disputou em vida…

Não que eu me considere um autor desse naipe todo, mas com certeza não alimento de ilusões de que concursos serão o caminho através do qual obterei “reconhecimento” e “carreira artística”. Muito menos um concurso de Orkut, no qual existem pressões muitos novas (para mim) e muito diferentes do tipo de demanda a que a literatura tradicional estaria preparada (e minha literatura é bastante tradicional).

E fica pior quando você considera que o Orkut encolhe a cada dia em termos de qualidade (para quem não lembra, leia “a diferença entre crescer, inflar e inchar”, um artigo provocativo que eu pus no meu blog há quase um ano). As comunidades não andam tão vibrantes quanto já foram, nem mesmo esta. E nos outros sites de relacionamento as coisas não fluem como um dia fluíram por aqui.

Talvez seja o momento de reconhecer que, como diz meu amigo Ronaldo Roque, “ninguém mais lê ninguém, só por obrigação”.


23
Mar 11
publicado por José Geraldo, às 23:11link do post | comentar | ver comentários (4)

Maria Bethânia atraiu uma grande reação quando “se soube” que ela teria apresentado ao Ministério da Cultura um projeto para desenvolver um blog de poesia e obtido uma licença para captar R$ 1.300.000,00 (coloquei assim, com todos os zeros, para que vocês possam tentar visualizar melhor a cifra). Seguiu-se grande indignação pilotada pela mídia amestrada (aquela que abana o rabo quando lhe mostram o osso de uma polêmica) e surgiram desmentidos e explicações. Parece, isto é, “parece” que tal cifra não se refere à “recursos federais” mas a uma “autorização para captação de recursos” junto a patrocinadores, usando a Lei de Incentivo à Cultura. Assim, tenho feito esta breve apresentação do caso, acompanhada das devidas considerações necessárias para que eu não recaia em qualquer afirmação que sim ou que não (palavras estas, ambas, inexistentes no vocabulário do legítimo mineiro político).

Mas o caso deste post não é comentário sobre a moralidade envolta no caso, ou possível falta disto. Não me julgo árbitro capaz da moral alheia, tanto que, aliás, nem acho que “moral” exista a não ser nos catecismos — e estes, vós todos sabeis, não fazem parte de minha biblioteca. O caso deste post é mais intangível porque, de fato, em toda essa história, o proverbial e metafórico buraco é muito mais embaixo.

No centro desta questão há um fato: não se dá valor nenhum à poesia nesse país. Tivesse Maria Bethânia se proposto a fazer um blog sobre política ou sobre viagens de férias e certamente muita gente teria protestado menos, ou até aplaudido. O que eu detectei em muitos dos mais venenosos comentários foi o escândalo pelo fato de alguém, em algum lugar em Brasília, ter considerado que poesia valha um milhão de reais.

De fato é surpreendente que em Brasília, cidade erguida em material anti-alérgico sobre uma superfície devidamente esterilizada, existam pessoas com tal consideração pela poesia. Cá de longe a maioria das pessoas não supõe que exista sensibilidade em Brasília, apenas políticos e filhos da classe média que queimam índios para passar o tempo. A notícia, portanto, traz embutido um alento: talvez Brasília não seja um caso perdido, pois a cidade onde há pessoas que acham que a poesia vale um milhão de reais é um lugar que certamente merece considerações.

Mas o espanto teria sido o mesmo se não tivesse vindo de Brasília. Porque o problema do povo não é com a capital, mas com a poesia. Onde já se viu alguém achar que poesia vale tanto. “Com tanta gente passando fome”, certamente em algum lugar algum boçal está pensando. Boçais são pessoas que mesmo sendo crentes de carteirinha ignoram que o próprio Jesus teria dito que “nem só de pão vive o homem”. Vive o homem também de poesia.

Mas as pessoas, algumas devidamente providas de suposta cultura que lhes capacitaria a não pensar de forma tão automática e de forma tão alinhada com os preconceitos automáticos do vulgo, se surpreenderam com isso: “Ora, bolas, um milhão de reais para declamar poesia? Que absurdo!”

