Em um mundo eternamente provisório, efêmeras letras elétricas nas telas de dispositivos eletrônicos.
03
Fev 13
publicado por José Geraldo, às 13:17link do post | comentar
Ontem me dei conta da falta que faz visitar ocasionalmente uma livraria. Estive brevemente na Leitura “Megastore” em Juiz de Fora e pude compreender muito daquilo que tenho visto e lido na internet. Algumas conclusões foram animadoras, outras terríveis, a maioria apenas remete a uma neutra mudança de padrões, oscilações de modas que não mudam nada. Mudam-se as palavras, mudam-se os estilos, permanece uma falta de sentido que denuncia os tempos perigosos que vivemos.

A primeira coisa que notei foi a mudança de foco da literatura de auto ajuda. Ela já não predomina tanto nas prateleiras e parece mais focada em livros baseados em experiências reais. Um bom exemplo é a autobiografia de Nick Vujicić, da qual havia nada menos que uma pilha de exemplares. Esse tipo de auto ajuda que agora predomina parece explorar a culpa do indivíduo como um fator motivacional: olha só, esse cara tá todo fodido e ainda assim realiza mais coisas que você. O nome do site de Vujicić é sugestivo desse apelo: “From No Limbs to No Limits” (De Sem-Membros a Sem-Limites) e a sugestão é “você, com quatro membros, não é tão sensacional quanto o Nick”.

Há duas conclusões que eu tiro disso. A primeira é que Paulo Coelho é carta fora do baralho agora: o seu estilo de auto ajuda ficcional chupando antigos textos religiosos e lendas orientais não tem o mesmo apelo porque as pessoas estão procurando coisas reais, e não invenções de magos que fazem chover. Azar da Academia que o aceitou pensando em popularizar-se entre seus leitores. A página de Paulo está sendo virada e dentro de alguns anos ele voltará a ser lembrado apenas como o parceiro de Raul Seixas em algumas de suas melhores composições. Por sorte ele aproveitou seus quase vinte anos de berlinda para ganhar dinheiro a rodo e comprar imóveis em lugares nobres, como o interior da Suíça. Vai ter uma aposentadoria de rei, e morrerá se achando um gênio, enquanto eu vou continuar aqui desconhecido no interior de Minas Gerais, o que, na cabeça da maioria do povo, significa que ele é um “sucesso” e eu, um idiota. Argumentum ad crumenam, mas o povo não liga para falácias, o povo gosta de idolatrar o sucesso, seja qual for. A vida das “famosidades” instantâneas demonstra isso: “artista” no Brasil é quem aparece na TV.

A segunda conclusão é que a auto ajuda cada vez mais se afasta do que seria chamado de “literatura”. Isso é bom para a auto ajuda, porque a literatura está moribunda, e é bom também para a literatura, porque parte de sua doença esteve relacionada à sua contaminação pela auto ajuda. Separadas, veremos como evoluem.

O sintoma mais forte de que a literatura anda moribunda é o sensacionalismo baseado no tamanho. Hoje todo mundo quer escrever trilogias ou, no mínimo, tijolaços. Argumentum ad numerum, mas o povo não liga para falácias. Quanto mais grosso o livro, maior o desafio de escrevê-lo. Desafio é vencer limites físicos, não artísticos. A maioria dos leitores de hoje provavelmente acharia que uma obra breve, como  “O Apanhador no Campo de Centeio”,  é inferior a um peso de porta como “Herança”, último volume da tetralogia de Christopher Paolini. O fato de se poder contar toda a história da tetralogia em vinte ou trinta páginas não faz diferença: um livro de tantas páginas merece respeito, tanto quanto os músculos criados por anos de malhação. O esforço físico importa mais que o efeito. Vivemos uma era que idolatra a teimosia. Talvez por isso o karatê, a arte marcial que idealiza o golpe perfeito, tenha saído de moda, e hoje idolatremos aquela bosta do UFC, uma espécie de briga de rua com regras, tão cronometrada quanto a “luta livre” estilo “tele-catch”, só que com sangue, para “dar realismo”. O carateca “magrelo” é zombado hoje: o objetivo do treinamento é criar massa, tal como o objetivo da literatura é criar páginas.

Isso explica porque os jovens vivem obcecados com trilogias, tetralogias, pentalogias, hexalogias, heptalogias, enealogias, decalogias, fodasselogias. Eles não têm um estilo, mas um objetivo. A ideia é vencer um desafio, não produzir uma obra.

Eu mesmo acabei recaindo nisso ao dizer, zombeteiramente, quando do lançamento de meu romance de estreia: “não produzi mais uma apostila com ISBN para valer de título na Academia, produzi um livro que tem, pelo menos, a dignidade de parar em pé na estante.” Minha declaração maldosa tinha um alvo claro, se ele está me lendo deve estar me xingando, mas tinha uma falha: ao dizer isso eu estava legitimando essas obras que proliferam páginas como um câncer prolifera células. Se o meu livro para em pé na estante, tem gente querendo escrever livros sobre os quais a estante pare em pé. Andar com tais livros é chique, isso é que é livro de macho, mesmo que sua quantidade de páginas seja anabolizada por artifícios que não acrescentam conteúdo. A velha diferença entre crescer, inflar e inchar.

Outra coisa curiosa é que a ampla maioria das obras postas nas estantes de destaque, na entrada da loja, eram literatura de fantasia. Nem estou falando de ficção científica, porque essa exige estudo até para se entender. Estou falando de fantasia desbragadamente desconectada da realidade, ambientada em países fictícios para que o autor não precisa pesquisar sobre um real e o leitor não aprenda, por acidente, algo sobre um que exista. Houve uma época em que o exotismo estava na moda, e muito jovem autor brasileiro queria se chamar Johnny e escrevia histórias ambientadas nos Istêitis, mas o exotismo contém uma busca de conhecimento, da qual a literatura de fantasia está livre, graças a Deus. Se o país e a cultura são inventados a partir do nada, então vale de tudo, dane-se a lógica, foda-se a coerência histórica. Se tudo ficar complicado, aparece um deus ou anjo ou demônio ou dragão e conserta tudo. E sempre se pode ressuscitar o morto para mais um capítulo, ou dar um reboot na história inventando que o nó que a atava era um “sonho”. E vamos que vamos que duzentas páginas ainda está pouco. O bom da fantasia é que sempre se dá um jeito de se chegar aonde se quer, os limites da realidade não interferem.

Claro que a maioria desta fantasia é obra de autores estrangeiros, em sua maioria ianques. Não é um produto cultural, é um fast food que dá mais lucro por ser importado, vindo já de fora com a propaganda grátis das redes sociais e das séries veiculadas na TV por assinatura, onde a classe média se isola da “tosqueira” da TV aberta. Sinceramente, se eu fosse começar de novo a escrever, investiria mais no meu curso de inglês, batalharia um intercâmbio, inventaria um pseudônimo anglo-saxão (aliás, inventei: em certa época andei escrevendo “coisas” sob o nome fictício de Gerald Goldman) e fantasiaria alguma terra imaginária com personagens de nomes toscos baseados em latim macarrônico, pseudogrego ou pseudohebraico. Com um pouco de sorte eu me tornaria famoso, ou então tentaria a sorte dizendo que minha obra era Escritura Sagrada.

No fim de minha visita preferi comprar um pendrive. Saí e entrei num sebo, onde comprei a dez reais o quilo obras muito mais interessantes. O que me dá medo é que os sebos do futuro serão alimentados pelas obras adquiridas hoje. Essas obras abomináveis.

O título deste texto é uma alusão a este conto.

26
Jan 13
publicado por José Geraldo, às 00:24link do post | comentar | ver comentários (7)
Uma das maiores dificuldades que há no mundo é a de se ensinar. Quem tenta ensinar geralmente se expõe. Não raramente surge a cobrança da legitimidade: Como você quer me ensinar a falar inglês sem ser nativo? Como vai me ensinar música se toca toscamente esse violão? Como vai me ensinar a dirigir se tem carteira de motorista e seguro de automóvel há dez anos e o seu bônus é zero? Como vai me ensinar a desenhar se os seus personagens parecem tortos no papel?