Essa gente, decerto, não acha errado que um jogador de futebol iletrado e não necessariamente talentoso ganhe mais que o Presidente da República ou que um ogro sem dicção e sem cultura musical enriqueça berrando palavrões a que certo tipo de “gente” chama de “música”. O problema não está em receber um milhão de reais, é receber tal soma em troca de poesia. Se fosse em troca de cocaína haveria quem abrisse a boca admirado. Se fosse em troca de fazer um filme pornô, haveria quem achasse “sensato”. Mas ganhar dinheiro com poesia? Onde já se viu isso? Poeta não tem que morrer louco e faminto?

Na mente de muitas pessoas não há lugar para a poesia — e consequentemente não lhe dão valor. Se Betânia estivesse pedindo seu milhão de reais para fazer um desses “projetos sociais” com crianças carentes não haveria uma só voz de crítica. É com demagogia assim que as pessoas sem talento infundem complexo de culpa nos menos espertos: “como você ousa criticar o Vadico do Cavaco assim, ele tem um projeto social com crianças cancerosas e você não faz nada pelos outros.” Foda-se quem pensa assim, as pessoas devem ganhar dinheiro fazendo o que se propõem a fazer. Maria Bethânia faz música, faz poesia, faz cultura. Ela não precisa beijar criança ranhenta para mendigar patrocínio. Pessoas como ela são (ou deveriam ser) um patrimônio da cultura nacional. Maria Bethânia sequer precisaria pedir esse dinheiro: em um país sério isso lhe seria espontaneamente ofertado.

É incrível como as pessoas chegam a pensar que fazer e distribuir poesia nesse mundo tão carente dela seja “absurdo”. Talvez se houvesse nesse país um pouco mais de poesia haveria um pouco menos de fome. Quando matam a poesia, vai junto a consciência de um povo, e daí se pode impunemente resvalar na superficialidade e no egoísmo. Daí se pode chegar ao ponto de vivermos de aparências e de fingimentos. Quanta gente famosa por aí não finge que canta, que atua, que escreve… A cultura passa a ser mercadoria, passa a ser uma maneira de canalizar dinheiro, uma indústria. Mas a poesia, nas mãos de uma pessoa cuja vida construiu a dignidade que deveria ser suficiente para estar acima destas línguas sujas que a vituperam, não vale um milhão de reais.


19
Fev 11
publicado por José Geraldo, às 13:46link do post | comentar | ver comentários (1)

Não sei se já contei para vocês que sou fã dos Smiths. Para mim não existe letrista mais agudo e inteligente do que Morrissey, que é simplesmente aquilo que Renato Russo queria ser quando crescesse. Em suas letras ácidas e amargas ele descasca e devassa as conturbadas relações informais de poder que se estabelecem no convívio entre os seres humanos. Mas não escrevi esta crônica para louvar os Smiths, apesar de todo meu fascínio por versos como “Se não for amor será a bomba que vai nos reunir” e “Agora entendo como se sentiu Joana d’Arc quando as chamas chegaram ao seu nariz adunco e o seu walkman começou a derreter”. Escrevi-a para, recorrendo aos versos de Morrissey, deixar marcado meu orkuticídio.

Que fique bem claro que é um “orkuticídio”, não um suicídio. Estou saindo da vida apenas no metafórico sentido daquele “mundinho azul”. Aqui fora, continuarei ganhando cabelos brancos e crescendo barriga enquanto tento continuar escrevendo e criando minhas filhas. Como toda carta que justifica uma morte (neste caso virtual), esta também será longa, e também só será lida pelos “legistas” interessados na “causa mortis” ou nos segredos sórdidos de quem se tornou o cadáver.

Cometo este ato insano porque that joke isn’t funny any more. Houve um tempo em que o Orkut me divertiu. Talvez tenha feito mais do que isso: graças a ele eu obtive meu contrato de publicação e fiz alguns amigos. Mas não muito mais do que isso. Hoje entendo que este hábito me tirou mais do que me deu. Tirou de mim energias que eu deveria ter gastado olhando o céu (um azul mais bonito que o plano de fundo do saite), pisando na grama da praça (apesar de algumas bostas de cachorro), caminhando pelas ruas (apesar da fumaça dos carros, dos cheios urbanos e do sol áspero), brincando com a Gabi e com a Duda (e também “brincando” com a Dani).