Mas os questionamentos não acabam junto com a fase da falta de legitimidade (que chega ao fim por preguiça do aprendiz, que se conforma em não achar instrutor melhor, ou porque aceita que, afinal, nem é preciso saber fazer para ensinar a fazer). Depois que as pessoas resolvem ouvi-lo surge o desafio do poder, e você pode começar a escrever besteiras, desnudando-se de uma forma que não queria. Infelizmente o mundo já não é mais tão escasso de crianças de cinco anos dispostas a apontar que o rei desfila peladão.

Esta semana está bombando nas redes sociais o caso de uma editora que teria postado em seu saite, sob o título de «Dicas Para Escrever um Romance», uma curiosa peça, de autoria de uma certa Thayane Gaspar (quem?) que incluía conselhos polêmicos, como:
Seja original, e para isso fique longe de outros livros. Em total abstinência literária. Será como se só existisse seu romance no seu mundo, do mesmo jeito para o mocinho, só existe a mocinha.
Inspiração é o estado de sintonia entre sua alma e você, é o momento em que a alma consegue se expressar verbalmente. Por isso, busque coisas que evoquem esta sintonia: uma música, um lugar, uma foto que mexa com você. Fique perto dessas coisas, e dê voz à sua alma, e não a force, ela só fala o necessário e quando necessário.
Descreva o mínimo possível a aparência dos personagens. É como se eu fizesse apenas o contorno de seus desenhos e passasse a tarefa adiante, para o leitor. Esse é o trabalho deles. O meu é dar vida a sentimentos, sonhos e histórias. E o nosso trabalho é, que juntos, façamos essas pessoas reais dentro de nossas mentes.
Esses três parágrafos (transcritos ipsis litteris) nos revelam muita coisa sobre Thayane Gaspar, sobre a Modo Editora (que muito antes de ter publicado esse texto havia endossado a autora) e sobre o tipo genérico de escritor que tem procurado as nossas editoras. Mas revela também sobre o arquétipo de literato que vem sendo transmitido em nosso país, de geração a geração. Um dos muitos arquétipos nocivos (ou seja, «preconceitos») que expressam o nosso atraso mental coletivo.

O que Thayane está expressando neste texto é o que ela, certamente, tem dentro de si: a concepção da literatura como o resultado de uma inspiração superior, e não um trabalho com as palavras, algo que exige «inspiração», mas não «transpiração» (não force muito), e que não dialoga com o mundo real (como se só existisse seu romance no seu mundo), mas com um mundo de fábula, uma torre de marfim onde o escritor, este oráculo dos deuses, produz sua obra. Dentro de sua torre de marfim o autor não precisa dialogar com a cultura na qual está imerso (ou não, isso depende de cada um), mas com um plano mais elevado (fisica e espiritualmente) de onde misteriosamente vem a tal «inspiração» (ela só fala o necessário e quando necessário).

Esta personificação da inspiração como algo alheio ao autor, e independente de sua vontade, busca, claro, valorizar o produto obtido como algo que não estaria ao alcance de «qualquer um». Faz parte da mitologia literária nacional imaginar o autor como uma espécie de Escolhido, portador de um dom gratuito de Deus ou da natureza (ou de Satanás, se tiver fechado um pacto numa sexta feira numa encruzilhada sacrificando um bode).

Tão importante é esse trabalho (quase no sentindo umbandista do termo) a que se dedica o Autor (com letras maiúsculas, pois ele é um ser iluminado), que ele não deve perder tempo com detalhes trabalhosos, como descrições. Não é trabalho do autor descrever narizes, imaginar cores, catalogar características, saber tamanhos. O trabalho do Autor é «dar vida» (tal como um Dr. Frankenstein que lida com memórias e inspirações, cadáveres de emoções e sensações) a «sentimentos, sonhos e histórias». 

A autora, apesar do desastroso modo como apresenta o conceito, está, de fato, buscando ser moderninha, ao ecoar a tese da obra literária como um processo aberto, do qual o autor não tem controle, e no qual cabe ao leitor um processo de co-criação durante a leitura. Conheço apenas vagamente o conceito, que meu amigo João Francisco diz originar-se em Roland Barthes (autor de que li um excelente livro certa vez e depois esqueci benditamente cada linha). O que ela não sabe é que ninguém razoavelmente culto ousaria dizer que o autor devia se abster de criar, confiando que o leitor criaria o que faltasse. Parece óbvio que, se o leitor estivesse dispostos a tanto, e soubesse tanto, não haveria necessidade de se valorizar tanto o Autor e sua Inspiração (que o diabo os carregue se eles não servem para produzir bons livros). Thayane não percebe que seus conselhos se chocam uns contra os outros, porque ela tenta harmonizar seus preconceitos arquetípicos com doutrinas filológicas modernas e um pouco de justificação das próprias limitações.

Por fim, a abstinência literária (sic) recomendada pela autora ecoa este privilégio, ao negar a importância, ou o valor, da influência de uma obra sobre outra. Mais que isso, supõe a autora que, por não ter lido outros romances, você não os imitará. Esta afirmativa revela uma profunda ignorância dos mecanismos da literatura, pois ela desconhece a existência de modelos mentais que condicionam a estruturação narrativa até mesmo de pessoas iletradas: os causos contados pelos pitorescos matutos do interior não são menos estruturados do que os bons romances, apenas estão vazados numa linguagem não padronizada e padecem, devido ao contexto oral e informal, de uma série de elementos «poluidores» que desviam seu foco e seu fluxo, dificultando uma linearidade maior. Desconhece, ainda mais, essa continuidade estrutural entre a literatura oral e a literatura escrita, visto que mesmo os que não leiam livros terão acesso à primeira através mesmo de fatos prosaicos, como a repetição de notícias de jornais. E o mais curioso é que justamente esse conceito vem corroborar uma antiga tese provocativa que circulava nas redes sociais: a de que o autor brasileiro não vende porque não escreve bem, e não escreve bem porque é um bronco sem cultura (mais sobre isso no final).

Evidentemente uma postagem tão desinformada acaba por lançar fortes dúvidas sobre quem a escreveu. Eu nunca tinha ouvido falar de Thayane antes (isso não é problema, visto que ela dificilmente terá ouvido falar de mim), mas agora que a conheci por este texto, terei muita dificuldade para levá-la a sério. Se não por suas contradições e erros oriundos de desinformação ou falta de jeito, certamente por não conseguir pontuar corretamente um texto de três parágrafos.

No começo eu dizia que a postagem também revela algo sobre a Modo Editora. Refiro-me ao fato de que a Editora tenha não apenas aceitado difundir um conselho tão tosco, mas que não tenha sequer corrigido o uso de vírgulas no texto. Obviamente a Editora Modo não acha importante corrigir vírgulas, tanto quanto a autora não acha importante descrever personagens, ou ter uma bagagem literária. Imagino que, se não corrigiu vírgulas em três parágrafos, não as terá tampouco corrigido nas dezenas ou centenas de páginas de «Princesa de Gelo», a obra que Thayane produziu.

O problema não está em haver uma editora que dá vez e voz a depoimentos como esse, se fosse uma voz isolada isso não teria nenhum problema. O problema está em haver uma massa crítica de pessoas que acredita nesses conselhos e os põe em prática. Porque Thayane não inventou isso. Por mais que se esforce em «ser original» enterrando a cabeça na areia para não conhecer o resto da literatura universal, a verdade é que esses conselhos são a condensação de um estado de espírito amorfo que vem se formando nas redes sociais há pelo menos uns seis anos. A ideia de que ler outras obras «contamina» o talento do autor é antiga, e eu mesmo já escrevi aqui, há dois anos e meio, sobre o mito do autor genial que não lê.

O caso me faz lembrar a parábola cristã do Guia Cego. “Porventura pode um cego guiar outro cego? Não cairão ambos no barranco?” (Lucas, VI, 39). Se Thayane padece destas deficiências (mais do que o uso das vírgulas, a crença em preconceitos infundados e um conhecimento porco de teoria literária), como pode ensinar a seus leitores como produzir romances perfeitos? A questão da legitimidade urra aqui com uma força ensurdecedora. É aceitável que o professor não saiba fazer, mas saiba ensinar. O técnico de futebol ensina o jogador a jogar sem que ele mesmo saiba dar um drible num cone. Mas é inaceitável que um mestre não tenha nem a prática e nem a teoria. Esse mestre é um guia cego, e todo aquele que o segue vai para o barranco junto com ele.

E para o barranco segue uma multidão de jovens autores brasileiros, que publicam por editoras que os iludem com capas bonitas, noites de autógrafos e estandes em feiras, que afagam seus egos e ordenham seus bolsos enquanto desperdiçam belas árvores. Autores que acham que serão originais caso se tranquem num quarto, de preferência antes de terem lido qualquer coisa.


Quando a polêmica se instalou, a Modo Editora removeu de seu site o arquivo de imagem que continha os conselhos da Thayane, mas continuam lá outros conselhos igualmente inacreditáveis. Tamara Ramos, por exemplo, dá os seguintes conselhos:
Um bom autor precisa conhecer os grandes clássicos da literatura nacional e internacional e deve estar atento às tendências do mercado literário.
Parece ser um conselho sensato, ainda mais em comparação com o de Thayane, mas não tem a mais remota base factual. Porque se tal conhecimento amplo fosse «preciso» para um bom autor, a grande maioria dos clássicos não teria razão para ser lida. Os autores clássicos não conheciam os grandes clássicos (o próprio conceito de «clássico» é uma invenção bastante recente) e até muito recentemente inexistia um «mercado literário» para se prestar atenção.

É certo que conhecer os clássicos não faz mal, mas é errado imaginar que somente um douto literato sabe fazer boa literatura. Esse é, aliás, o motivo pelo qual a acusação de que o autor brasileiro escreve mal porque é inculto não passa de uma trollagem tosca. Há bons autores que tem uma cultura imensa, mas há tantos outros que adquiriram a cultura apenas na forma de uma biblioteca, enquanto que alguns autores genuinamente incultos produziram livros interessantes. A falha está em enxergar uma relação de causalidade entre quantidade e qualidade. Algumas pessoas precisam ler alguns bons livros para conseguirem escrever alguns bons livros, outras precisam ler muitos, e muitas não escreveram bons livros nem que leiam cada página jamais impressa, em cada língua do mundo. A chave está em aproveitar o que se tem, tal como é impossível gastar um bilhão de reais, também é impossível tirar proveito de ter lido dez mil romances clássicos.

Mais do que recomendar o conhecimento dos clássicos como uma estratégia para buscar um nicho de mercado, Tamara acredita que exibir cultura cativa o leitor:
Para começar o processo da escrita de um romance, um autor necessita de uma grande bagagem literária e cultural. Isso enriquece o texto e conquista os leitores.
Novamente ela confunde quantidade com qualidade. Exibir uma grande bagagem cultural não necessariamente enriquece o texto, na maioria das vezes apenas o torna pesado, intimidador. Depende do talento do autor para dosar e apresentar essa bagagem. Porque, definitivamente, não é a bagagem literária do autor que conquista o leitor. O que conquista o leitor é o livro ser bom, ou, pelo menos, atender às suas expectativas do que seja «bom» (e tanto há quem goste do olho como da remela).

O caso é que Tamara sabe disso. Tanto que escreveu em outra postagem sua «não tente um estilo forçado ou literato». Ora, então por que escreveu que uma grande bagagem literária e cultural enriquece o texto e conquista os leitores? A resposta é simples: também Tamara está divida entre a teoria que aprende na faculdade (onde lhe ensinam sobre literatura, mas não ensinam literatura) e os seus antigos preconceitos. A faculdade lhe diz que o autor culto produz uma obra mais densa e de qualidade, mas ela sabe, instintivamente, que a maior parte das obras citadas como exemplo na faculdade são verdadeiros soníferos, do tipo que, como disse Millôr Fernandes, «quando você larga não consegue mais pegar.»

Entre Thayane e Tamara eu acredito que a segunda tenha escrito um livro melhor. Não só porque não levou rasteira das vírgulas, mas também porque ela me passou um conflito mais profundo entre o que lhe dizem e o que ela quer. Um conflito que pode levá-la a uma reflexão de valores mais amadurecedora do que uma abstinência literária para preparar o corpo para o nascer do pão do espírito.

Mas ambas, ambas, são vítimas de uma Editora que atira seus autores aos leões, sem dar-lhes nenhuma assessoria. As duas viraram vítimas das redes sociais porque se expuseram com opiniões caracterizadas, respectivamente, pela ignorância e pela incoerência. Uma editora que realmente cuidasse da carreira de seus contratados não permitiria que elas postassem aqueles conselhos, possivelmente não permitiria nem que publicassem os seus livros. Mas o que fazer se há tantos jovens iludidos pela cobiça do distintivo duvidoso de «escritor» a ponto de justificar o florescimento do mercado de «fábricas de fábulas» que temos visto acontecer? Se a Modo não publicasse, haveria alguém para publicar, e outro lugar onde as duas pudessem guiar rumo ao barranco quem as quisesse seguir.


EM TEMPO: Contrariamente ao que muitos podem pensar, eu não sou nenhum guia cego porque não estou aqui ensinando ninguém a escrever. Como não tenho essa proposição, não tenho o ônus de justificar minhas ideias. Esse ônus pertence a quem pretende ensinar “como”. E se alguém segue minhas ideias, lamento dizer que tal atitude só poderá levar meu seguidor pelos caminhos que trilhei e ao destino a que cheguei. Parágrafo adicionado em 26/01/2013 às 21h00.

24
Jul 12
publicado por José Geraldo, às 08:12link do post | comentar

Será que somos tão sofisticados assim? A maioria dos autores celebrados por nossa crítica pratica um tipo de prosa quase ilegível, caracterizado pela exploração intensa, quase joyceana, tanto da sintaxe quanto da semântica, aliado a um ângulo narrativo sempre oblíquo e a uma sequência fragmentária. Os autores que praticam uma narrativa mais tradicional não são tão valorizados, não são considerados mais como geniais, mesmo que suas obras exalem competência, como se o seu estilo estivesse ultrapassado, mas o Finnegans Wake já passou de oitenta anos de idade, Ulysses já é quase centenário, o movimento concretista brasileiro já começou a enterrar os seus criadores, vitimados pela velhice. Alguma coisa me parece deslocada: soa-me como se houvesse dentro da academia uma facção afastada do mundo real e preocupada em escrever livros que ninguém lerá.

A quem interessa uma literatura tão difícil? Quem lê essas obras quebra-cabeça? Suspeito que são realmente poucos os leitores e suspeito mais: suspeito que sob a capa desta complexidade artificial muitas vezes reside uma superficialidade fútil, uma falta de boa história para contar, um conservadorismo estético e conceitual que já se petrificou.

Sempre fui um crítico do excesso de formalismo, até por razões ideológicas. Se ainda houvesse no mundo alguma coisa parecida com as escolas literárias do passado eu estaria tentando seguir uma escola oposta à que estou criticando. Mas o mundo de hoje é fragmentário e os diversos autores ficam sozinhos, dialogando contra o nada. Então quando você pensa diferente, fica fácil os que pensam igual o tacharem de imodesto ou até de termos menos elegantes: nesse mundo em que a comunicação se tornou tão fácil, pode ser uma atividade bem solitária a de autor.