“Pare o carro ao lado da estrada, / você deve saber / que a onda do tempo amaciará você, / assim como a mim.”

Houve uma época em que até o Orkut me inspirava a escrever, mas ultimamente eu tenho sentido cada vez mais que minhas horas passadas frente ao monitor se tornaram momentos “zumbis” em minha vida. Cada vez mais, inspiração me vem quando corro, ando, tomo banho, como, trabalho ou vejo vacas pastando. Olhar os píxels esvazia o meu cérebro. É como uma droga e eu já adiei muito isso e agora está na hora de desintoxicar.

“Quando você ri de pessoas / que são tão sozinhas / o único desejo delas é morrer.”

Comecei a me “matar” quando Sinki me expulsou da Novos Escritores do Brasil. Talvez eu tivesse resolvido continuar “vivendo” se alguma das iniciativas que tomei entre julho e setembro tivesse dado certo. A comunidade Textos & Texturas, os concursos da Contos Fantásticos, a Revista Textura. Cada uma delas poderia ter sido um entorpecente (ou uma morfina) capaz de me fazer seguir com a farsa. Mas misericordiosamente nenhuma delas continuou.

“Bem, eu acho que / essas coisas não me fazem rir, / eu bem queria conseguir.”

Isto levou-me a um afastamento voluntário do Orkut entre setembro e dezembro. Embora tenha sido somente parcial (eu realmente tive várias sequencias de dias sem acessar, mas não consegui atravessar os três meses sem postar), estas férias serviram para me mostrar que eu não precisava do Orkut para ter inspiração mais. Nesse ínterim descobri outras maneiras de interagir com escritores, fiz algumas amizades, encontrei algumas pessoas, participei de eventos, recebi comentários. Gradualmente me afastei das “comunidades” onde convivia e percebi que antes passava horas vivendo vidas irrelevantes e irreais, lutando contra moinhos de vento apenas imaginários, dedicando minhas forças a combates que nem ficariam registrados para a posteridade (pois o meio eletrônico é como a areia da praia).

“Mas essa piada não tem mais graça.”

O que me levou a um desencanto, que somente foi agravado pelo fato de que minha participação no Orkut havia produzido um efeito negativo em minha interação. Tornara-me uma “personalidade” detestada por minhas opiniões incisivas, tinha mais desafetos do que admiradores, meus textos atraíam críticas mais rigorosas porque as pessoas tinham necessidade de apontar os meus erros enquanto desculpavam os alheios. Claro que eu não me ofendi com isso, pois é natural que as pessoas exijam mais de quem acham bom. Mas incomodou-me ver que eu estava sendo sempre, sutilmente, visto como o “garoto de fora”, o estranho na turma.

“Estamos muito perto de casa / e vai muito fundo, até o osso, / mais fundo do que você acha.”

De fato o era. Minha idade, minha maturidade e minha mentalidade. Três fatores que me separam da maioria dos jovens escritores orkutianos. O senso do ridículo caiu em mim como uma bomba quando eu, lendo a história dos Alcoólicos Anônimos, no saite “Agent Orange”, li a biografia de Frank Buchman, um dos inspiradores do movimento. Aos 37 anos anos (a idade que hoje tenho) ele tentou se instalar no dormitório dos estudantes em Harvard, a fim de “ficar mais perto” daqueles com quem deveria interagir, na qualidade de capelão da faculdade. Ele acabou expulso de lá pela faculdade, diante dos insistentes protestos dos alunos, que não conseguiam conviver com sua presença. Acabou até sofrendo acusações de pederastia por conta disso. Ao ler este episódio burlesco da biografia de alguém que não ficou famoso como um cara bacana, eu procurei visualizar em minha mente as cenas de sua vida no dormitório estudantil. De repente o rosto de fuinha de Frank Buchman se metamorfoseou no meu e eu percebi que tinha que sair do dormitório, mesmo que pulando pela janela, porque certamente os rapazes ficavam constrangidos pela minha presença. Meu lugar não era lá.

“Chute-os quando caem! / Por que também você /Tem que chutá-los quando caem?”