Enquanto pululam autores interessados em reinventar e reinverter ideias de como esconder o que não querem dizer, o mercado segue dominado pela literatura estrangeira. Boa parte de nossos autores locais parece ter desistido de lutar pela alma do leitor comum, abandonaram-no ao massacre da cultura importada, talvez porque eles próprios tenham se abandonado a tal massacre. E não deixa de ser curioso que os escritores dos «países centrais» não tenham essa preocupação de numerar capítulos usando uma tábua Ouija, de desencavar paralelismos semânticos a cada parágrafo, de referenciar cinco deuses mitológicos Ashanti em cada página ou de narrar como em um sonho de Freud. O formalismo está fora de moda nas literaturas que imitamos. Nossa literatura tem uma vanguarda tão vanguarda que deixou para trás até mesmo as vanguardas mais avançadas. Avançou tanto que deixou todo mundo para trás e se perdeu na floresta.

Não faço parte desta vanguarda. Sou um construtor de personagens e de cenas. Não curto esse lance de palavras valise ou de emprego do quiasmo como recurso expressivo. Minha literatura é bem mais simples e por isso eu nem tentei sair na Granta. Mas não estou com isso tentando dizer que considero a ignorância um fator positivo. Não saber as coisas não é uma distinção. Arte «naïf» é um conceito que não faz sentido para mim: ou o artista tem uma formação ou não tem. Supor que seja possível algum tipo de inocência criativa é, em si, uma inocência. Minha formação certamente é incompleta e divergente porque não li os livros canônicos e, se os li, foi fora da ordem recomendada, fora do contexto recomendado. Como resultado, fiquei pensando diferente do que eu deveria estar pensando se tivesse seguido a programação determinada.

E na minha programação, consta que a literatura deva ter uma preocupação social, nacional e humana. Que isto vai acima da preocupação formal, que isto é mais importante do que mostrar que consegue empregar uma rara figura de linguagem extraída da antiga literatura oriental, mais importante do que demonstrar erudição sobre povos e culturas que não fazem parte de nossa realidade imediata e nem de nossa história. Com um pouco de ousadia e iconoclasmo, chego a dizer que existe em mim uma certa influência do realismo socialista, só me falta aperfeiçoar a ideia um pouco e tolerar que minha versão deste seja «tropicalizada» com algumas características dos autores que mais me influenciaram: Guimarães Rosa, Lima Barreto, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Ignacio de Loyola Brandão, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira — e mais alguns que eu sempre esqueço quando começo a fazer uma lista. E julgo curioso também que quando começo a fazer tais listas, embora eu tenha lido muito autor gringo, eu só consigo encontrar seis nomes entre eles que ressoaram nas cordas de meu coração, cinco gênios e outro nem tanto, mas gosto não se discute: Jorge Luis Borges, John Banville, Stephen King, D. H. Lawrence, Evgeni Evtushenko e Julio Cortázar.


24
Mai 12
publicado por José Geraldo, às 01:18link do post | comentar

Eu tinha meros vinte e dois anos quando adquiri de um vendedor ambulante, em visita à faculdade onde cursava História, um exemplar da «Obra Poética» de Fernando Pessoa, publicada pela Aguilar. Na época achei caro, demorei a compreender que havia comprado um dos tesouros mais valiosos que possuo. A edição é cuidadosa, acompanhada de biografia com fotos e de extensos comentários. Tudo muito dispensável, claro, quando você entra no que interessa, que é a poesia. Sempre que ouço um babaca falar alguma coisa contra a poesia eu respiro fundo, rememoro algumas das tiradas fantásticas do poeta português e me asseguro da constatação inicial: «é um babaca mesmo». Ainda que haja muitos péssimos poetas pelo mundo, a manchar o bom nome da poesia, alguns, como Pessoa, parecem produzir com seus versos um efeito sanitário que arranca o limo de mediocridade que afeta o resto. Só depois dos trinta anos fui entender Fernando Pessoa. Só quando doeu.

O poema que me convenceu da absoluta e inquestionável genialidade do autor não é nenhum dos famosos. Não me identifico no nacionalismo místico de «Mensagem», detesto boa parte dos heterônimos (ainda que alguns poemas de Álvaro de Campos me agradem muito) e compreendo que muito do que está na Obra Poética são rascunhos que o autor dificilmente teria escolhido publicar. Mas este poema, «Hora Absurda», escrito em 1913, quando Pessoa tinha meros vinte e cinco anos e ainda tinha certo flerte com o simbolismo, foi como o murro na cara que nos acorda para a realidade da luta. Muitos de seus versos são fracos, mas a força da maioria deles é tanta que quase rasga o papel. Em um poema de apenas vinte e cinco quadras de versos bárbaros podem ser achadas pelo menos oito trechos que nenhum poeta brasileiro vivo seria capaz de igualar. O poeta nos atinge com simplicidade: «Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro» ou complexidade: «A doida partiu todos os candelabros glabros,/ sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas…/ E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos candelabros… E que querem ao lago aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?…» Como não ser aceso pela sugestão de que «Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente»?, Esta sensação de ausência chega à perfeição absoluta quando o poeta diz: «Ah, deixa que eu te ignore… O teu silêncio é um leque — / Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,/ Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque.» Como qualificar a beleza maior que existe no leque fechado, potencial, face à decepção de o leque aberto não ser à altura da expectativa construída? Existe camadas e camadas de sentido que escapam nas primeiras leituras. Precisei ler o poema mais de seis vezes ao longo da vida para entender que a singela frase «É preciso destruir o propósito de todas as pontes» possui mais sentido do que parece: se pontes existem para unir o que está separado, destruir o propósito delas consiste em acabar com todas as separações. Em um mundo onde ninguém estivesse separado não haveria necessidade de pontes. A mais bela das utopias é que as pontes fossem desnecessárias. Não somente as materiais, mas principalmente as metafóricas. Tal como o poeta eu lamento: «Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!…» Sim, confesso: amo paisagens e pessoas que não existem, amo as que já existiram, mas não as diferencio das que são somente criações e crenças de minha mente insatisfeita com as paisagens que existem, essas que todos veem e que tantos amam. Esses que, como Pessoa e eu, amam as paisagens que não existem, acabam confessando-se: «Eu sou um doido que estranha a própria alma» (e como, às vezes, ela e eu nos estranhamos). A única diferença é que, ao contrário de Pessoa que, cônscio de sua própria genialidade, previa num futuro pretérito que teria o reconhecimento que a vida lhe negava, eu jamais poderia dizer que «fui amado em efígie num país para além dos sonhos». Ou será, melhor, que Pessoa ao dizer isto sugeria que somente em um lugar ainda mais profundo e longe que o próprio sonho haveria de encontrar o reconhecimento?

Somente a leitura de «Hora Absurda» me gastou quatro horas nestes dias. Este é um daqueles textos que não vale a pena ler com pressa. Quem vive com pressa, e depressa, não pode seguir o conselho mágico: «Vive o momento com saudade dele já ao vivê-lo…» Mesmo o poeta, porém, em outro momento, reconheceu que esta contemplação é perigosa. Ao aproximar-se da famosa ribeira do rio, musicado por Danilo Caymmi e gravado por Maria Betânia, o poeta percebe que a vida, o rio, tem por maior propósito justamente engambelar-nos: «Porque o bem dele é que faça / Eu não ver que vai passando.» Passei anos de minha vida sem perceber que o rio estava realmente passando. Por isso só entendi este poema aos trinta e nove anos.

Cada dia acho um tesouro diferente. Para além dos famosos poemas que todo mundo conhece. Tardei quase vinte anos para saber o que seriam as «calhas de roda» nas quais o coração, esse «comboio de corda» chamado coração gira a entreter a razão. Aos poucos percebo as sutilezas do vocabulário tipicamente português (muitas vezes mais belo que o nosso, tão afrancesado e anglicizado). As calhas de roda (trilhos) por onde gira sem destino o comboio (trenzinho) de corda chamado coração são semelhantes ao rio, que passa a tentar nos fazer ignorar sua passagem.

E assim, enquanto leio o poeta, enquanto amo lugares que não existem, enquanto lembro tempo em que comemoravam o dia dos meus anos etc., tal como ele me perguntei em certa época «porque fiz eu dos sonhos a minha única vida. » Depois eu achei que tinha saído dos sonhos e suas brumas e construído uma vida real onde habitar. Terminada esta tarefa, descobri que andara atrás do alvo errado: nem eu nem pessoa vivíamos de sonho pela falta de uma vida de carne onde habitar. Segue verdade, na vida e no verso, que por mais vida que tenhamos, resta-nos um «Rosebud» que ninguém conhece, habitando no fundo de um sonho, que é o único lugar onde nunca erramos, onde realizamos todos os nossos planos importantes, e onde podemos passar a limpo todos os maus passos. Quando compreendi isso, compreendi junto que os sonhos eram a única vida do poeta simplesmente porque os sonhos são o único lugar onde o ser humano realmente vivo: fora deles cada um de nós é um animal a reproduzir-se e comer. Ou, como famosamente disse o poeta: «cadáver adiado que procria».

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14
Jan 12
publicado por José Geraldo, às 15:57link do post | comentar

Reconhecidamente autor de obras insuportáveis para quem efetivamente lê, em vez de comprar para enfeitar estante ou para ter «lições de vida», Paulo Coelho se tornou o pivô de uma curiosa briga na internet nas últimas semanas. Eu, como sempre, marido traído em matéria de notícias culturais, fiquei sabendo só agora. Em uma postagem no Twitter, o Mago chamou de insuportável o novo livro de Mário Sabino. Achei a atitude do mago bastante imoral, embora o livro criticado seja mesmo, provavelmente, difícil de suportar. Para que o leitor possa entender as razões de meu julgamento, vou fazer um apanhado da história.

Mário Sabino é um jornalista brasileiro. Como muitos jornalistas, tem uma plataforma gratuita para lançar-se como autor literário (mas provavelmente vociferou contra a derrubada da exigência de diploma para o exercício do jornalismo e não aceitaria que autores literários tentassem a mão no jornalismo). Mário Sabino, ao que parece, nunca se notabilizou como repórter, mas chegou a cargos de mando relevantes em publicações como IstoÉ e, até recentemente, Veja. É um cara de ultra-direita (se for sincero), ou totalmente prostituído para a direita (caso não seja). Não tenho problemas com sua ideologia: apenas discordo antipodamente dela (em qualquer das hipóteses). Não estou aqui para falar de sua postura profissional, e nem sequer de suas qualidades de autor, mas do entrevero Sabino/Coelho. Quem não quiser ler a minha versão, pode procurar no Google, que está bombando com o assunto, ou ler a resenha do Luiz Nassif, um jornalista que, a julgar pelo que escreve, deve ser uma ótima pessoa (não o conheço pessoalmente).

Na qualidade de editor-chefe da revista Veja, Mário Sabino sofreu vários tipos de críticas quanto à sua conduta profissional. Estas críticas não me interessam. O que me interessa é que este período de sua vida coincidiu com o início de sua carreira literária. Tal como eu, Sabino é um late bloomer, ou seja, só começou a publicar tardiamente. A diferença é que eu publico em editora pequena e tenho quase nula repercussão. Sabino, devido ao poder emanado de sua condição de manda-chuva editorial de uma das principais publicações do país, publicou pela Editora Record. Tal como muitas celebridades, vendeu muito, mais pelo nome conhecido e pela divulgação recíproca entre seus pares. Provavelmente teria vendido algumas dezenas de exemplares apenas, se em vez de editor-chefe da veja ele fosse editor-chefe da Folha de Cabrobó ou da Gazeta Leopoldinense. É preciso desconfiar do sucesso que é alimentado pelo poder.

Pelo que pude verificar, Sabino publicou quatro livros durante sua fase na Veja (não sei e não quero saber se publicou algum antes): dois romances e dois volumes de contos, a saber:

O Dia em que Matei Meu Pai
Romance, traduzido para italiano, espanhol (Argentina), francês, holandês, inglês (Austrália e Nova Zelândia), coreano e romeno. Republicado em Publicado em Portugal. Ou seja: deve ser um livro razoável, ou não teria atraído tanta atenção. Se bem que ficou notoriamente fora de países importantes do mundo literário, como Espanha, México, Rússia, Polônia e Alemanha, e certas traduções foram publicadas na periferia (em inglês, na Austrália e Nova Zelândia, em espanhol, na Argentina). De qualquer forma, eu estaria rindo de orelha a orelha se tivesse tido repercussão igual.
O Antinarciso
Coletânea de contos, vencedor do Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional.
A Boca da Verdade
Coletânea de contos. Ao contrário dos dois livros anteriores, nem foi traduzido no exterior e nem ganhou prêmio.
O Vício do Amor
Romance, publicado recentemente, e pivô da crise com Paulo Coelho.

Na época em que era editor-chefe da Veja, os livros de Sabino foram bastante elogiados na imprensa brasileira. Aliás, os elogios e a vendagem de tais obras foi alvo de uma controvérsia, com suspeita de manipulação da lista dos Mais Vendidos, além de certas relações inadequadas no mercado editorial.

Nada disso importa, porém, se considerarmos que, por medo ou indiferença, os livros de Sabino eram elogiados (ainda que esses elogios fossem ouvidos apenas pelo eco), foram vendidos e foram promovidos na grande imprensa. Paulo Coelho, por exemplo, jamais se manifestara sobre o caso. E tinha direito, visto que ser autor de obras insuportáveis não impede um crítico de detectar a insuportabilidade alheia. Como meu dentista certa vez disse: «mau hálito você só sente o dos outros». Falta de talento é uma espécie de «mau hálito», mas, em nome da higiene universal da arte, não devemos esperar que somente os de boca limpa tenham o direito de se incomodar com o hálito alheio.

Acontece que Mário Sabino foi demitido (ou demitiu-se) da Veja no final do ano, em circunstâncias ainda misteriosas. A ser verdade o que se especula por aí, sua saída, se por demissão, foi em condições tão desfavoráveis que dificilmente ele ainda terá um futuro no ramo. Espero que tenha uma boa poupança. E não demorou para que se manifestassem alguns que permaneceram em silêncio durante todo o tempo em que Sabino detinha o poder fulminatório da Veja em suas mãos. Veículos de imprensa, como o Valor Econômico (que é um jornal de economia, não de literatura) e a Folha de São Paulo não perderam tempo em atacar-lhe justamente no que um autor (bom ou mau) tem de mais sensível: a sua auto-estima de criador. Depois que o inimigo é derrotado, aparecem muitos heróis para ir no campo de batalha cuspir nos cadáveres, dizia um antigo ditado polonês (ou iídiche, não consegui descobrir). Além de perder subitamente seu poder de editor-chefe da maior revista deste país, Sabino ainda foi chamado de vários adjetivos.

E justamente Paulo Coelho, notório autor de livros insuportabilíssimos, tuitou que o último livro de Sabino seria insuportável. A julgar pelas resenhas, deve ser mesmo. Mas por que razão será que Paulo Coelho deixou para falar mal de Sabino apenas depois de ele ter perdido seu emprego na Veja?

Em tempo, se alguém quiser tuitar que meu livro é insuportável, favor deixar o link do blogue e da editora. E se tiver mais artigos interessantes, talvez eu ponha no blogroll.

P. S. — não se trata aqui de ficar implorando por atenção. A questão é que, para um autor, a divulgação de seu livro é sempre interessante, mesmo que seja uma divulgação negativa. A literatura é uma das únicas profissões na qual um renome, mesmo horrível, ajuda a vender. Além do mais, ao contrário de certos autores, eu já desencanei de minha obra, e vejo os comentários, mesmo os mais críticos, com distanciamento. Quem não consegue esse distanciamento (e parece que o Mário Sabino ainda não consegue) acaba desestimulando a crítica, ou fazendo com que ela se torne rancorosa.