Torna-se natural a impaciência quando você quer ir longe. Quanto mais você aprende, menos prazer tem em revisitar os estágios iniciais de sua jornada. Os professores, essas almas abnegadas e tão raras, certamente não derivam o seu prazer do conteúdo, mas da experiência sociológica do ensino. Eu, porém, sou viciado em conteúdo, eu sinto o vento soprando na estrada do conhecimento e não gosto de voltar atrás para buscar quem está correndo atrás de mim.

Esse tipo de sensação de impaciência leva quase certamente à violência verbal, algo muito barato quando no Orkut. Na vida real você não discutirá Proust com um bêbado no bar, mas no Orkut esses pudores costumam cair, e acabamos perdendo a medida das palavras.

Não é bonito descobrir que você é um dos que chutam os que estão caídos, especialmente quando os próprios caídos mostram os dentes quebrados. Não é bonito você descobrir que está fazendo hoje o que lhe ofendeu tanto quando fizeram com você no passado. Mas eu não tenho a morbidez de veterano que gosta de humilhar calouro, eu “passo” esse papel a quem tenha essa depravação. Não vou chegar a ser um J. R. Pereira, vou me “orkuticidar” antes disso.

“Estava escuro quando dirigi para casa / sentado em bancos de couro. / Então, de repente tive a impressão / de que talvez venha a morrer /com um sorriso no rosto, enfim.”

Decidi me “matar” virtualmente em janeiro. Até pus data para isso na descrição do meu perfil. Nos primeiros dias as pessoas argumentaram muito comigo, vieram os bombeiros trazendo parentes, amantes, filhos, cobradores e um psicólogo. Todos chegaram no parapeito dizendo que valia a pena continuar, e eu fui continuando.

Decidi brincar com eles. Sairia do Orkut fazendo uma brincadeira que sempre quisera fazer. Criei um perfil falso, chamado Filipe C. Pinto (uma “tradução” do nome do genial Philip K. Dick). Usei o perfil para postar um conto MEU na Contos Fantásticos, depois de ter deixado pistas, com dois “amigos” virtuais” de que o conto seria de Stephen King ou de um autor soviético cujo trabalho teria semelhanças com o do King. Eu esperava que ambos “dessem com a língua nos dentes”, fazendo todos pensarem que o conto era de alguém famoso, quando era meu. A patranha seria completa quando eu postasse no concurso seguinte um conto de um autor famoso e fizesse todos pensarem que era meu. Eu já tinha tudo até traduzido. O conto seria “O Quarto Vermelho”, de H. G. Wells; uma reconhecida, mas pouco conhecida, obra prima da literatura universal.

“Eu já vi isso acontecer com outras pessoas / e agora está acontecendo comigo.”

Desisti, no entanto, de levar esta farsa até o fim. Teria dado muito trabalho manipular as pessoas em cada vez — e eu não sou nada bom nisso. Além do mais, por que eu também teria que “chutá-los caídos”? Se eu tenho impaciência com os garotos e com suas obsessões, como tratá-los com tanto desrespeito? Senti-me ridículo fazendo isso e resolvi parar com essa trollagem gratuita.

“Mas essa piada não tem mais graça.”

Então, amigos, despeço-me de todos vocês aí do Orkut. Meu perfil será apagado quando terminar o horário de verão. Peço desculpas à Åsa Heuser, que me confiou a moderação da Sociedade da Terra Redonda, mas não tenho mais como continuar. O “orkuticida” que considere seus compromissos não consegue se “matar”. Somente consegue o Ato Extremo quem fecha os olhos, algo egoisticamente, e ignorando as pessoas que deixará na mão.

A piada não tem mais graça para mim, é só isso que eu quero que vocês entendam. Não me obriguem a continuar no palco só porque vocês gostaram do show.

Ficarão assuntos pendentes, obviamente. Perderei contato com algumas pessoas, pelo menos com aquelas que não estão ainda no meu MSN e nem no Facebook. Mas o buraco deixado pelo tempo que eu gastava no Orkut será fechado com muito trabalho literário novo: tenho CINCO romances para terminar, minha gente, e estou chegando ao meio-dia da vida. Tenho muito que viver e que escrever.

Lasciate ogni speranza voi ch’entrate.