09
Out 11
publicado por José Geraldo, às 23:32link do post | comentar

Hoje à tarde, enquanto lia sobre a obra de H. P. Lovecraft, que segue sendo um de meus autores favoritos (em parte devido às suas semelhanças comigo, nos aspectos psicológico e teratológico), encontrei uma passagem, escrita jocosamente por um comentarista na Usenet, zombando das inúmeras obras que foram escritas até hoje empregando como clichês os elementos mais característicos das histórias lovecraftianas, os chamados “pastiches”:

Será que ninguém escreveu um anti-pastiche? Centrado em um culto que acabou de ser formado, com prateleiras cheias de livros comprados na B Dalton [uma cadeia de livrarias americana equivalente à nossa Cultura MegaStore] e vários cadernos ainda preenchidos apenas pelas linhas azuis, que tem um bom relacionamento com a comunidade…

Ao ler isso eu quase cuspi no teclado a água que estava bebendo. Esta é a sinopse da “Confraria dos Temerários” (de que já publiquei uma parte aqui no blog)! Caramba! Alguém teve essa ideia em 1997 e ela certamente está rodando por aí, nas mãos de escritores talvez até mais competentes do que eu! Certamente já existe esta história, de alguma forma. Para a sinopse ficar completa, só faltou mencionar o meu protagonista, um jovem psicólogo que estuda a fixação de certos indivíduos por grimórios.


18
Ago 11
publicado por José Geraldo, às 19:11link do post | comentar | ver comentários (2)
Esta tem sido a semana em que os meus amigos blogueiros andaram escrevendo coisas que eu mesmo queria ter escrito. Isto pode ser um sério indício de que eu devo escrever mais, ou de que estou perdendo a mão. Mas não perco a esportiva e enfio outra louvação a uma postagem alheia, desta vez do José Abrão.

Não conheço José Abrão pessoalmente. Sei que ele se intitula um “estudante de classe média, goiano do pé rachado e fã de rock'n'roll. Aspirante a jornalista e futuro escritor best-seller”. Ele também é o autor de um blog que leva o fofucho título de “Vida besta e ordinária”. Apesar de sua tendência a gastar caracteres demais escrevendo sobre histórias em quadrinhos de super herois, o cara é bom no que faz e ocasionalmente nos brinda com textos de fazer arregalar o olho. Foi o caso esta semana. O texto em questão se chama Achados e Perdidos e foi publicado no dia sete, mas só o li hoje.

Se o Ronaldo Brito Roque já havia atiçado o meu lado de auto-ajuda ao escrever seu irônico texto intitulado O Melhor, o Pior e o Médio; José completou avassaladoramente o serviço com o seu curioso conto sobre o misterioso aparecimento de corações em um sisudo escritório. A história é muito menos sofisticada no terreno da imagística e Zé Abrão é menos hábil com a língua portuguesa do que o “macaco velho” do Ronaldo Roque, mas ele tem mais talento para narrar com agilidade e dá ao seu texto uma certa indignação que é mais parecida com o meu próprio estilo, além de ser também mais convincente de sua própria visão de mundo. Por isso eu digo que, se em ambos os casos eu gostaria de ter escrito estes textos, eu tenho a impressão mais forte de que poderia ter escrito o texto do Zé Abrão. Não devido a qualquer comparação de “qualidade” (conceito que eu considero bastante fluido quando se fala de arte), mas devido à convergência de estilos que há entre a prosa deste mineiro calçado de botinas e bebedor de cachaça e os causos urbanos do goiano de pé rachado e fã de rock'n'roll. Nós que vivemos imersos no interior temos um linguajar que nos aproxima através dos planaltos e morros, e de certa forma Goiânia está mais perto de mim do que o Rio de Janeiro.

As pessoas que apreciarem o conto eletrizante sobre os corações psicodélicos do Zé Abrão, talvez encontrem pontos de contato em uma série de contos niilistas que eu escrevi entre 2009 e 2010 e que contém, entre outros, A Pilastra (uma história sobre uma artista frustrada que enfrenta a falta de poesia em sua vida), O Salário da Perseverança (que também é, a exemplo de Achados e Perdidos, um texto sobre a desumanização das pessoas através do trabalho), O Pecado da Tristeza (que é sobre depressão e a exigência de ser feliz em um mundo despreparado para lidar com a melancolia) e Uma Foto Infeliz (também sobre a desumanização das pessoas através do trabalho, só que desta vez visto sob o ângulo do conflito entre a vida pessoal e a profissional). Especialmente o segundo e o último são quase irmãos do conto do Zé Abrão.

Por outro lado, os que apreciarem o biscoito fino da prosa delicada do Ronaldo Roque, especialmente a sua verve satírica, talvez achem motivo para gostar de Multiplicai-vos e Crescei ou de Chega de Anjos, ou ainda de Fausto de Souza. O primeiro é uma crítica falida à falida moral burguesa. Certamente é um texto datado, mas a data é recente. Leiam-no enquanto o tema ainda não está vencido. Os outros dois são mais experimentais e talvez tenham um prazo de validade mais equivalente ao leite de caixinha do que ao “barriga-mole”. Chega de Anjos puxa um distante fio machadiano, acrescenta fartas doses de vodca e cachaça, depois dá um banho e faz tomar mingau de fubá com couve. Inicialmente fora concebido como uma brincadeira que certo dono de comunidades do Orkut tinha em usar referências angelicais nos títulos de suas obras inacabadas, mas hoje disso nada restou. Fausto de Souza, por sua vez, é uma versão modernizada (e mineirizada) da célebre história concebida por algum escritor famoso do século XVIII que este ignorante aqui não sabe quem é e está com preguiça de ir pesquisar na Wikipédia.

E assim eu termino o meu post de quinta-feira, elogiando dois caras que merecem elogios e tirando uma casquinha para ressuscitar bons textos meus que vocês que me leem talvez nem conheçam porque esses ficam escondidos nas brumas do passado. Se ao menos o blogger tivesse um jeito de apresentar uma lista das páginas por categoria!


23
Jul 11
publicado por José Geraldo, às 21:29link do post | comentar

Retornando hoje de meu breve exílio da internet, relato um feito proporcionado pelo meu isolamento em relação às distrações que existem na Rede: terminei finalmente a leitura de Roadside Picnic (título da tradução americana), um clássico da ficção científica soviética, de autoria dos irmãos Bóris e Arcádio Strugatsky. Aproveito agora para compartilhar com vocês minhas impressões.

Inicialmente vou dizer umas breves palavras sobre os autores. São tidos pela crítica especializada como verdadeiros gênios literários incompreendidos, cuja obra não pode ser perfeitamente fruída pelos ocidentais devido à profunda carga linguística que ela possui, mesclando neologismos e arcaísmos, coloquialismos e terminologia científica (e pseudocientífica). Não pude, obviamente, ver nada disso na tradução americana (que, aliás, me pareceu bastante “porca”), mas detectei vários dos outros elementos que são apontados como evidências da genialidade dos irmãos: a curiosa (e sempre inquietante) mistura entre sátira, idealismo, cinismo, ateísmo, superstições e construção psicológica de personagens muito densos e complexos. Resumindo: trata-se realmente de um trabalho literário de alta envergadura. Os irmãos estão, no gênero ficção científica, na mesma categoria dos “quatro grandes” (Asimov, Brabury, Clarke e Heinlein) e, sob certos aspectos, estão acima.

Pode parecer surpreendente que eu afirme isso sem ter lido sua obra no original, mas o que de pode entrever nesta tradução que li justifica plenamente a reputação dos dois: eles são simplesmente ousados além da conta, em todo e qualquer aspecto (exceto na formalidade da narrativa e da pontuação). Vamos por partes.

Roadside Picnic é uma obra carregada de sátira. Pelo que leio das sinopses, todas as obras dos irmãos Strugatsky são amargamente satíricas. É surpreendente que eles não tenham sido deportados para a Sibéria e morrido lá. Talvez o expediente de deslocar sua sátira para mundos inventados do futuro ou países estrangeiros (como o Canadá, nesse romance) tenha permitido que os censores não percebessem que o alvo da sátira era o comunismo. É preciso ser “muito macho” para satirizar o comunismo se você nasceu em 1925 na União Soviética. Os irmãos Strugatsky foram, e morreram de velhice (embora algumas de suas obras, entre elas esta, tenham sido severamente censuradas antes da publicação e só tenham sido restauradas após o fim do comunismo). Em Roadside Picnic a sátira não está exatamente dirigida ao comunismo, mas ao seu cientifismo. Ao longo do livro os cientistas (mostrados como pessoas idealistas, mas ingênuas) comportam-se como crianças que procuram entender os brinquedos que ganharam. A religião também é satirizada (neste livro está a célebre frase “A hipótese de Deus nos dá uma oportunidade absolutamente incomparável de entender tudo e não saber nada”), bem como o ideal do self made man (os heróicos personagens do livro se revelam pessoas absolutamente detestáveis, como Burbridge, ou meros instrumentos da ganância do “sistema”, como o protagonista).

O livro literalmente atira para todos os lados: os personagens são de vários tipos, um comerciante corrupto, um cientista ingênuo, um ladrão que se acha um tipo de herói, um cientista absolutamente cínico, um policial violento, um barman covarde, um negro supersticioso… cada um deles se relaciona de uma forma diferente com o grande mistério de que fala o livro: as “Zonas”.

Roadside Picnic é um livro sobre uma visita extraterrestre ao nosso mundo. Dito assim, parece um livro igual a centenas de outros. Mas quando você o lê, percebe que há poucos livros parecidos. Para começar, a visita em si é apenas uma hipótese desenvolvida para explicar um fato: o aparecimento sobre a Terra de sete estranhas “zonas” onde ocorrem fenômenos que contradizem a lei da física, onde se encontram objetos estranhos e inexplicáveis, onde tudo subitamente parece que se tornou hostil à vida como a conhecemos (os pássaros não voam sobre as “zonas” e lá não há insetos).

Os extraterrestres não aparecem, ninguém os viu (ou sobreviveu após vê-los para poder contar). Mas o seu legado, os obetos e fenômenos que eles deixam para trás, assombram o livro do começo ao fim e, revelando o alcance do cinismo dos autores, demonstram-se tão indiferentes à nossa existência que um personagem chega a dizer que isso foi um sorte, pois se nos tivessem notado, teriam feito conosco como fazemos com as formigas que poderiam atrapalhar nosso piquenique à beira da estrada (nesse ponto, lá pelo meio do livro, você entende o porquê do título). Para os extraterrestres nós nem sequer somos visíveis. Se os espanhóis tiveram dúvidas se os ameríndios eram humanos, Strugatsky argumenta que talvez nós e os Visitantes nem nos reconhecêssemos como seres vivos e pensantes: “Usualmente uma definição trivial [de racionalidade] é usada: a razão é a função humana que nos distingue dos animais. Ou seja, uma tentativa de distinguir entre o homem e o seu cão, que a tudo entende mas não sabe falar.”

Resta-nos, então, coletar os restos de suas fogueiras, as pilhas descarregadas de seus rádios, migalhas de seu pão, uma pola de pingue-pongue perdida no lago, um talher de plástico quebrado, gotas do óleo de seu carro que pingaram na grama, o lenço perfumado, talvez uma camisinha usada… “Exatamente. Um piquenique durante a viagem, à beira de alguma estrada do universo. E você me pergunta se eles vão voltar.”

Estou agora determinado a continuar lendo as obras de Bóris e Arcádio Strugatsky. Eles são bons, são livros densos e que fazem pensar. São ficção científica para gente que gosta de refletir, e não para jovens obcecados com um vírus que faz zumbis ou com robôs alienígenas que se transformam em carrões. E os títulos prometem: Um Besouro no Formigueiro, Segunda Começa no Sábado, Certamente Talvez, Como É Duro Ser um Deus, Um Arco Íris ao Longe, Meio-Dia no Século XXII, O Último Círculo do Paraíso, O Mowgli do Espaço… Seria ótimo se estas obras geniais estivessem disponíveis em português, mas quase me dá vontade de aprender russo para lê-las.


26
Jul 08
publicado por José Geraldo, às 10:53link do post | comentar

Pois muito bem. Resolvi atacar a empreitada. Prejudiquei meu cérebro com trinta minutos de leitura deste “livro” sobre a “cultura racional”. Seguem-se minhas interpretações.

Universo em Desencanto mostra indícios claros de ser o produto tortuoso da mente nublada de um semi-analfabeto imbuído de uma série de preconceitos derivados de sua formação religiosa que resolveu desenvolver seu próprio sistema místico. Por ser o produto de um semi-analfabeto, padece de notável falta de coesão textual, a ponto de ser quase ininteligível em vários pontos. Por ser o produto de alguém imerso em uma ampla variedade de preconceitos, reproduz de forma tosca padrões culturais cujo significado e relevância o autor nem sempre tem a lucidez de compreender. Por ser uma tentativa de desenvolvimento de um novo sistema místico, o livro recorre a todo tipo de falácias e infantilidades sem jamais conseguir conduzir o leitor de forma limpa a algum assunto claro e definido. Tal como o Chacrinha, não veio para explicar, mas para confundir. Não para esclarecer, mas para desinformar.

Para dar a impressão de complexidade, o autor emprega palavras de uso comum de uma forma diferente. Pervertendo o sentido das palavras ele procura fazer o leitor pensar que está descobrindo algo novo. No texto da página ele vitima palavras como cultura, racional, aparelho, deformação, conhecimento etc. Os sentidos novos destas palavras não são explicados, assim o leitor lê uma coisa pensando que está lendo outra e começa a ficar confuso.

A dificuldade do autor em manipular as palavras, consequência de seu semi-analfabetismo ou de sua má intenção, resulta em construções sintáticas telegráficas, como “está aí o ponto glorificador do animal Racional, a IMUNIZAÇÃO RACIONAL”. Não se define o que seja este “aí”, abusa-se de maiúsculas para dar a impressão de que palavras comuns se tornaram sagradas. Maiúsculas fixas emprestam a certas expressões a gravidade dos berros dos pastores.

Outra evidência da incompetência linguística do autor está na frase “Todos, sem esforço, muito naturalmente, vendo dentro dos seus lares a Luz Racional, e sendo atendidos dentro dos seus lares”. O recurso ao gerúndio sem a utilização de tempos pessoais (exigidos pelo sujeito “todos”) corta a frase de forma obscura. Ao não se indicar a interrupção com reticências o leitor fica iludido com a impressão de “profundidade” de um texto que é apenas obscuro.

Uma frase como “Então vem de outro mundo, que é da PLANÍCIE RACIONAL, todas as orientações precisas, dentro dos seus lares, e onde estiverem para o equilíbrio de todos” se parece com as coisas que alunos semi-alfabetizados de terceira série produzem quando tentam escrever obras de ficção científica. O que “vem de outro mundo” se na oração não há nenhum verbo conjugado no singular? O que “é da PLANÍCIE RACIONAL”, o outro mundo ou o que vem dele? Precisas é que estas “orientações” não são e pobres (de espírito) se tornarão todos os que buscarem seu equilíbrio neste livro.

Consideremos este outro parágrafo:

“Por o ser humano ser um centro astrológico, é que, com o tempo, tinha que chegar à conclusão de encontrar em si mesmo a IMUNIZAÇÃO RACIONAL, e nela, o porta-voz da verdade das verdades, por a natureza dos viventes ser adequada à natureza que os fez”, pois são formados por esta natureza, e por isso, dependem dela para viver, sendo então formados por sete partículas e dependerem delas.

Qual a finalidade das aspas neste trecho? Vocês notaram que o trecho citado se confunde com o resto? Vocês conseguem extrair algum sentido desta luta renhida do autor contra a língua que certamente tem dificuldades até para falar, quanto mais escrever?