18
Fev 11
publicado por José Geraldo, às 09:00link do post | comentar

Fagundes Varela, notório poeta do romantismo brasileiro, foi um ser humano à frente de seu tempo, ousando externar em sua literatura coisas que somente Raul Pompeia voltaria a abordar, quase cinquenta anos depois. No caso específico deste poema, pode-se argumentar uma influência de Rimbaud e Verlaine quanto à temática, ainda que isto não esteja claro.

Segundo Gretovski (1969, p. 21), o poema Flor do Maracujá é a primeira obra abertamente homossexual da literatura brasileira. Kuranyi (2000, p. 76) não apenas concorda como interpreta o poema como uma ode ao ânus, transformado em uma fonte de prazer poético e de imagística retroativa e relativa à vida imaginária que o poeta sonhava, mas que a sociedade lhe negava, tal como Rimbaud e Verlaine haviam feito no antologizado e muito famoso Sonnet au Cul.

A análise dos dois autores depende muito do que disse Mário de Andrade (1929, 69) a respeito do poeta fluminense e do que disse Mário Filho (1957, 171) sobre o flamengo. Massimo Buraccio e Roberto Occo, dois renomados insemiólogos intalianos escreveram em “Transposições Vocálicas” (1996, 88) que na imagística pederástica é comum haver uma inversão da ordem das vogais, de forma a que simbolizem outras sons, especialmente quando uma determinada vogal apresenta uma rima mais homossexualmente rica.

Evocando Rimbaud, eles atribuem um sentido de cor às vogais. Apenas que o poeta gaulês lhes dava valores segundo a mítica francesa de Joseph Pujol (1909) enquanto Varela inventou uma nomenclatura tipicamente fluminense para as vogais na qual:

A significa U, E, significa O, I, significa I mesmo, O, significa E e o U significa A (Buraccio; Occo, 1996 p. 96).

Desta forma as abundantes rimas em “á”, que escorrem do poema do rio-clarense mais famoso do Brasil passam a ser rimas em “ú”:

Mas todo mundo sabe — ou devia saber — que o “u” não recebe acento, mas sim o assento é que recebe o “u” (Toledo, 1989 p. 24).

Como o “u” no simbolismo representa o azul e o roxo, segue-se que a flor (roxa) do maracujá possui um sentido evocativo “muito sugestivo” (Buraccio; Occo, 1996 p. 24).

Pennyman (1996, 666) enxerga no poema uma prefiguração do símbolo homossexual do arco íris. O autor cita Piruzzini (1973, p. 33), que atribuiu a escolha da bandeira gay à influência de um desconhecido “poeta dos trópicos” que os gays de Nova Iorque não quiseram nomear. O autor, então decodifica do texto de Varela, as sete cores do arco íris, expressas através de sete seres citados no texto:

  • Rosa (vermelho)
  • Maracujá (laranja)
  • Cravo (amarelo)
  • Folhas do gravatá (verde)
  • Fonte de água (azul)
  • Borboleta do Panamá (anil)
  • Flor do maracujá (roxo)

O fato de que as duas cores mais expressivas do movimento gay estejam presentes na flor do maracujá, que possui em seu centro dois cetros, ou espadas, foi visto como Lambistti (2002, 29) como um indício ignorado antes.

Desta forma, “A Flor do Maracujá” pode ser visto como um exemplo clássico de poesia homossexual em nossa literatura, e assim deve ser reconhecido.

Apareceu em uma comunidade literária do Orkut um aluno desses preguiçosos que estão sempre procurando quem lhes faça seus trabalhos escolares (afinal, é preciso sobrar tempo para o videogame). O trabalho em questão era uma interpretação do poema “À Flor do Maracujá”, de Fagundes Varella, clássico de nossa literatura romântica; não exatamente o mais complexo dos poemas da literatura universal, mas certamente num prateleira bastante alta para quem tenha o nível de texto exibido pelo aluno em questão que (pasmem!) se dizia estudante universitário. A título de mera galhofa, postei este texto, com a esperança de que o aluno tivesse, ao menos, capacidade para saber que não deveria utilizá-lo.

Este texto é de caráter satírico e se inspira no hilário “Ibid”, de H. P. Lovecraft. Obviamente você deve ter sabido agora que havia algo de Lovecraft neste texto, mas se só agora percebe que o texto é simplesmente humorístico-pastelão, espero que lhe sobre bom senso para não contar isso a ninguém.


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