Carlos Drummond de Andrade dizia que “lutar com as palavras é a luta mais vã, entanto lutamos, mal rompe a manhã”. Mesmo considerando que até um gênio como Drummond às vezes se perdia, não dá para desculpar que não haja caminho no que escreve o autor de Universo em Desencanto. O abuso de vírgulas mostra que o autor não sabe pontuar e as frases construídas de forma totalmente arbitrárias não conseguem expressar nada.

A leitura de um parágrafo como o citado nos faz perguntar por que tantas pessoas levam a sério Universo em Desencanto. Ninguém que domine a língua e faça uso de sua inteligência se deixa fascinar por essa xaropada desconexa de umbanda e ficção científica; na qual o elemento científico é mesmo uma ficção, o elemento ficção é de péssima qualidade e o elemento umbanda consegue mostrar o que tem de mais intelectualmente simplório, culturalmente raso e cientificamente atrasado.

Quando cheguei a este ponto já havia percebido que não conseguiria ler o Universo em Desencanto. Pelo menos não sem primeiro danificar uma quantidade suficiente de minhas células cerebrais a fim de me preparar para aceitar esta obra — Mas eu ainda tinha esperanças de, pelo menos, conseguir dar uma folheada ocasional, a fim de ter uma ideia do que se tratava no livro. Estas esperanças deixaram de existir quando topei com esta coisa:

Planície Racional onde estavam os Racionais com o seu progresso; de onde nós saímos e para onde nós vamos por meio da IMUNIZAÇÃO RACIONAL.

Parte Racional – Planície que não estava pronta para entrar em fase.

Sim, amigos. A cosmologia do Universo em Desencanto se baseia numa Terra Plana. Chupem essa!

1 º Começaram a progredir por conta própria;

2º Neste progresso começou o foco de luz formado pelas virtudes que os Racionais iam perdendo;

Sim, amigos. Temos um politeísmo, ou então uma religião ateísta. Não fica claro quem “começaram” a progredir por conta própria. Mas na ausência de referência a um criador, fica implícito que certos seres “por conta própria”, ou seja, por si mesmos, criaram o universo.

São as virtudes que os Racionais iam perdendo que dão origem ao “foco de luz” (que alguém associará ao Big Bang).

3º Neste progresso já no fim da extinção daqueles corpos;

4º Neste degrau durou uma longa eternidade para a formação dos corpos;

A introdução repentina da palavra “degrau” sugere que estamos analisando a evolução linear do universo em direção ao que é hoje. O problema é que as frases, de tão mal construídas, nada dizem. Barbarismo, solecismo e anfibologia imperam. O degrau não é explicado e nem referido, nem antes e nem depois.

5º Neste degrau já se entendiam por meio de guinchos;

6º Nesta formação começaram a soltar a voz, eram gagos;

O que aqui parece se dizer é que o surgimento da linguagem foi um processo muito prematuro no Universo, pouco posterior à formação dos “corpos” (que aqui se parece ser uma referência a corpos humanos físicos).

7º Gagos mais adiantados, começou a formação da lua;

Eu tenho dificuldades para entender o que o adiantamento da gagueira tem a ver com a formação da Lua, mas fica claro que, além de um mero geocentrismo, temos aqui uma Terra Plana e que a Lua não é um corpo astronômico, algum tipo de enfeite do céu que surgiu somente depois que o ser humano já existia.

8º As virtudes começaram a se reunir, as virtudes da planície e da resina; veio aí a origem das estrelas;

As virtudes perdidas pelos racionais se reúnem e formam a planície (Terra) e a resina (seja lá o que isso for) e isso causa o surgimento das estrelas (bem posterior à formação dos seres humanos e da Lua). Vocês estão acompanhando?

9º Gagos mais adiantados; mas este adiantamento não era ainda de entendimento; iam soltando a voz;

10º Gagos com algum entendimento mas, muito vago;

11º Com mais um pouco de entendimento;

A língua portuguesa segue sendo a principal vítima do livro. O inexplicável uso do ponto-e-vírgula não é a única esquisitice aqui: pior é a reiteração da afirmação de que o desenvolvimento da capacidade de linguagem tem algo a ver com a evolução física do Universo.

12º A resina já bem desenvolvida a sua deformação;

13º Começou a separação das terras;

14º Onde começou a vegetação muito diferente desta, e a dilatação dos órgãos;

O 12º degrau não faz absolutamente nenhum sentido. E não é nem a primeira vez que a palavra “deformação” terá seu sentido deformado para servir aos propósitos do livro. Mas o pior é que não há nenhuma noção do que implica a “deformação da resina” no processo que está sendo descrito.

O 13º degrau poderá ser comparado à quebra da Pangéia, mas isso não é nada signifique algo. Um pregador analfabeto poderia perfeitamente imaginar que um dia todos os continentes estiveram juntos e que se separaram por causa de alguma “deformação” de origem espiritual.

No 14º degrau se diz que a vida vegetal começou após a separação das terras (o que é uma bobagem) e que apenas aí começou a “dilatação” dos órgãos (mas não se diz de quem).

15º Começou a criação da bicharada e a fazerem uso de alguns vegetais;

O que comiam os humanos antes de surgirem os demais animais (a “criação da bicharada” ocorre somente agora) e de passarem a comer plantas?

16º Começou a aparecer a dilatação dos órgãos; até aí eram eternos;

OK. Agora entendi. A “dilatação dos órgãos” está relacionada à morte. Só não pergunte como.

17º Onde começaram a surgir os casos de morte; novas criações. Durou uma longa eternidade morrendo e nascendo gagos;

18º Neste progresso a lua já aparecia com as suas modificações; as estrelas também;

Ficamos agora a saber que a Lua de hoje é “modificada” em relação àquela que surgira graças à gagueira dos racionais. E as estrelas também. Isto é muito esclarecedor.

19º A vegetação completamente modificada; já existia dia e noite;

A vegetação também já mudara. Parece que enfim existiam dia e noite, algo muito interessante. Principalmente se considerarmos que em momento algum se falou do surgimento do Sol.

20º Novas criações, novos entendimentos; já se entendiam regularmente;

Parece que os seres racionais que andaram criando o Universo não eram capazes de comunicar-se uns com os outros. Ainda bem, ou teriam ficado a escrever livros estúpidos em vez de criá-lo e não estaríamos aqui. É pena que o autor do livro, ao contrário dos “racionais superiores” não aprendeu a se fazer entender regularmente.

21º Neste progresso foi que nasceram os primeiros passos que aí estão.

Finalmente, depois de todo este processo, finalmente surgiram os primeiros passos que aí estão, seja lá o que forem estes “primeiros passos”. Depois de ter lido esta página, lamentei pelas árvores que deixaram de existir para fazer o papel em que foi impresso cada exemplar de Universo em Desencanto. Lamentei que tantos átomos estejam desperdiçados constituindo tais exemplares em vez de estarem sendo algo mais útil, como por exemplo, uma pilha de estrume de elefante.

Amigo que está fascinado pela Cultura Racional. Eu sinto muito em te dizer isso, mas você está doente. Você está sendo emburrecido pela sua doença e se não largar mão desta boçalidade adquirida que o acomete, dentro de pouco tempo estará fazendo cocô nas fraldas e batendo chocalhinho. Com tanta religião menos besta no mundo, você tinha que escolher uma coisa tão desesperadoramente tosca e estúpida!

Desculpe se ofendo, mas é muito difícil não ter raiva ao ler algo tão burro, raso e desesperadoramente ignorante! Não tenho palavras para descrever a minha revolta ao ler isso. Não que eu tenha algo contra religiões new age em especial. O que eu rejeito são manifestações tão incoerentes de delírio quanto este livro. Dizem que não é certo zombar da ignorância alheia, que isto é “falta de humildade”; mas o que se faz quando a ignorância alheia perde a humildade e se traveste de sabedoria? Se você precisa de uma religião, lembre-se de que há muitas maneiras respeitáveis e inteligentes de se tranquilizar transferindo suas ansiedades para uma entidade exterior. Você não precisa ser adepto disso.

Pronto, falei.


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